23 de dezembro de 2012

What philosophers know

What philosophers know
http://www.3ammagazine.com/3am/what-philosophers-know/

Consider, for example, discussions of free will. Even neuroscientists studying freedom in their labs are likely to offer confused interpretations of their results if they aren't aware of the distinction between caused and compelled, the various meanings of "could have done otherwise", or the issues about causality raised by van Inwagen's consequence argument. Parallel points apply for religious people thinking about the problem of evil or atheists challenged to explain why they aren't just agnostics. Philosophers can't show what our fundamental convictions should be, but their knowledge is essential to our ongoing intellectual engagement with these convictions.

(via Instapaper)

22 de dezembro de 2012

The New Atlantis » The Folly of Scientism

The New Atlantis » The Folly of Scientism
http://www.thenewatlantis.com/publications/the-folly-of-scientism
Continued insistence on the universal competence of science will serve only to undermine the credibility of science as a whole. The ultimate outcome will be an increase of radical skepticism that questions the ability of science to address even the questions legitimately within its sphere of competence.
(via Instapaper)

15 de dezembro de 2012

A arte do engodo


Muitas pessoas, principalmente alunos do primeiro período, ficam impressionadas com certos textos pomposos e que parecem, em poucas linhas, dizer tudo aquilo que elas seriam incapazes de pensar numa vida inteira. Felizmente essa profundidade é nada mais do que engodo, e na maior parte das vezes pode ser facilmente detectada. Stephen Law apresenta aqui algumas fórmulas mágicas que dão a tais discursos certo ar de profundidade, em tradução de Aluízio Couto e revisão de Eduardo Cruz.

13 de dezembro de 2012

Utilitarismo, de Tim Mulgan


Acaba de sair, pela Editora Vozes, com o título Utilitarismo, a tradução de Understanding Utilitarianism, de Tim Mulgan. O leitor brasileiro tem agora uma ótima introdução a uma das principais -- e diga-se de passagem, a mais entusiasmante -- correntes da filosofia moral. A tradução é de Fábio Creder e pelo que me pareceu está cuidada. O livro apresenta o utilitarismo de maneira bastante simples e clara, expondo suas principais virtudes e dificuldades teóricas, suas principais variantes, as principais objeções enfrentadas, seu apelo intuitivo, sua aplicabilidade, sua relação com os animais não-humanos, a obrigação com as gerações futuras, y otras cositas más. Ao terminar o livro, o leitor terá uma imagem ampla do utilitarismo, de sua versão clássica até aos debates contemporâneos. 

Índice:
1- Introdução
2- O utilitarismo clássico
3- Provas do utilitarismo 
4- Bem-estar
5- Injustiças e exigências
6- Atos, regras e instituições 
7- Consequencialismo 
8- Praticidade
9- O futuro do utilitarismo 
Questões para discussão e revisão
Leituras complementares 

11 de dezembro de 2012

Duas boas notícias


Soube há dias que o livro organizado por Pedro Galvão, Filosofia: Uma Introdução por Disciplinas, está praticamente esgotado (apesar de ainda se verem alguns exemplares nas livrarias), e que uma nova tiragem está em perspectiva. Também se prevê um segundo volume, dedicado às disciplinas que não foram tratadas no primeiro. Quem sabe se desta vez irão ficar satisfeitos também os que lamentavam a ausência de disciplinas como a filosofia da matemática, a filosofia da história ou a metafilosofia. Esta é, certamente, uma boa notícia. 

Outra boa notícia é que O Nomear e a Necessidade, de Saul Kripke, já chegou às livrarias. E conta como uma esclarecedora introdução de Ricardo Santos (Universidade de Évora). É um clássico que fazia falta em tradução portuguesa. Agora o assunto está resolvido.

10 de dezembro de 2012

Filosofia no infantário


Dificilmente haverá algum professor ou aluno de filosofia que, há uns vinte anos atrás, tenha passado pelo ensino secundário e que não se lembre das bocejantes aulas sobre a teoria do desenvolvimento da inteligência de Piaget. Por incrível que pareça soube há tempos que ainda há por aí professores que, perdidos no tempo (e no programa da disciplina), ainda passam aulas a ensinar Piaget e as roturas epistemológicas de Bachelard.

É incrível não só por a teoria do desenvolvimento de Piaget não ser uma teoria filosófica, mas sim empírica (é uma teoria da psicologia, não da filosofia), mas por estar longe de colher consenso entre os seus pares. De facto, os estádios do desenvolvimento preconizados por Piaget, que começam com operações concretas para culminar, já perto da adolescência, no raciocínio abstracto nem de longe nem de perto correspondem ao que investigações empíricas das últimas décadas têm revelado.

A ideia tradicional que encarava as crianças como seres vagamente racionais, incapazes de raciocínio abstracto e com um universo mental muito limitado, é vigorosamente rebatida pela professora de psicologia e de filosofia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Alison Gopnik, no seu aclamado livro The Philosophical Baby

The Philosophical Baby apoia-se em variadíssimas experiências levadas a cabo por diversos laboratórios e investigadores, entre os quais se conta a própria Alison Gopnik, que indicam serem os bebés capazes de raciocínio probabilístico, de trabalhar com cenários contrafactuais e mundos possíveis, de uma forma bastante mais eficaz do que tradicionalmente seria de esperar. São mesmo capazes, argumenta Gopnik, de pensar filosoficamente sobre assuntos como a verdade ou o amor. Ou seja, são capazes do que nunca passaria pela cabeça de Piaget, por exemplo. O livro de Gopnik é escrito de forma muito viva e inteligente. Para se ter uma ideia da vivacidade de Gopnik, vale a pena ver a curtíssima conferência TED aqui incluída.


7 de dezembro de 2012

O filósofo preferido dos filósofos


É curioso ouvir o podcast que, para marcar o lançamento do segundo livro de Philosophy Bites, da responsabilidade de David Edmonds e Nigel Warburton, eles disponibilizaram sobre o filósofo favorito de muitos dos filósofos e filósofas que entrevistaram. 

São quase 70 filósofos e filósofas das mais variadas áreas e tendências filosóficas que se pronunciam sobre o seu filósofo favorito, justificando brevemente a sua escolha. É certo que a maior parte dos filósofos são de língua inglesa, mas também os há, embora poucos, de língua francesa. Mesmo entre os filósofos de língua inglesa, muitos não são filósofos analíticos. Confesso que não conheço muitos deles, mas há outros que talvez sejam conhecidos dos leitores, como Ronald Dworkin (que referiu Kant), David Chalmers (Carnap), Kit Fine (Aristóteles), Michael Sandel (Hegel), Peter Singer (Henry Sidgwick), Michael Dummett (Frege), Tim Crane (Descartes), Susan Wolf (Aristóteles), Stephen Neale (Russell), Noël Carroll (Aristóteles), Brian Leiter (Nietzsche) mas também Pascal Bruckner (Sartre), Alain de Botton (Nietzsche) e ainda filósofos que têm uma perna nas ciências empíricas, como Patricia Churchland (Hume) ou Alison Gopnik (Hume).

