23 de fevereiro de 2012

Filosofia da arte em Lisboa

Deixo aqui o anúncio do colóquio Actions in Art, a realizar na Universidade Nova de Lisboa no próximo mês. O colóquio conta, entre outros participantes, com dois dos mais destacados filósofos da arte da actualidade: Jerrold Levinson, da Universidade de Maryland (autor de uma extensa e influente bibliografia sobre quase todos os tópicos de filosofia da arte), e Peter Lamarque, da Universidade de York (que tem obra relevante sobretudo nas áreas da filosofia da literatura, da ficção e da metafísica da arte).

17 comentários:

  1. Aires

    A apresentação do professor Jerrold Levinson é ao meio-dia? Não consegui compreender muito bem a que horas é que começam as apresentações de cada um dos intervenientes, mas suponho que o número localizado à esquerda do nome se refira às horas que se iniciam cada uma das sessões do colóquio.

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  2. Aproveito para fazer esta pergunta a todos os contribuidores da Crítica, se me permitirem:



    Vou fazer o exame de filosofia enquanto aluno externo, na medida em que a realização deste exame será um bom incentivo para a revisão de matérias dadas no Secundário, já que penso seriamente em ingressar no En.Superior em filosofia.

    Que bibliografia recomendam a um estudante que deseja não só passar com proveito no exame mas também rever e aprofundar melhor tudo o que apreendeu no Secundário, podendo assim preparar-me para a licenciatura como adquirir alguma cultura filosófica sólida.

    Tenho comigo a obra "Elementos de Filosofia Moral" de James Rachels e obterei amanhã o livro "Lógica: Um Curso Introdutório" de W.H Newton-Smith. De resto, tirando os livros da Gradiva, desconheço outras referências bibliográficas recomendadas para um estudante no meu nível.

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  3. Essa pergunta é melhor fazer pessoalmente, por email, aos membros do blog. Em qualquer caso, o Aires deverá ser pessoa mais indicada para o ajudar, pois conhece melhor os programas e os exames. Eu estou há muito tempo afastado disso. Mas eu fiz com ele o Textos e Problemas de Filosofia, que poderá ser-lhe útil:

    http://criticanarede.com/textosproblemas.html

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  4. Eu acho que a melhor bibliografia para ler até ao exame é a primária... As "Conjecturas e Refutações" de Popper (não é preciso ler toda, só os capítulos relacionados com filosofia da ciência), "A Estrutura das Revoluções Científicas" de Kuhn, o "Discurso de Método" de Descartes (ou como alternativa "Meditações Metafísicas" ou "Os Príncipios da Filosofia" - uma chega), "A Investigação sobre o Entendimento Humano" de David Hume, os Prolegómenos de Kant e a Carta de Locke... Sobre a parte de Ética, aconselho a ver o curso de Michael Sandel Justice no youtube... Sobre filosofia Antiga, eu aconselhava a história de Anthony Kenny e já agora ler alguns diálogos de Platão... Sobre Lógica, o livro que indicaste é bom e também recomendava a ler alguns artigos da Crítica para as distinções conceptuais de base (O Professor António Zilhão também também tem um bom livro sobre o assunto, que acho que também se chama "Lógica").Mas bem, quando eu dizia aos meus amigos do secundário para ir ler os próprios filósofos cuja qualidade de exposição é muitas vezes superior ao de muitos manuais eles achavam-me doido, mas eu não percebo porquê... Ler os próprios filósofos é a melhor maneira de perceber as suas ideias e todos os que indiquei são claros (excepto Kant, mas com calma percebe-se bem o que ele quer dizer).

