8 de março de 2012

Mudar-lhe o nome


Colin McGinn defende aqui que era uma boa ideia mudar o nome da filosofia. Eu concordo.

As minhas razões, muito sucintamente, são estas: o legado histórico que recebemos sob a designação "filosofia" inclui dois grupos razoavelmente distintos de escritos, ainda que por vezes surjam misturados. Por um lado, temos escritos cuja probidade epistémica é hoje reconhecida por quem faz da filosofia uma investigação primariamente cognitiva. Esses escritos incluem algumas obras de Descartes e Leibniz, Hume e Locke, Aristóteles e Platão, Ockham e Agostinho, Tomás de Aquino e Anselmo. Mas também temos escritos cuja probidade epistémica não é hoje reconhecida por essas mesmas pessoas: escritos místicos de Plotino, por exemplo, aforismos iniciáticos de Heraclito, e até o poema de Parménides -- que pode certamente ser interpretado de modo epistemicamente probo, ainda que esteja carregado de misticismo.

Este último caso encerra uma lição importante: como os ingleses costumam dizer,
"Garbage is garbage, but scholarship about garbage is not necessarily garbage, and should not be garbage if it is to be proper scholarship". 
O que isto quer dizer é que se pode certamente estudar cientificamente, de um modo academicamente sério, ou seja, cognitivamente probo, seja o que for -- incluindo escritos alquímicos, astrológicos, numerológicos, espíritas. Mas para que o nosso estudo seja epistemicamente probo, não podemos imitar no nosso trabalho o que encontramos nesses textos -- trata-se apenas de descrever correctamente o que pensam os alquimistas e como eles trabalham, por exemplo, e não de sancionar o que pensam nem o modo como trabalham. Analogamente, se fizermos um estudo histórico do nazismo, para que seja um estudo probo, é crucial não ser nazi -- se o formos, distorceremos a verdade histórica e não faremos uma história científica do nazismo, mas antes um panfleto disfarçado de estudo academicamente sério.

Hoje em dia há muitos estudos científicos, academicamente sérios, de textos que estão longe de ser academicamente sérios; e isso é bom. Mas precisamente porque se confunde o que é fazer um estudo sério do lixo com a produção do próprio lixo, encontramos imenso lixo acerca do lixo. Dar outro nome à filosofia poderia contribuir para clarificar as coisas -- e teria a vantagem de deixar o nome "filosofia" a quem quiser continuar a tradição iniciática e mística ou para-religiosa.

Infelizmente, a proposta linguística que McGinn favorece não é promissora: "ontics". Não é promissora, entre outras razões, porque em português ficaria algo como "ôntica", que para nós já é um adjectivo com sabor a Heidegger. Uma proposta melhor é "ciência conceptual".

A filosofia, quando é primariamente cognitiva,  é ciência conceptual não no sentido de se ocupar exclusivamente de conceitos e não da realidade em causa nesses conceitos, mas antes porque se ocupa daqueles aspectos da realidade que só podem ser adequadamente estudados de um ponto de vista puramente conceptual (o que exclui o estudo empírico, como na física e na sociologia, e o estudo formal, como na matemática e na lógica).

Mas o que pensa o leitor?

51 comentários:

  1. Se é para separar coisas cognitivamente sérias do resto, não sei se mudar o nome funciona...

    Veja no caso da ciência. Assim que a etiqueta "ciência" ganhou um ar de seriedade, começam a aparecer coisas como "astrologia ciêntifica" e afins...

    Não sei se no caso da filosofia isso seria diferente. Assim que a "ciência conceitual" ganhar um ar de seriedade, todo mundo vai querer dizer que Nietzsche fez ciência conceitual...

    Além disso, já temos um nome para falar da filosofia primariamente cognitiva: "filosofia analítica"...

    ResponderEliminar
  2. Compreendo o teu cepticismo e partilho-o parcialmente. Dou até outro exemplo: a quantidade de tolices pseudocientíficas que adoptam o sufixo "-logia" para dar a aparência de solidez ao puro vento, como é o caso da cientologia.