Se esta amostra fosse representativa, dir-se-ia que David Hume é, de longe, o filósofo preferido dos filósofos contemporâneos. A lista dos preferidos ficaria ordenada assim:

1. Hume
2. Kant
3. Aristóteles, Nietzsche e Wittgenstein
6. Mill
7. Descartes, Sócrates, Hobbes, Rousseau e Bentham

Claro que houve muitos outros filósofos citados, alguns deles de filósofos bastante mais recentes (Smart, Armstrong, Lewis, Parfitt, Chomsky, Fodor, Bernard Williams, Ramsey e o próprio Dummett), mas também surgiram nomes como Tucídides, os estóicos, Gandi. Houve ainda quem dissesse não ter filósofo preferido. Mas a resposta mais inesperada foi que a favorita era a última mulher com quem tinha falado, seja ela quem for.

E o leitor o que acha? E porquê?

6 de dezembro de 2012

Amazon chega ao Brasil

A norte-americana Amazon já chegou ao Brasil, estando presente em amazon.com.br. Para já, vende apenas livros electrónicos e anuncia para breve a venda dos dispositivos de leitura Kindle. Os meus livros Essencialismo Naturalizado e Pensar Outra Vez estão já à venda na loja brasileira, e custam apenas 2 reais cada.

30 de novembro de 2012

Morreu Leônidas Hegenberg

Acabo de receber a triste notícia do óbito do Professor Leônidas Hegenberg. Como estrangeiro que conhecia parte do seu importante trabalho de tradução e autoria de livros importantes para a actualização do ensino brasileiro da filosofia, lamento profundamente a sua morte. Nunca tive o prazer de o conhecer pessoalmente, apesar de ter trocado com ele vários emails, geralmente relacionados com a publicação de várias recensões suas aqui na revista Crítica; mas tive o prazer de falar com ele pelo telefone uma vez, e pareceu-me uma pessoa muitíssimo afável. O valor do seu trabalho está para lá de qualquer dúvida, e merece a nossa homenagem. Obrigado, Leônidas, por tudo quanto deu à filosofia em língua portuguesa.

Eis alguns dos trabalhos de e sobre o Leônidas publicados na Crítica:

28 de novembro de 2012

Conversa fiada

Dei uma entrevista a Matheus Moura, para a revista Filosofia, da Escala Educacional, que pode ser lida aqui.

A leste da filosofia

Aconteceu-me por acaso ver ontem na RTP Informação uma entrevista de José Rodrigues dos Santos ao escritor de romances filosóficos (como ele próprio se classificou) Jostein Gaarder. 

Gaarder escreveu vários livros, o mais lido dos quais julgo ser O Mundo de Sofia. É o único livro dele que li e que, tenho de o dizer, achei francamente pobre, tanto em termos filosóficos como literários. No que diz respeito à filosofia, o que encontrei nesse livro foi um desfiar dos mais estafados lugares comuns que se vêem em qualquer das antigas sebentas, onde raramente há argumentos e muito menos qualquer discussão digna de registo. Em termos literários, pareceu-me de uma grande falta de imaginação e com uma narrativa algo simplória. Mas isso é ainda pouco para formar uma opinião definitiva sobre o autor. 

Contudo, a entrevista a José Rodrigues dos Santos, que até me parece um bom entrevistador, confirmou algumas das minhas suspeitas quanto ao conhecimento que Gaarder tem da discussão filosófica actual. Vê-lo lamentar-se por os filósofos actuais terem abandonado a discussão sobre a própria natureza das coisas é quase hilariante, dada a vitalidade da produção filosófica recente na área da metafísica. Vê-lo acrescentar, a título de exemplo, o problema mente-corpo, declarando que os filósofos deixaram de o discutir para passar a ser tratado quase só por cientistas, torna as coisas ainda piores. E, depois de tudo isto, ainda afirma que a filosofia se ocupa essencialmente dos problemas da existência humana. 

Está visto que há quase um século que o simpático Jostein Gaarder deixou de acompanhar o que se passa na filosofia. Ao ouvi-lo fica-se com a ideia de que não houve mais filósofos depois de Sartre ou coisa parecida. É demais!

Nota: a série de entrevistas de que esta faz parte intitula-se "Conversas de Escritores".   

20 de novembro de 2012

Perguntar directamente a Peter Singer


Peter Singer propõe-se a gravar um vídeo com respostas às questões sobre o livro A Vida Que Podemos Salvar. Se quiser colocar uma questão pode fazê-lo através da Página do projecto no Facebook (aqui) ou publicando no YouTube um vídeo com a sua pergunta (Canal do projecto no Youtube).

19 de novembro de 2012

Deus, a Liberdade e o Mal

Acaba de ser anunciada a publicação da minha tradução da conhecida obra God, Freedom and Evil, que Plantinga publicou originalmente em 1974. É aqui que se encontra a influente objecção ao problema lógico do mal, segundo a qual da divindade teísta é logicamente compatível com a existência de mal. Recorrendo a instrumentos da metafísica e lógica da modalidade, Plantinga mostra neste livro como se pode escrever sobre temas sofisticados numa linguagem relativamente acessível. O problema do mal ocupa aproximadamente metade do livro, sendo a outra metade dedicada a uma discussão mais acessível do argumento do desígnio, do argumento cosmológico e do argumento ontológico a favor da existência de Deus. Mais informação aqui. (São Paulo: Edições Vida Nova, 2012, 144 pp.)

Livros gratuitos

A partir de amanhã, dia 20, e até dia 24, a versão Kindle dos meus livros Essencialismo Naturalizado e Pensar Outra Vez estarão disponíveis gratuitamente na Amazon.

16 de novembro de 2012

Scruton sobre a moda

Em qualquer comunidade humana normal, a estética da vida quotidiana expressar-se-á através da moda ou, por outras palavras, através da adopção de um estilo comum. Uma moda é um indicador das opções estéticas que dão alguma garantia de aprovação dos outros; e também permite às pessoas jogar com as aparências, enviar mensagens reconhecíveis à sociedade de estranhos e sentirem-se confortáveis com a sua aparência num mundo em que esta importa.
Roger Scruton, 2009. Beleza. Lisboa: Guerra & Paz, p. 89.

7 de novembro de 2012

Finalmente!


Podíamos lê-lo e estudá-lo em quase todas as línguas europeias, mas faltava o português. Uma das mais importantes obras de filosofia do século XX e, em particular, dos últimos 50 anos, O Nomear e a Necessidade, de Saul Kripke, estará muito em breve também disponível numa cuidada tradução portuguesa. É consensualmente considerado um clássico da filosofia contemporânea, e presumo que os clássicos despertem o interesse de todos os que procuram acompanhar a discussão filosófica actual.

Mais informações aqui ou aqui.

6 de novembro de 2012


Nesta resenha, Elliot Sober expõe e ataca alguns dos prinicipais argumentos de Thomas Nagel em seu último livro, Mind and Cosmos.

1 de novembro de 2012

Novidades Editoriais



Eis mais duas novidades do mercado editorial brasileiro. Medo do Conhecimento, SENAC, trad. Marcos Bagno, de Paul Bogohssian, é um ataque claro e contundente ao relativismo e ao construtivismo -- duas posições bastante comuns, principalmente nas humanidades. Representar e Intervir, EDUERJ, trad. Pedro Rocha de Oliveira, de Ian Hacking, é uma introdução a alguns tópicos da filosofia da ciência relativos ao debate realismo/antirrealismo. É indispensável a quem quer se inserir nessas discussões.
Infelizmente ainda não tive qualquer das edições em mãos, de modo que não sei da qualidade das traduções.