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    1. Não é bem assim, José. Para o jovem comum que se inicia no estudo da filosofia, ler directamente os próprios filósofos sem antes ser preparado para isso, é geralmente má ideia. Por várias razões,:

      1. A maior parte dos filósofos escreveram para outros filósofos ou para pessoas intelectualmente adultas, não para jovens estudantes de 15-17 anos;

      2. Mesmo aqueles que fizeram o esforço de escrever para todo o tipo de leitores (como Descartes, por exemplo), usam um tipo de prosa, uma linguagem e referências que escapam frequentemente aos jovens leitores do século XXI, perturbando assim a sua compreensão do que aqueles defendem;

      3. Frequentemente os próprios filósofos expõem as suas ideias e desenvolvem os seus argumentos a favor dessas ideias em lugares e de modos diferentes, revendo e refinando (muitas vezes em diferentes livros) as suas teorias.

      É para preparar o leitor para o confronto com os próprios filósofos que servem as introduções à filosofia. Se as introduções não são para introduzir, então não têm qualquer interesse. Assim, o mais natural é começar precisamente pelas introduções e, pouco a pouco, combinar isso com a leitura dos excertos mais relevantes dos próprios filósofos.

      Assim, faz tanto sentido começar por ler a Crítica do Juízo de Kant para compreender a concepção kantiana do juízo estético, como ler os Princípios de Filosofia Natural de Newton para entender a lei da gravidade.

      Frequentemente começar pela bibliografia primária é desastroso. Mas tem de se chegar lá, sem dúvida.

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  5. Embora possa ser verdade que os filósofos expõem melhor as suas próprias ideias, não me parece necessário. É perfeitamente possível que um artigo escrito por outrem exponha um argumento de um filósofo de uma forma mais clara e inequívoca do que fez o próprio. Aliás, esta possibilidade é a base de uma estratégia argumentativa, que consiste em anteciparmos versões mais robustas de um contra-argumento, para o tentar desarmar. Imaginar diferentes versões de um argumento exige que se domine claramente o argumento original.
    Até porque nada de especial há nos próprios autores. Se o que dizem faz de todo sentido não é primariamente graças a eles ou ao seu engenho literário, mas aos aspectos da realidade acerca de que o seu pensamento é. Nenhuma quantidade de clareza poderá transformar um pseudoproblema ou uma dicotomia imaginária num problema real. E os problemas reais estão aí para serem tratados, independentemente dos autores que pela primeira vez ou até por acidente os tornam visíveis.
    Há que evitar uma certa ideia mística de que os filósofos são a coisa mais porreira do mundo por serem os filósofos da tradição. São só uns gajos que pensaram nuns problemas. Não há uma lei da natureza que diz que são sempre os prosadores mais claros acerca do problema que os ocupou.

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    1. Vitor, apesar de haver bastante de verdade no que tu dizes, continuo a pensar que hoje se dá demasiada importância à bibliografia secundária comparativamente à bibliografia primária.

      Ler o especialista x sobre Kant, não é ler Kant, é ler o especialista x - que também pode ser enriquecedor de muitas maneiras, como melhor clareza da exposição e organização do raciocínio. Mas, tendo um enorme respeito pelos comentadores e exegetas, parece-me que quando tu dizes que "não há nada de especial nos próprios autores" estás errado. Eu leria qualquer texto de Kripke versus um texto de outro autor expondo Kripke todos os dias (se a escolha fosse um ou outro)... Porque mesmo que a exposição seja completamente fiel, a ler Kripke estamos a ver uma das maiores mentes vivas a pensar e isso ajuda-nos a pensar também, além de ser uma experiência enriquecedora em si(apesar de não ser importante ao nível do conteúdo do que ele está a dizer ou relevante para a cogência dos seus argumentos - admitindo que a exposição é completamente fiel, o que quase nunca acontece).

      Não concordo nada, nem acho positivo que se leia o comentário do autor X sobre o filósofo Y, a crítica do autor Z ao comentário do autor X, a resposta do comentarista N à interpretação do autor Z, quando o próprio filósofo que se está a estudar fica por ler. Curiosamente, isto acontece não apenas na filosofia mas também noutras áreas, como a Literatura, em que se deve ler os Clássicos(que toda gente pensa que conhece mas poucos lêem).

