12 de Janeiro de 2012

Eagleton sobre Alain de Botton

Terry Eagleton faz aqui uma recensão do último livro de Alain de Botton, que defende o lugar-comum de que apesar de não existir qualquer divindade, a religião é crucial para uma vida civilizada. O artigo de Eagleton é interessante porque menciona várias autores — Voltaire, Habermas, Gibbon — que não têm crenças religiosas, mas defendem a mesma ideia de Botton. Há dois problemas com essa ideia, mas Eagleton menciona apenas um deles: o insulto que isto representa para quem é genuinamente crente. Pois imagine-se a afronta que seria alguém defender que é evidente que o Sol não é feito de hélio, mas é socialmente útil que as pessoas pensem que o é. Conciliar esta atitude com a honestidade intelectual é pelo menos difícil, como menciona Eagleton.

O segundo problema, que sempre me impressiona, é a ignorância que esse género de posição manifesta: pois quando vemos em pormenor o que entendem estas pessoas por "religião" é sempre algo parecido a um cristianismo digno da Titi do Raposão (cf. A Relíquia, de Eça de Queirós). A pluralidade de manifestações religiosas — muitas delas bastante violentas — é delicadamente ignorado. Além disso, é também ignorado que civilizações milenares, como a chinesa, apoiaram-se num conjunto de preceitos não religiosos sobre a vida social e pessoal, formulados por Confúcio. Em suma, parece-me que a popular posição defendida por Botton pela enésima vez manifesta falta de imaginação e falta de cultura, porque a experiência humana é muito diversificada e pode atingir a excelência de muitas maneiras diferentes, com ou sem religião. 

Posso estar a ver mal, mas parece que é um pouco como as pessoas que fazem um grande alarido por não conseguirem acreditar no deus cristão, pensado que desse modo uma vida humana de excelência não pode ser atingida. Isto revela uma ignorância história incrível, dado que Platão, Aristóteles, os estóicos ou Epicuro também não acreditavam no deus cristão mas nem por isso pensavam que a vida humana estava condenada ao fracasso.

18 comentários:

  1. O ponto levantado pelo Eagleton atinge em cheio a argumentação do Botton, Desidério. E na minha opinião essa posição é de uma covardia díspar!

    Não deixa de ser um pragmatismo manco (a crença religiosa não é verdadeira, mas é útil para manter a massa inculta entorpecida) e todos sabemos das fragilidades lógicas desta doutrina.

    Ademais, isto tambpem me parece resultado desta aura politicamente correcta que impregna nossas academias, todo este carnaval apenas para não tomar uma posição? Que a religião é nociva ou não?

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  2. Essa é uma ideia especialmente estranha na minha opinião, se não há divindade então pra quê Religião? Para o povo ? Duvido muito... o ser humano tem muitas capacidades , mas até hoje ninguém mostrou o "inventor" da Religião, é uma potência atemporal. Não existe Deus Cristão , existe a ideia monoteísta , ou seja , Deus Único, pedir para alguém acreditar ou não em uma ideia mal compreendida é subestimar sua capacidade Filosófica.

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  3. Acusar de desonestidade intelectual quem defende esse tipo de argumento é um exagero e acusar o argumento de ser ruim por representar um insulto para quem é genuinamente crente é uma falácia: se o lugar comum de que a religião é crucial para uma vida civilizada for verdadeiro ele não deixará de ser verdadeiro por ser ofensivo para o crente, tal como ateísmo não deixará de ser verdadeiro se for ofensivo para o crente ou o heliocentrismo não deixará de ser verdadeiro se for ofensivo para o geocentrista. Além do mais, nem mesmo podemos afirmar categoricamente que isso é ofensivo para quem é genuinamente crente, pois ele pode se sentir orgulhoso que mesmo alguns ateus reconhecerão a necessidade da religião. Será que poderíamos dizer então que o argumento é bom se é elogioso para quem é genuinamente crente? É claro que não. O argumento não funciona, sim, mas devido a outras razões que não o fato de ser insultuoso.