29 de outubro de 2012

Os filósofos e a discussão pública

                                                  
Nas fotos: Michael Sandel, Martha Nussbaum e Cornel West (com Barack Obama)

Nigel Warburton postou no seu blog Virtual Philosopher a lista dos 10 filósofos vivos que mais têm contribuído para o debate público. Claro que há muitos outros filósofos, tão ou mais interessantes, e que não contribuem tanto como aqueles para o debate público. O mérito filosófico e a contribuição para o debate público não são exactamente coincidentes. Dificilmente se imagina um filósofo da matemática, por muito brilhante que seja do ponto de vista filosófico, ter o impacto público que um filósofo político tem.  Ainda assim, a contribuição para o debate público de ideias não deixa de ser um indicador da importância e da influência de alguns filósofos, pelo que a lista de Warburton tem algum interesse.

Não sei com que critérios foi elaborada a lista, mas decidi gastar dois minutos a pesquisar no Google os nomes daquela lista, mais dois ou três que estranhei não ver lá, tendo-me limitado a ver o número total de referências. 

Tenho de confessar a minha ignorância em relação a Cornel West, de quem conhecia o nome e pouco mais. Mas, a seguir ao esmagador Peter Singer, o mais referido no Google é precisamente West. Isto se não contarmos com todas as vezes que Umberto Eco é referido, caso contrário, este ficaria em segundo lugar (mesmo assim muitíssimo longe de Singer). Só que a maior parte das referências a Eco são sobre os seus romances e não propriamente sobre as suas ideias filosóficas, pelo que não estão relacionadas com o seu contributo para a discussão pública. Mas pude confirmar que alguns nomes ausentes da lista de Warburton são mais frequentes na net do que outros que lá estão. São, por exemplo, os casos de Anthony Grayling e de Roger Scruton. Sobretudo o primeiro destes. 

Uma das muitas coisas (e são tantas!) que os números do Google não mostram, é que alguns filósofos mais jovens têm sido recentemente cada vez mais referidos, o que indica que estão talvez mais presentes na discussão pública actual do que outros que já andam por aí há mais tempo. Parece-me que o caso de Sandel, um filósofo relativamente jovem, tem marcado mais o espaço público da discussão filosófica nos últimos tempos do que o veterano Habermas: o primeiro livro publicado por Habermas data de 1962, ao passo que o primeiro publicado por Sandel data de 1982.

Tendo todos estes aspectos em conta, eu faria uma lista ligeiramente diferente da de Warburton, acrescentado-lhe mais dois nomes. A lista ficaria assim:

1. Peter Singer
2. Michael Sandel
3. Cornel West
4. Amartya Sen
5. Daniel Dennett
6. Anthony Grayling
7. Kwame Appiah
8. Jürgen Habermas
9. Martha Nussbaum
10. Umberto Eco
11. Roger Scruton
12. Ronald Dworkin

Claro que a influência de cada um entre os seus pares é outra coisa. Para terminar, sublinhe-se o facto de Dennett navegar em águas diferentes (nem melhores nem piores) de todos os outros. O que vos parece? 

23 de outubro de 2012

Conhecimento metafísico


Este é o tema da conferência que o filósofo Jonathan Lowe, professor na Universidade de Durham, irá proferir na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, já no próximo dia 26 (sexta-feira, às 15:00 horas, na sala Mattos Romão).

A conferência promete ser muito interessante, ainda que se trate de uma questão abordada por Lowe em alguns dos seus livros, nomeadamente em The Possibility of Metaphysics (1998). Apesar de este título ter ressonâncias kantianas, Lowe tem procurado apresentar uma resposta em termos muito diferentes de Kant. Já aqui me referi ao que Kant acabou por fazer à metafísica, atirando-a para o beco sem saída do incognoscível e abrindo caminho para que o seu lugar acabasse aos poucos por ser ocupado pela epistemologia. Ora, é precisamente a isso que Lowe se opõe. Mas não só rejeita uma metafísica metodologicamente tutelada pela epistemologia, como rejeita também que tenha de recorrer a metodologias próprias da lógica, da semântica filosófica ou da filosofia da mente. A metafísica deverá, pois, ser feita directamente. Até porque, argumenta Lowe, todos esses ramos da filosofia assumem inevitavelmente certos compromissos estritamente metafísicos que dificilmente poderão ser garantidos pelos métodos usados nessas mesmas áreas.


18 de outubro de 2012

A estética é um assunto muito complicado...

... diz Paul Boghossian. Mas é precisamente onde estão as dificuldades que mais precisos são os bons filósofos. Por isso, é bom saber que um dos seus próximos livros é precisamente sobre estética, em particular sobre o gosto e a objectividade que se pode esperar dos juízos de gosto, como explica no vídeo abaixo. Na sua abordagem, Boghossian irá cruzar a estética com a filosofia da mente. 

Boghossian, que é professor na Universidade de Nova Iorque, tem-se destacado principalmente nas áreas da epistemologia, da filosofia da mente e da filosofia da linguagem. É verdade que já tem dado uma perninha na estética e filosofia da arte, mais precisamente com a publicação de um par de artigos sobre filosofia da música, mas esta será a sua estreia em livro na área da estética. Se conseguir manter a qualidade do que tem publicado até agora, nomeadamente do seu Fear of Knowledge - Against Relativism and Construtivism (2006), então temos boas razões para ficar impacientes.

8 de outubro de 2012

Morreu J. J. C. Smart (1920 – 2012)



Jack Smart, como era conhecido, morreu há três dias a 6 de Outubro de 2012. Era um filósofo australiano, que fazia jus ao seu apelido, cujas contribuições se estendem à metafísica, filosofia da ciência, filosofia da mente e ética, entre outras disciplinas filosóficas. Num futuro post descreverei mais pormenorizadamente algumas das contribuições de Smart para estas disciplinas, respectivamente a sua proposta de uma teoria identativa cérebro/mente tipo-tipo, o seu ataque à inteligibilidade da noção de passagem ou fluxo temporal e a sua defesa do utilitarismo de actos. Por agora, deixo o leitor com um tributo musical (aqui) a Jack Smart, realizado há dois anos, com letra de Kit Fine, estando ele também no piano, e Geoff Brennan no vocal.

4 de outubro de 2012

Jonathan Haidt e os Espantalhos




Nesta crônica Garry Gutting argumenta que Jonathan Haidt fez, no seu último livro, um espantalho das teorias morais de Platão, Kant e Rawls ao tentar refutá-las alegando simplesmente que as pessoas não agem ou raciocinam moralmente do modo previsto pelas teorias morais. O que Haidt se esqueceu foi que os filósofos não estavam fazendo teses empíricas sobre o que as pessoas comuns pensam, um erro corriqueiro entre alguns filósofos experimentais. Vale a pena conferir.

