29 de janeiro de 2012

A Inefabilidade do Ordinário

Desidério Murcho argumenta convincentemente que a ideia de inefabilidade como acesso privilegiado à verdade tem tido uma influência nefasta em certos círculos intelectuais aqui.

Deixem-me, no entanto, citar uma passagem do livro de Bryan Magee Confessions of a Philosopher que contraria a afirmação de que o inefável é um mito, pelo menos, num certo sentido de incomunicabilidade por linguagem:

"Se ergo os olhos quando escrevo esta frase, a minha visão absorve imediatamente metade de um aposento contendo dezenas, se não centenas, de itens de formas multicoloridas com relações desordenadas entre si. Vejo tudo com clareza, nitidez e sem esforço. Não existe forma concebível de palavras nas quais eu pudesse condensar este acto visual e unitário. Durante a maior parte das horas em que estou acordado, a minha percepção consciente é uma experiência predominantemente visual - Como diz Fichte, "Sou um ver vivo" - mas não há palavras para descrever as formas irregulares dos objectos que vejo, nem há palavras para descrever as relações espaciais tridimensionais múltiplas e concomitantes nas quais vejo os objectos directamente uns em relação aos outros. Não há palavras para as gradações e nuances diferentes de cor que vejo, nem para as densidades variadas de luz e sombra.

Sempre que vejo, tudo o que a linguagem pode fazer é indicar, com generalidade extrema e nos termos mais amplos e grosseiros, o que estou a ver. Mesmo algo tão simples e corriqueiro como a visão de uma toalha caída no chão da casa de banho é inacessível à linguagem - e inacessível a ela de muitos pontos de vista simultâneos: nenhuma palavra para descrever a forma que assumiu ao cair, nenhuma palavra para descrever a gradação do sombreamento das suas cores, nenhuma para descrever a diferença de sombra nas suas dobras, nenhuma para descrever as relações espaciais com todos os outros objectos da casa de banho. Vejo tudo isso ao mesmo tempo com grande precisão e definição, com clareza e certeza, e em toda a sua complexidade. Aposso-me de tudo isso de modo completo e seguro na experiência directa e, entretanto, seria totalmente incapaz, como qualquer outra pessoa, de pôr essa experiência em palavras. Portanto, não é o caso de o mundo ser "o mundo como o descrevemos", de eu vivenciá-lo "através de categorias linguísticas que ajudam a moldar as nossas experiências", de meu "principal método de dividir as coisas estar na linguagem" ou de que o meu "conceito de realidade" seja "uma questão de categorias linguísticas".

Observações correspondentes valem para a nossa experiência directa através dos cinco sentidos. Imaginem aplicar as frases recém-citadas às experiências que tenho quando estou a jantar! Comer, como ver, faz parte do nosso contacto elementar com o mundo da matéria, sendo até mais necessário à nossa experiência do que a visão. Posso distinguir instantaneamente, sem esforço e com prazer entre os sabores da carne, das batatas, de cada legume, do gelado e do vinho. E, ainda mais, posso distinguir instantaneamente e sem esforço entre diferentes qualidade de carne (de vaca, porco, vitela, cordeiro etc.), tipos diferentes de batata (assada, cozida, frita, em puré etc.) e assim por adiante para cada exemplo possível. Será que há alguém que possa sustentar a sério que as categorias nas quais essas experiências me chegam são linguísticas, ou que o meu principal método de chegar a elas é linguístico? Existe mesmo alguém capaz de pôr essas experiências em palavras depois de ter passado por elas? Quem consegue descrever o sabor de batatas cozidas, de cordeiro ou de nabo branco, de tal forma que alguém que nunca tenha provado esses alimentos conheça, a partir das descrições, o sabor de cada um deles?