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    1. Matheus Silva, parece-me que estás a fazer uma interpretação pouco caridosa da objecção de Eagleton. A objecção não estava baseada na condicional, trivialmente falsa, de que se algo é ofensivo para o crente então é falso. Sem querer entrar em discussões tortuosas sobre a ética da crença, a objecção é que as normas que regulam a formação e manutenção de crenças religiosas, que também estão envolvidas na honestidade intelectual, impedem que alguém possa ser um agente epistémico responsável e acredite no Deus cristão apenas porque faz bem à sociedade. A religiosidade genuína mantida por honestidade, responsabilidade e outras virtudes intelectuais é incompatível com a religiosidade em virtude da utilidade social.
      Se a objecção for como eu a estou interpretar, é verdade que não é a incompatibilidade com a religião genuína que é especificamente problemática para esta ideia de Botton, mas o problema mais geral de conseguir conciliar esta ideia com a virtuosidade epistémica. No entanto, aquilo que Eagleton estava a apontar é que o crente, se não for epistemicamente falho, não é um aliado desta tese, mas pelo contrário, a crença religiosa responsável é incompatível com ela.

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    2. José,

      Colocada nesses termos eu aceito a objeção, embora pense que você apresentou uma formulação tão sofisticada do argumento que nem mesmo deve ter passado pela cabeça do Eagleton. Mas repare que o fato de isso ser incompatível com a fé do crente genuíno é algo trivial que se segue naturalmente dessa forma de ficcionalismo da religião: é claro que o crente genuíno não irá acreditar na sua religião apenas porque ela é útil, mas é politicamente prudente que ele continue acreditar na sua religião, mesmo que ele não se dê conta de que ela é apenas uma ficção. Entre outras coisas, Eagleton afirma que essa idéia é velha e paternalista, mas se o fato de ser velha e paternalista não a torna falsa, porque mencionar que ela velha e paternalista? O próprio Eagleton parece pensar que isso é relevante para a discussão, embora eu não perceba como isso pode ser algo além de um pensamento falacioso. Repare também que é muito comum encontrar crentes que defendem essa idéia quando são pressionados por objeções de ateus, talvez a maioria deles. É claro, eles não são crentes genuínos, você irá dizer, eles apenas pensam que são crentes genuínos, mas não possuem virtudes intelectuais para isso. Eu não vejo porque razão isso também não deve ser considerado uma espécie de teoria do erro que é ofensiva para os crentes de um modo geral e que tende a reinterpretar e esvaziar de conteúdo a fé dessas pessoas.

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    3. Matheus,

      Concordo plenamente que chamar a uma tese velha e paternalista não tem relevância para a verdade das teses que Eagleton está a atacar, mas este defeito na crítica de Eagleton aos livros de Button é infelizmente muito comum na crítica do trabalho de outros, mesmo por filósofos profissionais... Quantas vezes, por exemplo, não vi eu filósofos profissionais chamar a teses de outros, como o panpsiquismo, doida, ridícula e estranha (pode ser verdade mas é irrelevante para a tese dos oponentes). O problema está em Eagleton, mas também me parece um sintoma mais geral de certas partes da atmosfera intelectual contemporânea.

      Três pontos:

      Primeiro, é verdade que enquanto eu o acusei de pecar por defeito na aplicação do princípio da caridade, talvez eu tenha pecado por excesso. No entanto, independentemente da formulação, reconhecidamente mais sofisticada, que eu fiz da objecção de Eagleton, parece-me que é este o grão de verdade no que ele está a dizer, daí ter expresso a objecção como o fiz (por oposição a entregar-me a uma espécie de exegese Eaglotoniana!)