    Apesar disso, vê como ser cientista é óbvio e diferente de ser filósofo: para seres cientista, basta que tenhas formação adequada, publiques na área e pronto -- não tens de ser génio, ter sido tocado pelos deuses, nem nada. Mas para seres filósofo -- devido ao entendimento místico da filosofia -- tens de ser doido ou oracular ou genial. Se dissermos a alguém que somos cientistas conceptuais as pessoas já aceitam melhor, não achas?

    ResponderEliminar
  3. É verdade que "filosofia" tem uma conotação mistica bem carregada para algumas pessoas. Mas imagino que "ciência" também tenha uma canotação algo mística para essas mesmas pessoas.

    Falamos em ciência e já vem à mente das pessoas algo como Newton, ou Eistein, ou algo assim... Comumente é o esteriótipo de uma pessoa genial, sempre um pouco exótica, talvez um pouco nerd, que sabe encher o quadro de fórmulas matemáticas que ninguém entende.

    Eu acho que o problema está mais na má vontade das pessoas do que na terminologia. Se olharmos mais seriamente para a prática científica, vemos que esse esteriótipo não encaixa bem. Mas se olharmos mais seriamente para a prática atual da filosofia, também vemos que esse esteriótipo não encaixa bem.

    ResponderEliminar
  4. Mas tem algo que concordo com McGinn. Filosofia ser classificada como "humanidades" é radicalmente errado e enganador. Isso é algo que realmente precisa mudar.

    ResponderEliminar
  5. Pode ser que tenhas razão que as pessoas comuns também têm uma ideia mística do que é ser cientista. Mas o nosso problema, Iago, é que os cientistas têm a mania que nós somos místicos, porque têm uma concepção errada do que os filósofos epistemicamente probos fazem hoje -- ou alguma vez fizeram. Pelo menos para que o nosso lugar na universidade fosse mais claro e para que os cientistas não nos olhassem com espanto, talvez a reforma proposta por McGinn não fosse uma má ideia.

    ResponderEliminar
  6. Sim, isso é verdade. Mas não sei se o melhor é mudar para um nome novo ou tentar resgatar o nome antigo.

    Dentro da própria filosofia temos uma história semelhante. Em alguma altura, o nome "metafísica" caiu em desgraça. Mas atualmente a metafísica tem o mesmo respeito que qualquer outra área da filosofia. Nesse caso, a solução não foi mudar o nome, mas sim mostrar que existe trabalho sério sob a etiqueta "metafísica".

    Talvez a solução para a filosofia seja essa também... Mas também, de todo em todo, eu não me incomodaria com algum nome novo...

    ResponderEliminar
  7. Seria muito ruim separar Filosofia de Filosofia Analítica?

    ResponderEliminar
  8. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  9. O que me parece é que, como indicou o Iago, já há uma denominação própria. Eu concordo também com o Iago que as mesmas pessoas a que desagradam que alguém seja um filósofo analítico também desagradará que alguém seja um cientista conceitual. Talvez, se pudéssemos achar fronteiras mais adequadas à filosofia continental e à filosofia analítica, poderíamos realmente montar dois cursos de graduação distintos. Eu já vi muita discussão na lista de lógica falando sobre existir uma graduação separada em lógica. Talvez seja possível montar uma graduação em lógica e filosofia analítica, dentro da área das exatas...

    ResponderEliminar
  10. Deixa eu tentar articular melhor o que penso sobre isso.

    Acho que a má fama da filosofia tem duas causas: esteriótipos e cientificismo. As pessoas acham que filósofos são doidos ou gênios falando de coisas sobre as quais o conhecimento racional é impossível. Quanto as pessoas comuns, acho que a causa maior é o esteriótipo. Quanto aos cientistas, acho que a causa maior é o cientificismo.

    Mudar o nome pode ajudar um pouco no problema do esteriótipo, mas não ajuda nada no problema do cientificismo.

    Eis uma proposta melhor: divulgação filosófica. Isso ajuda tanto no problema do esteriótipo quanto no problema do cientificismo.

    ResponderEliminar
  11. Mas e o problema da cisão nos departamentos de filosofia?

    ResponderEliminar
  12. Cid,

    sobre o problema da filosofia continental não sei bem o que fazer...

