8 de março de 2012

Mulheres

Comemora-se hoje o dia da mulher. A experiência parece mostrar que o folclore comemorativo não costuma passar disso mesmo. Com o argumento de que é um pretexto para falar de realidades que deviam ser mudadas, não raras vezes contribui mais para exibir falsas consciências do que para mudar seja o que for. E por todo o lado se aproveita para sensibilizar as pessoas para a situação e a importância das mulheres, como se tudo isto fosse apenas uma questão de bons sentimentos. 

Se virmos com atenção, começa a surgir, à conta de tantas comemorações dos dias internacionais das vítimas do passado e do presente, uma nova área publicitária, com profissionais quase a tempo inteiro: trata-se da profissão de sensibilizador. É uma profissão que tem, aparentemente, a vantagem de dispensar os argumentos, quando não mesmo o apelo ao conhecimento dos factos. 

É assim que, apesar do muito que se ficou a saber com tantas comemorações, há ainda quem se indigne (como ouvi esta tarde) por não haver, mesmo nos nossos dias, mais do que uma ou duas filósofas. Até fui indirectamente confrontado com a acusação de que «a filosofia continua a ser uma actividade completamente machista». O autor da acusação referiu Hannah Arendt e Simone de Beauvoir como as duas únicas filósofas entre dezenas de homens. Mas quando pedi meia-dúzia de nomes de filósofos actuais, apenas surgiram os nomes de George Steiner, Habermas, Sartre e Peter Singer, o que não chega sequer a meia-dúzia.

Aproveito, assim -- também eu -- o dia da mulher para, pelo menos, corrigir esta reveladora, mas também enganadora, impressão. Apesar de na filosofia, como na maioria das áreas centrais de investigação, ainda serem os homens a predominar, é falso que praticamente não haja mulheres de destaque. Felizmente, há já muitas e boas filósofas, cuja obra tem sido discutida e influente. Aí vão os nomes de algumas importantes filósofas (e as suas principais áreas de investigação) do último século, grande parte delas vivas e até algumas bastante jovens:

Susan Haack (lógica, epistemologia e metafísica)
Patricia Churchland (filosofia da mente)
Martha Nussbaum (ética e filosofia da cultura)
Ruth Millikan (filosofia da mente, da biologia e da linguagem)
Margaret Boden (filosofia da mente e ciência cognitiva)
Ruth Barcan Marcus, falecida há dias (lógica, metafísica, filosofia da linguagem e ética)
Philipa Foot (ética)
Judith Jarvis Thomson (ética, metafísica)
Jenefer Robinson (estética e filosofia da emoção)
G. E. M. Anscombe (filosofia da acção, ética)
Mary Warnock (ética, filosofia da educação)
Mary Midgley (ética aplicada)
Ayn Rand (ética)
Susanne Langer (filosofia da arte, filosofia da mente)
Christine Korsgaard (ética, filosofia da acção, metafísica)
Carolyn Korsmeyer (estética e filosofia da emoção)
Kathleen Stock (estética)
Susan Wolf (filosofia da acção, ética, metafísica)
Nancy Cartwright (filosofia da ciência)
Amie Thomasson (metafísica, filosofia da arte)
Dorothy Edgington (filosofia da linguagem, metafísica)
Lydia Goehr (filosofia da música)

Como se vê, não são assim tão raras, até porque esta lista está longe de ser exaustiva. Algumas pessoas incluiriam ainda nomes como Simone Weil e outros. Mas, como assinalou o Desidério no post anterior, o que Simone Weil escreveu -- reflexões de carácter místico e para-religioso -- merece talvez outro nome. Seja como for, encontram-se na amostra anterior filósofas de todas as principais áreas da filosofia. É certo que as mulheres estão em minoria, mas o panorama não é o que algumas pessoas filosoficamente distraídas pintam. Para se ter uma ideia das proporções, nos Estados Unidos da América (não encontrei dados sobre outros países) cerca de 21% dos filósofos activos são mulheres. 

Nas fotos (de cima para baixo): Susan Haack, Patricia Churchland e Kathleen Stock


12 comentários:

  1. Aires, tenho três comentários.

    Um, é apenas um pormenor de pouca importância... Na Anscombe, não podes por também metafísica? Apesar de ser verdade que o seu trabalho mais influente foi em filosofia de acção, ela também deu boas contribuições à metafísica (sobre a natureza da causação, por exemplo).

