14 de fevereiro de 2012

Anscombe sobre o Consequencialismo

“É uma característica necessária do consequencialismo que é uma filosofia superficial. Porque há sempre casos de fronteira em Ética. Ora, se fores um Aristotélico, ou um crente na lei divina, vais lidar com um caso de fronteira tendo em consideração se fazer tal e tal em tal e tal circunstância é, digamos, assassínio, ou um acto de injustiça; e de acordo com a tua decisão de que é ou de que não é, julgarás que é a coisa a fazer ou não. Este seria o método da casuística; e embora te possa levar a alongar um ponto na circunferência, não irá permitir que destruas o centro. Mas se fores um consequencialista, a questão “Qual é a coisa a fazer em tais e tais circunstâncias?” é uma questão estúpida a levantar. O casuísta levanta tal questão apenas para perguntar “Seria permissível fazer assim e assim?” ou “Seria permissível não fazer assim e assim?” Apenas se não fosse permissível não fazer assim e assim, poderia ele dizer “Esta seria a coisa a fazer”. Pelo contrário, apesar de ele poder falar contra uma acção, não pode prescrever nenhuma -- porque num caso efectivo, as circunstâncias (além das imaginadas) podem sugerir todo o tipo de possibilidades. Ora, o consequencialista não tem fundamento a partir do qual possa dizer “Isto seria permissível, isto não”; porque, pela sua própria hipótese, são as consequências que decidem, e não é da conta dele fingir que pode especificar que possíveis reviravoltas um homem pode dar fazendo isto ou aquilo; o máximo que pode dizer é: um homem não deve dar origem a isto ou aquilo: ele não tem direito de dizer que vai, num caso real, dar origem a tal e tal a não ser que faça assim e assim.”
G. E. M. Anscombe em ‘Modern Moral Philosophy’

7 comentários:

  1. Essa crítica ao consequencialismo é curiosa, principalmente porque me parece patentemente equivocada. Num caso real, sei bem que se puxar o gatinho de uma arma carregada apontando para uma pessoa especifica, causarei mais consequencias más que boas. Claro, talvez eu me engane em um caso ou outro, e talvez existam casos mais complicados de prever, mas a vida é assim mesmo...

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  2. Iago, foi mesmo à espera dessa resposta que eu publiquei esta passagem.

    Na verdade, se apontar uma arma para uma pessoa específica e a matar, eu não tenho ideia das consequências disso através do tempo. Vamos imaginar que essa pessoa se iria tornar uma assassina, ou que a criança que matei era na realidade alguém que fosse fazer algo semelhante ao que Hitler fez ou mesmo que essa pessoa seja inocente, o filho dela pode vir a tornar-se assassino ou o filho do filho pode sem querer envolver-se num acidente de autocarro mantando muitas outras pessoas, ou tornar-se um político corrupto que deixa o seu país na falência e assim por adiante.

    Se as nossas acções têm ramificações no futuro então parece-me muito difícil saber a priori as suas consequências. É claro que podemos dizer que o melhor que podemos fazer é confiar nas nossas capacidades epistémicas, mas isso implica algo de muito drástico em relação à maneira como pensamos sobre o certo e errado, porque se todas as ramificações da minha acção contam para determinar o seu estatuto deôntico então as nossas capacidades de previsão são tão más ao ponto de ser inúteis. Ou seja, se o consequencialismo (dos actos) é verdadeiro todos os casos são complicados...

    O que Anscombe está a dizer é que outras teorias éticas podem ao menos excluir, ou fornecer razões contra, certos actos em princípio.

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  3. Ok, mas ainda não concordo...

    Quanto mais vamos para o futuro, menos os eventos são consequências (diretas, ao menos) da minha ação. Por exemplo, se não atiro numa pessoa, ela não morre, e isso é uma consequência boa de minha (ausência de) ação. Se essa pessoa que não morreu se torna uma assassina e mata uma outra pessoa, isso já não é mais claramente uma consequência de minha ação. Antes, isso é uma consequência da criação dessa pessoa, ou dos atos dessa pessoa.