    Em primeiro lugar, teríamos de entrar em consenso sobre o que afinal é filosofia continental. É uma atividade não-cognitiva ou é uma atividade cognitiva mal feita? Em alguns momentos eu acho que é a primeira opção e em outros momentos acho que é a segunda opção.

    Se for uma atividade cognitiva mal feita, tem que ser excluída da universidade. Se é uma atividade não-cognitiva, então tem que ser separada da filosofia analítica.

    Mas na prática é dificil fazer qualquer uma dessas coisas... Sinceramente não sei bem o que fazer nesse caso... Por hora, acho que o negócio é deixar cada um fazer o que quiser, e irmos fazendo cursos de pós-graduação exclusivamente em lógica e filosofia analítica.

    ResponderEliminar
  13. A divulgação bem feita da filosofia é sempre importante -- concordo. Aliás, veja-se o efeito que teve junto dos jovens e da população em geral a divulgação da ciência: passa-se a ver uma carreira na ciência como uma profissão como qualquer outra, para quem tem esse gosto, e não como algo reservado a génios meio doidos.

    Veremos o efeito que tem, internacionalmente, o artigo do McGinn. Eu votaria "sim", numa votação para mudar a designação da nossa área porque talvez não tivesse muito efeito prático positivo, mas não vejo que efeito prático negativo relevante poderia ter.

    ResponderEliminar
  14. Hmm, ok, isso me convence mais. Parece que mal não vai fazer. E se dermos alguma sorte, talvez ainda faça algum bem.

    ResponderEliminar
  15. Se pensarmos por comparação com o que aconteceu com a filosofia natural, McGinn parece ter razão: a mudança para "ciência" permitiu afastar a ideia de que se tratava de especulações doidas. O mesmo ocorreu já no séc. XIX com a psicologia científica: afastou-se completamente dos misticismos espíritas e tudo isso (ainda que, curiosamente, William James acreditasse firmemente no espiritismo -- mas ajudou a fundar a psicologia científica).

    ResponderEliminar
  16. Mas no caso da ciência e da psicologia ciêntifica, eram coisas novas que estavam começando ali, e por isso ganharam um nome novo. Foi mais por serem estudos sérios, e menos por terem ganhado um nome novo, que conquistaram respeito.

    No caso da filosofia, é a mesma coisa que está ganhando um nome novo. Não dá para esperar muito que um nome novo seja imune à esteriótipos e que vá resolver cientificismo.

    Mas concedo talvez possa ajudar a separar um pouco mais as coisas e que aparentemente mal não vai fazer...

    ResponderEliminar
  17. Me parece que não é um problema inerente ao nome "filosofia", mas sim algo extrínseco, pois "física" ou "cálculo" também não descrevem corretamente (se buscarmos a etimologia) o que se faz nestas áreas hoje. Acho até que é precipitado buscar um nome tão preocupado em caracterizar o que é feito: as teorias vão mudando e em geral não é uma mudança que os nomes precisam acompanhar (pelo menos não no caso do nome de grandes áreas), assim o que importa mesmo são as associações ao nome que as pessoas vão fazendo. Mas, penso que estas associações são modificadas com boa divulgação. Além disso, de um modo ou de outro ocorre um processo seletivo sobre a produção filosófica, por isso acho que não há porque temer a filosofia continental (e a "mancha" que ela pode carregar). Penso que simplesmente temos filosofia, que pode ser boa ou ruim, como ciência, portanto, o que deve ficar claro é que tipo de figura e ideias devem ser vinculadas com a má filosofia e que tipo de figura e ideias devem ser vinculadas com a boa filosofia, e é nesta parte que as coisas andam confusas atualmente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esqueci de acrescentar: por fim, tentar garantir que a boa filosofia prospere. Como eu penso que é natural que a boa filosofia prospere, aquilo que é ruim (e que muitas vezes é típico na tradição continental) acaba sendo eliminado, sem que seja preciso manter a distinção entre as tradições ou mudar o nome da filosofia.

      Na verdade isto já está acontecendo, lembro de ter lido o Leiter comentando algumas reclamações de estudantes de filosofia e dizendo que o que se passa é que dizer que se trabalha com filosofia continental já não é mais pretexto para fazer má filosofia, filosofia sem argumentação ou clareza. Se continuar havendo algum sentido em distinguir as tradições, ele será o mesmo sentido que há em se dividir os ramos que constituem a própria filosofia, como metafísica, filosofia da mente ou epistemologia.