      Claro que nós não lemos, primariamente, o que Kant disse porque Kant o disse, mas antes porque nos ajuda a compreender melhor a realidade - apesar de também achar que ninguém contesta seriamente isso... E, já agora, é óbvio que eu não estou comprometido com a tese ridiculamente forte que ler os autores é sempre (em toda e qualquer circunstância, não importa a pessoa) a melhor maneira de os perceber... Penso ser claro que tencionava uma tese mais fraca... E também concordo que não é o caso que os filósofos são sempre os prosadores mais claros sobre as suas teorias, mas por alguma razão mantemos Kant nas nossas prateleiras (pelo menos da minha não sairá), apesar de haver muitos comentadores dele que são muito mais claros...

      Parece-me haver dois extremos a evitar, nem achar que os autores clássicos são os guardiões eternos de um saber do além, nem achar que "São só uns gajos que pensaram nuns problemas". O caminho do meio é pensar que os grandes filósofos são "uns gajos" de génio que construíram teorias perspicazes e imaginativas para explicar o aspecto da realidade com o qual estavam interessados... Nós lemos os grandes filósofos também, embora não exclusivamente ou mesmo primariamente, porque estamos a ver a genialidade em acção. Mas, claro, posso estar errado....

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  6. Caro Pedro,

    O Desidério já indicou o livro Textos e Problemas da Filosofia (Plátano) organizado por nós, que foi especialmente concebido para apoiar estudantes do ensino secundário. O livro percorre todos os temas do programa e cada problema tratado é acompanhado pelos excertos relevantes dos próprios filósofos, combinando o contacto directo com eles, ao mesmo tempo que prepara o leitor para a sua discussão.

    Além disso, há já boas introduções à filosofia em português. Destaco a de James Rachels, Problemas da Filosofia (Gradiva) e a de Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia (Gradiva) .

    Sobre cada uma das diferentes disciplinas filosóficas abordadas no programa de filosofia destacaria as seguintes:

    Sobre ética e sobre Lógica, as que o próprio Rui diz já ter.

    Sobre o problema do livre-arbítrio (metafísica), o livro do Rachels tem dois capítulos sobre isso. Mas também há o capítulo 6 de Enigmas da Existência, de Earl Conee e Theodor Sider (Bizâncio), bem como o capítulo 3 de Pense, de Simon Blackburn (Gradiva).

    Sobre epistemologia (conhecimento), mais uma vez as introduções atrás referidas (de Rachels e Warburton) assim como o cap. 1 do livro de Blackburn, são bons. E também há o cap. 5 de Sabedoria sem Respostas, de Daniel Kolak e Raymond Martin (Temas & Debates). Este tem ainda um capítulo sobre os valores, que é um dos temas do programa.

    No que diz respeito à filosofia política, a melhor introdução é a de Jonathan Wolff (Gradiva).

    Para a filosofia da religião é a de William Rowe (Quasi).

    Para a estética, sugeria o livro O Que é a Arte, de Nigel Warburton (Bizâncio), embora trate quase só do problema da definição de arte. Mas esse é também o problema claramente referido nas orientações para exame. Além disso há capítulos sobre estética nas introduções gerais referidas atrás.

    Quanto à filosofia da ciência é que não me parece haver grande coisa. Mas o cap. 5 de Elementos Básicos de Filosofia, de Warburton, é uma boa ajuda.

    Também se pode vasculhar na revista electrónica Crítica, onde há muita coisa (alguns textos e artigos são algo avançados, mas há outros mais acessíveis).

    Além disto, só faz falta um dicionário que possa ajudar a tirar algumas dúvidas. Sem querer fazer publicidade, penso que o Dicionário Escolar de Filosofia (Plátano), organizado por mim, é a ajuda adequada para o que pretende: http://www.defnarede.com/

    A 2ª edição em papel é bastante mais completa do que a electrónica.

    Sim, o Levinson irá falar às 12 horas.

