23 de março de 2012

Frank Arntzenius - Espaço, Tempo e Coisas



Frank Arntzenius, professor em Oxford, previamente de Rutgers, e um dos mais criativos e engenhosos filósofos da física por consenso geral, publicou este mês o seu já há muito aguardado primeiro livro sobre Filosofia da Física.
Neste livro, Space, Time and Stuff ele defende que o espaço e o tempo não são constituídos por pontos (ou seja, não têm partes indivisíveis), que a Mecânica Quântica é uma teoria completamente local (nada de causação à distância!), que as anti-partículas são apenas partículas a viajar para trás no tempo e que o tempo não tem qualquer estrutura. Mas a tese fundamental do livro é que as propriedades físicas são apenas propriedades geométricas, em que um exemplo seria que a propriedade física de ter carga eléctrica positiva é idêntica à propriedade geométrica de estar localizado num espaço de 'carga' (uma dimensão ou dimensões adicionais a juntar às outras quatro).
Para filósofos de outras áreas, revela-se interessante o ataque à tese que a divisão de particulares em tipos é sobretudo uma questão convencional de classificação científica, mostrando que se tal fosse verdade a teorização científica seria impossível. A tese defendida, que os particulares têm propriedades não-triviais essencialmente a ser descobertas pela ciência, apesar de ser muito popular entre os metafísico contemporâneos, tem-se revelado particularmente controversa nas filosofias das diversas ciências particulares.
Uma excelente obra, mas não para fracos de coração (é possível ver um esboço do oitavo capítulo aqui).

PS: Acabei de saber que o Professor Frank Arntzenius vai mudar de Filosofia da Física para Filosofia Política, alegando que os avanços mais recentes na Física e Matemática actuais se estavam a mostrar demasiados para acompanhar. Uma notícia desencorajadora para futuros filósofos da física.

5 comentários:

  1. Olá!

    Aquilo que mais me surpreende neste texto, é a ameaça que se vislumbra no post scriptum. Se pensarmos um bocado, parece cada vez mais evidente que, pelo menos em alguns temas e disciplinas, que um filósofo que queira pensar sobre esses campos não o possa fazer (e futuramente, a minha previsão, é que não consiga de todo o fazer) pensar sobre esse tema, devido À quantidade absurda de informação, ou 'avanço científico'.
    Aqui é que me parece haver razão para a extinção dos filósofos, e não devido a qualquer outro aspecto.
    Não sei qual é a vossa opinião?
    Grande abraço!
    Luís Inácio

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  2. Há várias coisas a ser ditas como resposta a essa preocupação. A primeira é que há especializações dentro da própria filosofia: epistemologia, metafísica, filosofia da linguagem, filosofia da mente, ética, filosofia política, estética, filosofia da matemática, filosofia da ciência em geral, filosofias das ciências particulares (física, biologia, psicologia, ciências sociais...) e por aí adiante. O perigo de os filósofos não conseguirem acompanhar o avanço científico só aparece nalgumas destas áreas (filosofia da matemática, filosofia da física e filosofia da biologia). Mas, há que perceber que as melhores universidades do mundo oferecem cursos de filosofia junto com outro tópico (por exemplo, filosofia e matemática, filosofia e física ou filosofia e psicologia) para que os praticantes tenham uma formação extensa na área sobre a qual vão fazer filosofia. No caso da filosofia da física, há pessoas como Craig Callender, Tim Maudlin, Adolf Grunbaum, John Lucas, Quentin Smith e Richard Healey, por exemplo, cujo conhecimento da física moderna é profundo e actualizado. Para além do mais, nem toda a informação científica é relevante à teorização filosófica, só parte, pelo que o perigo de o filósofo estar acima das suas capacidades é diminuído.

    Sobre esta mudança de campo do Professor Arntzenius, o tempo que tinha de dedicar por dia a estudar física e matemática foi apenas uma das considerações que o levou a mudar de área (outra foi que queria fazer algo que fosse conciliável com as suas actividades de activismo político) e tenho a certeza que se lhe perguntassem ele era capaz de indicar pessoas que conseguem fazer o que ele já não consegue (manter-se a par dos avanços mais recentes). O que isto indica é que se alguém quer especializar-se em filosofia da física tem de estar disposto a passar muito tempo a estudar (mais do que os seus colegas noutras áreas), mas não se deve inferir disto uma espécie de pessimismo exagerado sobre as capacidades dos filósofos a acompanhar o que os cientistas fazem (até porque há pessoas que conseguem fazê-lo).

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  3. Acredita-se que a evolução da ciência seja tal que impossibilite ou inviabilize, muito em breve, seu dialogo com a filosofia. Ora, por sua natureza, a filosofia é também dialogo, neste sentido seria interessante perguntar se uma ciência que ultrapasse as condições de dialogo, de comunicação já não se teria tornado estéril? A física se teria tornado uma atividade iniciatica?
    A física quântica denota na atualidade um numero razoável de teorias que buscam sintetizar o emaranhado de partículas, de ‘fios’, cordas e forças que se supõem gerir ou ordenar o Universo desde seus aspectos mais colossais aos mais sutis. Crê-se numa relação causal ou caótica a ligar o micro-universo ao macro-universo. Divide-se micropartículas para se “observar”, para conhecer momentos singulares na história do Universo. ‘Olha-se’ para a “partícula-instante” a fim de inferir dela a origem do tempo, do espaço, do movimento.
    A crescente complexidade das teorias físicas abre a porta para um universo paralelo, donde em breve, ao que parece, receberemos somente fragmentos de informação?
    Como os fragmentos de um enorme quebra-cabeça cuja imagem oculta nós não temos a menor idéia. Parece absurdamente irônico que em breve tenhamos que criar jogos de linguagem, ou novas teorias que sejam capazes de explicar, de esclarecer e tornar inteligível as teorias físicas em suas cada vez maiores complexidades. Será este o destino da Filosofia da Ciência?

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  4. O novo link para o texto: https://files.nyu.edu/cd50/public/papers/CalculusAsGeometry.pdf

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