      Eliminar
  18. Devo dizer que discordo tanto da motivação como do modo de execução da proposta do professor McGinn.

    McGinn começa por dizer que há uma confusão sistemática do que é fazer filosofia com oferecer conselhos sábios e aforismos profundos e provérbios. Mas certamente ninguém minimamente informado pensa que a obra de Platão ou Aristóteles consiste em profundidades vagas. E se se levantar a réplica que a proposta é pertinente precisamente porque nem todos estão minimamente informados, objecto por duas razões. Primeiro, porque a física e a química não mudaram de nome porque as pessoas estavam confusas quanto ao nome dessas disciplinas mas simplesmente devido a avanços internos à disciplina (algo que não aconteceu com a filosofia que está mais ou menos onde estava em relação aos problemas fundamentais - talvez para sempre se acreditarmos no McGinn). Segundo, porque a reacção contra quem está mal informado em relação a uma disciplina não é mudar o nome da disciplina (como se isso trouxesse iluminação), mas informar as pessoas. E, ainda poderia apontar, que a confusão não é tão generalizada como o McGinn considera pois esses gurus encontram-se localizados, dentro de biblioteca, na secção de auto-ajuda, não na de filosofia!.

    Depois disto, McGinn continua a falar da etimologia da palavra “filosofia”… Mas os significados das palavras evoluem para além da sua origem etimológica… A palavra “matemática” e “física” certamente que também não têm o seu significado originário (não serão os biólogos também pesquisadores da physis?)… Para além de que, os nomes das disciplinas mudaram porque chegaram a um estado de desenvolvimento que ultrapassou as subdisciplinas da filosofia (a física venceu a metafísica!).

    Em relação à classificação da filosofia ela não me parece nem uma ciência (se for uma ciência é uma má ciência, quando comparada com as outras), nem uma arte (artes não têm problemas), nem uma das humanidades (o que é que a filosofia da matemática tem a ver com humanidades). Mas se a tivermos de a classificar, a area das humanidades não me parece má… Lembrando as sábias palavras de Hilary Putnam: "To say that long and technical argument has a place in philosophy is one thing; to think that philosophy can or should have the authority of a science is another. I admit that I think of philosophy as one of the humanities and of its products as works and not theories: this hardly commits me to holding that there is no place for hard argument in philosophy."

    ResponderEliminar
  19. A proposta de McGinn é, de facto, equivocada. Não por causa de qualquer “sabor” Heideggeriano, apesar de ter a ver com Heidegger. Heidegger usava a palavra “ôntico” para precisamente para demarcar a filosofia de outras ciências (como a química, física, história, antropologia). Dizendo que enquanto que a filosofia é ontológica, as outras ciências são ônticas… Por isso, o nome resultaria em confusão. Mais do que isso, o nome também tem exactamente as mesmas falhas que McGinn aponta ao nome de filosofia, nem é descritivo e as suas origens etimológicas (“onto”, “aquilo que é”) também são demasiado gerais – os físicos também são ônticos!
    A tua proposta “ciência conceptual”, Desidério, é demasiado autoritária por pressupor uma metafilosofia associada. Primeiro, pressupõe que a filosofia é uma ciência, o que ou é num sentido trivial em que a astrologia também é, ou num sentido robusto que é polémico (por exemplo, nem Bernard Williams, nem Putnam, nem Wittgenstein e os filósofos influenciados por ele concordariam) e, eu defenderia, falso. Segundo, porque nem toda a gente aceita que a filosofia seja um trabalho puramente conceptual (filosofia experimental, fenomenologia, pessoas que acham que a filosofia deve ser continua com as ciências empíricas).Seria como chamar à filosofia da linguagem Signifiquismo, como se o cepticismo sobre significado fosse excluído por definição.
    Sobre as questões de filosofia analítica versus filosofia continental (o McGinn em todo o artigo não se referiu sequer a esta questão – e ele pensa que Nietzsche, Sartre e Husserl são filósofos para começar – assim como muitos fenomenólogos), tenho a dizer várias coisas mas vou limitar-me a dois comentários. Para começar, não há dois tipos de filosofia, nem estas etiquetas são adequadas, tanto por razões históricas como metodológicas. Há uma separação, mais por razões sociológicas do que por outra coisa. Para acabar, o que se deve fazer é instituir a argumentação rigorosa na filosofia (de qualquer tradição) e separar os filósofos por disciplinas e não por geografia, tudo aquilo que não seja sobre filosofia encontrado nos ditos filósofos continentais já encontra a sua casa na disciplina de Estudos Culturais (não que não haja intersecções entre as disciplinas).

