7 de Março de 2012

Nick Zangwill

A questão não é: qual é o nosso conceito de arte? Mas antes: que conceito ou conceitos de arte devemos ter?

21 comentários:

  1. Uma interpretação apressada das palavras de Zangwill pode levar-nos a pensar que ele está a propor uma definição normativa de arte em vez de uma definição descritiva. Mas não é necessariamente assim. Aliás, não é de excluir que a resposta verdadeira à primeira pergunta nos deixe com uma concepção normativa.

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  2. Em Aesthetic Creation ele argumenta explicitamente a favor da ideia de que não pode haver um conceito classificativo de arte independente de uma explicação de por que queremos entregar-nos a actividades artísticas e consumir os produtos dessa actividade.

    "One important corollary of this argument is that the attempt to find a neutral, non-evaluative notion of art is doomed. Many philosophers have wanted to separate the question of what art is, from the question of its value. George Dickie, for example, has distinguished classificatory from evaluative senses of ‘‘art’’. But to insist on a distinction along these lines is a mistake. For to classify something as art is — among other things — to make it intelligible that someone might value making or appreciating it. If so, an account of art must explain the fact that we value it; and in order to explain that, we must explain the fact that we value the activities of making and appreciating art."

    Ele pode estar enganado, claro, mas parece claro que defende uma concepção valorativa ou normativa de arte.

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  3. Se nada nos garante, havendo apenas uma concepção partilhada de arte, que esse é o conceito de que precisamos, como diz Zangwill, o facto de a concepção que temos ser normativa (na verdade é plausível que há várias concepções, mais ou menos paroquiais, normativas) tão-pouco significaria que essa era a concepção de que precisamos, no sentido que Zangwill dá a isto.

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  4. Não, Vítor, não me parece que se siga das palavras de Zangwill (mesmo que ele pretenda tal coisa) que a definição de arte que precisamos seja uma definição normativa. Esta passagem torna, de resto, isso claro: «an account of art must explain the fact that we value it». Tem de explicar «o facto» diz ele de valorizarmos a arte. Esse facto existe e explicá-lo é uma questão de carácter descritivo e não normativo.

    Assim, um definição de arte que nos diga por que razão valorizamos a arte é ainda uma definição classificativa. Só que os critérios que permitem classificar algo como arte são critérios acerca do valor que, DE FACTO, correctamente se reconhece na arte.

    Ou não?

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  5. Bom, o que me parecia "valorativo" no conceito era o ter valor estético superior a zero ser uma condição necessária para ser arte. (há uma estratégia para incluir os casos recalcitrantes, que não importa ver aqui). Isto parece-me perfeitamente compatível com o modo como caracterizas a definição que explica por que razão valorizamos a arte e também é acerca de factos - o facto de este artefacto ter as funções relevantes, a história causal relevante, que remonta aos estados mentais relevantes.
    A dúvida que me fica então é esta: como é que uma definição de arte teria de ser para ser normativa ou valorativa? Se for algo diferente de incluir o valor nas condições necessárias para ser arte então parece que deixa de ser uma definição para passar a ser um juízo estético. Ou estou a fazer uma confusão dos diabos?

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  6. Dito de outro modo: uma definição valorativa/normativa é uma definição classificativa em que um conceito de valor figura no definiens, entre as condições necessárias para a aplicação do definiendum. Claro que a função de qualquer definição, tenha ou não um conceito de valor no definiens, é também classificativa, na medida em que inclui e exclui coisas da extensão do conceito. Nada que não tenha esta função pode ser uma definição.
    A definição valorativa da arte apenas diz que um tipo de valor faz parte da essência da arte. Nada nos diz sobre o valor de obras de arte particulares (isso será o conteúdo de juízos estéticos).
    Uma definição funcionalista é valorativa porque segundo esta os objectos que são arte *devem* realizar uma função (estética).

    Se a definição valorativa não é isto, o que é?

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  7. Claro que da verdade da afirmação citada não se segue que a definição de que precisamos é valorativa/normativa. Uma coisa é o conceito que *devemos* ter, outra coisa é as condições necessárias para ser arte incluírem um conceito de valor em vez de serem valorativamente neutras. "Água = H2O" é valorativamente neutra e é a definição que *devemos* ter da água.
    Não é a partir daquela afirmação que passamos de uma noção puramente classificativa para uma noção valorativa. Isso caberá aos argumentos a favor do tipo particular de teoria estética preferido por Zangwill.

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  8. «A dúvida que me fica então é esta: como é que uma definição de arte teria de ser para ser normativa ou valorativa?»