2 de outubro de 2012

Palestra: A Racionalidade da Gratidão





Nesta sexta-feira, dia 5, o Professor Desidério Murcho proferirá a palestra "A Racionalidade da Gratidão" na sala 300F da PUC-Rio como parte dos seminários organizados pelo departamento de Direito e pelo grupo de Ética e Realidade Atual da PUC-Rio. Os seminários terão início às 14:30 iniciando com uma palestra do Prof. Lincoln Frias, seguida pela palestra do Professor Desidério. 

1 de outubro de 2012

A moral da história

No próximo dia 3, quarta-feira, estarei no Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense, para fazer uma palestra intitulada "A Moral da História: Ética, Estética e Literatura". Trata-se de uma intervenção no VIII Seminário do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana.


23 de setembro de 2012


O GEOFF (Grupo de Estudos de Filosofia da Física) é um grupo independente, sem vinculação direta com qualquer instituição. A participação é gratuita e aberta para qualquer pessoa, independentemente do nível de escolaridade e localidade. Seu principal  objetivo é estimular a pesquisa, a produção e divulgação da Filosofia da Física estabelecendo um ambiente de interação -– via grupo de e-mails e fórum de discussões -– entre estudantes de diversas localidades. Os trabalhos produzidos pelos participantes são discutidos e revisados por outros participantes. Para auxiliar a produção bibliográfica, eles têm a oportunidade de se inscrever como integrantes de módulos de estudo e projetos de tradução, havendo ainda, e principalmente, a liberdade de produção de trabalhos independentes. Tanto os módulos de estudo quanto os projetos de tradução são propostos e coordenados pelos próprios participantes.


19 de setembro de 2012

Extinção?



Eis dois ótimos livros introdutórios que ainda podemos achar enterrados em sebos Brasil a fora! Escolha e Acaso (Choice and Chance) de Brian Skyrms -- traduzido por Leônidas Hegenberg e Octanny S. Mota (Cultrix, 1971) --, e Filosofia da Ciência Natural (Philosophy of Natural Science) de Carl Hempel -- traduzido por Plínio Sussekind Rocha (Zahar, 1970) --, ambos originalmente publicados em 1966, estão entre os clássicos da bibliografia introdutória em filosofia. O que não consigo entender é como livros tão bons tenham sido esquecidos por essas editoras, que ainda estão na ativa. Certamente seria uma boa vê-los republicados. 

17 de setembro de 2012

De onde vêm os leitores da Crítica?

Um leitor escreveu-me a perguntar gentilmente sobre quem seriam os visitantes deste blog, mais precisamente sobre se a maioria eram leitores portugueses ou brasileiros. Fui consultar as estatísticas do Blogger e, para quem, como este leitor, tenha alguma curiosidade sobre quem costuma passar por aqui, ficam alguns dados muitíssimo gerais.

Durante o primeiro dos cerca de 4 anos de existência deste blog, o maior número de visitas tinha origem em Portugal. Porém, o número de visitantes do Brasil ultrapassou já, em muito, o de Portugal. Os cinco países com maior número de visitas são os seguintes (por ordem decrescente): Brasil, Portugal, EUA, França e Alemanha. 

Mas nos últimos meses verifica-se uma tendência curiosa. Apesar de o número mensal de visitas com origem em Portugal continuar a subir, este número tem sido ultrapassado pelo dos EUA (quase cinco mil por mês). E verifica-se também um aumento muito significativo de visitantes da China. Assim, nos dois últimos meses os cinco países com maior número de visitantes são (novamente, por ordem decrescente): Brasil, EUA, Portugal, França e China.

Não sei se isto terá alguma relevância, mas pode ser que haja outros leitores que gostem de saber destas coisas.  

15 de setembro de 2012

Pensar de A a Z

A Bizâncio acaba de anunciar a edição do livro de Nigel Warburton, Pensar de A a Z, na colecção Filosoficamente, dirigida por Desidério Murcho. A tradução é de Vitor Guerreiro, com introdução e notas de Desidério Murcho.

11 de setembro de 2012

Metafilosofia

São bem conhecidas as posições dos positivistas lógicos e de Wittgenstein sobre a natureza e metodologia da filosofia. Apesar de os primeiros estarem na origem da concepção naturalista da filosofia e do segundo influenciar fortemente a concepção metafilosófica da chamada «viragem linguística», a verdade é que a discussão filosófica sobre a própria natureza da filosofia nunca chegou a despertar o interesse que talvez merecesse. Foi assim que, tal como com as anteriores, também as concepções pragamatista, hermenêutica e ironista (ou pós-modernista) da filosofia só indirectamente foram desafiadas e discutidas. Isso parece, contudo, estar a mudar e há já sinais credíveis de que a metafilosofia está a conquistar o espaço próprio de uma verdadeira disciplina filosófica. Dois dos mais sólidos indícios são os livros The Philosophy of Philosophy (Blackwell, 2007), de Timothy Williamson, e What Philosophers Know (Cambridge, 2009), de Gary Gutting. Dois livros que vale mesmo muito a pena ler.






5 de setembro de 2012

Filosofia - Uma Introdução por Disciplinas


Na próxima sexta-feira, às 16:40, será feito o lançamento, no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa, do livro Filosofia - Uma Introdução por Disciplinas (Edições 70), organizado por Pedro Galvão, que será apresentado pelo próprio.

Na apresentação prévia da editora lê-se o seguinte:

Os autores deste livro partilharam o objectivo de conseguir um guia de estudo para a Filosofia estruturado tematicamente -- i. e. em função de questões, perspectivas e argumentos, sem qualquer preocupação primariamente histórica. Nos onze capítulos que compõem o presente volume, encontramos assim um mapa conceptual da Filosofia que cobre não só as suas disciplinas principais, mas também muitas das suas áreas mais especializadas.

Os capítulo e respectivos autores são os seguintes:

LÓGICA - Ricardo Santos
METAFÍSICA - Desidério Murcho
EPISTEMOLOGIA - Célia Teixeira
ÉTICA - Pedro Galvão
FILOSOFIA POLÍTICA - João Cardoso Rosas, Mathias Thaler e Iñigo González
FILOSOFIA DA RELIGIÃO - Agnaldo Cuoco Portugal
FILOSOFIA DA CIÊNCIA - António Zilhão
FILOSOFIA DA LINGUAGEM - Teresa Marques e Manuel Gracia-Carpintero
FILOSOFIA DA MENTE - Sara Bizarro
FILOSOFIA DA ACÇÃO - Susana Cadilha e Sofia Miguens
ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE - Aires Almeida

4 de setembro de 2012

Teólogos e filósofos

Eis uma piada engraçada que me contaram hoje:

Um teólogo e um filósofo discutem os méritos relativos das disciplinas a que se dedicam.

O teólogo diz:   A filosofia é como um homem cego que procura numa cave completamente escura um gato preto que não está lá.

O filósofo responde: Pois, e a teologia encontra o gato.




3 de setembro de 2012

Grayling e Blackburn: duas entrevistas interessantes


O conhecidíssimo filósofo inglês Anthony Grayling (que no próximo sábado fará uma conferência em Lisboa, no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia) tem-se visto envolvido recentemente  numa animada polémica em Inglaterra. A origem da polémica prende-se com a criação, no ano passado em Londres, do já famoso New College of the Humanities (NCH), uma instituição privada de ensino superior, que procura dar formação especializada de excelência na área das humanidades: filosofia, história, economia, direito e literatura. Parece que o NCH tem bastantes estudantes interessados, até porque o elenco de professores é uma verdadeira constelação de estrelas: Simon Blackburn, Daniel Dennett, Peter Singer (filósofos), mas também Richard Dawkins, Steven Pinker e Lawrence Krass (história natural, psicologia e ciência), além do filósofo do direito Ronald Dworkin, do crítico literário e professor Christopher Ricks e dos historiadores Linda Colley e Niall Ferguson. O cerne da polémica é a escola ser privada e de as propinas anuais rondarem as 18 mil libras.