    ResponderEliminar
  20. PS: O que devemos fazer para mostrar que não é necessário ser Aristóteles para ser filósofo (tal como não é necessário ser Pessoa para ser poeta, ou ser Cervantes para ser escritor, apresso-me a acrescentar), não é mudar o nome da disciplina, mas passar forçar o estado a reconhecer a categoria de "filósofo" e passar a usar o nome mais regularmente nós também. Quando perguntarem a um filósofo profissional, responda que é filósofo e não investigador ou professor. Diga "Eu sou filósofo", com todas as letras. E, se alguém indignado, responder que não pode ser filósofo, é preciso explicar-lhe que provavelmente não sabe muito bem o que é a filosofia.

    ResponderEliminar
  21. Penso que o problema aqui é na forma como a generalidade das pessoas encaram a filosofia. Muitas vêm-na como um género literário, outras como uma fonte de saberes que procura dar resposta aos problemas existenciais, mas que não estão dependentes de qualquer religião. É esta a ideia que eu tenho. O José, e bem, apontou os problemas de se mudar o nome da filosofia para outra coisa qualquer. O melhor seria divulgar ao máximo o que se entende academicamente por filosofia. Como? Através de livros introdutórios filosóficos por exemplo, que fossem amplamente publicitados e divulgados

    ResponderEliminar
  22. Talvez se torne mais atraente a proposta de McGinn se pensarmos como faz sentido falar de filosofia ocidental -- o que sugere que há filosofia oriental -- ao passo que não faz sentido na mesma acepção falar de matemática ocidental, sugerindo uma matemática oriental (onde, quem sabe, dois mais três é vinte).

    A ideia dele é que a filosofia académica que se faz hoje é tão científica quanto a matemática ou a arqueologia. E por isso deve ser considerada uma ciência. Quem vai na linha de Putnam, aqui muito bem citado pelo José, é porque considera que o que há de científico na ciência são os resultados. Mas eu penso que isto é um erro. O que há de científico na ciência é a probidade epistémica. Em alguns casos, esta dá-nos resultados muito precisos, como na física, mas noutros dá-nos apenas especulações bem fundamentadas, como na arqueologia ou na história. Ora, os métodos que a probidade epistémica exige estão presentes na filosofia que defende o McGinn, e sempre o estiveram em grande parte da filosofia. Mas não podemos fingir que os aforismos, a opinião sem fundamento nem estudo aturado das coisas, a atitude iniciática e para-religiosa também se encontra ao longo da história da filosofia. Uma nova palavra clarificava as coisas, tal como aconteceu com a química em relação à alquimia.

    ResponderEliminar
  23. Queria dizer que não podemos fingir que a filosofia iniciática não existiu ao longo da história da filosofia.

    ResponderEliminar
  24. Repare, Pedro, que quando a filosofia científica aborda problemas como o sentida da vida o faz de um modo muito insatisfatório para quem procurava conforto espiritual, precisamente porque o faz de um modo epistemicamente probo, em vez de o fazer de um modo oracular, iniciático, místico ou para-religioso.

    ResponderEliminar
  25. Sim, Desidério, mas eu não diria que " O que há de científico na ciência é a probidade epistémica.", diria antes que o que distingue boa (não necessariamente verdadeira) de má ciência é a probidade epistêmica. Da mesma maneira, diria que o que distingue boa de má filosofia é a probidade epistêmica (e um bom de um mau matemático também!). Mas daí não se segue que a filosofia seja uma ciência num sentido robusto. Umas das diferenças entre filosofia e as ciências é que nas últimas quase não há estudo dos autores históricos (qual é o físico que vai estudar os "Principia" de Newton ou o biólogo que vai ler a "Origem das Espécies"?) Mas na filosofia mesmo quem faz trabalho sério, em filosofia da linguagem, por exemplo, ainda recorre a Frege ou Russell (ou Wittgenstein!). Qual é o biólogo que recorre, no seu trabalho sistemática, a autores com mais de cem anos?