    Outro, é que o que o Desidério disse no último post não foi que o que a Simon Weil escreveu merece outro nome, mas que o que as outras mulheres na tua lista escrevem merece um nome que não seja filosofia.

    Terceiro, este já mais importante. Acho que estás a enfatizar demais o quanto as mulheres participam na profissão, no sentindo em que ainda temos um longo caminho para andar e ainda não estamos em tempo de ficar muito orgulhosos connosco mesmos. Apesar de poder ser verdade que 21% das mulheres são filósofas, 79% não são. E, não sei de onde tiraste as estatísticas, mas estás a referir-te a pessoas que publicam em jornais com review ou a pessoas que tiram a licenciatura em filosofia? E, para além disso, se alguém fizer a lista dos 20 melhores filósofos vivos hoje, duvido que mencione uma mulher sequer (e, não é porque elas sejam por natureza piores - longe de mim dizer isso)...

    PS: Há uma omissão importante! A Iris Murdoch.

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  2. Nancy Cartwright - filosofia da ciência (ela ocupa a cadeira que foi de Karl Popper na LSE)

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  3. Amie Thomasson - metafísica e fil. da arte.

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  4. Dorothy Edgington: filosofia da linguagem, metafísica.

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  5. José, começo pelo fim. Há muitas omissões na lista. Eu próprio disse que estava longe de ser exaustiva e limitei-me a escrever os nomes de que, na altura, me lembrei. Para o que pretendia, era mais do que suficiente.

    Note-se que estava apenas a comentar a ideia que muitas pessoas têm de que não há filósofas. De resto, deixei claro que o número de filósofas é muito inferior ao de filósofos. Quanto à percentagem referida, também disse que se tratava de filósofos activos (nos departamentos de filosofia, investigação, etc.), pelo que não se contam aqueles que são simplesmente licenciados. Os dados foram tirados daqui: http://www.uh.edu/~cfreelan/SWIP/stats.html

    Também não pretendi ser exaustivo quanto às áreas de trabalho de cada filósofa. Assim, o que dizes em relação à Anscombe poderia ser dito também em relação a outras filósofas listadas. Limitei-me a dar uma ideia das áreas principais em que se destacaram.

    Tens razão quanto ao que o Desidério disse acerca de autores como Simone Weil (aliás eu disse também que ela escrevia coisas para-religiosas; mas não fui preciso, pois são mesmo religiosas). Seja como for, a ideia que queria passar é clara: aquilo é outra coisa qualquer, diferente do que fazem todas as filósofas que constam da lista. Já agora, eu não mudaria o nome daquilo que pessoas como Anscombe ou Susan Wolf fazem. Ao contrário do que sugere o Desidério, mais facilmente insistiria que o que faz Simone Weil não é mesmo filosofia.

    Os outros nomes que indicam são bem lembrados. Apenas tenho dúvidas quanto à Iris Murdoch, de que me lembrei quando escrevi o post, mas que deixei de fora propositadamente.

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  6. Ayn Rand era sobretudo uma romancista e activista política; as suas ideias não são por norma levadas a sério por filósofos profissionais, porque são demasiado simplistas e inadequadamente argumentadas.

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  7. Desidério, ideias inadequadamente argumentadas encontra-las em carradas de filósofos: em Platão, por exemplo, que contém falácias a torto e a direito. E Platão também era, afinal, um dramaturgo. E Russell e Putnam foram também activistas políticos.

    Que Ayn Rand seja má filósofa é outra coisa. Mas que as suas ideias foram assim tão desprezadas pelos mais respeitáveis filósofos não é inteiramente verdade. Por exemplo, Nozick deu-se ao trabalho de discutir seriamente alguns dos seus argumentos, incluindo no clássico Anarquia, Estado e Utopia. De resto, creio que a Ayn Rand é um dos nomes mais destacados na defesa do egoísmo ético.

    É, apesar de tudo, muito diferente do caso de Iris Murdoch e outros. Mas confesso que, quando me ocorreu o nome de Ayn Rand, hesitei em a incluir.

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  8. Já agora, vou acrescentar as vossas sugestões na lista do texto do post. Assim, sempre fica um pouco mais informativo. Obrigado.

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  9. Uma sugestão tardia: Lynne Rudder Baker - metafísica e epistemologia (pelo menos os textos que me ocorrem).

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