      Segundo, tem toda a razão quando diz que existe uma incompatibilidade trivial entre as crenças do crente religioso genúino e do crente Buttoniano (afinal, o realismo em filosofia da religião é incompatível com este tipo de ficcionalismo religioso), o que esta objecção aponta é que para além desta incompatibilidade trivial existe uma incompatibilidade adicional mais profunda, que tem a ver com virtude epistémica. E isso não é assim tão trivial, pois como o próprio Matheus apontou aparentemente há crentes genuínos que defendem essa ideia quando pressionados (E outros, permita-me acrescentar, não tão pressionados).

      Terceiro, na medida em que tenha de recorrer a algo como uma teoria do erro para explicar o porquê de crentes genuínos poderem ser levados a sustentar o argumento de Button não me parece que esvazie o conteúdo de fé das pessoas (ser ofensivo é outra questão, mas a questão da ofensa é de facto irrelevante para a verdade das teses em discussão - eu nunca questionei isso). É claro que há casos e casos, mas um esboço do que eu tenho em mente seria algo como isto: Crentes que apelam à utilidade social são menos virtuosos epistémicamente do que aqueles que não o fazem, com as devidas qualificações. Mas isto não significa que crentes que apelam para a utilidade social sejam péssimos agentes epistémicamente falando. A virtuosidade, epistémica ou moral, é algo que vem em graus. O que pode acontecer, é que um agente epistémico, de modo geral virtuoso, que acredita na religião porque considerou os argumentos para a existência de Deus com cuidado, humildade, integridade intelectual e por aí adiante, pode cometer erros ocasionais e, neste caso, não se aperceber da incompatibilidade. Da mesma maneira que pessoas, de modo geral honestas, podem por vezes mentir achando que estão a agir correctamente. Para uma explicação do fenómeno, parece-me razoável e não esvazia o conteúdo de fé das pessoas pois eu admito que possam ser agentes epistémicos geralmente responsáveis na formação e manutenção de crenças religiosas, o que não é incompatível com falhas ocasionais. Da mesma maneira que aceitamos algumas irresponsabilidades entre pessoas geralmente responsáveis sem por isso lhes negar a virtude da responsabilidade (embora não a tenham no máximo grau, mas ninguém tem), também podemos admitir o uso deste argumento mau, por crentes religiosos de modo geral epistémicamente virtuosos. Será que não me está a escapar nada?

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  4. Desidério, apesar de ser sensível às objecções,também me parece que estás a proceder demasiado rapidamente na tua desconsideração por esse tipo de ideias como as de Voltaire, Habermas, Gibbon e Botton. De certo modo, penso que estás a argumentar contra versões muito implausíveis do que me parece ser o ponto-crucial das ideias deles. A ideia não é que a religiosidade é uma condição necessária à vida civilizada, mas antes que uma vida em que haja um sentimento de sagrado será uma vida com mais sentido do que uma vida sem ele. Este é o ponto de partida livro de Hubert Dreyfus e Sean Dorrence Kelly publicado este ano "All things shining". Isto, não significa que eu subscreva a essas ideias, mas apenas que a total força dessas ideias é intocada pelas tuas objecções.

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  5. Creio que a observação mais importante para ser feita neste debate já foi feita pelo Desidério: aquilo que seria o resultado socialmente benéfico das religiões não depende das religiões para ocorrer (tendo como exemplo o confucionismo).

    O ponto de Botton parece ser que há algo de positivo para ser obtido com as religiões e que por isso haveria algo das religiões que deveria ser preservado, acontece que este "algo" simplesmente não parece intrínseco ao pensamento religioso (ou pelo menos Botton não parece ter demonstrado que é). Poderia haver uma justificação empírica onde fosse mostrado que, de fato, a religião é o melhor meio de se obter certos resultados (solidariedade, otimismo, compaixão, o que for), mas não há tal justificação que eu saiba.

    Claro, vale lembrar que isso tudo ainda não autorizaria que se acreditasse que religiões devam ser eliminadas.