    Diria que "...os aforismos, a opinião sem fundamento nem estudo aturado das coisas, a atitude iniciática e para-religiosa também se encontra ao longo da história da filosofia" podemos chamar de má-filosofia, não é preciso arranjar um nome para a boa!

    A química não arranjou um novo nome para se demarcar da alquimia, arranjou um novo nome porque saiu dos lençóis de bebé e passou a ter resultados notáveis. Para além disso, se os químicos não tivessem produzido resultados notáveis e ainda estivessem hoje onde estavam há dois mil anos atrás então não deviam largar o nome "Filosofia natural" ou "Filosofia química" (e, este nome, seria o suficiente para se demarcarem dos alquímico místicos).

    Eu não acho que devamos usar o epíteto de ciência, tanto várias razões que expliquei anteriormente, como porque acho que isso apaga as diferenças entre a filosofia e as restantes ciências (a filosofia é maioritariamente 'a priori', as outras ciências não...) e ainda porque acho que isso ainda iria reforçar mais o cientificismo - a ideia de que algo é uma ciência ou "colecção de selos" parafraseando Planck...

    ResponderEliminar
  26. Quero só acrescentar que considero que uma condição suficiente para haver algo numa universidade é haver pessoas que queiram que esteja lá. Dado que obviamente há pessoas que querem na universidade fazer coisas como Derrida fazia, devem, do meu ponto de vista, ter todas as condições para o fazer. Eu não defendo o fascismo científico, que conseguiu fazer expulsar da universidade a alquimia, ainda que concorde que num mundo melhor, com pessoas menos tolas, não haveria alquimia nem autores como Heidegger. Também não haveria pessoas que adoram telenovelas mexicanas. Mas dado que as há, infelizmente, têm o mesmo direito a fazermos que gostam do que eu. O fascismo corrente nas universidades parece-me insustentável eticamente, ainda que concorde que é um alívio um matemático não ter de conviver com os partidários da numerologia, tal como seria um alívio eu não ter de conviver com quem faz filosofia iniciática. O problema é que para isso ser um alívio para mim, teria de ser um pesadelo para outras pessoas.

    ResponderEliminar
  27. Têm o mesmo direito a fazer o que gostam, queria eu dizer. O iPad é uma treta para escrever!

    ResponderEliminar
  28. Haha Desidério, concordo! Isto é, principalmente quando diz que o Ipad é uma treta para escrever - apesar de também não apoiar o fascismo intelectual ou de outro tipo. Mas agora, parece-me que os matemáticos têm o direito de expulsar os numerólogos do seu departamento e dizer que estão a fazer má matemática. Em relação a não permitir aos autores estudar Heidegger e Derrida, bem se alguém conseguir escrever filosofia epistemicamente proba sobre Heidegger e Derrida muito bem! Se não, então vão para estudos culturais ou então podemos sempre aceitar fazer cursos separados de filosofia continental e analítica. Embora eu, optasse pelo nome "Filosofia logicamente disciplinada" - para não dar a ideia de privilégio arbitrário de autores mas sim de maneiras correctas de proceder na investigação-... É um pouco palavroso, mas essencialmente correcto...

    ResponderEliminar
  29. A ideia de Planck é cientificista porque ele afirmou que além da física só haveria colecção de selos. Dado que sem matemática e sem geometria não haveria física, o que ele afirmou é um rotunda tolice. Mas eu concordo que além da ciência não há probidade epistémica, se na ciência incluímos a matemática, arqueologia, história, etc.

    Quanto ao contacto com a história, um biólogo não precisa disso porque tem resultados sólidos para estudar. Se só tivesse especulações como nós e problemas em aberto, teria de fazer como nós. Mas o crucial é que o modo como na filosofia científica se aborda um texto de Platão, por exemplo, é exactamente como um biólogo aborda um texto de um colega, ao passo que na filosofia iniciática se aborda esse mesmo texto com uma atitude bíblica e hermenêutica.

