11 de Fevereiro de 2012

O que haverá de errado em não salvarmos “a vida que podemos salvar”?

 
Logotipo do projecto A Vida Que Podemos Salvar



Imaginemos a seguinte experiência mental:

Primeiro caso: encontro-me numa ponte e o Fernando (um menino de 5 anos) está a atravessá-la. Sem um bom motivo que o justifique, atiro o Fernando abaixo da ponte. O Fernando morre.

Segundo caso: sei que a ponte vai ser demolida às 15 horas e sei que o Fernando atravessa a ponte todos os dias a essa hora para ir brincar. Posso avisar o Fernando que a ponte vai ser demolida, mas, sem um bom motivo que o justifique, não o aviso. O Fernando morre.

Tanto no primeiro caso como no segundo fiz escolhas conscientes (agir ou não agir) e sem um bom motivo que as justificasse. O resultado dessas escolhas é o mesmo: a morte do Fernando.

Será que moralmente uma escolha é menos condenável do que a outra?

Moralmente sei que devo fazer o bem e não devo fazer o mal, mas no segundo caso não fazer o bem equivale também a fazer o mal. No primeiro caso sou assassino porque faço o mal e no segundo sou assassino porque não faço o bem.

Agora imaginemos que eu sei que a ponte vai ser demolida no momento em que vão atravessar, não uma, mas 24 mil crianças e eu posso tentar avisá-las.
Sei também que, por falta de tempo e de meios, tenho (poucas) hipóteses de salvar a vida de apenas algumas dessas crianças.
Sei ainda que, se não agir, ninguém me acusará de ter procedido incorrectamente mas, se agir, dificilmente apagarei da memória os milhares que não conseguirei salvar. E isso é só um dia… pois todos os dias são demolidas pontes em toda a parte e outros tantos milhares irão morrer. Ao final de um ano serão cerca de 10 milhões de crianças a morrer… e eu sou só um. Para mim seria muito mais fácil nem sequer pensar no assunto.

Alguém me arranja então um bom argumento para eu não agir?
Ou, se nada fizer, terei que me resignar a ser um genocida passivo?


(Ideia sugerida pela leitura do livro A Vida Que Podemos Salvar, de Peter Singer)

16 comentários:

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  4. A intuição que contraria o género de pensamento consequencialista que está sempre em causa quando Singer usa exemplos deste género é este: apesar de ser certamente virtuoso que eu faça algo para impedir alguém, ou muitas pessoas, de serem mortas, ou de passar fome, ou outras coisas desse género, eu não tenho qualquer dever de o fazer; fazê-lo é sobreerogatório, mas não obrigatório. Seria obrigatório se eu fosse a causa relevante desses infortúnios, ou se eu tivesse explicitamente contraído uma dívida para com eles. É esta intuição que explica que consideremos imoral que eu não pague o que comprei -- porque contraí no acto de comprar uma dívida -- mas não seja imoral não dar a essa pessoa exactamente o mesmo montante, de que ela precisa urgentemente para comer, numa circunstância em que não lhe comprei coisa alguma.

    O problema da ética consequencialista, na versão de Singer e noutras, é não distinguir o que é virtuoso fazer, mas não é obrigatório, do que é obrigatório fazer, e por isso mesmo não é sequer particularmente virtuoso, é apenas neutro. Do ponto de vista de Singer, qualquer pessoa tem a obrigação positiva de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para pugnar pelos interesses de quaisquer outros seres moralmente relevantes, ainda que com eles não tenha estabelecido qualquer relação moralmente relevante.

    Isto parece-me profundamente errado. Eu não tenho qualquer obrigação de salvar uma criança de morrer afogada, ou de cair de uma ponte; mas fazer isso é virtuoso porque é sobreerogatório. Mas o sobreerogatório por definição não é obrigatório: é opcional. Logo, segue-se que eu não sou imoral pelo facto de não mexer uma palha para salvar de morrer à fome dezenas de pessoas em África (note-se que eu sozinho não teria em qualquer caso recursos para salvar milhares delas).

