26 de janeiro de 2012

Olimpíadas de Filosofia: medalha de prata dourada


Ao visitar o sítio português das Olimpíadas de Filosofia, recentemente criado pela PROSOFOS, uma associação constituída por professores da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho (associação que tem a seu cargo a organização das primeiras Olimpíadas Nacionais de Filosofia), acabei por encontrar o ensaio do jovem português que ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas Internacionais de Filosofia, realizadas no ano passado em Viena.

Confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com a qualidade do ensaio de José Gusmão Rodrigues, um aluno do secundário que foi capaz de defender de forma argumentada, em inglês e em apenas quatro horas, o que a esmagadora maioria dos professores, tanto do secundário como universitários, não consegue fazer em português e em quatro semanas. Os candidatos tiveram de escolher um dos quatro tópicos que lhes foram apresentados sem conhecimento prévio, sendo de seguida avaliados anonimamente por um júri especializado. 

Cada tópico era acompanhado por uma citação de algum filósofo, tendo José Rodrigues escolhido o tema ilustrado pela afirmação «A arte não é uma cópia do mundo real. Uma dessas malditas coisas já é suficiente». Citação retirada de Linguagens da Arte, de Nelson Goodman, que serve para José Rodrigues discutir o problema do valor da arte. Uma das coisas que imediatamente se nota no ensaio de José Rodrigues é a clareza do discurso argumentativo e a articulação de ideias, aliados a uma sólida cultura filosófica e a um conhecimento notável das ideias discutidas (é o caso da breve discussão da teoria icónica da representação, de Suzanne Langer), recorrendo frequentemente a exemplos e a contraexemplos esclarecedores. Além disso, José Rodrigues não se limita a fazer uma espécie de relatório crítico sobre as principais teorias em causa. Como qualquer filósofo, procura avançar com ideias próprias. 

José Rodrigues começa por formular genericamente o problema do valor da arte e anuncia que irá defender no seu ensaio uma perspectiva instrumentalista. Esclarece, contudo, que o instrumentalismo defendido por ele é diferente do que é defendido por Goodman. Diferentemente do instrumentalismo construtivista de Goodman, José Rodrigues procura defender uma perspectiva instrumental inspirada no Wittgenstein das Investigações Filosóficas e na filosofia de Heidegger. Penso que este é o aspecto menos conseguido do seu ensaio, uma vez que, por um lado, não se chega a perceber bem em que sentido o desvelamento do Ser heideggeriano operado através da arte se enquadra numa perspectiva instrumentalista da arte e, por outro lado, em que sentido isso pode ser considerado conhecimento experiencial, como era suposto ser, de acordo com José Rodrigues. O ensaio não acaba, pois, da melhor maneira, embora seja de ter em conta que se trata de um pequeno ensaio com cerca de cinco páginas, não sendo assim possível justificar adequadamente tudo o que se defende. Seja como for, nada disso retira mérito ao ensaio de José Rodrigues, uma mente filosófica que não pode ser desperdiçada (espero que continue a estudar filosofia, pois tem claramente futuro). 

Por curiosidade, li também os outros ensaios medalhados em Viena e, em minha opinião, o ensaio de José Rodrigues merecia a medalha de ouro, juntamente com o também excelente ensaio do estudante sul coreano (também ele medalha de prata). Qualquer deles me parece bastante melhor do que a medalha de ouro que foi para o aluno dinamarquês. Mas estas coisas são mesmo assim e isso até nem é o mais importante. 

Entretanto, seria bom que outros alunos do secundário aparecessem e se candidatassem às Olimpíadas Nacionais de Filosofia, cujos vencedores irão representar Portugal nas Olimpíadas Internacionais de Filosofia de 2012, na Noruega.  

4 comentários:

  1. Obrigado pela consideração!
    Devo dizer que concordo que a parte menos conseguida pelo meu ensaio foi a última, por duas razões de carácter mais pragmático que filosófico.
    A primeira é que estava a ficar sem tempo e tinha de acabar rápido o meu ensaio!
    A segunda é que a devida exposição das minhas ideias sobre a Arte (ainda admitidamente em desenvolvimento) depende crucialmente de certas ideias altamente controversas e amplamente rejeitadas, tanto de Heidegger como de Wittgenstein, cuja defesa e relação com o instrumentalismo demoraria mais tempo a desenvolver do que dispunha (ainda para mais tendo em conta que eu não sabia os tópicos que iriam calhar e que a filosofia da arte, embora enormemente estimulante, não é a minha principal área de estudos).
    Seja como for, agradeço a referência à PROSOFOS (que espero consiga arranjar fundos para realizar as Olimpíadas Nacionais e levar os novos alunos às Internacionais) e à minha iniciativa em participar nas Olimpíadas Internacionais de Filosofia como aluno português pela primeira vez.
    Como informação adicional, de modo nada surpreendente, estou correntemente a estudar filosofia no Ensino Superior (na FLUL).

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  2. José, outra agradável surpresa é saber que o autor do ensaio és tu e que, ainda por cima, continuas a estudar filosofia.

    Quanto ao conteúdo do ensaio, devo dizer que também acho que a arte tem valor instrumental, defendendo uma forma de cognitivismo bem diferente do de Goodman. É precisamente o que faço em O Valor Cognitivo da Arte, o livro que publiquei com base na minha tese de mestrado. E, curiosamente, também defendo que o conhecimento em causa é de tipo experiencial. Mas isto nada tem que ver com as ideias de inefabilidade frequentemente associadas à arte. Acho que recorrer ao truque da inefabilidade não passa de uma forma algo preguiçosa de resolver o assunto. Dá-me a ideia que tanto Wittgenstein como Heidegger apontam para aí, além de que aceitar a ideia heideggeriana da arte como desvelamento do Ser implica "comprar" também as patetices (bom, é a minha opinião, que podemos discutir) do misticismo ontológico heideggeriano.

    Para terminar, podes dar-me o teu email? Queria falar contigo, sem estar aqui a incomodar os outros leitores. O meu email é: aires.almeida@netcabo.pt

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  3. Bem, teria várias coisas a dizer sobre isso. Parece-me que todas as teorias sobre a arte devem deixar algum lugar para um certo tipo (qualificado é certo) de inefabilidade. Isto não implica não avançar uma teoria sobre o valor da arte, mas apenas reconhecer que há limites para o que uma teoria da Arte pode fazer.
    Mais do que isso, acho que a parte da teoria de Heidegger que utilizei (por exemplo, a sua teoria da verdade, chamemos-lhe assim) é independente, ou modificável sem perda de conteúdo, do que penso ser claramente falso ou confuso em Heidegger (qualquer tipo de misticismo sobre "o Ser", o que quer que isso seja).

    Seria muito interessante ler a tua tese, será que ma podias mandar por pdf?

    Tenho todo o gosto em dar o meu email, é jgusmao_@hotmail.com

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  4. José, nem preciso mandar o pdf, pois a tese está publicada na Crítica. Podes ver em http://criticanarede.com/tes_valorcogarte.html

    Há apenas pequenas diferenças em relação à versão publicada em livro, na qual introduzi algumas precisões e corrigi uma ou outra passagem. Mas o essencial mantém-se.

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