    ResponderEliminar
  30. Nessa acepção lata de ciência, não teria problemas com "Filosofia cientifica" e ainda se mantinha o nome filosofia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma vez que é enganoso pensar que análise (sobretudo análise da linguagem) é parte fundamental da filosofia analítica contemporânea, filosofia científica seria um nome mais apropriado para o que nos acostumamos a chamar de filosofia analítica (e algo que representaria bem o espírito da coisa, como Recanati observa naquele texto sobre a filosofia analítica que está publicado aqui pela Crítica).

      Eu até aceitaria isto, ainda que me incomode um pouco identificar "ciência" e "conhecimento", pois parece que surge o perigo de ser circular a defesa de que só o conhecimento científico é conhecimento.

      Eliminar
    2. Sim, há o perigo de circularidade - que eu também já tinha indicado algures para trás. Mas talvez se possa dizer que estamos apenas a fazer uma distinção entre a filosofia que pretende ser "epistemicamente proba" (a que damos o nome ciência, no seu sentido lato) da que não pretende ser. Não há circularidade nisso(não há circularidade nas distinções), mas é apenas uma distinção de bastante utilidade tanto para quem faz filosofia séria, como mundo académico e para as pessoas em geral. E a utilidade desta distinção justifica que seja feita.

      Eliminar
    3. Mas, honestamente, eu estou contente com o nome actual da filosofia. Acho é que há boa e má filosofia... mas daí não se conclui que tenhamos de dar um nome há boa filosofia, da mesma maneira que também não temos de dar um nome há boa ciência para a distinguir da má...

      Eliminar
  31. Não vejo como justificar adequadamente a expulsão da astrologia da universidade. Isso parece-me o mesmo do que proibir a publicação de livros espíritas. Inaceitável.

    ResponderEliminar
  32. Não afirmei isso. Eu não expulsaria os astrólogos da universidade, só dos departamentos de astronomia! Eles podem ter o seu departamento se quiserem...
    Mas, levando a ideia mais longe, será que o mero interesse das pessoas é suficiente para para abrir um curso numa universidade? Se muitas pessoas na Faculdade de Ciências quisessem abrir um curso de Numerologia será que o reitor permitia meramente porque há interesse? Suspeito que não.

    ResponderEliminar
  33. A vossa conversa é um algo confusa. Sempre pensei que só se poderia considerar ciência toda a disciplina que estudasse os fenómenos da natureza que fossem observáveis e que produzisse conhecimento a partir do método de empírico. A filosofia, a historia e a filologia partilham com a ciência o mesmo rigor e a mesma honestidade no que toca ao trabalho desempenhado. Não consigo compreender portanto, dado que a filosofia procura responder a problemas que não são de ordem cientifica ( mas sim conceptuais), que ela seja considerada uma ciência. Julgo porém que algo importante me escapa.


    Defender o fascismo cientifico é um absurdo. Se há tipos que defendem que a humanidade é uma criação de alienígena marcianos, é um erro impedi-los de expressarem as suas crenças pseudo-científicas.Não proíbo que astrólogos ou marciólogos organizem-se entre si num departamento qualquer de uma universidade privada*, apesar de desconhecer ao certo que género de problemas pretendem eles solucionar.

    *Acho que seria uma chatice dos diabos tentar justificar a existência de departamentos de Astrologia em universidades sustentadas pelo erário público.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esse, de facto, é um sentido mais estrito de ciência, mas podemos alargar o uso de ciência para incluir todas as disciplinas epistemicamente probas (em que as pessoas usam argumentos, são sistemáticas, cuidadosas, claras, não evitam a refutação, e tudo mais). A tua confusão resulta de estares a pensar num sentido estrito de ciência (o que já revela os problemas que "filosofia científica" acarretaria), quando nós estavamos a usar ciência num sentido alargado, em que a matemática (que não é uma ciência empírica) poderia ser considerada uma ciência - e a história (ciência histórica) e a filologia também...