    O aspecto em que Singer parece ter razão é comparando o caso em que passamos por alguém que está a morrer afogado e salvamos a pessoa, mas não o fazemos com os que morrem de fome em países distantes de nós. Pois neste caso parece que a pessoa tem dois padrões, inconciliáveis. Pois parece, mas não é. Pois a partir do momento em que compreendemos que é virtuoso e sobreerogatório salvar a pessoa de morrer afogada quando passamos por ela, vemos que é igualmente opcional. E como é opcional, a pessoa pode perfeitamente optar, sem contradição, por salvar apenas as pessoas que estão na sua proximidade e em certos casos e certas circunstâncias. Parece arbitrário e indefensável, mas não é -- precisamente porque se trata de actos sobreerogatórios.

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  5. Olá Desidério, pensemos então sobre o seguinte:

    Se consideramos imoral que “eu não pague o que comprei — porque contraí no acto de comprar uma dívida”, caso eu admita que a minha enorme “pegada ecológica” contribui, em alguma medida, para prejudicar terceiros, então seria meu dever ressarci-los pelos prejuízos causados.

    Ainda que conseguisse certificar-me que nada do que faço prejudica terceiros, seria muito estranho considerar moralmente aceitável o seguinte: imaginemos que me deslocava para uma zona de catástrofe humanitária, com milhares de pessoas a agonizar e a morrer e, como não teria qualquer obrigação moral de as ajudar (pois não as prejudiquei em nada), decidia dar azo ao meu divertimento preferido: queimar dinheiro.

    Será que isto é moralmente defensável?

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  6. Sim, é moralmente permissível uma pessoa que nada me deve pôr-se ao meu lado a comer um sorvete quando eu morro de fome. Apenas não seria virtuoso da parte dela. Mas se da parte dela fosse moralmente obrigatório ajudar-me e salvar-me a vida, eu não teria como explicar o meu profundíssimo sentido de gratidão; este seria irracional. Mas não é irracional: na verdade, se não sentir tal coisa, sou uma besta moral.

    Daqui segue-se que apesar de ser virtuoso, para usar o exemplo que deste, uma pessoa ajudar as pessoas que morrem de fome em vez de se entregar ao desporto de queimar dinheiro, não é obrigatório fazê-lo. Se o fosse, não poderia ser virtuoso.

    Eu penso que quando colocamos os exemplos sendo nós mesmos as vítimas as ideias ficam mais claras. Eu não sinto de modo algum que um desconhecido que não tem qualquer relação moralmente relevante comigo tem o dever de se atirar ao rio para me salvar de eu morrer afogado. E é precisamente por isso que, se ele o fizer, lhe fico muitíssimo grato, durante toda a minha vida.

    Uma sociedade em que se considera que toda a gente tem a obrigação moral de ajudar seja quem for que precise de ajuda dá origem a uma sociedade de ingratos, pois as pessoas contraem a doença de Rawls, que consiste em pensar que os mais ricos ou sortudos ou em melhor situação têm a obrigação completa de ajudar os outros. E assim os que são ajudados não sentem qualquer gratidão para com aqueles que os ajudam. É uma sociedade de ingratos.

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  7. Desidério, parece-me que estás a exagerar.

    Certamente que existe uma distinção entre o cumprimento do dever e ir para além disso, ou em outras palavras, entre o obrigatório e o supererogatório. Mas dizer que é legítimo estar a comer um gelado ao pé de uma pessoa que está a morrer de fome é certamente contra-intuitivo. Se alguém, literalmente a morrer à fome, me vem pedir comida, eu tenho obrigação de lhe dar. Não é apenas que seja simpático e gentil da minha parte dar-lhe comida, penso que é mesmo imoral se eu não lhe desse tendo em conta que seria responsável pela sua morte. Posso estar errado, mas penso que a maioria das pessoas pensaria que o que estás a dizer é extremamente contra-intuitivo. Ou seja, a distinção entre o obrigatório e o supererogatório realmente existe, mas não me parece que possa ser usado neste caso. Essa distinção é melhor utilizada em casos em que o custo para mim é considerável, o que não acontece no exemplo do gelado.