Grayling, que abandonou o seu lugar de professor no prestigiado Birkbeck College, da Universidade de Londres, para fundar e se dedicar inteiramente ao NCH, tem sido acusado de virar costas ao ensino público e de promover um ensino elitista, inaceitável sobretudo vindo de alguém associado à esquerda e que tem sido um dos mais destacados defensores do humanismo contemporâneo. O crítico literário e colunista do Guardian, Terry Eagleton, sugere mesmo que Grayling se rendeu ao mercantilismo.

Vale, pois, a pena ler este artigo do último número da revista New Humanist, baseado numa entrevista com o próprio A. C. Grayling, e na qual este responde com muita ponderação às acusações que lhe são feitas. A ideia de Grayling é que ele está simplesmente a contribuir para salvar o ensino das humanidades, uma vez que o governo decidiu deixar de as financiar e não parece que as coisas tendam a inverter-se no futuro. Quanto às críticas de elitismo, sugere que o futuro das humanidades depende da qualidade da formação dos estudantes e não da sua quantidade, acrescentando que o montante das propinas é até inferior ao que se despende nas outras universidades, incluindo as públicas. Acrescenta que, para surpresa de muitos, um bom ensino das humanidades é mais caro do que o das ciências e que a escola tem previsto um sistema de bolsas e de angariação de estudantes sem capacidade financeira para suportar as propinas, de modo a garantir que os melhores não sejam excluídos.

Mas o melhor mesmo é o leitor ler o artigo.

Outra entrevista que vale muito a pena ler é esta entrevista de Simon Blackburn ao 3:AM Magazine. Blackburn, um filósofo desempoeirado que tanto escreve coisas estritamente destinadas à discussão com outros filósofos como escreve para o grande público, confessa que não gosta de ser descrito como um popularizador da filosofia. O que procura fazer, diz, não é tanto trazer (ou fazer baixar) a filosofia às pessoas, mas antes levar (ou fazer subir) as pessoas à filosofia. Entre muitas outras coisas interessantes para o leitor.


2 de setembro de 2012

Dummett, metafilosofia e uma disputa sobre o tempo

Sobre o que é, então, a filosofia? Para Quine e alguns outros filósofos americanos contemporâneos, a filosofia é simplesmente a parte mais abstracta da ciência. Não faz, de facto, qualquer observação ou conduz quaisquer experiências próprias; mas pode, e deve, incorporar as descobertas das ciências para construir uma teoria naturalizada do conhecimento e da mente. Propriamente falando, pois, deve ser classificada com as ciências naturais. Continuar a ler...

31 de agosto de 2012

Lacunar e redutor


Acabei de ler no suplemento Ípsilon, do Público de hoje (sem ligação), a desenvolvida recensão de David Teles Pereira (DTP) ao mais recente livro de Nigel Warburton, Pequena História da Filosofia (Edições 70). 

Em primeiro lugar, é de sublinhar o facto de, ao contrário do que é frequente na crítica portuguesa, o crítico não se limitar a escrever quase só para si próprio nem a utilizar o que tem pela frente como um mero pretexto para exibir o seu arsenal cultural. Ao invés, apresenta de forma clara e directa aqueles que, em sua opinião, são os pontos fracos e fortes do livro de Warburton, sem deixar de descrever abreviadamente o que nele podemos encontrar. É isso que se espera de uma boa recensão.

Até aqui, e já não é pouco, tudo bem. Quanto ao resto, parece-me que o crítico acerta quase sempre ao lado. Mas nada há de especial em eu não concordar com as principais críticas do autor da recensão. A discordância é normal e até saudável. O que me leva aqui a falar disso não é, pois, o facto de não concordar com o crítico; é o tipo de crítica a livros deste género que, por ser praticamente infalível, se tornou num lugar-comum que nos deixa quase como estávamos antes de a ler.

Assim, criticar um livro intitulado Pequena História da Filosofia por ser lacunar e redutor tem quase tanto cabimento como criticar um mota por falta de bagageira e má insonorização. Até os próprios autores de livros do género se dispensam já de prevenir, no respectivo prefácio, esse tipo de objecções. Mas só refiro aqui isto porque é um tipo de objecção que, em relação a livros deste género (livros de história, introduções, guias, etc.), se encontra demasiadas vezes entre os críticos portugueses. Por isso, refiro aqui a recensão de DTP apenas como um exemplo e não como assunto central deste post. 

Pelo que tenho verificado, classificar um livro como lacunar e redutor, quase sempre quer dizer que o crítico não encontra lá tratados os seus autores preferidos, ou que não lhes é dado suficiente destaque, confundindo os seus autores preferidos com os autores mais importantes e influentes. Ocorre-me, a propósito, a indignação de um professor meu da faculdade, que achava incompreensível a generalidade das histórias da filosofia e dos dicionários filosóficos não referirem (ou o fazerem só de passagem) o pensamento social de Jean Meslier, um padre e filósofo jesuíta do século XVIII sobre o qual ele estava a escrever a sua tese de doutoramento.

Tive o cuidado de utilizar a expressão «quase sempre», pois haverá casos em que tal crítica se justifica. E até poderíamos estar perante um caso desses. Uma história da filosofia, por muito pequena que seja, seria, sem dúvida, lacunar se não referisse nomes tão importantes e influentes em diferentes áreas da filosofia como Aristóteles, Descartes ou Kant. Pode até ser discutível incluir Darwin e Freud e omitir Heidegger e Husserl (omissão apontada por DTP e que, por uma vez, me parece justa), mas criticá-la por «não aparecer uma única pensadora da terceira vaga feminista» ou por não incluir autores da filosofia islâmica e judaica é não compreender bem o que está ali em causa. Imagine-se só se Warburton tratasse de uma boa parte dos autores que DTP acha que deveriam lá estar, a saber, Maimónides, Avicena ou Averróis, Isidoro de Sevilha, o Papa Gregório I, Al-Farabi, Dante, a escola de Salamanca, Jean Bodin, Hugo Grócio, Max Weber, Émile Durkheim, a escola da Frankfurt e mais algum pensador socialista do século XIX, além de Marx. Para compensar, a sugestão de DTP parece ser a de descartar Berkeley, Montesquieu e Thomas Reid. 

Claro que o crítico pode achar mais interessantes Isidoro de Sevilha, o Papa Gregório I e Émile Durkheim do que Berkeley e Montesquieu, mas apontar isso como crítica às escolhas do autor é simplesmente descabido. E, claro, acrescentaria por sua vez o leitor, a incluir Isidoro de Sevilha, por que não incluir também o não menos importante e omisso Guilherme de Occam, entre muitos outros? A incluir toda esta gente, o crítico ficaria então com boas razões para criticar a parte do título que diz «Pequena». A não ser que Warburton fosse ainda mais redutor do que o crítico aponta, dedicando apenas duas páginas a cada um. 