    Uma definição classificativa diz quais as condições necessárias e suficientes para algo ser a exemplificação do conceito de arte. Entre as condições necessárias, ou seja, no definiens, podes ter propriedades de valor ou não, conforme o que pensas ser adequado ou não ao que se passa na realidade. Ter propriedades de valor no definiens não basta para dizer que se trata de uma definição normativa, pois pode-se dar o caso de aquilo que tem, DE FACTO, justificado a aplicação do conceito de arte aos objectos a que se aplica ser o eles exemplificarem propriedades de valor (e. g. proporcionarem experiências compensadoras). Isto pode acomodar todo o tipo de obras de arte que até agora têm sido classificadas como tal. O que não significa que não haja casos duvidosos ou até erros pontuais na classificação de certos objectos como o. a.

    Por sua vez, uma definição normativa deixaria de lado as características que, DE FACTO, nos têm levado a classificar certos objectos como o. a., ainda que entre essas características se contem algumas propriedades de valor. Em vez disso, teríamos uma definição substancialmente revisionista, pois em vez de justificar a aplicação do conceito de arte ao que até aqui tem sido classificado como tal, dir-te-ia antes as características que qualquer objecto DEVE TER para ser uma o. a.

    Penso até (mas teria de pensar melhor nisto, pois não estou completamente certo do que digo) que uma definição normativa não teria de incluir no seu definiens quaisquer propriedades de valor. Imagina a seguinte definição normativa: x é uma verdadeira o. a. (e não aquilo a que se costuma chamar o. a.) sss tiver forma quadrada e for azul. Esta má definição diz-nos que propriedades uma verdadeira o.a. deve ter. É, portanto, uma definição normativa. Mas não inclui qualquer propriedade de valor entre as suas condições necessárias.

    Talvez tenhamos de deixar de identificar aqui normativo com valorativo. Mas, como disse, vale a pena pensar melhor nisto.

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  9. Sim, penso que é uma óptima sugestão não identificarmos valorativo com normativo. Limitei-me a usar a expressão "normativo/valorativo" sem pensar muito nisso. De facto, pensando melhor, não pode ser a mesma coisa.

    Diria mais, o teu comentário permite-nos ver com maior clareza que todas as definições metafisicamente revisionistas, valorativas ou não, são normativas: discriminam condições que qualquer entidade *deve* satisfazer, independentemente dos critérios que *de facto* temos usado para aplicar o conceito, quotidianamente.

    Assim, teríamos a seguinte tipologia de definições: a) normativas não valorativas, b) normativas valorativas, c) descritivas não valorativas, d) descritivas valorativas.

    Todas as definições normativas são classificativas (dividem o mundo em X e não-X) mas nem todas as definições classificativas são normativas.

    Todas as definições valorativas são classificativas (dividem o mundo em X e não-X) mas nem todas as definições classificativas são valorativas.

    Todas as definições descritivas são classificativas (dividem o mundo em X e não-X) mas nem todas as definições classificativas são descritivas.

    (Isto deu-nos um critério para distinguir *classificativo* de *descritivo* - uma definição é descritiva quando não é metafisicamente revisionista, mas tanto as revisionistas como as descritivas são classificativas, porque dividem o mundo em X e não-X.)

    Nenhuma definição normativa é descritiva e nenhuma definição descritiva é normativa. Isto é, aliás, o que divide os filósofos da arte entre adeptos e adversários da "restrição pragmática" (quer acerca da definição quer acerca da ontologia) - precisamente: entre "revisionistas" e "descritivistas".

    Agora vamos à parte crucial do nosso desacordo: a definição de arte de que precisamos é ao mesmo tempo normativa e valorativa. (defende o Zangwill)

    As definições reais essencialistas são normativas - não descrevem critérios de aplicação de conceitos (não fazem etnografia conceptual).
    Zangwill está interessado numa definição real essencialista, como aliás o afirma explicitamente no texto.
    Além disso, Zangwill defende uma teoria (uma variedade de funcionalismo estético, a que chama "teoria criativa da arte") segundo a qual o definiens envolve o conceito de valor estético, mais precisamente: exploração intencional de relações de dependência entre propriedades estéticas e propriedades não estéticas.
    Logo, Zangwill quer uma definição ao mesmo tempo normativa e valorativa.

    São os adeptos da "restrição pragmática" à metafísica da arte, filósofos como David Davies, Amie Thomasson, etc., que estão interessados em definições descritivas.
    Filósofos como Julian Dodd e Nick Zangwill estão interessados em definições normativas (metafisicamente revisionistas).