Como digo, podemos examinar todos os sentidos da mesma forma. Conheço as vozes individuais de todos os meus amigos e reconheço a maioria delas ao telefone após duas ou três palavras, mas as categorias segundo as quais faço a distinção não são linguísticas, e fica fora do alcance das possibilidades da linguagem pôr em palavras as características isoladas de cada uma. Este ponto é ilustrado pelo facto de não haver nenhum meio pela qual eu pudesse descrevê-las que permitisse a alguém identificá-las sozinho. A verdade pura e simples é que nenhuma das nossas experiências directas pode ser posta em palavras de modo adequado. E isto não vale apenas para as nossas experiências sensoriais do mundo exterior. O tempo todo dentro de mim corre um fluxo complexo, dinâmico e perpetuamente mutante de percepção, disposição de humor, resposta, reacção, sentimento, tom emocional, percepções de associações e diferenças, referências laterais, com vislumbres e pensamentos bruxuleantes e lembranças parciais passando velozes de um lado a outro como vários fios entrelaçados, tudo seguindo interminavelmente nalguma câmara de eco muito reverberante com ressonâncias, conotações e implicações. Eu seria capaz de imaginar tudo isso ser traduzido para algum tipo de música instrumental, mas sem dúvida não em palavras.

Exactamente como no caso da experiência exterior, mesmo as experiências pessoais mais incisivas e fortes não são verbalizáveis. Quem pode descrever um orgasmo? Ou uma reacção a uma grande obra de arte? Ou ainda a qualidade específica de terror num pesadelo?

Procurem contar uma peça musical. Um dos comentários famosos mais obviamente falsos na história recente da filosofia, que costuma ser citado em tom de aprovação, é de Ramsey: "O que não se pode dizer não se pode dizer e também não se pode assobiar." A meu ver, é um típico exemplo de cegueira (neste caso talvez de surdez) espantosa de alguns filósofos conhecidos. Tudo o que pode ser assobiado é algo que pode ser assobiado, mas não pode ser dito. Ou será que Ramsey era capaz de dizer uma melodia? Ele poderia ter sido capaz de ditar a notação musical de uma mas isso não seria verbalizar a melodia. E quando se considera a possibilidade de dizer uma sinfonia de Brahms ou um concerto para piano de Mozart... O mesmo vale, naturalmente, para outras artes. Como se diz a Mona Lisa ou a Última Ceia de Leonardo? A suposição de que tudo de significativo que se possa experimentar, conhecer ou comunicar pode ser expresso em palavras seria ridícula demais para merecer um instante de atenção, não fosse o facto de ela ter sido subjacente a grande parte da filosofia do século XX, e a grande parte de teoria literária também."

E o que pensa o leitor?

12 comentários:

  1. Olá José, Antes de tudo bem vindo à Crítica. De facto questiono-me como pode um jovem como tu saber tanta filosofia e, sobretudo, argumentar filosoficamente tão bem. Como sou bastante mais velho que tu fico com a esperança que tragas coisas boas e necessárias à filosofia escrita em português como o tem feito o Desidério, o Galvão, o Aires, Guerreiro, entre outros. Em relação ao teu texto, o que tenho a dizer? Não me parece de todo que o texto do Desidério negue completamente o inefável, mas a atitude epistémica que se pode ter em relação ao inefável.Pelo contrário, no teu texto, pareces querer defender que o inefável não é de recusar, à partida. Mas neste aspecto parece-me mais convincente a ideia do Desidério de que isso é trivial. Espero não estar a meter ruído. Creio ser isto que está em discussão. Ou vejo mal? Abraços e felicidades

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  2. José, como apontou o Rolando, estás a falar da inefabilidade no primeiro sentido apontado pelo Desidério e isso é (concordo com o Desidério) uma trivialidade. Que há carradas de experiências inefáveis creio que ninguém contesta, seja por insuficiência da nossa linguagem em dar conta de toda a complexidade de coisas que nos rodeiam e nos afectam, seja devido às nossas limitações epistémicas. Mas o que parece completamente inútil são as tiradas filosóficas sobre o inefável. Penso que esse é também o sentido do famoso comentário de Ramsey à última afirmação do Tractatus de Wittgenstein. Discutir o inefável, ou sequer apontar para ele, parece contraditório. E de nada adianta apontares para o sorriso da Mona Lisa como quem está a apontar para algo inefável uma vez que, nesse caso, não sequer se consegue ver bem paara o que estás, afinal, a apontar.