    A não ser que estejas a utilizar a expressão "morrer de fome" num sentido não-literal, mas mesmo assim, se a pessoa está a sofrer intensamente, eu tenho certamente a obrigação de acabar com o seu sofrimento se para o fazer lhe tivesse apenas de passar um simples gelado.

    De modo semelhante, no caso do homem do rio, se não houver perigo de me afogar (o que, do que me lembro, é algo que Singer assume) tenho certamente a obrigação de salvar o homem tendo em conta que o único inconveniente são as roupas molhadas e algum frio temporário. Se eu for a vítima a afogar-me certamente que penso que as outras pessoas têm a obrigação de me vir salvar (independentemente do facto de me conhecerem ou não), e eu não fico grato a elas porque elas fizeram um esforço imenso (neste exemplo específico) mas porque salvaram algo importante para mim (neste caso, a minha vida). Da mesma maneira, estou muito grato aos meus pais pelo esforço que despenderam a criar-me, mas não obstante, não deixa de ser a sua obrigação fazê-lo.

    Faz-me lembrar a notícia de uma criança que foi atropelada e uma data de pessoas passou sem fazer nada com a criança a esvair-se em sangue ao lado, certamente que essas pessoas fizeram algo de moralmente errado e impermissível e não simplesmente insensível mas dentro dos limites da moralidade.

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  8. Para clarificar: Isto não significa que o Singer não comete o erro que tu disseste que cometia. O problema é que a analogia mais sugestiva, para representar o que Singer diz, não é uma criança a afogar-se no lago, mas milhares de crianças a afogar-se num lago todos os dias. Certamente que eu não tenho de passar todos os dias a salvar crianças do lago, mas do facto de não ter obrigação de salvar todas as crianças não se segue que não tenha a obrigação de salvar algumas (ainda para mais se poder salvar parte dessas crianças sem grande custo para mim). Ou do facto de não ter de gastar todo o meu tempo e recursos a salvar crianças em Àfrica, isso não significa que eu não tenha obrigação de salvar algumas (principalmente, quando algumas só precisam de 10 euros por mês, o que é insignificante para a maior parte das pessoas na Europa e nos EUA).

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  9. Olá, José

    Talvez eu esteja a ver as coisas mal, mas parece-me difícil de defender que um agente moral que nenhuma relação relevante alguma vez teve comigo tem a obrigação de me salvar de morrer afogado. Não vejo que argumento razoável poderia sustentar tal coisa. E também não vejo como poderia não ser irracional da minha parte sentir-me muitíssimo grato.

    Penso que o que torna as coisas menos claras é o facto de termos relações muito complexas com muitas pessoas que não conhecemos; e nesse aspecto contraímos como que uma dívida perante essas pessoas. Eu escrevo num computador e estou a ganhar com o trabalho de Turing, que nunca vi na vida, e de muitos trabalhadores chineses, programadores norte-americanos, etc. Por isso, há um sentido em que as redes de obrigação são tão complexas que é mais simples admitir que um completo desconhecido tem a obrigação de me salvar.

    Mas, a rigor, se entre ele e eu não há qualquer relação moralmente relevante, ele não tem obrigação alguma -- pois se admitirmos que a tem, teríamos de explicar porquê.

    A impressão que tenho é que Singer confunde solidariedade virtuosa com obrigação moral, porque interpreta literalmente a ideia de Mill de que temos o dever de promover a maior felicidade do maior número de seres moralmente relevantes, e a menor infelicidade do menor número possível deles. Mas isto parece-me fazer de nós santos morais sobre-humanos; além de ser muito difícil de justificar adequadamente.

    Mas talvez eu esteja a ver mal.