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  7. Pronto, são só uns gajos de génio (seja isso exactamente o que for) que pensaram nuns problemas.
    Mas olha que não era óbvio não estares a defender a tese mais forte: "Ler os próprios filósofos é a melhor maneira de perceber as suas ideias." No máximo a leitura não foi caridosa, mas a formulação autoriza-o.
    Longe de mim a ideia de que se *deve* deixar de ler Kripke ou Kant para ler apenas comentadores. Não estava também a pensar em comentadores ou "especialistas", como os nossos professores gostam de lhes chamar (talvez por causa da nossa tradição de fazer teses com o formato "A Ideia de X em Fulano").
    Pensava antes em filósofos que discutem as ideias uns dos outros para tentar chegar a algum lado. Por exemplo, não estou a dizer para não lermos o que Kant diz sobre juízos estéticos, mas os momentos que foram para mim mais esclarecedores sobre o assunto não foram a ler a Crítica do Juízo mas a ler autores que teorizam o juízo estético e consequentemente discutem Kant. Nem sequer é no sentido de eles explicarem melhor ou dizerem a verdade que escapou a Kant, nada disso. Nem tem a ver com concordar, em último caso, com as teorias que eles defendem. Trata-se simplesmente de ser *na discussão* das ideias que elas sempre se me tornaram mais claras. Li o que Kant diz sobre juízos estéticos muito antes de chegar a uma compreensão razoável dos conceitos envolvidos na discussão e só compreendi a verdadeeira extensão do que Kant contribuiu para a estética ao ler as discussões posteriores. Não as exgeses textuais, mas o que diziam filósofos interessados em fazer avançar o estado do nosso conhecimento sobre propriedades estéticas, juízos estéticos, gosto, experiência estética, etc.
    Não me passa pela cabeça defender que se deve deixar de ler o Kant. A ideia era mais esta: tal como um músico pode explorar as implicações musicais de uma ideia mais exaustiva e claramente do que outro músico, o mesmo sucede na filosofia. Nenhum filósofo tem um acesso epistémico privilegiado às próprias ideias que trabalha. Eles próprios só ganham uma compreensão razoável das suas ideias na discussão com outros. Não se trata de dizer que podemos deitar fora a Crítica do Juízo, por exemplo, mas de dizer que é perfeitamente possível expor as ideias de Kant de uma forma satisfatória e muito mais clara do que o próprio conseguiu.

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  8. Deixem-me meter o bedelho, pois parece-me que em alguns casos é muito melhor ler directamente os filósofos, antes de qualquer outra coisa, e noutros casos é muito melhor exactamente o inverso. Daí que em penso que tanto o Aires como o José têm razão, mas estão talvez a pensar em livros diferentes.

    Seja-me permitido uma nota pessoal: o meu primeiro contacto com a filosofia foi lendo filósofos como Sartre. Achei interessante, mas não fiquei fascinado (note-se que li apenas as suas obras dramáticas). Quando cheguei ao décimo ano e tive filosofia na escola, achei aquilo um completo disparate: o manual escolar era pouco mais do que idiótico, e se aquilo era a filosofia, não me interessava de modo algum. De modo que nunca pensei em estudar filosofia.

    Mas depois, no décimo segundo ano, li as duas primeiras meditações de Descartes. Fiquei abismado porque aquele género de coisa era o que me fascinava, era o que eu fazia sem saber que era filosofia e era o que eu queria fazer porque era a minha vida.

    Portanto, a moral da história é esta: temos de comparar bons livros de filosofia, adequados para uma primeira leitura ingénua -- como alguns textos de Platão, Descartes, Berkeley, Hume, Russell, Ayer, Popper -- com bons manuais escolares e bons livros introdutórios. Se fizermos isto, vemos que tanto faz começar por um lado ou por outro, acabaremos por ler os dois: porque muita bibliografia primária não é inteligível sem ter estudado por um bom manual.

    Mas se compararmos maus manuais escolares e maus livros introdutórios com boas obras filosóficas particularmente adequadas para uma primeira leitura, é claro que ganham estas últimas. Por outro lado, se compararmos alguma da mais impenetrável bibliografia primária com os melhores livros introdutórios, então são estes claramente a ganhar.