      Eliminar
  34. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  35. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  36. Quando as pessoas, incluindo os cientistas, falam de conhecimento científico estão mergulhados em confusão, pois o que querem dizer é teorias científicas, ou crenças científicas, que podem ser verdadeiras ou falsas. Falar de conhecimento científico é meio caminho andado para afirmar o disparate de que o conhecimento científico é temporário, ou revisível. Isto é uma tolice porque contraria a natureza elementar de todo o conhecimento, seja científico ou não, que é a sua factividade: se alguém sabe que P, então P; uma pessoa não pode saber que P, se não-P -- pode é ter uma crença ou teoria falsa.

    Portanto, a questão é saber se todas as teorias epistemicamente probas são teorias científicas. E a resposta é que isso depende da força dada ao termo "teoria". Num sentido robusto, que inclui grande sofisticação, abstracção, poder explicativo e profunda articulação, sim, todas as teorias epistemicamente probas são científicas, num sentido alargado de "ciência". Num sentido mais fraco de "teoria" que possa incluir as nossas crenças de senso comum verdadeiras, nem todas as teorias epistemicamente probas são científicas.

    ResponderEliminar
  37. As teorias epistemicamente probas são resultados da correção mútua, e ao longo do tempo, se compreende porque algumas ideias são mais eficientes do que outras na conquista de objetivos. Se mantivéssemos práticas como astrologia dentro das universidades, estas ideias continuariam a conquistar pessoas, gerando ainda mais lixo.

    Quanto aos nomes, utilizar "filosofia científica" para denominar a prática dos analíticos é algo que não tarda a aparecer, pois "filosofia experimental" e "epistemologia formal" já são expressões conhecidas, e penso que vieram para distinguir linhas de pesquisa comprometidas com alguma ideia antes não associada a filosofia diretamente. Será isto uma resposta à suspeita que alguns cultivam em relação a filosofia de um modo geral? Não sei dizer. Contudo, acredito que alguns estudiosos dentro da academia não desejam se associar ao que é divulgado em livros de auto-ajuda, e se uma novo termo pode ajudar a separar estes grupos, não vejo porque não adotar.

    ResponderEliminar
  38. McGinn continua a debater o assunto aqui: http://opinionator.blogs.nytimes.com/2012/03/09/name-calling-philosophy-as-ontical-science/?scp=2&sq=McGinn&st=cse

    ResponderEliminar
  39. Respeito muito os debatedores e toda a questão, mas tenho uma reclamação de nota de rodapé para fazer:

    - favor, parem de colocar Husserl como mais um continental, ou mesmo fazer um saco misturando Derrida, Nietzsche, Sartre e Heidegger. Acho que a inclinação de etiquetá-lo como continental é culpa de Heidegger, que lhe tomou conceitos e os obscureceu. Husserl tem pé nos dois lados dessa divisão tola.

    Infelizmente, pouco se sabe de Husserl nas universidades brasileiras além de Ideas I ou de Crise - uma pequena fração de sua obra -, e se deixa de ver, em geral, o Husserl que se parece com Frege ou Wittgenstein; o Husserl que influenciou Carnap, Weyl e Gödel.

    ResponderEliminar
  40. não vejo qualquer vantagem em mudar o nome à filosofia. E tal proposta soa-me mais ou menos como se de repente quiséssemos mudar o nome de ciência à ciência só porque uns africanos na rua nos entregam uns papelinhos sobre cartomância e lançamento de búzios e chamam ciência espiritual a isso.

    ResponderEliminar
  41. She intended to pay back the money after her next pay cheque
    but found her debt had increased to 450 short term loans some from the fees you incur
    are once a year fee, account setup fee, program fee,
    monthly maintenance, along with a monthly servicing fee.

    ResponderEliminar
  42. Since you will find numerous choices,investigate well lastly opt for your best solution Payday Loans Comparison at the duration of
    marriage ceremony, bride drapes heavy embellished red benarsi sari, which is
    beautifully decked in heavy jewellery made up of gold.

    ResponderEliminar
  43. With this form of assistance given to the people people experiencing various
    financial problems, it is obviously basic and useful to repair and organize financial life small personal loan simple application process - the application
    process is additionally very easy.

    ResponderEliminar