6 de março de 2012

John Stuart Mill

Não me parece que qualquer comunidade tenha o direito de forçar outra a ser civilizada. Desde que os que sofrem com a má lei não peçam a ajuda de outras comunidades, não posso admitir que pessoas que nada têm a ver com elas intervenham e exijam que se deva acabar com um estado de coisas com o qual todos os directamente interessados parecem estar satisfeitos, só porque esse estado de coisas constitui um escândalo para pessoas a milhares de quilómetros de distância, que nada têm a ver com isso e a quem tal não diz respeito.

12 comentários:

  1. o maior filósofo do século 19 sem nenhum concorrente dentro ou fora da ilha.

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  2. Depende da razão da "escandaleira". Ou não? Pode haver boas razões para intervir numa situação de injustiça grave, ainda que as vítimas não tenham disso consciência. Ou estarei enganado?

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  3. Poderei estar a ver mal o argumento usado por Stuart Mill, mas usando-o e aplicando-o noutros contextos, torna-se evidente a imoralidade de quem deseja prestar auxílio a indivíduos que não pretendem ser de modo algum ajudados. O que me faz confusão é se não será de todo permissível se alguém intervir na vida de uma pessoa em benefício desta (suponhamos que ela era extremamente pobre e que precisava de ajuda monetária para sobreviver), mesmo que esta não esteja de modo algum interessada em ser ajudada (poderá sentir-se um algo satisfeita como o seu estado). O problema que eu vejo na defesa desta afirmação é que ela é um pouco paternalista. Resta-nos então saber se em certos casos, havendo pessoas que de forma voluntária desejam viver miseravelmente, se justifica de algum modo a intervenção de alguma entidade capaz de lhes assegurar algum bem-estar.

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  4. Já agora, esta passagem foi retirada de que livro? Do "Sobre a Liberdade" ?

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  5. Sim, é do Sobre a Liberdade. Note-se que esta ideia implica a rejeição do que os europeus fizeram aos nativos americanos (incluindo os sul-americanos), aos africanos e aos indianos, ao "civilizá-los" contra a sua vontade.

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  6. Porquê "civilizá-los"? Se os civilizassem seria permissível, se os explorassem ou violentassem seria impermissível (isto seria válido para europeus, americanos, árabes ou chineses, do passado ou do presente). O problema parece-me ser, por vezes, a nossa incapacidade de fazer esta distinção em tempo útil.
    Imaginando que essa dificuldade estava ultrapassada, promover a evolução de todos não seria desejável?
    Continuo paternalista?
    Cumprimentos
    Jorge (o anónimo das 02.04)

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  7. Não me parece que exista, ou tenha existido, alguma situação de facto em que se pudesse colocar a questão tal como é colocada. Se os que sofrem com a má lei parecem satisfeitos não significa que estão satisfeitos, antes pelo contrário, sofrem, etc... Parece-me uma argumentação confusa e contraditória.

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  8. Me parece uma situação realista sim... O problema é que essa passagem está meio misturada mesmo, mas acho que a ideia central é a seguinte:

    Imagine um grupo de pessoas que acredita que a educação não serve para nada e que se recusam ir à escola. Eles efetivamente estão numa situação ruim de ignorância, mas acreditam que não estão em uma situação ruim e estão genuinamente satisfeitos.

    A questão aqui é: devo obrigá-los a ir à escola ou não? Uma maneira de pensar sobre isso é esta: se obrigo, então violo a autonomia deles e lhes faço um mal. Se não, então deixo eles em uma situação ruim e lhes faço um mal na mesma.

    Agora precisamos ver qual é o menor dos males... Mill parece pensar que violar a autonomia deles é pior... Eu penso que, dependendo do caso, nem autonomia essas pessoas teriam para ser violada (autonomia depende de ter alguma educação, ou algo equivalente, dentre outras coisas...).

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  9. Ao ler esta passagem eu tive a leve impressão que o argumento do Mill possa defender um relativismo cultural. Não um relativismo cultural forte, acerca de que não haja imoralidade em absoluto, mas toda ação deve ser considerada de modo contextual a sociedade em que a ação é praticada. Mas sim um tipo de relativismo cultural mais leve, no qual afirma que mesmo que uma sociedade tenha uma cultura com ações extremamente imorais, nós não temos o direito de interferir (ao menos que haja pedido de socorro).

    Contudo, pense no seguinte caso: uma certa cultura mata crianças recém nascidas que nasçam completamente carecas. Acredito que todos os sistemas morais, sejam deontológicos, utilitaristas, virtude e afins, afirmariam que isso é um ato imoral. Porém, podemos ou não impedi-los de continuar cometendo esse ato? Uma vez que as crianças, os principais prejudicados no caso, não são capazes de pedir ajuda, nós seriamos impossibilitados de ir ao socorro delas segundo Mill, correto?

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  10. Ao ler esta passagem eu tive a leve impressão que o argumento do Mill possa defender um relativismo cultural. Não um relativismo cultural forte, acerca de que não haja imoralidade em absoluto, mas toda ação deve ser considerada de modo contextual a sociedade em que a ação é praticada. Mas sim um tipo de relativismo cultural mais leve, no qual afirma que mesmo que uma sociedade tenha uma cultura com ações extremamente imorais, nós não temos o direito de interferir (ao menos que haja pedido de socorro).

    Contudo, pense no seguinte caso: uma certa cultura mata crianças recém nascidas que nasçam completamente carecas. Acredito que todos os sistemas morais, sejam deontológicos, utilitaristas, virtude e afins, afirmariam que isso é um ato imoral. Porém, podemos ou não impedi-los de continuar cometendo esse ato? Uma vez que as crianças, os principais prejudicados no caso, não são capazes de pedir ajuda, nós seriamos impossibilitados de ir ao socorro delas segundo Mill, correto?

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    1. Kherian.

      Há uma passagem que eu considero importante no argumento usado por Stuart Mill, para justificar a posição que nenhuma cultura deve civilizar outra. Ele diz claramente que nós não podemos exigir que se acabe com certas coisas, se os que estão directamente envolvidos encontram-se satisfeitos com o estado de coisas. As crianças recém-nascidas não conseguem pedir ajuda ,nem terão provavelmente grande consciência do que se passa à sua volta, de modo a demonstrarem a sua insatisfação.

      Gostava de saber como é que Mill responderia a este problema.

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  11. Mill tem em mente, nesta passagem, pessoas adultas apenas, na posse das suas faculdades. O que ilustra melhor o que ele tem em mente é o seguinte: uma pessoa está em casa e prepara-se para comer um bom cheese burger, abundantemente regado com coca-cola -- quando uma brigada médica nos aparece em casa e nos obriga a comer antes uma sopa de nabos, seguida de um grelhado de legumes. A brigada médica argumenta que está a fazer isso para o nosso próprio bem. Mill argumenta que este é um caso em que há boas razões para informar, persuadir e estimular -- mas que isso é muito diferente de impor e proibir, e que estas nunca são aceitáveis contra a vontade de uma pessoa autónoma, desde que as escolhas desta não prejudiquem ninguém mais.

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