30 de janeiro de 2012

Pílulas da moralidade

Peter Singer e Agata Sagan colocam em causa aqui a ideia de que uma “pilula da moralidade” seria algo ruim. Em linhas gerais, o argumento é o seguinte: se formos capazes de criar uma pilula da moralidade, isso significa que a química de nosso cérebro afeta diretamente nossas ações morais. Nesse caso, por que ser afetado pela química natural de nosso cérebro seria melhor que ser afetado por algum medicamento artificial?

Que acham dessa ideia?

5 comentários:

  1. Já é tarde e teria de pensar melhor, mas aqui vão os meus comentários iniciais.

    Vamos supor que as nossas acções morais podem ser afectadas pela química natural do nosso cérebro.

    Nesse caso, como em tudo, há pessoas que estarão acima da média, outras em baixo da média. Seria de esperar, portanto, que fosse desejável corrigir o défice das pessoas que estivessem abaixo da média. O problema desta linha de raciocínio é que se agíssemos assim, estaríamos a criar uma nova média. Quando pararia este processo? Quando nos tornássemos santos morais? Mas não é útil nem desejável que todos nos tornássemos santos morais, sacrificando outros valores cognitivos e estéticos ou características como o humor de um Woody Allen ou a graciosidade de uma Katharine Hepburn. Por isso, qualquer bom argumento para a conclusão de que tomar a pílula da moralidade é desejável é bom que não tenha a conclusão que nos tenhamos de tornar santos morais.

    Adicionalmente, vamos imaginar que os cientistas descobrem que a baixo de um determinado valor de hormónio X no cérebro as pessoas se tornam psicopatas, violadoras ou patologicamente mentirosos. Parece-me que aí seria justificado dar às pessoas uma pílula da moralidade, da mesma maneira que é justificado dar a quem tem Alzheimer comprimidos para a memória. E para quem acha que no caso do Alzheimer nós estamos apenas a ajudar alguém a manter o seu nível de memória (ou impedir que diminua tão rápido, pelo menos), faça o experimento mental de imaginar que há crianças que nascem com Alzheimer. E mais, que nós temos os comprimidos que lhes ajudassem a manter uma memória razoável. Penso que toda a gente concordaria que seria moralmente permissível dar-lhes os comprimidos. Mais, se o pudéssemos fazer sem grande malefício para ninguém, não seria injusto negar-lhes tal coisa?

    Considerações deste género levam-me a pensar que tanto a conclusão que todos devemos tomar a pílula da moralidade, como a conclusão que ninguém deve são demasiado fortes.

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  2. Outra coisa que gostava de dizer, é que esse problema não é especificamente sobre a pílula da moralidade. Ou, talvez mais cuidadosamente, problemas semelhantes surgiriam relativamente a pílulas da beleza, da inteligência, da capacidade atlética (isto já acontece, parcialmente) e por aí adiante.

    O Michael Sandel tem um bom livro para quem estiver interessado nestes temas "The Case Against Perfection: Ethics in the Age of Genetic Engineering". Embora seja sobre engenharia genética e não sobre comprimidas muitas questões seriam semelhantes. Em particular, a questão qual é a diferença moral entre obtermos uma certa característica por meios artificiais ou naturais é a mesma.

    Outra coisa que me ocorre vai como o seguinte. Vamos imaginar que existe uma certa quantidade de substância química, desta vez chamemos-lhe "Y", que existe só e apenas nos santos morais ou em pessoas com um alto nível de moralidade. Seria certamente injusto privar as pessoas que nasceram com a quantidade de "Y" dessa substância sobre o pretexto de que foram privilegiadas na lotaria genética. Da mesma maneira que seria errado dar comprimidos de estupidez às crianças mais inteligentes. Deste modo, é preciso perceber que existe uma diferença moralmente relevante entre as pessoas que nascem com a quantidade de "Y" e as pessoas que escolhem ter essa quantidade. É que as pessoas que nasceram com essa quantidade não fizeram nada de errado, porque também não fizeram nada certo. Isto não implica que quem decide tomar "Y" esteja a fazer algo moralmente ilegítimo ou moralmente legítimo, significa apenas que quem nasceu com "Y" está numa posição diferente porque não fez qualquer escolha, e, logo, não fez qualquer escolha capaz de ser avaliada moralmente.