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  3. Creio que em muitas das ocasiões em que nos vemos tentados a concluir pelo inefável, há subjacente a presunção de que a linguagem se esgota no seu uso literal, categórico, no qual sentenças correspondem de modo bivalente a fatos, e nada mais seria linguagem, quer dizer, teria sentido e seria significativa. Esta é a presunção do Tractatus de Wittgenstein, por exemplo, e que, não por acaso, difundiu o hábito de "atribuir" ao inefável os aspectos mais importantes da existência.

    Dado que o próprio Wittgenstein abdicou desta presunção, acho ser o momento de arriscarmos também um pouco mais no que, num dado momento, foi tido por inefável. Isto implica duvidar que toda condição de sentido se resuma à sintaxe categorial da proposição, ou que significados sejam sempre referências a objetos.

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  4. Há de fato continuidade tal nas diversas dimensões sensoriais e existenciais em que ordinariamente nos orientamos que estas dimensões parecem resistir a uma articulação distinta no discurso que lhes traz a consideração. Isso não quer dizer que não haja linguagem nestas dimensões, apenas quer dizer que a própria linguagem é, na maior parte das vezes, também contínua nas suas aptidões semânticas.

    Estas dimensões não poderiam ser acessadas num âmbito público de consideração sem alguma forma de discurso que lhes propusesse alguma significação. Proponho significação num sentido bastante lato, não só das palavras como das coisas, o modo como as coisas são tomadas como coisas específicas e relevantes nas nossas formas de vida, e não como qualquer coisa indistinta ou desimportante. É o que a linguagem natural faz e sustenta, um arcabouço de significações recíprocas em que as coisas remetem-se umas as outras e nos vem ao encontro como aquilo que esperamos que elas sejam no contexto em que nos encontramos. Isso pode ser constatado em qualquer residência. A chave não é só um pedaço de metal, ela remete à porta que serve para você sair na hora de ir trabalhar. Não há chave sem algum discurso que, por exemplo, pergunta pelas chaves, ou observa que aquela não é a chave daquela porta, ou que manifesta urgência dado o avançado da hora, ou mesmo que de modo tácito testa diversos pedaços de metal, tomados como chave, numa fechadura (usar uma chave também é um ato significativo, passível de ser interpretado como a presunção de que aquelas peças metálicas servem para abrir portas). Acontece que este discurso não precisa nem pode ser um discurso estritamente descritivo, que por exemplo, informasse a composição química da liga metálica que compõem aquela chave. Num primeiro momento o discurso aqui se dispõem tão somente a encontrar a chave, e funciona bem, se houver sucesso ou se compreendemos com clareza o que não está sendo encontrado (aquilo que abriria a porta).

    Neste caso, qual seria o interesse em se articular a linguagem em termos descritivos distintos e exatos? Acho que primordialmente despir as práticas discursivas das idiossincrasias pessoais e culturais que possam obstruir a funcionalidade destas práticas (por exemplo, entonações, sotaques, sutilezas). Articulada em termos objetivos, ou seja, em atenção tão somente aos objetos de que se trata, nossas práticas discursivas seguem no piloto automático, sem exigir tanto questionamento e ponderação a cada momento, e podem mesmo ser instruídas às nossas máquinas, como se vê contemporaneamente. Com isso é possível fomentar um conhecimento exato da natureza e ao mesmo tempo difundir este conhecimento no maior âmbito socio-cultural possível. Este é o interesse das formalizações lógicas.