    Será que estou a ver mal? O que acham?

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    1. Acho que tens toda a razão Desidério, as abordagens são complementares e não mutuamente exclusivas (para além que também dependem dos interesses do leitor).

      Sem me querer, de maneira nenhuma, tomar como representativo, eu tenho de admitir que tinha em mente, principalmente, o meu primeiro contacto com a filosofia há uns 6 anos... O livro era "Os Problemas da Filosofia" de Russell e a primeira frase era algo como:"Há algum conhecimento tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar?". Russell lá continuava na sua prosa notável a distinguir o modo como as coisas parecem, do modo como elas de facto são e criando na cabeça do leitor aquilo a que poderíamos chamar perplexidade filosófica. Ainda hoje acho que é das melhores introduções à filosofia para qualquer pessoa, o que mostra que mesmo um grande filósofo pode introduzir a disciplina a um público mais vasto (depois de Russell li rapidamente Descartes - uma das sugestões do livro - e também achei uma delícia Desidério!).

      Mas, isto não significa que os manuais e outra bibliografia secundária não sejam desejáveis, e mesmo necessários. Principalmente, quando são claros, organizados, escritos por alguém que sabe do que está a falar, dando um bom panorama geral da área...(só Deus sabe o que eu beneficiei das excelentes introduções e da série Arguments of the Philosophers, ambas da Routledge, inicialmente e ainda hoje!).

      Agora, a ideia que todos os grandes filósofos são inacessíveis à primeira leitura (mesmo a jovens normais de 15 a 17 anos) é falsa. Alguns não são, em alguns textos, como Russell, Popper e Descartes (apesar de outros serem, como Hegel ou Frege, por exemplo). O ideal é ter um bom manual e a leitura de alguns textos e obras claros, seleccionados de grandes filósofos, de modo complementar.

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  9. Desidério, a comparação que interessa é entre boas introduções aos filósofos e à filosofia e as obras dos próprios filósofos. De um modo geral, as boas introduções são sempre a maneira mais acessível de chegar aos filósofos.

    A tua experiência pessoal mostra outra coisa: que as introduções à filosofia (nesse caso, o manual de filosofia) que leste antes de leres Descartes era mau. E, claro, entre maus manuais e os próprios filósofos, é sempre melhor ler os filósofos.

    De qualquer modo, o que defendo é que se combine criteriosamente ambas as coisas, começando pelas introduções e ir gradualmente passando para os próprios filósofos.

    Já agora, para dar um exemplo de bibliografia primária relativamente acessível, pense-se no ensaio Do Padrão do Gosto, de Hume. Mesmo aí há dificuldades inesperadas, pois praticamente nenhum estudante do secundário está apto a compreender os exemplos que Hume dá quando compara uns poetas ou artistas com outros. São simplesmente desconhecidos dos alunos... e até da maioria dos professores.

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  10. Aires, Desidério e José

    Independentemente da discussão que se está a desenrolar aqui, agradeço imenso as vossas respostas e as referências bibliográficas dadas por cada um de vós.

    Tendo eu já lido algumas obras introdutórias, desde a "A arte de argumentar" de Anthony Weston passando pelas obras introdutórias de Thomas Nagel e de Nigel Warbuton (ambas traduzidas e publicadas pela Gradiva), procuro iniciar-me no estudo mais aprofundado das principais áreas da filosofia, sem que tenha de embarcar – pelo menos por enquanto – num estudo exaustivo.

    Quanto ao tema em discussão:

    Como principiante, interessa-me nesta altura que as leituras que faço me ajudem não só a entrar na filosofia propriamente dita como também para que me façam ver qual será o meu papel enquanto possível e futuro filósofo. Por isso mesmo, duvido imensamente que a leitura dos textos filosóficos dos grandes filósofos seja uma ideia sensata, pois carecendo de ferramentas necessárias para a sua interpretação ou compreensão, não irei perceber o essencial do que foi escrito. Falo por mim (tenho 18 anos e terminei o secundário no ano passado), mas acredito que este seja um problema de todos os que se encontram na mesma situação que eu, ou seja, daqueles que tiveram um contacto limiar com a filosofia e desejam aprofundar os seus conhecimentos.