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    1. Grégory, apesar de não querer monopolizar o debate, o teu comentário levou-me a pensar que talvez não tenha expresso de maneira absolutamente clara a minha posição, por isso deixo este comentário (o último, por agora) a clarificá-la. Penso que tens razão quando dizes que o que é socialmente benéfico à religião pode ocorrer sem ela e, indisputavelmente, isso refuta a tese de Button tal como foi exposta.
      A questão que me parece fundamental é se apesar da falsidade das teses de Button existe um fundo de verdade a ser preservado, nomeadamente, será que aceitar a existência do sagrado, que à primeira vista é uma categoria religiosa (na realidade, no estudo seminal de Rudolf Otto é considerada a categoria religiosa por excelência), contribui para uma existência com mais valor?
      Mais interessante do que discutir se Button ou Eagleton têm razão (eu penso ser claro que é o último), é discutir se uma vida religiosa pode levar a uma existência mais gratificante do que uma vida não religiosa. É claro que não é uma questão líquida(pelo menos para mim), nem penso que todas as implicaçõs possam ser tratadas aqui e, da maneira como eu a estou a pôr depende de várias outras questões (o que é o sagrado? Será que é preciso ser religioso para admitir a existência do sagrado ou outros valores religiosos/espirituais? será que o sentimento de sagrado leva a mais felicidade? e a mais sentido? ou simplesmente a uma existência com mais valor (um valor espiritual, digamos por contraste a valor moral?)), mas a minha queixa, posto de modo simples, é que a questão não foi sequer tocada.

      PS: Apesar de ser da opinião que, prima facie, mesmo que uma crença seja socialmente útil é irresponsável acreditar nela sabendo que é falsa, penso, mas posso estar errado, que vários estudos psicológicos ligaram religiosidade a níveis mais altos de satisfação. Numa visita rápida pela internet:
      http://www.sciencedaily.com/releases/2011/08/110808170052.htm
      http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7302609.stm
      http://news.discovery.com/human/religion-happiness-social-bonds.html

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    2. José Gusmão,

      Desconhecia as pesquisas, obrigado por apresentá-las. Compreendo tua questão e concordo com a pertinência dela, mas discutir se Botton tem razão é exatamente discutir se uma vida religiosa é mais gratificante.

      Mas, observe que nestas pesquisas que você apresentou, a do Science Daily e a do Discovery News mostram resultados que poderiam ser obtidos de maneira secular: "It's not their spirituality, belief in heaven, or even the ritual act of praying or going to a house of worship that leads the pious to happiness. Rather, the study found, it's the close friends people gain through their religions that makes a difference." e "There may be a few atheists in foxholes, but a new study suggests that in societies under stress, those who are religious outnumber -- and are happier than -- their nonreligious counterparts. Where peace and plenty are the norm, however, religious participation is lower and people are happier whether or not they are religious, the researchers found.".

      Apenas a outra pesquisa parece ter um resultado que seria intimamente ligado ao caráter religioso do fenômeno. De qualquer maneira, uma vez que conseguíssemos uma boa quantidade de dados, o certo seria pesar as coisas e considerar também qualquer efeito negativo das religiões (preconceitos, fanatismos, entre outros). Se ainda assim as religiões fossem mais benéficas que seus equivalentes seculares, aí realmente poderíamos formar um juízo conclusivo.

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    3. Grégory,

      Não concordo contigo quando dizes que discutir se Button tem razão é o mesmo que discutir que a vida religiosa é mais gratificante, pois afinal as teses de Button podem implicar que a vida religiosa é mais gratificante, mas o converso não é verdade. Não sou um leitor atento de Button (a vida é curta), mas parece-me que o ênfase da ideia dele é que a utilidade social da crença religiosa justifica-a. Mas a vida religiosa pode ter aspectos positivos que não são equivalentes a dizer que é útil socialmente, por exemplo, o filósofo wittgensteiniano da religião D. Z. Phillips e Don Cupitt desenvolveram uma concepção anti-realista do discurso religioso em que são enfatizados os aspectos prácticos da religião: a prece, o culto, o ritual... A ideia principal é que o significado de uma vida religiosa deve ser algo a considerar dentro dos limites da própria religião. É claro que estas não são as ideias de Button, mas por vezes, quando fala da dimensão do sagrado na vida religiosa, parece-me que são estas ideias que estão em pano de fundo. Note-se que este tipo de religiosismo Wittgensteiniano chamemos-lhe assim (independentemente de W. ter de facto sustentado algo parecido) não têm necessariamente de dizer que uma vida religiosa leva a mais felicidade (o que apesar de ser díficil, pode ser criticado por razões empíricas), mas pode dizer que a vida religiosa contribui para o sentido da vida ou simplesmente que os valores religiosos são importantes como os valores morais, estéticos ou cognitvos (Susan Wolf é uma excelente filósofa a fazer estas distinções, apesar de se opôr, muito provavelmente, à tese que estou a sugerir nestas perguntas - apesar de pessoalmente não estar compremetido epistemologicamente com ela).