    Deixem-me insistir na analogia entre um agente virtuoso e um atleta de alta competição. Vamos imaginar que engolir um comprimido todos os dias melhorava a minha rapidez e que enquanto eu ficava todo o dia sentado no sofá, um colega meu esforçava-se todos os dias para atingir os mesmos resultados. Pergunta: Eu seria tão bom atleta como ele? Aparentemente, sim. Fazemos os mesmos tempos, quando ele chega ao fim eu estou ao lado dele, o sprint dele não é melhor que o meu e por aí adiante. Mas não deixa de haver qualquer coisa estranha na maneira como eu cheguei lá... Apetece dizer que eu fiz batota, que há uma maneira certa de fazer as coisas e eu tomei um atalho no caminho para o topo. Ser um agente virtuoso é algo que se pratica e as minhas intuições morais dizem-me que há maneiras mais virtuosas e viciosas para melhorar o meu carácter moral e tomar a pílula da moralidade parece-me um caminho menos virtuoso do que alguém que se esforça a cada dia melhorar o seu carácter. A minha suspeita inicial é que não só o resultado importa(ser moralmente bom ou o que seja) mas a maneira como se lá chega está sujeita a avaliação ética. Mas confesso que não tenho nenhum argumento substancial para apoiar estas intuições.

    Talvez a questão da liberdade não seja tão pouco importante como Singer argumenta. Afinal, um agente moral que melhore o seu comportamento em virtude do exercício da sua liberdade parece-me intuitivamente moralmente superior a um agente que melhore o seu comportamento em virtude de químicos no cérebro. É verdade que talvez não haja nenhum agente que melhore o seu comportamento moral exclusivamente em virtude das suas contínuas decisões livres mas haja sempre um componente químico, mas parece que o agente é tanto melhor quanto menor o factor químico pesar nas suas acções.
    Essa é a minha resposta, a avaliação ética implica a liberdade do agente. Aumentando a quantidade de químicos no cérebro diminuímos a liberdade do agente, diminuindo consequentemente quão digno de apreciação ética ele é.
    Quanto mais tomássemos a pílula da moralidade, menos morais seriamos!

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  3. Minha impressão é que você está certo quanto a questão da liberdade. Intuitivamente, se realizo ações boas ou ruins livremente, então posso ser considerado bom ou ruim. Mas se realizo ações boas ou ruins sob coerção, não posso ser considerado nem bom nem ruim...

    Presumivelmente, minha capacidade de ser livre depende em alguma medida da química de meu cérebro. Se a quimica do meu cérebro é tal que me impeça de raciocinar e de deliberar minhas ações, não parece que sou muito livre aqui.

    Então uma pílula da moralidade deveria melhorar meu comportamento moral, mas fazer isso sem comprometer minha capacidade de raciocinio e de deliberação. Mas agora não é claro como uma pílula pode fazer isso... Se minhas capacidades estão funcionando bem, e se posso escolher fazer o mal na mesma, como uma pilula poderia melhorar meu comportamento moral, mas sem fazer isso por coerção?

    Acho dificil imaginar como isso seria possível...

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  4. Em retrospectiva, ainda concordo com o que disse sobre a liberdade e consigo Iago.

    O que o Singer diz no fim do artigo é que, ou os químicos no nosso cérebro são compatíveis com a liberdade, e nesse caso alterar comportamento por via de químicos é moralmente aceitável, ou não é, tornando a questão de se a pílula interfere com a liberdade obsoleta.

    A melhor maneira de responder ao Singer talvez seja dizer que pode ser verdade que a nossa liberdade é, em certa medida, compatível mas não obstante afectada com um certo tipo de equilíbrio químico do cérebro. Isto não implica que mesmo o tipo de equilíbrio químico natural da pessoa média não está de certa maneira a afectar a sua liberdade, o que se passa é que o grau de coerção não é suficientemente grande para interferir grandemente nas minhas acções morais. Se assim for, há uma razão prima facie para eu não tomar a pílula da moralidade, diminui ainda mais a minha capacidade de agir livremente. Se o meu raciocínio estiver certo não somos completamente livres, mas isto já sabíamos há muito tempo quanto mais não seja porque temos uma natureza biológica, psicológica, estamos enquadrados numa certa cultura e sociedade que limitam a nossa capacidade de pensar e agir livremente.

    Provavelmente não é verdade que sejamos tão livres quanto queríamos, mas é verdade o suficiente e verdade o suficiente deve ser bom o suficiente para nós.

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  5. Nossa disposição para agir não depende somente de características internas, e sim também de situações e ambientes que provoquem ou não ações com possibilidade de prejudicar outros indivíduos.

    Se conseguirmos algum dia identificar qual a origem dos comportamentos imorais, e após isso elaborar um medicamento que dê conta de todas as possíveis disposições que originam atitudes perigosas, talvez o índice de atitudes imorais reduza. Porém, não estou certo se este tipo de pesquisa farmacológica tem futuro.
    Avaliando a alternativa, penso que a educação mantém-se como o método mais adequado para evitar atitudes perigosas.

    Quanto a idéia de aceitarmos métodos artificiais, não vejo problema algum em adotá-los, a não ser em situações onde consensualmente se aceita um limite para as capacidade físicas ou mentais. O debate sobre o doping só existe porque as pessoas competem em esportes onde se avalia o desempenho do indivíduo através de treinos extenuantes, mas não se considera a predisposição genética como forma de trapaça.

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