    Percebe? A pessoa não morrer claramente é uma consequência (direta) de minha ação. Essa pessoa matar outra pessoa já não é mais claramente uma consequência (direta) de minha ação. Claro que minha ação desempenhou um papel em ambos os casos, mas ela desempenhou um papel muito maior no primeiro que no segundo caso.

    Como minha ação é muito mais determinante para o primeiro caso que para o segundo, a moralidade da ação é muito mais determinada pelo primeiro caso que pelo segundo.

    Daí, não precisamos determinar TODAS as consequências (diretas e indiretas e remotas) de minha ação, mas apenas aquelas consequências que foram largamente determinadas pela minha ação.

    Que acha? Essa minha resposta convence mais?

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    1. Boa tentativa, mas acho que não me convence Iago.

      Não convence porque para um consequencialista se, por exemplo, por exemplo, o neto do neto da pessoa que eu decidi não matar se vai transformar num terrorista famoso, então a minha decisão de não matar é moralmente errada independentemente do facto de ele se tornar um terrorista não ser largamente determinado pela minha acção. Podes responder que então a minha acção não foi moralmente errada, porque só interessam as consequências largamente determinadas pela minha acção. Mas torna-se claro que foi, se acrescentarmos que o agente que não matou a pessoa x, sabia que o neto do neto desta se iria tornar um terrorista. No entanto, a posse do conhecimento pelo agente não influenciou de maneira nenhuma o facto da minha acção não determinar largamente o que se passou.

      Só aceitaria esse raciocínio mediante uma formulação precisa de consequências directas e indirectas e uma reformulação da tese que só as consequências directas é que determinam o estatuto deôntico da acção, mas o problemas é que não é nada trivial como e se isso pode ser feito de modo plausível.

      Mas posso estar errado nalgum ponto...

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  4. Hmm, ok... Confesso que já não acho mais a objeção de Anscombe irrelevante. Mas ainda não acho que seja uma objeção grave ao consequencialismo. Na verdade, acho que essa objeção mostra mais que o consequencialismo precisa de alguns refinamentos essenciais do que que o consequencialismo é incorreto.

    Uma teoria consequencialista não pode assumir que todas as consequências são relevantes para determinar o estatuto moral de uma ação, do contrário caímos nessa objeção. Minha intuição é que a restrição vai ser na linha de fazer alguma distinção entre consequências diretas (para as quais a ação foi determinante) e consequências indiretas (para as quais a ação não foi determinante).

    Confesso que por agora não sei como definir e tornar preciso essas noções. Mas acho que uma noção intuitiva dessas noções já tira a força dessa objeção.

    Sobre seu último exemplo, ele é realmente interessante. Mas acho que tem um problema. Seu exemplo só é plausível se imaginarmos que sabemos qual será essa consequência remota e pouco determinada pela ação. Mas justamente o fato dessa consequência ser remota e pouco determinada pela ação é o que previne de sabermos isso.

    O ponto central é esse: acho que a situação que você está imaginando é inconsistente com os termos da discussão. Ou você supõe que a consequência é remota e pouco determinada pela ação, ou supõe que sabemos que essa será uma consequência da ação. As duas coisas não dá.

    Ainda tenho um segundo ponto: mesmo concedendo tudo, ainda posso resistir à conclusão. Mesmo sabendo que essa será uma consequência de minha ação, ainda posso rejeitar minha responsabilidade moral nesse caso. Veja: sei que se não matar o sujeito, ele vira um terrorista. Mas que raios, se ele vira um terrorista, isso é consequência direta das ações dele e de responsabilidade dele, e não da minha!

    Acho que qualquer coisa nesse linha resolve para o consequêncialismo. Mas realmente precisa de refinamentos nesse sentido.

