Avançar para o conteúdo principal

Em defesa do diálogo

Comentários

  1. DIÁLOGO: o paradigma diplomático e o paradigma filosófico (algumas notas apressadas sobre a talk de Jonas Gahrstore)

    Gostei bastante desta "talk" e há alguns pontos desta perspectiva sobre o diálogo que me parece importante sublinhar e corrigir:

    O problema: "Não sabemos dialogar."
    A causa da nossa incapacidade para o diálogo está, a meu ver, em que somos educados através de monólogos e treinados para produzir monólogos. Durante toda a nossa escolarização em momento algum somos, de forma sistemática e pensada, incentivados a ouvir os nossos colegas e aprender com eles. Somos treinados para ouvir e aprender com os "especialistas" que nos metem à frente (professor, mestres, manuais, grandes filósofos, etc.) e ouvi-mo-los como se ouve a um guru.
    Para aprender a dialogar precisamos, desde muito novos de treino de diálogo real em que produzimos ideias sem medo de produzir um disparate, respeitamos o que nos diz um colega e não pressupomos logo que o que está a dizer é um disparate pois não é um "especialista" a falar.

    A solução apresentada por Gahrstore: "Usar melhor as «ferramentas diplomáticas» à nossa disposição."

    Esta solução é um pouco estranha, pois se por um lado nunca tivemos tantas oportunidades para comunicar uns com uns outros, por outro lado, nunca o fizemos de forma tão pouco eficiente, isto porque simplesmente deixámos de saber dialogar. Não sabemos dialogar pois confundimos dialogar com “disseminar o nosso ponto de vista” e confundimos debate de ideias com combate de ideias. Vemos o diálogo (e esta é a minha principal crítica a esta talk)como uma operação diplomática, ora um diplomata é alguém que representa um ponto de vista de uma sociedade, de uma cultura, de um momento histórico, porém, num diálogo devemos procurar suspender isso tudo, esse ponto de vista socio-histórico-culturas e procurar encontrar um ponto de vista de Deus. e Desse ponto de vista compreender e simpatizar com os pontos de vista em diálogo. A diplomacia não faz essa suspensão dos juízos essencial ao diálogo. O que a diplomacia faz é negociar, ceder aqui para obter ali. Ora com esse método de diálogo nunca conseguiremos uma verdadeira compreensão do ponto de vista do outro, que é mais que a mera compreensão do que diz, é também uma compreensão do "por que motivo o diz".
    A filosofia, e não a diplomacia, deve ser o paradigma que o diálogo entre povos deverá procurar atingir.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

O filósofo preferido dos filósofos

É curioso ouvir o podcast que, para marcar o lançamento do segundo livro de Philosophy Bites, da responsabilidade de David Edmonds e Nigel Warburton, eles disponibilizaram sobre o filósofo favorito de muitos dos filósofos e filósofas que entrevistaram. 
São quase 70 filósofos e filósofas das mais variadas áreas e tendências filosóficas que se pronunciam sobre o seu filósofo favorito, justificando brevemente a sua escolha. É certo que a maior parte dos filósofos são de língua inglesa, mas também os há, embora poucos, de língua francesa. Mesmo entre os filósofos de língua inglesa, muitos não são filósofos analíticos. Confesso que não conheço muitos deles, mas há outros que talvez sejam conhecidos dos leitores, como Ronald Dworkin (que referiu Kant), David Chalmers (Carnap), Kit Fine (Aristóteles), Michael Sandel (Hegel), Peter Singer (Henry Sidgwick), Michael Dummett (Frege), Tim Crane (Descartes), Susan Wolf (Aristóteles), Stephen Neale (Russell), Noël Carroll (Aristóteles), Brian Lei…

O que é uma análise?

Há duas maneiras de entender uma análise, o que pode parecer surpreendente. Deparei-me recentemente com este aspecto ao trabalhar na segunda edição do Dicionário Escolar de Filosofia.

Podemos entender uma análise de um dado conceito como uma apresentação de outros conceitos mais básicos que captem inteiramente o primeiro. O exemplo típico é algo como a análise do conceito de virgem como pessoa que nunca teve relações sexuais. Esta é a concepção fraca de análise. Na concepção forte, o que resulta da análise, para ser realmente uma boa análise, terá de ser uma frase analítica. Realmente, “Uma pessoa virgem é uma pessoa que nunca teve relações sexuais” é uma frase analítica. As tentativas de análise filosófica são tipicamente vistas como tentativas de análise no sentido forte: se fosse realmente verdade que o conhecimento é crença verdadeira justificada, essa afirmação seria analiticamente verdadeira.

Isto colide com a ideia de que não só a filosofia, mas também as ciências como a física o…