    Nesta disputa, alinho com os últimos.

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  10. Uma razão crucial por que Zangwill prefere a definição normativa (a questão de ser valorativa é independente aqui): é exactamente o mesmo que o Julian Dodd responde aos adeptos da restrição pragmática - a etnografia conceptual não nos dá o poder explicativo que queremos. Depois de feita a parte etnográfica, continuamos com a pergunta: "ok, mas a representação que esses gajos têm é verdadeira?"
    E aqui as definições normativas (valorativas ou não) é que fazem realmente avançar o jogo explicativo.

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  11. Talvez isto ajude a esclarecer as coisas. Uma pessoa pode ir estudar antropologicamente uns seres inteligentes de outro planeta, e, entre outras coisas, vai descrever o que eles consideram que é moralmente correcto e o que consideram que é moralmente incorrecto. Este trabalho é descritivo. Nada nos diz sobre se esses seres têm razão quando consideram X correcto ou incorrecto moralmente. E portanto nada nos diz sobre o que é correcto ou incorrecto moralmente.

    Comparemos agora com a arte. Podemos querer descrever o modo como o conceito de arte é realmente usado pelas pessoas, ou podemos estar antes interessados no modo como as pessoas deveriam usar o conceito de arte. No primeiro caso, queremos uma definição descritiva, no segundo, uma definição normativa.

    Outra comparação: podemos estar interessados em descrever o que as pessoas incluem no conceito de água, ou estar antes interessados no que realmente é a água. No primeiro caso, queremos uma definição descritiva do conceito de água; no segundo, uma definição normativa do conceito de água.

    O que torna as coisas menos claras no caso do conceito de arte é que este é em si uma construção humana, pelo que dá logo a impressão que, ao contrário da água, as obras de arte não têm uma natureza independente do que nós pensamos dela. Mas isto é uma ilusão. O dinheiro é certamente uma instituição humana, que não existiria se não o inventássemos, mas 1) nem tudo o que as pessoas pensam sobre o dinheiro é verdadeiro e 2) para que o dinheiro possa funcionar enquanto instituição social tem de obedecer a restrições metafísicas e epistémicas cruciais. Portanto, quem tiver um conceito de dinheiro que não inclua tais restrições, tem um conceito errado de dinheiro; e este conceito pode ser errado mesmo que toda a gente concorde com isso, quando pensa explicitamente sobre o dinheiro.

    Analogamente, é perfeitamente razoável defender que apesar de a arte ser uma invenção nossa, nem tudo o que as pessoas pensam que é arte o é, mesmo que a maioria o pense, e nem tudo o que um gajo qualquer quer que seja arte pode ser arte, por mais que ele tenha o poder institucional de pertencer ao mundo da arte de que fala Dickie.

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  12. Um factor de confusão no caso da arte é que temos, ao mesmo tempo, um conceito funcional e um conceito institucional.
    Eis outra razão para preferir uma definição normativa: o segundo só é inteligível graças ao primeiro.
    Sem categorias funcionais, estabelecidas mind-independently... nada de realidade institucional. Como o caso do dinheiro muito bem ilustra.

    Um objecto sem funções estéticas óbvias pode contar como arte e a ausência de propriedades estéticas marcadas pode funcionar como uma statement acerca de obras convencionais, por exemplo.
    Mas imaginem um 4'33'', uma pá de remover neve, ou uma tela em branco, numa tradição onde só há peças silenciosas, readymades e telas em branco. Nada, nesse mundo, pode realizar a função artística que o 4'33'', a tela em branco e a pá para remover neve supostamente desempenham no nosso mundo. O seu estatuto como arte é derivado. Só pode haver 4'33'' num mundo onde há coisas como a Quinta Sinfonia.

    Especulando um pouco a partir daqui: um hominídeo sem linguagem com sintaxe podia ter arte, desde que tivesse os estados cognitivos relevantes - explorar intencionalmente relações de dependência estre propriedades estéticas e não estéticas. Para fazer isso não teria de ter um conceito de arte nem um conceito do estético, tal como não tem de ter conceito de linguagem para ter linguagem, nem conceito de conceito para ter conceitos, nem conceito de sintaxe para impor sintaxe a eventos físicos (grunhidos).
    Mas tal criatura não podia ter readymades nem musique concrète, porque, não tendo sintaxe, não tem a nossa capacidade de representar um certo objecto X como corporização da função Y num contexto C.
    Porque temos a capacidade de criar realidade institucional (que é um prolongamento das nossas capacidades naturais linguísticas) e porque temos representações do estético, podemos ter o.a. anómalos ou recalcitrantes, que realizam uma função artística *através* da ausência de propriedades estéticas marcadas. (Esta é uma forma de integrar recalcitrantes numa teoria estética)