      Sobre a questão dos estudos, de facto não são conclusivos, por exemplo, lembro-me de ver um estudo a apontar indíces mais baixos de depressão entre ateus! No entanto, essa não me parece ser uma questão interessante... Concordo com o Desidério quando diz que uma vida de excelência (em todas as interpretações razoáveis da palavra) pode ser ateia, mas do facto de uma vida ateia poder ter sentido não se segue que uma vida religiosa não possa ter mais sentido, outras coisas sendo iguais. O sentido também é algo que vem em graus, as nossas vidas não terão tanto sentido como as de Einstein ou Madre Teresa, mas também não terão tão pouco sentido como Sísifo... Mas é claro que tudo isto envolve argumentos sofisticados sobre o que é o sentido...

      Aquilo que disse ao Matheus aplica-se aqui, talvez esteja a ser demasiado caridoso e metade destas questões não ter passado pela cabeça de Button, no entanto, é interessante tentar encontrar teses substantivas que se escondem por detrás de teses aparentemente falsas... Muitas vezes reparo que pessoas que por vezes têm ideias com potencial filosófico, as expressam de maneira equivocada e fácil de refutar, no entanto o interessante é ver se há algo por detrás das suas opiniões ou se é só "lixo intelectual"... O que Eagleton está a fazer é refutar a tese de Button como se não tivesse motivações filosoficamente interessantes (não necessariamente verdadeiras, mas pelo menos dignas de uma séria discussão) por detrás e isso eu critico.

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    4. José Gusmão,

      Eu estava assumindo que o ponto era que a utilidade social das religiões justificaria a preservação delas e que você concordava com isso (que seria a alegação de Button), mas me enganei, pois parece que você está interessado nos possíveis argumentos que podem amparar a tese de que as religiões devem ser preservadas (o que confirmei ao reler teus comentários) além destes que apelam para utilidade social. Bom, a questão que foi levantada pelo Desidério e que continuo considerando central neste debate se repete mesmo neste caso: qualquer que seja o argumento que estabeleça que as religiões devem ser preservadas, ele não poderia ser usado também para estabelecer que algum outro sistema de crenças e valores deveria ser preservado? Assim, ainda que se estabeleça que religiões devem ser preservadas, não será em função de serem religiões.

      É bem provável que você esteja indo além da proposta de Button, mas você só está enriquecendo o debate.

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    5. Grégory,

      Não me quero estender muito mais (apesar de suspeitar que vou...) , mas vou apenas dizer três coisas.

      Em primeiro lugar, não sei se leste o livro de Button, mas este apela a mais coisas do que a utilidade social e a vida civilizada, menciona, por vezes, o tipo de coisas que eu mencionei nos meus posts anteriores, apesar de ser na utilidade e civilidade que reside o foco da sua argumentação. Eu apenas acho que ele não prestou suficiente atenção ao que me parece ser minimamente interessante nas suas ideias.