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    1. Ou seja, és exactamente da minha idade (apesar de não me considerar representativo de todo, sei perfeitamente o que um leitor da minha idade curioso e inteligente é capaz de ler) ... Atenção, que eu não estou a dizer para começares a ler a Crítica da Razão Pura ao desbarato, mas se eu fosse a ti tentava ler o livro do Russell ou alguma das obras de Descartes, vais ver que não é nenhum bicho de sete cabeças... E, se achares muito difícil, também não perdes nada...

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  11. Um conselho que dou aos meus alunos é algo que aprendi com uma história que Carl Sagan conta sobre Einstein. Este andava a passear numa feira do livro e estava interessado num dado tema da física. Comprou um livro sobre o tema, mas rapidamente viu que precisava de dominar a geometria para o entender. Voltou à livraria e comprou um livro sobre geometria. Mas este não era introdutório e por isso Einstein não o podia entender. Voltou atrás e comprou um livro introdutório de geometria. Este já o entendeu completamente, e depois de o estudar passou para o outro e depois deste passou então para o primeiro que tinha comprado.

    A lição a tirar daqui é que nós mesmos podemos saber se estamos entendendo ou não o que estamos lendo. O que nunca devemos fazer é não entender, mas passar à frente e fingir que entendemos. Quando lemos filosofia seriamente não é como ler literatura: ler filosofia seriamente é estudar o texto atentamente e não avançar enquanto houver uma só palavra, expressão, ideia, argumento ou problema que não entendemos. Se começarmos a ver que a cada página há várias destas coisas que, honestamente, não entendemos, vamos procurar livros introdutórios que nos ajudem. O que nunca devemos fazer -- mas que infelizmente é prática escolar corrente nas zonas mais anémicas da cultura -- é fingir que se entende porque se consegue escrever comentários palavrosos e pseudo-eruditos, cheios de referências bibliográficas e com uma sintaxe assassina, mas que esconde o fundamental: não entendemos de facto plenamente o texto. Isto mata completamente a possibilidade de um trabalho de qualidade -- que pode ser muito modesto e meramente descritivo (um ensaio de 5 páginas a explicar cuidadosamente o que está em causa no primeiro capítulo do livro do Russell de que falou o José, mesmo que seja meramente descritivo, pode ser iluminante).

    Outra fonte de orientação bibliográfica são os amigos, colegas e professores mais conhecedores e experientes. Mas aqui é preciso ter cuidado, porque infelizmente muitas pessoas usam os conselhos bibliográficos só para exibirem a sua suposta superioridade, indicando livros ininteligíveis para um iniciante (e também ininteligíveis para quem o indicou, mas como ninguém lhe vai fazer perguntas de pormenor, ele safa-se).

    Dito isto, o Textos e Problemas que fiz com o Aires tem como um dos seus objectivos algo que disse o José: ajudar a ler e a entender os textos dos próprios filósofos. Os excertos que lá estão foram cuidadosamente escolhidos -- de acordo com o programa do secundário -- e são acompanhados de dois tipos de tarefas:

    1) Compreensão: nenhuma linha, ideia, argumento, problema filosoficamente relevante do texto estudado pode ser ignorado. Depois de se ler um excerto o leitor tem várias perguntas de interpretação que testam a sua compreensão do texto.

    2) Discussão: para fazer filosofia não basta compreender os textos dos filósofos; é preciso também saber discuti-los, e discuti-los não é fazer comentários sobre o que dizem os comentadores, mas antes perguntar se as ideias desses textos são plausíveis, se os argumentos são cogentes, se os problemas são genuínos ou se estão bem formulados. O nosso livro ensina também a fazer isso.

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