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  5. Peço que perdoe a deficiência da minha exposição e tente compensá-la considerando os capítulos IV e V do "Linguagens da Arte" do Nelson Goodman. Ali, num abordagem bem detalhada, ele descreve bem os sistemas linguísticos em semanticamente densos e distintos, e sintaticamente densos e distintos e creio que mostram bem que quase todos os temas que estamos dispostos a reputar como inefáveis apenas não foram devidamente considerados segundo os sistemas de notação semântica e sintaticamente densos que lhes são apropriados.

    O meu ponto é ter em mente que o primordial do discurso não é descrever como as coisas estão mas nos conduzir de modo bem sucedido às coisas nos contextos que nos interessam, e neste sentido, há sempre muito a ser dito. Um elemento importante desta tarefa não é satisfatoriamente realizada pelo discurso categorial, a saber, trazer à menção aquilo que não diz respeito tanto à coisa em si mesma mas ao contexto cultural, sensorial ou existencial em que a coisa é compreendida como o que ela é. Este elemento, na linguagem verbal, costuma ser elaborado na literatura, na poesia e na filosofia (nesta última, de modo sistemático e questionador). Na linguagem de modo geral, nas artes. Aqui não se trata de dizer estritamente o que são as coisas, mas se elucidar, explicitar ou evocar as presunções implícitas de que fazemos uso para dizer o que são as coisas.

    O seu próprio texto é rico nesta direção, e parece, no seu aspecto estilístico, afastar a tese do inefável. O modo como você descreveu a toalha caída ao chão decididamente não descreve como sucesso tudo de sutil e detalhado nas cores e formas que você atentou e apreendeu naquela toalha específica que você observou. Mas aí é o mais interessante, não foi para este fim a sua "descrição". O seu intento foi nos fazer considerar toda a riqueza de informação que pode se apurar numa toalha caída ao chão e o resultado esperado é nos treinar a observar de modo mais aguçado coisas como toalhas caídas ao chão. Posteriormente, eu mesmo, uma vez me deparando com uma toalha caída ao chão, posso ter em mente os parâmetros que você propôs na sua descrição e então colher mais e melhor informação do que eu teria colhido habitualmente. Decerto eu não vou apreender a informação específica que você apreendeu na toalha que você observou, mas vou apreender mais e melhor informação de qualquer coisa que possa ser interpretada como uma toalha caída ao chão e é sobretudo para este fim a linguagem, de modo que dificilmente se poderia ainda dizer que o que se compartilhou entre as duas observações era inefável, no sentido de não poder ser comunicado (o que se pretende comunicar aqui não é aquela toalha, mas um modo peculiar e interessante de se observar coisas como toalhas).

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  6. Alguém poderia inventar uma linguagem suficientemente distinta para descrever com detalhamento mais elevado do que o que habitualmente nos orientamos uma toalha caída ao chão. Na verdade, o fizeram mais de uma vez. A pintura e a foto, ainda sintaticamente densas, e hoje a fotografia digital, sintaticamente distinta. Esta última, plenamente articulável verbalmente, no programa do computador (não é manejável na economia da linguagem natural, mas ainda é linguagem verbal). Você deve estar pronto para acusar aqui: mas nenhum destes sistemas apreende tudo que eu vi naquela toalha caída ao chão! Neste "tudo" residiria o inefável. Mas este "tudo" é nada mais que a própria toalha, e você mesmo acredita que se apossa do mesmo na lida ordinária com ele, interpretado como toalha. A linguagem nunca traz tudo à notação distinta porque não precisa, este tudo já sempre esteve lá e não estaria sem alguma forma de linguagem que toma este "tudo" como uma toalha, por exemplo. A linguagem só traz à uma notação distinta o que interessa ser passado a frente numa prática discursiva compartilhada. Observe como suas observações sobre a toalha interessariam a um pintor, ou fotógrafo, ou a artesão de tecidos, mas talvez não contribuíssem com o trabalho da arrumadeira, que tem que apanhar as toalhas jogadas ao chão para levar á lavanderia. Numa exigência maior ou menor segundo pede a ocasião e o contexto, a linguagem se faz mais exata, distinta e categórica. Mas isto não quer dizer que antes de se elaborar deste modo, não seja já e talvez de modo ainda mais primordial linguagem.

