9 de março de 2012

McGinn sobre "Por que devo ser virtuoso?"

Alguns leitores podem estar a perguntar-se, cepticamente, o porquê de se darem ao trabalho de ser virtuosos de todo. Por que não ser uma má pessoa? Que razão há para ser uma boa pessoa? A resposta é que não há razão - ou nenhuma razão que seja mais profunda, ou vá mais além, que a tautologia "porque a bondade é boa". A razão para se dever ser virtuoso e não vicioso é simplesmente que a virtude é virtude e o vício é vício. No fim, o que se recebe da virtude é simplesmente... virtude. A virtude também te pode arranjar saúde, bens ou felicidade, mas não há nenhuma garantia disso - definitivamente não - e, em qualquer caso, não é essa a razão porque deves ser virtuoso.
Logicamente, é como a questão de porque é que te deves preocupar com o teu futuro bem-estar: porque o teu bem-estar é o teu bem-estar. Nada mais realmente pode ser dito; e, se alguém simplesmente não vê isso, não há muito que possas fazer para o convencer. Não adianta acrescentar que é estúpido não te preocupares com o teu futuro bem-estar. Isto é perfeitamente verdade, mas é estúpido porque... tu deves preocupar-te com o teu futuro bem-estar. Analogamente, podemos igualmente dizer que é imoral não te preocupares se és uma boa pessoa; mas, novamente, isto de facto reduz-se a repetir-nos - é imoral porque ser uma boa pessoa é algo que deves ser. "Estúpido" vai com "prudente" da mesma maneira que "imoral" vai com "virtuoso". A justificação moral, como toda a justificação, chega a um fim algures. Nalgum ponto, temos simplesmente de nos repetir, possivelmente com uma certa ênfase, ou então simplesmente permanecer em silêncio. A virtude é, se preferires, a sua própria justificação, a sua própria razão: não é possível ir mais fundo do que ela. À questão "Por que me devo preocupar com os outros tanto como comigo?" a melhor resposta é outra pergunta "Por que te deves preocupar contigo tanto como com os outros?". No caso da última pergunta, a resposta certa é, "Porque tu também és uma pessoa a ser tida em consideração" e, no primeiro caso, a resposta certa é, "Porque eles também são pessoas a ser tidas em consideração". Insistir que eu sou eu e eles são eles é apenas proferir uma tautologia inútil, que não faz coisa alguma para mostrar por que tenho uma razão para me interessar comigo mas não uma razão para ser moral. As pessoas (e os animais) têm valor intrínseco, por isso deves tê-las em consideração -- o que é o mesmo que dizer que deves ser bom. Porquê? Porque... as pessoas (e os animais) têm valor intrínseco, por isso deves tê-las em consideração -- o que é o mesmo que dizer que deves ser bom. Fim da história. Fim da partida. O bom é bom e o mau é mau -- isso é tudo o que precisas de saber.
Moral Literacy: or How to do the right thing, pp. 95-96.

9 comentários:

  1. Quando encontro estes debates em ética normativa, e alguém menciona a ética das virtudes como uma forte candidata, fico com a sensação de que há ainda algo por explicar. Concordo que as pessoas possuem uma ideia intuitiva do que seja comportamento virtuoso, porém não confio o suficiente nestas intuições como fonte de justificação, pois o histórico mostra que tendem a gerar mais confusão do que compreensão.

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  2. Bem, o este excerto do McGinn não foi escrito a pensar nos aderentes do campo heterogéneo da Ética da Virtude. Também poderia ter posto no título "Porque devo ser moral", e o resultado era o mesmo.

    Mas, dado que eu acredito numa forma de teoria das virtudes em Ética Normativa, vou tentar responder às tuas preocupações.

    Primeiro, nem todas as pessoas que trabalham na Ética das Virtudes apelariam para a intuição para dizer quais são as virtudes, mas antes definem virtude como um traço de carácter que contribui para a eudemonia (o florescimento) humano - e, é claro, apresentam uma teoria substancial sobre o que consiste esse flosrescimento.

    Segundo, mesmo que apelassem às nossas intuições não estariam piores que os subscritores de algo como a deontologia moderada de Ross (como penso ser o caso do McGinn), que dizia que tínhamos um determinado número de deveres prima facie que conhecíamos por intuição e não dava mais nenhuma justificação substancial.

    E, mais, a história se mostrar alguma coisa, não mostra apenas que as nossas intuições divergem muito em relação ao que é virtuoso mas também em relação ao que é bom ou mau (eu acho que não mostra nada disso). Pelo que isso não seria uma objecção contra a Ética das Virtudes, mas contra a Ética Normativa em geral. Seja como for, nem percebi bem qual foi exactamente a tua objecção (por isso, respondi a todas que me parecerem subjacentes ao comentário).

