25 de fevereiro de 2012

Hilary Putnam

Se qualquer indício adicional fosse necessário do estado saudável da filosofia hoje, seria fornecido pelas hordas de intelectuais que se queixam que a filosofia é demasiado "técnica", que "abdicou" de qualquer preocupação com os problemas "reais", etc. Pois tais queixas têm sempre ocorrido precisamente quando a filosofia foi significativa e vital! Aristófanes achava Sócrates tolo e técnico; Berkeley era tido como rídiculo pela opinião leiga até que Hume e Kant apreciaram a importância do desafio que ele pôs; Hume e Kant, por sua vez, foram ridicularizados e mal compreendidos... O triste facto é que a boa filosofia é e sempre foi difícil, e que é mais fácil aprender os nomes de uns quantos filósofos do que é ler os seus livros. Aqueles que acham que a filosofia é demasiado "técnica" hoje, não teriam mais encontrado o tempo ou a inclinação de seguir as longas cadeias de argumento de Sócrates, ou de ler uma das Críticas, numa época anterior.
Philosophical Papers, Vol. II, pp. 132-133.

12 comentários:

  1. Muitas vezes, o que as pessoas querem por "não se ocupa dos problemas reais" é "não se ocupa daquilo que me interessa."

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    1. De muitas vezes aquilo que me interessa não é um problema real. Dá para os dois lados. A falácia é pressupor que só dá para um. Fred

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  2. E, outras vezes, querem dizer "problemas sobre os quais consiga dizer algo interessante e que consiga compreender bem, sem grande esforço e reflexão"...

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  4. Pasando por alto esa generalización indebida que hace Putnam, no estoy de acuerdo con lo que dice. La filosofía anglosajona hace tiempo que claudicó de abordar muchos problemas. Vació las clases de filosofía de cualquier contenido vital, y la convirtió en mera auxiliar de la ciencia. Puede que la filosofía tenga una salud formidable en EEUU, pero no en las facultades de la misma.

    Angelillo

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  5. José: totalmente de acordo. Acho que é isso, aliás, que leva muita a gente a rejeitar sem grande consideração problemas como o da definição de arte (ou das categorias de arte particulares). Há uma fustração envolvida naqueles assuntos acerca dos quais não se consegue discorrer durante muito tempo com observações sagazes ou manifestando erudição. As pessoas chateiam-se e exclamam "Não precisamos disso!" Bom, talvez os atenienses antigos pudessem dizer a Sócrates que não precisavam realmente de saber o que é a justiça, o bem, a verdade, a coragem, etc. Bastava-lhes reconhecerem intuitivamente certos actos corajosos, justos, bons, etc. e podiam viver na mesma. Mas isto é fugir à questão. Nunca esteve em causa se podemos ou não viver sem compreender adequadamente a natureza das coisas, dado que vivemos assim durante a maior parte da nossa história como espécie (o que inclui a nossa pré-história). A questão é... a natureza dessas coisas e a nossa curiosidade de conquistar mais um pouco que seja de compreensão.

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  6. Angelillo, a sua ideia sobre a filosofia anglo-saxónica (se é que isso existe) está muito errada. Algumas das áreas com enorme vitalidade nas universidades que refere são precisamente a ética (incluindo a ética prática), a filosofia política, a estética e filosofia da arte, que dificilmente podem ser consideradas como meros auxiliares da ciência. A sua ideia da "filosofia anglo-saxónica" é que esta se identifica com o positivismo lógico. Isso já lá vai há tanto tempo. Quando falamos de algo, não é má ideia estarmos informados sobre isso.