    Dá-se o mesmo com a partitura musical, para se ter outro exemplo. Creio ser um tanto apressado dizer que a partitura não diz tudo que uma composição musical é. Para um leitor treinado, um músico que compõe e executa, é possível julgar a partir da partitura se uma composição é interessante ou banal, enérgica ou branda etc. O leitor leigo não tem esta perspicuidade porque não precisa, ele não precisa executar a composição. Especificidades por parte do músico na hora da execução não são lidas na partitura, mas não são especificidades da composição, mas da execução. Parte destas especificidades podem ser retidas na gravação analógica, e para isto é preciso linguagem (ouvir o ruído que vem do LP e interpretar este ruído como reprodução da execução musical que se deu em tal hora e lugar). Depois na gravação digital do MP3, que é verbal. Novamente, não se apreende "tudo", por que "tudo" já estava ali, naquele lugar e naquela hora, e pode ser acessado como reminiscência ou esquecimento no passado, mais uma vez, necessariamente por meio da linguagem. O que se apreende é o que interessa, a informação que um ouvinte deseja receber (e ouvintes mais treinados vão esperar mais informação, acreditarão que a reprodução do LP é mais fiel do que a do MP3, mas esta "fidelidade" é contingente e varia conforme a nossa própria aptidão cognitiva, que em si mesma não é maior porque se está presente fisicamente ao momento da execução; quero dizer que para o ouvinte não treinado, com pouco discernimento musical, talvez testemunhar a execução musical não lhe traga mais interesse e informação do que uma reprodução analógica ou digital).

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  7. Aqui arrisco alguma ousadia e aponto um prognóstico mais decididamente hermenêutico, no sentido da analítica existencial de Heidegger: Esta função linguística que se volta não às coisas mas aos contextos significativos em que as coisas tem lugar é primordialmente evocativa porque estes contextos, os jogos de linguagem do 2º Wittgenstein, são historicamente instaurados e após difundidos, reformulados ou postos de lado, em atenção à sua origem, ao acontecimento singular que lhes dá autoridade e pertinência. É verdade que, em grande parte esta função acaba sendo meramente exemplificativa, no sentido proposto por Nelson Goodman, uma vez que somos treinados nestes jogos sem indagar aqui por sua proveniência e alcance. Mas de tempos em tempos é preciso enfrentar estes quadros significativos em sua contingência histórica, seja para reinventá-los, seja para abandoná-los em favor de novos (o quanto há de fato estrita ruptura ou manutenção entre estes arcabouços é difícil precisar, parece haver aqui nova continuidade). Para isso é preciso interpretá-los, trazê-los a uma consideração expressa, perguntar de onde provem e a que se destinam.

    E aqui entra o que acredito haver de justiça na queixa do Desidério Murcho. É que o prognóstico apressado do inefável pode nos obstruir a tarefa, sempre discursiva, de discutir e considerar estas presunções implícitas em que na maior parte do tempo nos fiamos sem questionar sua origem e adequação. Numa palavra, há o perigo de dogmatismo, o que é sempre bom evitar. É preciso guardar lugar para não se banalizar o trabalho de poetas, escritores e filósofos que se esforçam em trazer estas presunções a uma interpretação explícita.

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  8. Olá a todos. Penso que o Rolando está certo quando afira que a crítica do Desidério se centra na "atitude epistémica que se pode ter em relação ao inefável", quando considerado como aquilo que "É Realmente Importante".

    Porém parece-me que o próprio Desidério é vítima da "marosca" que pretende denunciar quando afirma haver "mais profundidade e importância última no conhecimento que hoje temos das galáxias, do Big Bang, da evolução humana e da estrutura do átomo, do que nos simplismos do inefabilista".