A propósito, DTP dá alguns exemplos de passagens em que o autor é redutor. Mas, a julgar pelos exemplos apresentados, o crítico parece ignorar que Warburton procurou fazer o que Gombrich fez com a sua popularíssima Uma Pequena História do Mundo, destinada a jovens sem grandes conhecimentos prévios sobre o assunto. Tal como Gombrich, também Warburton procura prender o jovem leitor com algumas curiosidades biográficas sobre os principais protagonistas, de modo a tornar a leitura mais agradável. Se resultar, como resulta com Gombrich, então é um ponto a favor do livro de Warburton e não um defeito.

Em suma, sem dúvida que o livro tem lacunas e é redutor, como sucede inevitavelmente com todos os livros. Até porque esta História poderia ser grande, em vez de pequena. Fica assim garantido que o crítico tem sempre razão.      

26 de agosto de 2012

Kripke, Putnam e Burge sobre o externismo

Externismo é um termo popular, e pouco claro, mas na filosofia da mente significa habitualmente que alguns conteúdos mentais são individuados parcialmente pelo ambiente (social ou físico) em que um indivíduo se encontra, na filosofia da linguagem que conteúdos semânticos não são individuados somente  pelo estado físico e psicológico em que um indivíduo se encontra independentemente do seu ambiente,  e na epistemologia que a justificação de uma crença não depende apenas de factores acessíveis ao indivíduo que possui a crença. Há mais variedades de externismo e mais coisas que a palavra pode significar, mas isto é o suficiente para uma caracterização inicial. 
No youtube, é possível encontrar um vídeo interessante em que Putnam, Kripke e Burge (os três principais filósofos que são responsáveis pela discussão destas teses) discutem o externismo sobre a mente e linguagem. Burge dá uma útil e breve explicação e discussão sobre o externismo em várias áreas da filosofia (filosofia da percepção, da linguagem e da mente). A discussão é interessante, abrangente e muito mais que o externismo é discutido. O audio não é da melhor qualidade, mas recompensa o esforço, especialmente o considerável diálogo entre Kripke e Putnam, em que é possível observar filósofos profissionais a pensar de modo criativo mas rigoroso. Especialmente recomendado a quem já está familiarizado com o trabalho desses dois autores, dado que trabalhos anteriores de ambos os autores são regularmente aludidos.


PS: Hoje saiu o livro de Nagel, Mente e Cosmos, anunciado aqui.

25 de agosto de 2012

Mais de meio milhão

Foto de Aires Almeida

O Blog da Crítica, criado no Verão de 2008, acabou esta semana de ultrapassar o meio milhão de visitas (tem, neste momento, mais de 503 mil visitas e uma média mensal de cerca de 20 mil no último ano). 

Nada mau. Obrigado a todos os leitores, colaboradores e comentadores que nos têm acompanhado.

23 de agosto de 2012

Compêndios


A qualidade dos compêndios da Blackwell, da Routledge e da Oxford sobre as diferentes disciplinas da filosofia é amplamente reconhecida (a propósito, será «compêndio» o termo mais adequado para traduzir os termos ingleses companion, handbook e guide?) e o seu sucesso mais do que merecido. Tal como é de assinalar a qualidade geral dos compêndios da Cambridge sobre os mais importantes filósofos e correntes filosóficas.

Claro que nem todos os compêndios têm a mesma qualidade, mas são, em geral, muitíssimo bons. Até porque contam com a colaboração de reconhecidos especialistas nas respectivas áreas. Basta pensar, por exemplo, no caso da estética, em que os compêndios da Blackwell (sim, há dois: um enorme companion e outro enorme guide) são organizados por Stephen Davies e Robert Stecker, entre outros, e por Peter Kivy, respectivamente. Por sua vez, o da Routledge é organizado por Dominic Lopes e Berys Gaut e o da Oxford por Jerrold Levinson. Todos eles são filósofos da arte de primeira linha, a que se acrescentam muitos outros colaboradores, igualmente destacados filósofos da arte e reconhecidos especialistas em estética. Nenhum destes compêndios me parece dispensável, mas o que penso ser melhor é o organizado por Levinson (Oxford) e o comparativamente menos conseguido (mas, mesmo assim, muito bom) é o organizado por Kivy (Blackwell). E poderia dar exemplos de outras disciplinas: a metafísica, a filosofia da mente, a ética ou a filosofia da ciência.

Mas o melhor de tudo é que não ficamos por aqui, pois também a editora académica Continuum decidiu acrescentar às anteriores a sua própria colecção de compêndios de filosofia, organizados por especialistas emergentes, mas com créditos já firmados, o que é de saudar. Depois de já neste ano terem sido publicados The Continuum Companion to Philosophy of Language, organizado Manuel Gracia-Carpintero e Max Kölbel, The Continuum Companion to Aesthetics, organizado por Anna Christina Ribeiro, e The Continuum Companion to Methaphysics, organizado por Neil Manson e Robert W. Bernard, acaba agora de sair The Continuum Companion to Epistemology, organizado por Andrew Cullison, contando entre os seus autores com nomes como Alvin Plantinga e Earl Conee. 

Como se vê, o panorama editorial filosófico de língua inglesa continua animado. Ainda bem para a filosofia.


15 de agosto de 2012

2 Anos no Facebook


Arranjo gráfico de José Leal
 
Hoje, 15 de Agosto, completa-se o 2.º aniversário da CRÍTICA no Facebook.
À questão “para onde vai a CRÍTICA?”, pode-se responder que isso depende daqueles que “gostam” de Filosofia e que “partilham” o interesse pela sua divulgação.
Obrigado a todos!

12 de agosto de 2012

Prémio de ensaio filosófico

Agora sim, foi oficialmente confirmado o Prémio de Ensaio Filosófico da Sociedade Portuguesa de Filosofia para 2012, no valor de 3500 Euros.

A questão a concurso é a seguinte: O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?

O prazo de envio de ensaios é 31 de Dezembro de 2012.

Clicar na imagem para ampliar.


11 de agosto de 2012

Leituras de férias: o que é isso?


Mal se aproxima o Verão, não há jornal ou revista de actualidades que não brinde os leitores com sugestões de leituras de férias. A julgar pela prosa que costuma acompanhar tais sugestões, fica-se com a ideia que há leituras de férias e leituras que não são de férias.

A ideia é que nas férias precisamos de livros pequenos, ligeiros e pouco exigentes, talvez porque as pessoas estejam cansadas pelo exigente esforço intelectual despendido ao longo do ano a ler e estudar Kant e Proust, ou tentando demonstrar coisas tão difíceis como o Teorema da Densidade de Hales-Jewitt. Como chegamos todos ao Verão intelectualmente exaustos, pouco mais conseguimos aguentar além de umas historietas engraçadas que não dêem muito que pensar. 

Vem isto a propósito do comentário de um velho amigo meu que, ao ver-me há dias com um livro na mão, sorriu de forma trocista, saindo-se com a seguinte tirada: já vi que, para estares a ler isso, férias não é contigo!