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  7. O comentário de Putnam está correcto, e não é uma generalização apressada. Na verdade, a maior parte dos escritos em filosofia não podem ser lidos como quem lê literatura ao fim-de-semana, sob pena de se perder o fundamental. Basta pensar em muitos pré-socráticos, como Parménides, ou os atomistas, assim como na maior parte dos textos de Platão e Aristóteles, dos estóicos, de Anselmo, de Ockham, de Tomás de Aquino, Boécio, Espinosa, Hume, Descartes, Kant, Locke, Berkeley, Leibniz e tantos outros para se ver que a ideia de que a filosofia só hoje é técnica (isto é, difícil) é falsa. Sempre o foi pela simples razão de que não é possível andarmos sempre ao nível do Paulo Coelho quando as ideias ficam muito complexas, seja qual for o tema escolhido.

    Mas Putnam falha em ver que em filosofia sempre houve duas tradições, que por vezes se conciliam, outras vezes não. As duas tradições são: por um lado, textos como a maior parte dos textos de Aristóteles ou Platão, com muita sofisticação e complexidade teórica e que está muito longe de ser auto-ajuda, ou de nos oferecer um discurso reconfortante. Mas por outro lado sempre existiu uma tradição de auto-ajuda, ou algo próximo disso, em filosofia. Não é à toa que muita gente fora das universidades pensa que a filosofia é precisamente isso. Alguns textos de Epicuro ou de Epicteto, de estóicos e de neoplatonistas, de Agostinho e de muitos outros são de facto algo como discursos de auto-ajuda, que visam reconfortar as pessoas e tudo isso.

    Quando as pessoas acusam a filosofia contemporânea de ter perdido o contacto com a realidade é disso que falam: querem textos como os de Séneca sobre a velhice e tal. Mas há aqui duas confusões.

    Primeiro, é falso que seja a filosofia analítica apenas que envereda pela filosofia mais técnica. Basta ler Derrida, Deleuze ou Heidegger para perceber que isto é falso; muitos dos seus textos são muitíssimo técnicos e não respondem propriamente de imediato às ansiedades humanas. Mas melhor ainda é ler o que hoje se escreve sobre esses autores, em artigos, livros e teses: dificilmente se encontra nesses textos o género de discurso literário reconfortante que as pessoas procuram. Encontra-se, antes, um discurso algo árido e interpretativo, cheio de tiques académicos e pouco dado a confortos espirituais.

    Segundo, é falso que não se trate na filosofia analítica de temas de grande importância humana -- apenas isso não é feito num discurso bíblico, digamos, que visa pelo seu próprio estilo reconfortar as pessoas, sendo o conteúdo algo irrelevante. Em filosofia analítica, mas não na continental, temos uma bibliografia imensa sobre o sentido da vida, por exemplo; mas é uma bibliografia sóbria, sem retóricas supostamente inspiradoras, e que procuram explicitar ideias, argumentos e teses, ao invés de sugerir maravilhas existenciais e antropocêntricas.

    Assim, Putnam tem razão: em qualquer período histórico encontramos escritos filosóficos muitíssimo longe do género de discurso literário fácil e reconfortante que as pessoas associam à filosofia. Mas é enganador o que ele diz porque também é verdade que em todos os períodos históricos encontramos muitos escritos filosóficos que são precisamente o género de discurso literário fácil e reconfortante que as pessoas associam à filosofia.

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  9. Desidério

    Engraçado que tenhas referido Séneca, já que eu li uma parte considerável das cartas que ele escreveu para Lucílio. Daí que concorde contigo quando caracterizas os textos dos estóicos como sendo discursos de auto-ajuda. Aliás, a ideia que eu tenho da filosofia feita na antiguidade tardia era que esta tinha apenas uma finalidade moral (de ensinar aos homens como deveriam de agir em função da virtude)

    Porém, eu trago aqui uma questão. Podemos considerar este tipo de literatura, seja senequaiana ou de outro género qualquer vulgarmente designada de filosófica verdadeiramente filosófica? Por verdadeiramente filosófica estou-me a referir a todo o tipo de textos que cumprem determinados requisitos, tais como a clareza e uma boa estrutura argumentativa (não sei se me fiz entender bem).

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