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    1. Desidério, obrigado por me mostrares que a tese não é tão incontroversa como eu pensava, mas parece-me também que as maiores teorias de ética normativa implicam que é moralmente errado não salvar a criança.

      Se formos consequencialistas dos actos, certamente que temos o dever de salvar a criança no lago (porque é isso que tem as melhores consequências ou leva ao estado de coisas mais impessoalmente valioso). Mesmo que sejamos consequencialistas das regras, também haverá uma regra a dizer "Salva pessoas" e, mesmo que um consequencialista das regras queira não ser muito exigente, a restrição que provavelmente adicionará será "A não ser que isso seja extremamente custoso para ti" ou "a não ser que isso leve ao desastre (para ti ou para outros)", para evitar casos como termos de dar o máximo de dinheiro possível à caridade mas ainda assim obrigar-nos a dar algum.

      Se subscrevermos a uma deontologia moderada como a de Ross, há um dever prima facie de prevenir males (previne danos a outras pessoas que não tenham sido causados por ti) e outro de beneficiência ("promove o bem-estar de outros") que se aplicariam aqui.

      A ética das virtudes é um campo mais heterogéneo e não é claro como a distinção moralmente obrigatório, moralmente supererogatório se aplique na maior parte das versões comuns. A minha proposta é assim: Um acto é moralmente permissível se e só se é aquilo que um agente moralmente vicioso caracteristicamente não faria. Um acto é moralmente obrigatório, se e só se é aquilo que um agente moral virtuoso não poderia não fazer. E, um acto é moralmente supererogatório se e só se é aquilo que um agente idealmente virtuoso faria, mas mesmo assim um agente virtuoso poderia abster-se de fazer.
      E, neste caso, um agente moralmente virtuoso teria de salvar uma criança do lago porque senão estava a quebrar a regra correspondente à virtude da caridade "Sê caridoso", mas poderia abster-se de salvar todas as crianças do lago, porque não é obrigado a ser idealmente caridoso ou maximamente caridoso.
      Estou-me a lembrar principalmente da ética das virtudes da Hurstouse (que, do que me lembro, nunca trata da questão do supererogatório), por exemplo, em que um agente deve seguir regras como "Sê beneficiente" ou "Sê caridoso" e aqui estaria a quebrar essas regras.

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    2. Mas agora, admito que não consigo pensar em nenhum argumento decisivo para te convencer que há deveres para com outros independentemente de os conhecermos ou não. Talvez, o melhor que consiga fazer seja argumentar por analogia. Da mesma maneira em que tens o dever de de ser honesto, independentemente de os conhecer, também tens o dever de os ajudar, independentemente de os conhecer. Não vejo porque é preciso que os conheças para ter o dever de os ajudar, mas não seja preciso que os conheças para ter o dever de lhes ter de dizer a verdade. Agora, admito que se não os conheces e não relação entre vocês, não tens obrigações especiais (como terias com amigos ou família), mas isso não implica que não haja obrigações do todo.

      Em relação ao Singer, já disse que concordo contigo. Acho é que do facto de não termos a obrigação de ajudar o máximo número possível de pessoas independentemente das consequências para nós, não se pode concluir que não temos a obrigação de salvar nenhuma pessoa, principalmente quando isso não tem grandes consequências para nós. É claro que não tens obrigações para com ninguém especificamente, mas ainda assim parece-me que há uma obrigação de ajudar, embora não seja para com ninguém especial, da mesma maneira que há o dever de não roubar, embora também não o seja para com ninguém em especial. Ou seja, não há apenas deveres negativos "Não roubes", "Não mintas", mas também deveres positivos "Impede que os outros sejam magoados desnecessariamente", "Promove o bem estar dos outros". Mas agora, do facto de termos de promover o bem estar dos outros para sermos agentes morais minimamente respeitáveis, não se segue que não tenhamos de fazer tudo ao nosso alcance para promover o bem estar dos outros, independentemente das consequências para nós, assim como apesar de termos o dever de cumprir as nossas promessas, não se segue que tenhamos o dever de fazer tudo ao nosso alcance para cumprir as nossas promessas, independentemente as consequências para nós.