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  3. O que me parece muito claro é esta afirmação:
    «O bom é bom e o mau é mau - isso é tudo o que precisas de saber.»
    Quanto ao porquê (racional ou irracional) de se ser virtuoso ou não e ao porquê de se dever ser virtuoso ou não, se bem entendi, a razão é a única "razão" para fazermos isto em vez daquilo.

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  4. Não é um dos momentos mais felizes de McGinn, excepto quando sugere, no final, que não temos uma razão melhor para agir segundo os nossos interesses do que temos para agir segundo os interesses alheios (excepto, coisa que ele não acrescenta, uma questão de divisão do trabalho da acção, digamos assim, em que faz sentido que eu aja primariamente para satisfazer a minha fome, porque sei de modo imediato que a tenho, do que ir tocar à campainha do meu vizinho para lhe perguntar, todos os dias, se já almoçou). Esta parte final é importante e merece algum desenvolvimento.

    Mas a primeira parte está longe de ser boa filosofia. Pois não consegue sequer formular adequadamente o problema que está em causa quando as pessoas pedem uma razão para ter em consideração os interesses alheios quando agem. Afirmar que agir imoralmente é mau porque é agir imoralmente fará as pessoas desconfiar, com razão, que o puro vento da retórica sonante esconde a incapacidade para dar uma resposta plausível.

    O problema é saber se há alguma conexão conceptual entre agir racionalmente e agir moralmente: ao agir imoralmente estou a ser irracional, como acontece quando ajo de modo imprudente? A comparação com o raciocínio prudencial é iluminante, mas McGinn menciona-a sem a explorar adequadamente.

    Os filósofos têm-se dividido em duas respostas. Há quem pense que é irracional agir imoralmente, e há quem pense que o não é. Kant e Nagel contam-se entre os primeiros, Hume e Bernard Williams contam-se entre os segundos.

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  5. Acho este texto de McGinn surpreendentemente decepcinante. Digo que é surpreendente porque McGinn é, sem sombra de dúvida, um bom filósofo. Mas, se os bons filósofos não errassem, não valeria a pena discutir o que dizem.

    Veja-se o que ele começa por dizer:

    «...é como a questão de porque é que te deves preocupar com o teu futuro bem-estar: porque o teu bem-estar é o teu bem-estar. Nada mais realmente pode ser dito; e, se alguém simplesmente não vê isso, não há muito que possas fazer para o convencer. Não adianta acrescentar que é estúpido não te preocupares com o teu futuro bem-estar.»

    Ou seja, a resposta «o meu bem-estar é o meu bem-estar» é uma resposta perfeitamente adequada. Até concordo com McGinn que temos de parar em algum ponto e talvez a noção de bem-estar seja primitiva.

    Mas então, McGinn, teria de esclarecer isso e mostrar que há uma assimetria entre o que acabou de afirmar e que afirma a seguir, quando diz:

    À questão "Por que me devo preocupar com os outros tanto como comigo?" (...) Insistir que eu sou eu e eles são eles é apenas proferir uma tautologia inútil, que não faz coisa alguma para mostrar por que tenho uma razão para me interessar comigo mas não uma razão para ser moral.

    Se, neste caso, estamos perante uma tautologia inútil, por que razão afirmar que o meu bem-estar é o meu bem-estar não é também «uma tautologia inútil, que não faz coisa alguma para mostrar» por que tenho uma razão para me interessar pelo meu bem-estar mas não uma razão para ser moral?

    Até sou capaz de simpatizar com a ideia de McGinn, mas não me parece que ela esteja a ser bem defendida.

    Outro aspecto que me parece duvidoso e que talvez seja errado dar como garantido é afirmar, como McGinn, que as pessoas têm valor intrínseco. Há um execelente ensaio de Jerrold Levinson (Intrinsic Value and the Notion of a Life) sobre a noção de valor intrínseco que, no mínimo, lança dúvidas sobre a ideia de que alguma coisa ou ser tenha valor intrínseco.

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  6. Num dos cortes sempre angustiantes para um organizador de antologias, esse texto do Levinson era algo que tinha planeado incluir em Viver Para Quê? Ensaios Sobre o Sentido da Vida, precisamente por pôr em causa de modo inteligente o que tantas pessoas tomam como óbvio.

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  7. Mencionei o uso das intuições como suspeito por ser algo feito em ética normativa. Alguns eticistas afirmam que uma teoria adequada não deve se distanciar em demasia das nossas intuições morais, porque seria impraticável. Porém, nossas intuições foram formadas em ambientes muito diferentes dos atuais, de modo que não irão ajudar na maior parte das situações futuras com as quais iremos no envolver, caso desejemos não causar dano as pessoas.

    Se isto vale para a versão da ética das virtudes que defendes, é algo que só saberei se um dia expores ela de forma explícita.

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    1. Sim... Mas o problema é que o uso das intuições ou, mais concretamente, usar a metodologia do equilíbrio reflexivo para avaliar teorias na Ética Normativa é algo feito por muitos eticistas... Não vejo porque é que isso há de ser uma objecção específica à ética das virtudes....

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