      Segundo, parece-me (mas posso estar errado!) que estás a ligar religião, primariamente, a crenças o que é uma suposição muito controversa neste campo da filosofia. Existe uma linha anti-realista na filosofia da religião que questionam que, por exemplo, a elocução da proposição "Deus Existe" implique a crença numa entidade sobrenatural fora do espaço e tempo que influencia causalmente o Universo,que a crença numa vida futura seja uma previsão de que algo vai acontecer ou que a prece a Deus para ajudar uma criança seja uma tentativa de influenciar o divino. No caso das preces, por exemplo, o significado religioso mais profundo é encontrado na sua função, no papel que tem na nossa forma de viver, como ajudar alguém a resistir ao desespero e à amargura ou a viver com esperança e dignidade face à vulnerabilidade da vida humana. Isto sim implica uma teoria do erro bastante drástica para o crente comum (na minha opinião), mas não vou alongar esta resposta que já vai ficar enorme a defender ideias que nem sequer advogo.

      Terceiro, há muitas pessoas que defendem que o Confucianismo é uma religião, ver por exemplo (Xinzhong Yao, 2000). Ou seja, não é tão claro que o Confucianismo não seja uma religião como o post do Desidério pode levar a querer parecer. É claro que o debate é largamente terminológico, mas há definições de religião em que ela é compatível com o ateísmo. Por exemplo, Michael Martin, no The Cambridge Companion to Atheism, defende que o budismo, confucianismo e o jainismo são religiões ateias ou ateístas (quem fala imenso, não de religião, mas de espiritualidade e naturalismo é Owen Flanagan, e ele próprio aceita muitas teses de um naturalismo muito básico como o de Rosenberg). A definição de religião que eu defendo seria algo como (provavelmente seriam precisas mais reformulações e talvez a revisão do profano, mas a "main thrust" é esta)": "Qualquer sistema de practicas, valores e rituais que envolvam a crença que certos objectos, pessoas, acções ou eventos (no sentido mais lato do termo) são sagrados e outros profanos". E, se aceitarmos, que a experiência de algo como sagrado pode contribuir para um maior sentido ou seja algo a ser valorizado a par com valores de ordem moral, estética ou cognitiva, então parece que acabamos por aceitar o valor da religião ou uma certa religiosidade por si mesma.

      A única coisa que eu queria dizer desde o início, é que não é nada líquido que o argumento relativamente simples que deste no fim do teu post refute as versões mais sofisticadas do que é, na minha opinião, o mais interessante que se encontra no meio ideias de Button. Isto, tudo não fazendo quaisquer compromissos face à verdade dessas teses mesmo nas versões mais sofisticadas.

      E, já agora, obrigado pelas respostas que me deram a oportunidade de clarificar e elaborar o que de outro modo podia não ser tão claro.

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    6. José Gusmão,

      Estou longe de ter a familiaridade com esta discussão que você tem, não me julgo capacitado para acompanhar tua argumentação, só comentarei mais alguns pontos.

      Sobre Button, eu realmente teria que estudar melhor o trabalho dele para me aprofundar nesta questão, mas não duvido que você tenha razão, estou apenas discutindo aquilo que foi trazido para o debate no post.

      Eu conhecia um pouco desta concepção anti-realista da filosofia da religião, da abordagem wittgensteiniana da questão. Mas, não assumi que tal concepção fosse falsa no ponto que estava destacando (sobre a preservação das religiões), sequer vejo claramente qual a relevância que esta concepção alternativa teria para a questão, mas não me prolongarei.

      Por fim, realmente a definição de "religião" é um ponto importantíssimo, e não nego que acho meio suspeito que termos como "sagrado" e "profano" apareçam em tal definição, mas como eu disse, foge das minhas capacidades entrar neste debate contigo.

      Obrigado pelas observações!

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    7. Agradeço novamente a leitura atenta dos meus posts.

      Só para clarificar, a relevância da abordagem wittgensteiniana é que se ligarmos religião primariamente a crenças que podem ser verdadeiras ou falsas consoante os factos então a falsidade e ilegitimidade das religiões segue-se trivialmente do ateísmo (a crença de que não tal coisa como uma entidade omnipotente, fora do espaço e tempo e com os atributos habituais, etc.), mas pelo contrário se a ligarmos primariamente a prácticas e formas de vida então não é tão trivial que se siga (o que está ligado à disputa sobre o significado do conceito religião).