      Mas também posso estar errado.

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  10. Desidério

    Gostava de lançar algumas questões simples, que fogem um pouco ao tema da discussão que estás a ter aqui com o José, mas que gostava de colocá-las na mesma se permitirem:

    "Sim, é moralmente permissível uma pessoa que nada me deve pôr-se ao meu lado a comer um sorvete quando eu morro de fome. Apenas não seria virtuoso da parte dela. Mas se da parte dela fosse moralmente obrigatório ajudar-me e salvar-me a vida, eu não teria como explicar o meu profundíssimo sentido de gratidão; este seria irracional. Mas não é irracional: na verdade, se não sentir tal coisa, sou uma besta moral."

    Imaginemos o seguinte o caso: Eu encontro-me sentado num autocarro num lugar destinado para pessoas fisicamente debilitadas ou incapazes de prosseguir uma viagem em pé (idosos, deficientes motores, lesionados, grávidas ou pessoas que levem consigo crianças ao colo). Vejo entrar no autocarro uma pessoa assim, e eu opto por me levantar do lugar para que se sente ela ali.

    Se a intenção que me leva a levantar-me for apenas a crença moral que devo, seja em qualquer circunstância, ceder o meu lugar em qualquer transporte que me desloque a qualquer pessoa fisicamente debilitada ou incapaz de prosseguir uma viagem em pé, e não tanto a obrigação de que devo fazê-lo pois estou sentado num lugar destinado para estes fins, não haverá algum "virtuosismo" no meu acto?

    A questão da gratidão ser um sentimento irracional - quando profunda - parece-me bastante controversa. Julgo perfeitamente normal que uma pessoa se sinta profundamente grata por tido sido resgatada de um prédio em chamas por um bombeiro. Mesmo que constitua um dever/obrigação moral para o bombeiro salvar a vida dessa pessoa, esta de certa medida poderia acabar por ficar deveras grata ao bombeiro, nem que seja por este ter sido corajoso ou por ter cumprido um dever inerente ao seu trabalho. Poderia ela explicar a graditão que ela sente desta forma, julgo eu. Tal como tu próprio dizes, se ela não sentisse gratidão, seria uma "besta moral". A mim custa-me apenas ver a irracionalidade numa gratidão exagerada, mas provavelmente devo estar a fazer alguma confusão.



    PS: Peço desculpa por qualquer eventual erro conceptual, linguístico ou de raciocínio

    Pedro Ferreira.

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  12. Obrigado pelas vossas inteligentes objecções. Uma maneira de insistir na racionalidade da gratidão quando a outra pessoa se limitou a fazer o que tinha o dever de fazer é esta: é adequado sentir gratidão porque a pessoa poderia facilmente não o ter feito; e sentimos tanta mais gratidão quanto mais o que ela fez, apesar de ser o seu dever estrito, ser muitíssimo importante para nós. Penso que quem se opõe ao que eu defendi tem de ir por algo como esta via.

    O que isto significa é que esta pessoa terá agora de negar que seja racional da minha parte, perante duas acções que valorizo por igual, que eu sinta mais gratidão quando uma delas não era obrigatória (a outra pessoa não tinha o dever de a realizar) e a outra o era. O que talvez não seja fácil de defender.