Isso que estava a ler era Death, de Geoffrey Scarre (publicado em 2007 pela Acumen), um tema da filosofia sobre o qual pouco tinha lido e que há algum tempo (sobretudo depois de ter visto na net algumas das lições de Shelly Kagan sobre o assunto) me despertava a atenção. O meu amigo achou a minha leitura completamente deslocada para a época de férias. Perguntei-lhe porquê e respondeu-me que era um tema mórbido, além de nos fazer pensar demasiado. E não me conhecesse ele  muito bem, ainda era capaz de ficar preocupado comigo, pensando que eu estava com tendências suicidas. 

Bem tentei explicar ao meu amigo que me sentia realmente de férias e que aquele livro estava precisamente à espera das férias para ser lido. Mais, que a sua leitura era bastante agradável e que até estava, em certa medida, a contribuir para umas férias mais interessantes.

Acho que não se deixou convencer. 

É pena. Será assim tão disparatado aproveitar a generosa pausa estival para ler o que ficou de lado há muito, precisamente por estarmos a trabalhar e nos faltar tempo para isso? Será assim tão cansativo ler algo que faça pensar? Não será, pelo contrário, mais cansativo e disparatado ler algo que não dê que pensar?

Seja como for, ocorreu-me também sugerir algo para ler nas férias. E lembrei-me de algo que seja capaz de satisfazer diferentes tipos de leitores, desde que não detestem pensar e gostem de aprender com o que lêem. Estou a pensar nos quatro livros de Jorge Buescu, publicados na colecção Ciência Aberta, da Gradiva, o primeiro dos quais de 2001 e o último de 2011, cujo título é Casamentos e Outros Desencontros.

Buescu é, a par de Carlos Fiolhais e Nuno Crato, dos melhores divulgadores de ciência portugueses, ao nível do melhor que se faz em todo o mundo. Cada um destes livros recolhe pequenos e interessantes artigos, principalmente sobre matemática. São artigos escritos a pensar no leitor comum, mas curioso e inteligente. Pode-se começar por onde se quiser e até saltar de um livro para o outro, sem problemas. 

Será esta uma boa leitura de férias? 

1 de agosto de 2012

26 de julho de 2012

Onde estão os filósofos neoliberais?


Será que «neoliberalismo» faz parte do vocabulário filosófico? Será o neoliberalismo uma teoria política?

«Neoliberalismo» é um dos termos que têm surgido com mais frequência na discussão pública de questões políticas. Muitas vezes não se chega a perceber bem se se está a falar de uma filosofia política ou de uma doutrina económica, que são coisas diferentes, embora não desligadas. Vale, pois, a pena tentar compreender melhor do que se está exactamente a falar quando se fala de neoliberalismo.

É certo que o uso frequentemente depreciativo do termo não ajuda a esclarecer a coisas, pois dá a ideia de que se trata de algo que é obviamente mau e indesejável. Mas, se o neoliberalismo for algo assim tão obviamente mau e censurável, como poderá alguém minimamente razoável assumir-se claramente como neoliberal? Postas as coisas deste modo, esperar que um neoliberal confesse o seu neoliberalismo é como esperar que um egoísta confesse o seu egoísmo, ou que um manipulador se assuma publicamente como tal. 

Assim, é melhor deixar de parte o uso valorativo dos termos «neoliberal» e «neoliberalismo» e tentar ver antes, de forma desapaixonada, o que têm de comum aqueles autores que são habitualmente classificados como neoliberais.

Centrando-nos nos casos mais conhecidos, apontam-se por vezes os nomes de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, como principais inspiradores. Mas estes são economistas, não filósofos. Nomes mais recentes são os de Milton Friedman e Alan Greenspan, também eles economistas. E há também quem indique Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que não são economistas nem filósofos. Parece, pois, não ser fácil encontrar filósofos políticos que defendam o neoliberalismo. 

Talvez algumas pessoas se sintam tentadas a indicar os nomes de filósofos como Robert Nozick ou David Gauthier. Mas isso é enganador, pois estes filósofos fizeram questão de se demarcar claramente do liberalismo contemporâneo de Rawls e Dworkin (que se distinguem dos liberais clássicos, como Locke e Kant), sendo alguns dos seus mais fortes críticos. Daí que Nozick e Gauthier sejam conhecidos como libertaristas, não como neoliberais. E os libertaristas nem sequer foram menos críticos do liberalismo do que os comunitaristas e os marxistas.

Será, pois, adequado falar de neoliberalismo nas discussões de teoria política? Volto, então, a perguntar: onde estão os filósofos neoliberais?

Talvez fosse bom assentar que, apesar da confusão conceptual reinante, o neoliberalismo não é realmente uma teoria política.  A não ser que não esteja a ver bem e haja por aí algum leitor que me queira esclarecer. 

Estou, sinceramente, aberto a isso.

16 de julho de 2012

Marx morreu?


«Deus morreu, Marx morreu, e eu próprio não me sinto lá muito bem», dizia Woody Allen.

Espero, sinceramente, que Woody Allen se sinta melhor. A avaliar pela sua actividade recente como realizador, parece estar de saúde. Quanto a Deus, também não vale a pena perder muito tempo com isso, pois ainda que morra, ele há-de saber como dar a volta ao assunto e acabará sempre por ressuscitar. 

Mas o que é feito de Marx? Estará mesmo morto? Terá ele resistido à queda do Muro de Berlim e à manifesta agonia dos regimes que diziam mantê-lo bem vivo? Será que os livros de filosofia política contemporânea ainda se dão ao trabalho de discutir Marx? 

Ora, basta folhearmos uma das mais prestigiadas introduções à filosofia política contemporânea, como é o caso de Contemporary Political Philosophy: An Introduction, de Will Kymlicka, para verificarmos que afinal o morto ainda mexe. E a avaliar pelo destaque que no seu livro Kymlicka dá ao marxismo (praticamente o mesmo que a qualquer outra grande teoria política contemporânea, como o liberalismo social de Rawls e Dworkin, o libertarismo de Nozick e Gauthier, ou o comunitarismo de Sandel, Walzer, McIntyre e Taylor), Marx não só não está sequer doente, como parece gozar de boa saúde. 

É certo que o marxismo actual abandonou ou reformulou algumas das teses defendidas por Marx. Mas isso tem-se verificado sobretudo em relação às suas teses empíricas, como é, em parte, o caso do materialismo histórico. Contudo, é precisamente quando o Muro de Berlim cai e os regimes comunistas inspirados por Marx se começam a render ao capitalismo reinante que o marxismo ganha um novo fôlego. E a esta curiosidade junta-se uma outra: a enorme revitalização do marxismo que se tem verificado a partir dos anos 80 do século XX deve-se quase exclusivamente a filósofos e pensadores políticos que, eles próprios, se reclamam de analíticos. A tal ponto que a esta recente redescoberta de Marx se costuma chamar «marxismo analítico», tendo como principais representantes filósofos e pensadores políticos oriundos do universo anglo-saxónico, entre os quais se destaca o filósofo G. A. Cohen. 

Os marxistas analíticos procuram não tanto reconstruir as teses empíricas de Marx, mas antes avançar com argumentos a favor da legitimação moral dos ideais comunistas, adoptando uma perspectiva marxista predominantemente normativa e desenvolvendo uma teoria marxista da justiça que evite as alegadas deficiências de teorias da justiça como a de Rawls. 

