27 de fevereiro de 2012

P. T. Geach

Penso efectivamente que para o uso de uma palavra como nome próprio tem de haver em primeiro lugar alguém em contacto com o objecto nomeado. Mas a linguagem é uma instituição, uma tradição; e o uso de um dado nome para um dado objecto, como outras características da linguagem, pode ser transferido de uma geração para outra; o contacto exigido para o uso de um nome próprio pode ser mediato e não imediato. Platão conhecia Sócrates e Aristóteles Platão, e Teofrasto Aristóteles, e assim por diante numa sucessão apostólica até ao nosso tempo; é por isso que podemos legitimamente usar "Sócrates" como um nome do modo como o fazemos. Não é o nosso conhecimento desta cadeia que valida o nosso uso, mas a sua existência (...)
"The Perils of Pauline", 1969 (reimpresso no seu livro Logic Matters)

8 comentários:

  1. Ou estou deixando escapar algo aqui, e minha pergunta será ingênua, mas e objetos que não existem? Como se estabelece a cadeia?

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  2. Há o problema dos "nomes descritivos". Considere a alcunha "Jack the Ripper". Aqui não houve "contacto com o objecto nomeado". Nesse caso, "Jack the Ripper" parece significar algo como a descrição definida "a pessoa que cometeu tais-e-tais assassinatos".

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  3. Quem defende que os nomes mais comuns, como nomes de cidades e de pessoas, são estabelecidos na presença do referente não está obrigado a defender que isso acontece com todos os nomes. Alguns nomes podem, e são certamente, introduzidos por meio de descrições, como é o caso de "Jack, o estripador" ou "Osvaldo" (tendo eu estipulado usar este nome para o primeiro ser humano que contactar com extraterrestres inteligentes).

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  4. Obrigado pelo comentário, Desidério. Concordo com o que você escreveu. A minha ideia era apenas que há algo de contingente (ou de inessencial) com a sugestão que, para o uso de um nome, "tem de haver em primeiro lugar alguém em contacto com o objecto nomeado". Imagine um mundo como o nosso, exceto por um ponto: todas as crianças lá receberam seus nomes antes de serem concebidas. Nesse mundo, portanto, todas as pessoas foram nomeadas sem qualquer contacto. Apesar disso, o uso de nomes próprios nesse mundo não seria diferente do nosso. De fato, isso já acontece no nosso mundo. Algumas crianças recebem seus nomes antes de serem concebidas. Isso, entretanto, não parece fazer nenhuma diferença para a semântica (ou para o uso) desses nomes.

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  5. Sim, é defensável que Geach está errado ao concordar com Russell que um nome logicamente próprio, ou genuinamente próprio, obriga a estar em contacto com o objecto nomeado. Mas a ideia original de Russell, com que Geach concorda, não é assim tão descabida; não vejo dificuldade em insistir que os nomes próprios introduzidos por via de descrições definidas não são nomes genuinamente próprios, mas apenas descrições definidas abreviadas. Portanto, no seu exemplo, Russell e Geach diriam que não há nomes genuinamente próprios.

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  7. elvisbr, a sua pergunta não é nada ingénua. Muito pelo contrário, diria que foi bastante perceptiva para alguém não familiarizada com o tema. Esse é um problema em progresso para teorias causais da referência, como no caso de entidades ficcionais como o "Sherlock Holmes".

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  8. "N. próprio: o que designa individualmente os seres e que se aplica especialmente a pessoas, nações, povoações, montes, mares, rios etc." (excerto do dic. Michaelis)
    O mote e as glosas de vocês vem a calhar de bizantinice.
    Imagine, um indivíduo da espécie humana que vocês chamam de objeto possui um código, uma identificação e para que ele exista eu tenho que conhecê-lo?
    Anjo é substantivo gente. Gabriel também. Anjo Gabriel existe tanto como os 180 graus de qualquer triângulo. Porém, não tenho contato com nenhum desses entes. Então vamos deletá-los?
    Outra coisa: por que o "administrador do blog" ou "censor", de nome ípsilon (vejam quantas denominações) não conheço, logo, não deve existir, entretanto, esse fantasma não explicou a razão da censura ao rapaz = anônimo. Será que é por desconhecê-lo?
    Ah, não tenho como selecionar perfil. Muita muvuca na cachola
    Meu nome é Fernando Garcia e tenho certeza que existo.

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