    Outra hipótese ainda que o Duchamp talvez não tenha previsto é que os objectos triviais apropriados já têm propriedades estéticas e podem ser mais ou menos arte antes de serem apropriados. Os urinóis não são esteticamente equivalentes. Talvez Duchamp tenha suposto apressadamente que o urinol não tinha qualquer função estética por causa da representação elitista segundo a qual a Arte começa onde o Trivial acaba.

    Assim, a dicotomia entre um conceito funcional e um conceito institucional de arte é uma falsa dicotomia, porque temos ambos. Sucede que o segundo é metafísica e epistemologicamente dependente do primeiro.

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  13. Aliás, se há coisa para que o Dutton nos chamou a atenção foi para o facto de as preocupações estéticas serem ubíquas na vida social. Nos contextos mais banais, e entre seres humanos que nunca ouviram falar no sistema das belas-artes, muitas actividades, modos de fazer as coisas, só são inteligíveis por referência a preocupações estéticas, e independentemente de as pessoas em causa partilharem representações sobre o estético ou sobra a divisão das artes.
    Eis o elemento institucional: num contexto social (p. ex. na cultura japonesa) coisas como a caligrafia, a cerimónia do chá, as artes marciais, os arranjos florais, etc. não são tidas como Triviais e estão carregadas de preocupações estéticas. No "ocidente" são "meramente decorativas". Na europa medieval temos outra divisão das "artes", no séc. XVIII outra ainda, no séc. XX-XXI temos a ortodoxia vanguardista e a sua divisão entre a Arte e o Trivial.
    Mas a essência da arte não está aqui e sim em certos estados cognitivos relevantes de que um ser humano normal, em qualquer contexto cultural, é capaz.

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  14. Desidério e Vítor, não sei se viram nas minhas palavras uma defesa algo envergonhada de uma definição descritiva da arte. O que queria sublinhar era apenas que uma definição descritiva não tem de excluir propriedades de valor.

    Mas, e agora refiro-me a uma ideia defendida pelo Desidério, se houver realmente algo como uma essência de arte (se a arte tiver uma natureza independente) então parece-me que uma definição adequada de arte terá de ser uma definição descritiva e não normativa, pois a direcção da adequação é da definição para a realidade e não da realidade para a definição.

    Assim, parece-me que não estamos realmente a oferecer definições de tipo diferente quando afirmas: «podemos estar interessados em descrever o que as pessoas incluem no conceito de água, ou estar antes interessados no que realmente é a água. No primeiro caso, queremos uma definição descritiva do conceito de água; no segundo, uma definição normativa do conceito de água.» Posso estar a fazer confusão, mas parece-me que procuramos em ambos os casos definições descritivas, só que estamos a descrever coisas diferentes.

    É o objecto da definição que determina se a definição é descritiva ou normativa, ou é antes a direcção da adequação de determina tal coisa?

    Uma coisa diferente é defender que uma definição descritiva tem de ser algo como as definições institucionalistas de Dickie & Cia.

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  15. Não penso que a normatividade se identifique com uma das direcções de correspondência. Ao invés, a normatividade consiste em haver tal coisa como direcção de correspondência, seja no sentido mente-mundo, mundo-mente, ou ambos. Para usar a ilustração da Anscombe, há normatividade tanto na lista do marido que vai às compras como na lista do detective que segue o marido. Porque ambas têm de satisfazer certas condições, que são impostas pela direcção de correpondência particular de cada lista. Mais: todas as definições têm a mesma direcção de correspondência - mente-mundo. O que muda não é a direcção de correspondência mas o carácter realista ou anti-realista da definição. Mas tanto as definições realistas como as anti-realistas têm direcção mente-mundo: a ideia é captar a realidade como ela é, seja uma realidade mind-dependent ou mind-independent.

    Assim, tanto as definições descritivas como aquelas a que estamos a chamar "normativas" têm normatividade. (Na verdade, a intencionalidade parece metafisicamente inseparável da normatividade).