O capítulo do livro de Kymlicka discute criticamente, e com algum pormenor, os argumentos dos marxistas analíticos, nomeadamente as suas duas principais tendências: o marxismo perfeccionista e o marxismo kantiano. 

Como se vê, Marx está longe de morrer. Podemos não concordar com os marxistas, mas certamente não com o argumento de que está definitivamente morto e enterrado. Nada podia ser mais enganador.          

12 de julho de 2012

Uma falácia à procura de nome

Chama-se falsas às notas que parecem verdadeiras. Esta parece verdadeira. Portanto, é falsa.

1. «Consideram-se falácias informais os argumentos que parecem ser dedutivamente válidos.»

A afirmação 1 ou é verdadeira ou é falsa. Um colega insistia ontem comigo que é verdadeira, até porque viu isso bem defendido algures. Mas tal afirmação é tão verdadeira como a seguinte:

2. «Consideram-se gatos os animais com pelos.»

Ora, qualquer pessoa sabe que 2 é falsa, mesmo sendo verdade que todos os gatos têm pelos. Isto porque não basta (não é suficiente) um animal ter pelos para ser considerado (ou chamado) gato.

Se substituirmos a expressão «falácias informais» por «gatos» e «os argumentos que parecem dedutivamente válidos» por «animais com pelos» verificamos facilmente que estamos perante afirmações idênticas, só que acerca de coisas diferentes.

Assim, se dizemos que 2 é falsa, temos também de admitir que 1 é igualmente falsa.

E de nada serve dizermos que estamos a falar de coisas diferentes: se for falso, como é efectivamente, que 3 cebolas são mais cebolas do que 5 cebolas, então também tem de ser falso que três batatas são mais batatas do que 5 batatas. Falar de cebolas ou batatas é tão irrelevante como falar de falácias informais ou de gatos.

Se a afirmação 1 fosse verdadeira, então nada haveria de errado no seguinte raciocínio da Joaquina, que vende gelados na praia:

JOAQUINA: Olhó gelado fresquinho!
CLIENTE ANÓNIMO: Minha senhora, dê-me um gelado de chocolate, por favor.
JOAQUINA: Aqui tem.
CLIENTE ANÓNIMO: Bom, não tenho trocado. Posso pagar com uma nota de 50?
JOAQUINA: (observando com cuidado a nota) Humm...
CLIENTE ANÓNIMO: O que passa? Está com dúvidas?
JOAQUINA: Humm... ok, parece verdadeira.
CLIENTE ANÓNIMO: Ah!
JOAQUINA: Logo, é falsa.
CLIENTE ANÓNIMO: Hã?

Alguém convenceu a Joaquina que se consideram falsas as notas que parecem verdadeiras. Simplesmente considerou que a nota era falsa, dado que parecia verdadeira.

A Joaquina aplicou bem o que aprendeu. Só que um raciocínio que nos leva de premissas verdadeiras a uma conclusão falsa tem de padecer de algum vício, mesmo que pareça válido. É o que acontece precisamente com as falácias.

Temos, portanto, aqui uma falácia. Hesito em lhe dar um nome. Aqui fica, pois, esta falácia à procura de um nome. Há ideias?

10 de julho de 2012

Temos maus alunos de Filosofia?

Foto: Aires Almeida

Foram ontem publicados os resultados dos exames de Filosofia do 11º ano, da 1ª fase e não parecem mesmo nada animadores. Vejamos:

A média nacional é negativa, de 8,9 valores, contando apenas os alunos internos. Se contarmos os internos e os externos, a média desce para 7,8 valores.  

Os valores anteriores atiram directamente a Filosofia para o pódio dos piores resultados, tendo apenas atrás de si as temidas disciplinas de Física e Química e de Matemática B.

Nenhum aluno é obrigado a fazer o exame de Filosofia, ao contrário do que acontece com os alunos que frequentam as disciplinas de Matemática e de História A, por exemplo. 

Por um lado, o exame de filosofia funciona, na maior parte dos casos, como uma espécie de joker que os alunos podem usar em vez de fazerem exames de outras disciplinas nas quais sentem mais dificuldades. Por outro lado, os que fazem o exame de Filosofia, não porque se sintam mais confortáveis com a disciplina, fazem-no porque pretendem ingressar em algum curso superior que exige como prova de ingresso o exame de Filosofia.  

Será que temos mesmo maus alunos de Filosofia? Como explicar este inesperado e intrigante insucesso?

7 de julho de 2012

Grayling e José Gil no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia


Os filósofos Anthony Grayling e José Gil serão os convidados principais do 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, organizado pela Sociedade Portuguesa de Filosofia em parceria com o Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 

O encontro irá decorrer nos dias 7 e 8 de Setembro, nas instalações dessa faculdade (Av. de Berna, 26- C, Lisboa), tendo o recém-criado Centro de Formação da SPF solicitado a acreditação do encontro para efeitos de atribuição de 0,6 créditos de formação aos professores participantes.

Haverá ainda comunicações de António Zilhão (UL), Porfírio Silva (IST), Vítor Correia (UNL), Patrícia Fernandes (UM), Joana Pontes (IFUL), Pedro Galvão (UL), Dina Mendonça (UNL), Luís Bernardo (UNL) e Domingos Correia (E. S. Sebastião e Silva e Presidente da Comissão Organizadora das Olimpíadas Nacionais de Filosofia). Será também entregue o Prémio de Ensaio Filosófico SPF 2011 a Ricardo Silva (UL), seguido de uma comunicação do autor baseada no seu ensaio, além das comunicações dos colaboradores deste blog Vítor Guerreiro, eu próprio e José Gusmão, que foi o vencedor da medalha de prata das Olimpíadas Internacionais de Filosofia do ano passado.

Pode-se obter aqui mais informações sobre o programa e inscrições.      

28 de junho de 2012

Tim Crane: Arte e Arte*


Que importa, afinal, se o vinho é um objecto artístico? O vinho não é tradicionalmente valorizado como arte, mas e depois? Ainda assim, é valorizado. Por que não introduzir uma categoria mais ampla, arte*, que inclui tudo aquilo que agora concebemos como arte e também o vinho, mobiliário, certos pratos gastronómicos, etc.? "Arte*" poderia significar: artefactos humanos esteticamente avaliáveis. Poderíamos então substituir arte* a arte nas nossas discussões e a definição de "arte" seria remetida para o caixote do lixo das pseudo-questões.
Isto parece-me uma manobra superficial. O conceito de arte é demasiado importante na nossa cultura para que se rejeite a questão "O que é a arte?" como uma pseudo-questão. Mesmo não havendo uma resposta consensual para a questão, as tentativas de lhe responder produziram as suas próprias ideias sagazes. Mas na perspectiva do que é mais valioso para nós como consumidores de objectos estéticos, as semelhanças entre artefactos humanos esteticamente avaliáveis - obras de arte* - importam mais do que as diferenças entre elas e as obras de arte.  Noutras perspectivas, a distinção entre arte e arte* pode ser muito importante, mas se algo o vinho nos ensina é que no que diz respeito ao valor dos nossos artefactos, não raro o estético ou sensorial contam mais do que o artístico propriamente dito.

Tim Crane: Wine as an Aesthetic Object