28 de janeiro de 2012

Somos Nojentos!

O brilhante filósofo da mente Colin McGinn publicou nestes últimos meses, entre dois outros livros, um livro sobre o significado do nojo. Deu recentemente uma conferência sobre este livro, em que ele propõe uma análise conceptual do nojo e extrapola uma teoria sobre a natureza humana.

Para quem acha que este é um tópico para a psicologia evolutiva, Mcginn argumenta que a teoria evolutiva do nojo não dá condições necessárias nem suficientes. Há muitas coisas tóxicas de que não temos nojo, como certas flores e metais, e há muitas coisas de que temos nojo como gordura que são especialmente nutritivas ou evolutivamente inócuas como o suor. Em virtude de que é que as coisas nojentas são nojentas? Para McGinn é em virtude das categorias de morte e vida se misturarem (o cadáver em decomposição, frutas podres, fezes e urina, menstruação).

Os existencialistas e Freud estavam redondamente errados, o que está no centro da condição humana não é a angústia ou os impulsos sexuais, mas o nojo. McGinn argumenta que nos sentimos enojados com nossa natureza humana biológica (fezes, saliva, fluidos sexuais, decomposição possível do nosso corpo). Mcginn nota que o conceito de nojo não se aplica a coisas inorgânicas, pois ninguém tem nojo de carros, estrelas ou robôs. É a nossa natureza orgânica que nos enoja, sendo nós incapazes de admitir que a nossa mente está inevitavelmente ligada a funções como urinar e defecar. É esta ambivalência que define, em parte, a nossa natureza humana - deuses e animais não se sentem assim. Seres pensantes são seres defecantes (deixo ao leitor a tarefa de modificar o "penso logo existo" nesta perspectiva).

Pode ver a conferência do McGinn sobre o nojo aqui, uma entrevista clara com o McGinn sobre o que o levou a filosofia (e sobre nojo também) aqui e a crítica do livro pelo igualmente brilhante Thomas Nagel aqui. E, se ainda não estiver enojado, ainda pode ir aqui para ver imagens do espectro de casos que o McGinn acha nojentos.

4 comentários:

  1. Muito obrigado pela correcção Desidério. Eu devia ter reparado nisso, especialmente porque me correspondi com o autor durante cerca de um ano e porque é o filósofo vivo cuja obra mais respeito.

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  2. É interessante ver a recensão de Nagel no NYT e comparar com as recensões que se costumam encontrar nos jornais portugueses ditos de referência. No NYT os leitores ficam com uma ideia muito clara sobre o conteúdo dos livros e faz-se uma avaliação crítica fundamentada desse conteúdo, ao passo que nos jornais portugueses as recensões são normalmente um triste espectáculo de exibição pseudo-intelectual dos críticos, os quais tratam os livros como meros pretextos para mostrar erudição. Coitado do Nagel, tão limitado que é.

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  3. O novo link para o vídeo é este: http://cas.illinois.edu/publicevents/disgust-and-death/

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