    Outra via de ataque ao que defendi procura basear-se apenas na lógica dos conceitos morais. Seja O o conceito de obrigação e P o conceito de permissibilidade. Parece que se aceitamos algo como "O ~q" (é obrigatório não matar, por exemplo), temos de aceitar, por razões puramente lógicas, "~P q" (não é permissível matar). Por outro lado, se aceitamos "Pq" (é permissível nadar), temos de aceitar "~O~q" (não é obrigatório não nadar). Ou seja, há uma equivalência óbvia entre O e P por meio da negação. Contudo, a minha posição parece implicar que apesar de não ser permissível matar um desconhecido com o qual nunca tive quaisquer relações moralmente relevantes, não é obrigatório salvá-lo de morrer afogado. Isto parece violar a lógica dos conceitos de obrigação e permissão, dado que se não é obrigatório salvá-lo, então é permissível não o salvar; e se não é permissível matá-lo, então é obrigatório não o matar. Deste modo, eu teria ou de 1) negar a lógica óbvia dos conceitos de permissibilidade e obrigatoriedade ou de 2) insistir numa diferença crucial entre obrigações negativas, obrigações de não interferência, e obrigações positivas, obrigações de interferência. A via 2 parece-me a mais promissora.

    Apesar de isto ser difícil, parece-me bastante razoável. O que não me parece de modo algum razoável é a ideia de que cada um de nós tem de andar a fazer de Jesus Cristo, e que se o não fizer é imoral. Eis outro argumento positivo a favor da minha posição, dirigindo-me a um consequencialista: uma sociedade moral bem organizada tem de fazer uma divisão do trabalho moral tal como faz uma divisão de qualquer outro trabalho. Isto significa que temos obrigações positivas com aqueles com os quais entramos directamente em relações moralmente relevantes. Não aceitar isto seria um caos, comigo a ter de sair de casa a toda a hora para ir dar de comer aos filhos distantes de pessoas que não conheço, ou para lhes dar um pedaço de chocolate de cada vez que como um.

    Mas talvez eu esteja a ver mal.

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  13. "Obrigado pelas vossas inteligentes objecções. Uma maneira de insistir na racionalidade da gratidão quando a outra pessoa se limitou a fazer o que tinha o dever de fazer é esta: é adequado sentir gratidão porque a pessoa poderia facilmente não o ter feito; e sentimos tanta mais gratidão quanto mais o que ela fez, apesar de ser o seu dever estrito, ser muitíssimo importante para nós. Penso que quem se opõe ao que eu defendi tem de ir por algo como esta via.

    O que isto significa é que esta pessoa terá agora de negar que seja racional da minha parte, perante duas acções que valorizo por igual, que eu sinta mais gratidão quando uma delas não era obrigatória (a outra pessoa não tinha o dever de a realizar) e a outra o era. O que talvez não seja fácil de defender."


    Percebo Desidério. De um ponto de vista estritamente racional, seria mais ajuizado o sentimento de gratidão de um homem resgatado de um fogo por alguém que voluntariamente se ofereceu para o resgatar do que um homem resgatado por um bombeiro. No primeiro caso, tal como tu disseste, haverá algum virtuosismo, pois de facto trata-se de um acto corajoso, não havendo propriamente uma obrigação moral por parte do voluntário em ir salvar essa pessoa. No caso de um bombeiro, estamos perante alguém que têm o dever moral de resgatar o sujeito em perigo.

    Haveria talvez, arrisco-me a dizer, algo de mais belo e moralmente interessante no acto voluntário do que no acto do bombeiro. Portanto é capaz de existirem mais factores que tornariam a gratidão do beneficiado face ao voluntário do primeiro caso mais relevante do que no segundo, torando assim a gratidão perante um acto voluntário mais racional.

    Claro que uma pessoa sentir-se-ia – julgo eu – bastante grata perante uma pessoa se acção praticada pelo seu benfeitor fosse importante para ela. Pegando num exemplo trivial, posso sentir-me muito grato por, estando perdido numa localidade, ter sido ajudado por um polícia com algumas indicações geográficas. Resta-me apenas concluir, já que não sou capaz de prosseguir numa defesa aprofundada da racionalidade de uma gratidão perante uma acção estritamente obrigatória; que mesmo nestas situações em que gratidão seja um sentimento irracional, trata-se apesar de tudo um sentimento agradável, conveniente para as relações sociais estabelecidas entre os homens e moralmente permissível.

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