30 de novembro de 2011

26 de novembro de 2011

Justiç, de Michael Sande

Peço aos leitores para não ficarem irritados com o título acima. Afinal, se o tradutor português pode amputar literalmente a parte final do livro de Sandel, por que razão não posso eu amputar as últimas letras do título e do autor do livro? 

Sim, a tradução portuguesa (Editorial Presença) do livro de Michael Sandel não está completa, pois o original inclui um útil e informativo índice analítico no fim, que simplesmente foi banido na tradução portuguesa. Ora, julgo que não compete ao tradutor alterar a obra que ele se deveria limitar a traduzir correctamente, amputando-a do que o próprio autor escreveu. Se o índice faz parte da obra original, então deve estar também na obra traduzida. 

A falta de respeito pelos leitores e pelos próprios autores por parte de alguns editores e tradutores portugueses parece não ter limites. Chama-se a isso atraso cultural.   

Já agora, a propósito de atraso cultural, a publicação de um livro como este, de um filósofo reputado como Sandel, é notícia nos melhores jornais dos países culturalmente mais activos, multiplicando-se as recensões críticas e até as entrevistas. Este livro foi recentemente traduzido no Brasil, e jornais como O Globo dedicaram-lhe a atenção que merece. Mas em Portugal continuamos entretidos com mais um opúsculo sobre as dores de barriga de Benjamin e com a milésima inanidade dos Zizekes.

24 de novembro de 2011

Direitos e deveres

Foto: Aires Almeida

Muitas pessoas defendem que quem não tem deveres não tem direitos. Isto significa que, em sua opinião, ter deveres é uma condição necessária para ter direitos. Mas será necessário ter deveres para ter direitos? Se pensarmos melhor, rapidamente concluímos que não é necessário ter deveres para ter direitos. 

Se, como muitas pessoas defendem, for verdade que alguns animais têm direitos, então torna-se claro que não é preciso ter deveres para ter direitos, dado que os animais obviamente não têm deveres. Mas poder-se-ia dizer que isso é ver as coisas ao contrário, pois é precisamente por ser necessário ter deveres -- e os animais não os terem -- que aqueles que defendem que os animais têm direitos estão enganados. 

Esta resposta é, contudo, insatisfatória. Ainda que muitos acreditem que os animais não têm direitos, há outros casos relativamente pacíficos de quem tenha direitos sem ter deveres: os bebés recém-nascidos têm direitos mas claramente não têm deveres. O mesmo acontece com os deficientes mentais profundos ou até com os nossos familiares mortos, a quem reconhecemos direitos sem exigirmos deveres. 

A ideia de que quem não tem deveres não tem direitos é, pois, uma ideia errada. Mas por que razão ela é tão frequentemente invocada neste tipo de discussão? Por que razão tantas pessoas a acham persuasiva?

A minha resposta é que a confundem com outra ideia que não só é correcta como é até trivial: a ideia de que não há direitos sem deveres. Ao passo que a afirmação «Quem não tem deveres não tem direitos» é claramente falsa, a afirmação «Não há direitos sem deveres» é trivialmente verdadeira.

A diferença entre ambas as afirmações é a seguinte: na primeira afirmação, o sujeito que se diz ter deveres é o mesmo que se diz ter direitos; na segunda, os sujeitos com deveres e os sujeitos com direitos são ou podem ser diferentes. Isto compreende-se melhor quando se pensa que o direito de um indivíduo é o dever de outros. Por exemplo, se uma pessoa tem o direito de não ser torturada, outras pessoas terão o dever de não a torturar. Se um bebé tem o direito de ser alimentado, então alguém terá o dever de o alimentar.

Assim, é verdade que não há direitos sem deveres. Mas não é verdade que só quem tem deveres tem direitos. É bom não confundir o que é diferente.

16 de novembro de 2011

Estética, sentido e fracasso

Acabo de publicar um excerto do último livro de Susan Wolf, O Sentido na Vida e Por Que Razão é Importante (Bizâncio, 2011). Trata-se do comentário de John Koethe às palestras de Wolf que constituem o livro; no meu entender, juntamente com o comentário de Robert M. Adams, é um dos mais interessantes.

12 de novembro de 2011

A ética envolvida na crise do crédito


"The Chicago Sessions" é um documentário sobre o debate acerca das implicações éticas da crise do crédito envolvendo membros dos departamentos de direito e filosofia da Universidade de Chicago. O problema: saber quais são os princípios éticos que devem nortear a nossa sociedade após a crise hipotecária envolvendo empréstimos de alto risco que afetaram a economia mundial. Entre os participantes estão dois filósofos conhecidos: Martha Nussbaum e Brian Leiter. Vale a pena conferir.

Estética e filosofia da arte em Braga


Realiza-se na próxima semana, nos dias 17 a 19 de Novembro, o XIII Colóquio de Outono do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, subordinado ao tema geral Estética, Cultura Material e Diálogos Intersemióticos

Destaco os três painéis mais directamente ligados à estética e à filosofia da arte: o painel que tem como tema a música, com o filósofo da música Julian Dodd como convidado principal; o painel sobre o cinema, que conta com o filósofo Murray Smith e a filósofa Jinhee Choi, ambos autores de obras de filosofia do cinema; e o painel sobre pintura e fotografia, de que faço parte e no qual irei comentar a comunicações do filósofo canadiano Dominic McIver Lopes e da espanhola Francisca Pérez Carreño. A comunicação de Dominic Lopes é uma resposta ao polémico ensaio de Roger Scruton, no qual este argumenta contra a ideia de que há uma arte fotográfica. O ensaio de Francisca Carreño é sobre os diferentes tipos de expressão na pintura. Mas há muito mais. O programa completo pode ser consultado na página do colóquio