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    1. Iago, concordo quando você diz que "Uma teoria consequencialista não pode assumir que todas as consequências são relevantes para determinar o estatuto moral de uma acção, do contrário caímos nessa objecção."

      Mas, não concordo nem com a maneira como faz a distinção entre consequências directas e indirectas, nem acho que a distinção tire a força da objecção de Anscombe. E, mais, também não me parece que um consequencialista possa resistir à conclusão utilizando esse raciocínio sobre responsabilidade moral.

      Primeiro, quando dizes que as consequências directas são aquelas para qual a minha acção foi determinante e as indirectas são aquelas para qual ela não foi determinante estás a ignorar o facto de que em todos os contra-exemplos que apresentei a minha acção é determinante das consequências futuras. Isto é, foi porque eu não matei o tal sujeito que este teve a possibilidade de ter descendentes que geraram um holocausto num futuro longínquo. Ou, de outro modo, se eu tivesse morto o sujeito, a minha acção teria sido determinante para parar os seus descendentes de gerar o holoscausto num futuro longínquo.

      Segundo, a distinção intuitiva entre consequências directas e indirectas não tira a força da objecção de Anscombe porque os consequencialistas também têm de contar de algum modo, não só os resultados imediatos ou de curto prazo, mas os resultados de longo prazo, os efeitos colaterais, as consequências indirectas (afinal, seria desastroso dizer que o meu acto foi correcto porque as consequências directas foram boas, quando as indirectas são desastrosas).

      Terceiro, não me parece que a sua consideração diminua a força do meu exemplo, dado que podemos imaginar que viagens no tempo são possíveis e os meus descendentes futuros me avisam de que eu devo matar o tal individuo. A consequência continua a ser indirecta, porque longínqua no tempo e ligada causalmente ao meu acto por uma cadeia com uma enorme multiplicidade de elementos... No entanto, é óbvio que devemos matar o individuo, pelo que não podem só contar as consequências directas.

      E, por último, um consequencialista não pode resistir à conclusão que o acto de não matar o tal sujeito é impermíssivel (dado que não maximiza o valor das consequências), quanto muito pode resistir à conclusão que eu sou responsável pelas acções dele. Mas, não concedo mesmo isto, em qualquer teoria razoável da responsabilidade moral eu não posso ser apenas responsável pelo que eu faço, mas também pelo que outros vão fazer se eu lhes der meios para isso. Se um assassino me pedir uma arma, eu souber das suas intenções e lha der, então eu também sou parcialmente responsável pelo que acontecer dado que se lhe tivesse recusado a arma, então presumivelmente teria salvo os inocentes (a minha acção foi determinante para as acções dele, por isso eu partilho pelo menos alguma da responsabilidade).

      É claro que há uma solução para isto, que é dizer que só as consequências previsíveis é que contam (no meu exemplo da viagem no tempo, eu posso prever o que vai acontecer porque os meus descendentes mo disseram). Neste caso, esta objecção da Anscombe (ela tem mais) refuta o consequencialismo objectivo, mas deixa intocado o consequencialismo subjectivo (que diz que o estatuto deôntico de um acto depende do valor das suas consequências previsíveis, do ponto de vista epistêmico do agente).

      Há o problema de explicar a noção de "previsibilidade" implícita aqui... Previsível para quem? Mas é bastante mais fácil do que resolver o problema da inescrutabilidade das consequências futuras. A minha solução seria que o estatuto deôntico de um acto depende das consequências do ponto de vista de um agente que manifeste um nível de virtuosidade epistémica elevada ao tentar prevê-las. Apesar disso, outras objecções foram avançadas na literatura filosófica contra este género de perspectiva, nomeadamente, que os cálculos de utilidade se tornariam impossivelmente complicados.

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  5. Se à filosofia exige-se clareza, este texto sobre o Consequencialismo é de um barroquismo insuportável.

    E. A. de Azevêdo

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