2 de março de 2012

Haack sobre a justificação da dedução

Susan Haack publicou em 1976 um artigo intitulado "The justification of deduction", em que apresentou um argumento breve, mas poderoso, que constitui uma objecção a todas as tentativas de justificar a dedução, quer sejam convencionalistas ou não convencionalistas, quer apelem à metalógica ou não apelem.

Haack pensa que existe um problema da dedução de modo semelhante que existe um problema da indução (justificações dedutivas da indução são demasiado fortes, justificações indutivas da indução são circulares).

O argumento dela pode ser formulado da seguinte maneira:

(1) Toda a justificação ou é dedutiva ou não dedutiva (por exemplo, indutiva ou abdutiva).

(2) Por um lado, uma justificação dedutiva da dedução seria circular, dado que a validade da dedução é pressuposta na tentativa de mostrar que as deduções preservam a verdade (isto é, que as deduções são válidas!).

(3) Por outro lado, uma justificação não dedutiva da dedução é demasiado fraca, porque, na melhor das hipóteses, só mostraria que na maior parte dos casos, quando as premissas de um argumento dedutivamente válido são verdadeiras, então a conclusão também o é.

(4)Logo, a dedução não pode ser justificada.

Para uma perspectiva oposta à de Haack, ver Dummett aqui e, para ver a crítica de Haack a Dummett, ir aqui.

Será que é possível (ou necessário) justificar a dedução? Haverá algum problema análogo ao problema da indução? Será que há um problema da indução para começar?

E, o que pensam os leitores?

2 comentários:

  1. A conclusão de que a dedução não pode ser justificada parece falsa. Podemos dar várias justificações para o modus ponens, por exemplo:

    Uma justificação pela intuição. Grosso modo seria algo como: intuitivamente funciona; logo, funciona.

    Uma justificação por conservadorismo epistêmico. Grosso modo: já acredito que funciona, e ninguém mostrou que não funciona; logo, funciona.

    E por aí afora.

    Uma possível objeção para essas justificações seria a seguinte: "Isso é circular. Sua justificação é que intuitivamente funciona; se intuitivamente funciona, então funciona; logo, funciona. Mas isso pressupõe o modus ponens".

    Minha resposta a isso é a seguinte: você pode reconstruir meu argumento como um modus ponens. Mas não precisa fazer isso. Ele está bom da maneira que estava inicialmente...

    É verdade que essas justificações não dão toda a força que gostaríamos que a dedução tivesse. E nisso concordo com a Haak. Mas aceito com esse ponto sem problemas.

    Agora, acho que tem uma assimetria importante entre dedução e indução. No caso da dedução, temos um tratamento bem sistemático. Mas no caso da indução, não temos muito tratamento sistemático.

    Isso é um pouco circunstancial, mas acho que isso nos dá uma confiança a mais na dedução...

    P.S. Li o artigo meio por cima apenas, então meus pontos são mais uma intuição geral que tenho do problema...

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  2. "Uma justificação pela intuição. Grosso modo seria algo como: intuitivamente funciona; logo, funciona."

    Bem, nós não aceitamos a justificação por intuição para tudo... Seria preciso uma teoria substancial da intuição para consubstanciar isso. Para além disso, insistiria que dada uma concepção razoável de intuição só poderias tirar uma conclusão mais fraca - o raciocínio por intuição não é dedutivo, afinal de contas - "Na maior parte dos casos funciona", mas isto não é o pretendido.

    "Uma justificação por conservadorismo epistêmico. Grosso modo: já acredito que funciona, e ninguém mostrou que não funciona; logo, funciona."

    Esta inferência é falaciosa. Compare-se: "Já acredito que o meu horóscopo funciona e ninguém mostrou que não funciona; logo, funciona." O conservadorismo epistêmico soa mais a confissão de ignorância...

    É verdade que podemos formalizar grande parte do raciocínio dedutivo (mas não todo, como de "Eu sou solteiro" para "Eu sou um homem não casado"), por oposição ao indutivo. E, é verdade que isso nos dá mais confiança, mas não satisfaria um céptico...

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