    Talvez por ignorância, ou porque perco muito tempo a ver televisão, não consigo compreender o sentido dos conceitos de "profundidade" ou de "importância última" naquele contexto, a menos que tenha o inefável como horizonte.

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  9. Obrigado a todos pelos comentários, e ao José por traduzir este pequeno texto de Magee.

    Quero esclarecer que não defendi a inexistência daquilo de que não se pode falar; insisti apenas que é ilusório pensar que aquilo de que não se pode falar é mais profundo do que aquilo de que se pode falar. E depois especulei que o que faz as pessoas sentirem-se atraídas pelo inefável é a trapaça intelectual de se fazerem passar por sábios sem se darem ao trabalho de oferecer as suas ideias para que os outros as possam pôr em causa explicitamente. A ideia é então é que não estamos a usar os meios comuns de comunicação, pensamento e escrita porque estamos a apontar para o inefável, e isso liberta-nos da chatice de sermos precisos, honestos e explícitos nas teses e argumentos que defendemos -- e ainda mais da chatice de considerar alternativas teóricas e tentar mostrar por que razão a nossa é melhor do que as outras.

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  10. Também agradeço os comentários.

    A minha intenção na citação era apenas mostrar que longe do inefável ser algo místico, é algo muito comum.

    Se isto é trivial ou não, já é outra questão. Se, por trivial, implica que foi sempre aceite pacificamente pela maioria dos filósofos é falso. Exactamente antes desta passagem, Magee cita Ayer e Searle (respectivamente, como representativos da geração do positivismo lógico e da posterior geração da filosofia da linguagem comum dos anos 50 e 60) a afirmarem que experienciamos o mundo primariamente por categorias linguísticas. Por exemplo, numa entrevista com Ayer, Magee pergunta "O que tu acabas de dizer pode-se resumir na constatação de que uma investigação do uso da nossa linguagem é equivalente a uma investigação da estrutura da realidade tal como experienciada pelos seres humanos?" a que Ayer responde simplesmente que sim.

    Eu só queria que os leitores não acabassem de ler o texto do Desidério a pensar que não há tal coisa como o inefável (apesar de ser verdadeiro que o Desidério não afirma, pelo contrário nega, isso).

    Outras questões levantadas mereciam uma resposta mais elaborada da minha parte que talvez escreva mais logo.

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  11. O excerto do Magee parece confundir inefabilidade com incapacidade para descrever todos os processos cognitivos. Do facto de não se ter ainda conseguido descrever todos os elementos que ocorrem durante a cognição não se segue que eles são inefáveis ou que não há maneira de os descrever (embora sugira que há limites da nossa parte, isto é: que não somos infalíveis) apenas indica que ainda não encontrámos uma maneira apropriada para o fazer. Parece-me um erro concluir que algo não é dizível por ainda não ter sido dito, ou que algo é inefável porque existem limites cognitivos para o concretizar adequadamente. Porque isso sugere que uma outra espécie (alienígena, por exemplo) dotada de uma linguagem similar à nossa mas com outras capacidades cognitivas seria igualmente incapaz de expressar o que nos parece inefável. Há aqui um antropocentrismo qualquer, a meu ver.
    Para além disso, a história da filosofia, ciência, e da literatura parece contradizer, ou pelo menos contrariar, a afirmação de que o inefável é uma posição epistémica recomendável, será que obras como A Vida e Opiniões de Tristram Shandy do Sterne ou Uma Caneca de Tinta Irlandesa do Flann O' Brien (só para mencionar dois exemplos) não contribuiram de alguma maneira para sugerir o oposto do que o Magee parece sugerir, isto é, que até processos cognitivos difíceis de descrever são passíveis de serem exprimidos através da linguagem? E o que é a poesia senão uma tentativa de exprimir por palavras aquilo que parece inefável?

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