      Espero ter clarificado!

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  6. Obrigado pelos vossos comentários, sobretudo as objecções de Matheus. Há um problema com o meu uso do termo "insulto", que não é usado por Eagleton. O que ele usa é "patronizing": condescendente ou paternalista. Mas mesmo com este termo, concordo que não se trata de uma refutação da ideia de que P dizer que P é paternalista. Uma ideia pode ser paternalista e ser verdadeira. Mas eu não usei esse argumento. O que escrevi é que essa ideia comum de que a religião é útil apesar de não haver deuses é intelectualmente desonesta e insultuosa. A ideia tem este problema. Mas do facto de ter este problema não se segue que é falsa. É apenas irónico que esta ideia seja geralmente apresentada como expressão de uma atitude simpática da parte de quem não acredita em deuses. É tudo menos simpática: é insultuosa: "aqui estou eu, livre das superstições religiosas, mas vocês, os ignaros, precisam dela para vosso conforto." Parece-me antes que é quem assim fala que no fundo é incapaz de realmente assumir a inexistência de deuses, e é tão inculto e tem tanta falta de imaginação que não consegue ver como uma vida humana sem superstições religiosas pode ser autêntica, de excelência e digna de ser vivida.

    Já quanto aos estudos da psicologia positiva que parecem apontar para um maior índice de felicidade em pessoas religiosas do que não religiosas, é verdade que existem. Têm sido postos em causa porque há muitos outros factores que não estão a ser considerados. Por exemplo, se compararmos pessoas religiosas com não religiosas sem ter em conta a importância da vida social para a felicidade, podemos cometer erros estatísticos dado que é típico da vida religiosa ter uma vida social intensa, mas não é típico da vida não religiosa ter tal coisa -- pode-se ter ou não. Se compararmos pessoas religiosas mas solitárias com pessoas não religiosas e com vidas sociais activas, as conclusões poderão ser muitíssimo diferentes. O mesmo acontece relativamente ao nível cultural e a outros factores. De modo que devemos olhar com cautela para os resultados da psicologia positiva -- que, em qualquer caso, está na sua infância, e que se depara além do mais com a dificuldade tremenda que é medir com precisão níveis de felicidade.

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    1. Como complemento, digo apenas que os estudos também foram criticados por não terem em conta o efeito do conformismo como causa dos níveis mais elevados de satisfação que os crentes reportaram. O sentimento de pertença a um grupo pode ter influenciado os resultados.

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  7. Antes de mais, tenho dúvidas que Voltaire seja um bom exemplo da posição defendida por Alain de Botton. Voltaire era bem conhecido pelo seu anticlericalismo, acusando as religiões de manterem, com o seu poder e ameaças, as pessoas no mais profundo obscurantismo. Acontece apenas que Voltaire não era teísta, mas também não era ateu; era antes um deísta, crente num deus não providencial. Por isso, o exemplo de Voltaire não é bom.

    Quanto ao resto, sempre me pareceu que há algo errado com a opinião das pessoas que utilizam expressões como "infelizmente não tenho o dom da fé" ou "não tenho fé, mas tenho pena de não ter ". Não consigo deixar de ver aí uma ponta de hipocrisia, pois não vejo razão para alguém se lamentar por não acreditar no que sabe ser falso. É quase equivalente a dizer "não me drogo, mas tenho imensa pena por não me apetecer drogar". Como diz muito bem Bertrand Russell, não pode haver razão prática alguma para acreditar no que não é verdade; se algo é verdade, então deve-se acreditar nisso; se não é verdade, então não se deve acreditar. Não acreditarmos no que achamos ser falso, mas achar que é bom os outros acreditarem nisso é algo que me dispenso aqui de classificar, tal a sobranceria e arrogância de quem defende tal coisa.

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