    Talvez o problema esteja então no nosso vocabulário.
    Se todas as definições têm normatividade, talvez a oposição crucial seja entre definições metafisicamente revisionistas e definições descritivas (ou outro termo melhor, que não levante confusão).
    Ser metafisicamente revisionista não significa que primeiro vamos ver as "intuições" das pessoas sobre o assunto e adoptamos uma perspectiva contrária. Significa antes que as "intuições" das pessoas não têm o peso determinante que, por exemplo, os etnomusicólogos dão às "intuições" das pessoas sobre o que é música (muitas vezes tais intuições são um mito: o teorizador está a falar do que ele próprio aprendeu na escola ou meteu na cabeça ao ler um livro).

    O caso das categorias naturais difere marcadamente do das categorias sociais, porque no primeiro caso é mais evidente que as "intuições" das pessoas não são realmente importantes, o que conta é que conseguimos descobrir empiricamnte sobre a água, por exemplo. Ao passo que descobrimos a essência da água empiricamente, não descobrimos a essência das categorias sociais deste modo. É por isso que há uma disputa acerca de "restrições pragmáticas", porque o facto de as categorias sociais serem parcialmente construções nossas levanta naturalmente essa preocupação metodológica.

    Assim, uma definição real essencialista de arte é também, num certo sentido, descritiva, porque evidentemente *descreve* coisas, descreve aquilo que faz algo ser arte. E é normativa porque não há descrições sem normatividade - haver normatividade é haver direcção de correspondência, independentemente de qual o sentido.
    Neste sentido também afirmei que todas as definições são classificativas porque todas realizam a função de dividir o mundo em X e não-X.

    O problema é mesmo, portanto, de vocabulário. Ainda vamos concluir que estamos de acordo no fundamental e a discordar sobre palavras.

    Vejamos então: Todas as definições têm direcção de correspondência, ou seja, têm normatividade.
    Para as definições que não atribuem peso especial às "intuições" das pessoas sobre o assunto, temos um bom termo: "revisionistas" ou "metafisicamente revisionistas". A confusão está no "descritiva" ou "classificativa". E já lá estava antes de começarmos a discussão, pois como vimos classificar e descrever é algo que todas as definições fazem. Isto vai sempre gerar confusões. Precisamos de um termo melhor para as definições em que se levanta o problema metodológico que nos põe os etnomusicólogos, os antropólogos, os sociólogos, etc. às costas.

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  16. Como esclarecimento adicional, vejamos o seguinte:

    Na tipologia dos actos de fala e de estados mentais proposta por Searle, os actos de fala e estados mentais com direcção de correspondência mundo-mente não são designados "normativos" e por uma boa razão: porque todos os cinco tipos nessa tipologia têm normatividade (têm direcção de correspondência + condições de satisfação).
    Aos estados mentais e actos de fala em causa ele chama "directivos".
    Mas não faz sentido dizer de uma definição que é "directiva". Ou seja, não faz sentido uma definição ter direcção de correspondência mundo-mente. A direcção de correspondência das definições é sempre mente-mundo, quer a definição seja realista ou anti-realista. É por isso que todas as definições realizam a função de classificar e descrever. Porque, ao contrário dos desejos, das intenções, das ordens e das comissivas, a sua direcção de correspondência é mente-mundo e não mundo-mente.

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  17. A tua objecção é boa, Aires, mas pensa no seguinte caso: o modus ponens é uma regra normativa ou descritiva? Husserl, antes de mudar de ideias, aceitava a ideia cientificista da altura segundo a qual as regras da lógica eram "leis do pensamento" -- leis descritivas sobre como as pessoas de facto pensam. Nem Frege nem Russell aceitavam tal coisa -- para começar porque sabiam realmente lógica, ao invés de falar apenas dela. E quem sabe lógica vê que o modus ponens está longe de descrever o modo como as pessoas pensam de facto; ao invés, é uma norma, algo que as pessoas têm de ter em conta se quiserem pensar correctamente.

    Contudo, há um sentido em que a direcção de adequação das normas lógicas não é, de modo algum, da mente para o mundo: nós não estipulamos as regras, impondo-as de seguida ao mundo; pelo contrário, descobrimos que se quisermos pensar correctamente, temos de usar aquelas regras. Então em que sentido são as regras da lógica normativas? São-no apenas neste sentido: que temos de as usar se quisermos pensar correctamente.

    Assim, tal como o Vítor sublinha, o normativo e o descritivo andam algo misturados. A dificuldade é destrinçar elementos descritivos de elementos normativos. As coisas tornam-se mais complicadas quando estão em causa conceitos fortemente sociais, como é o caso da arte ou do dinheiro.

    Eu diria que uma definição descritiva do conceito de arte visa descrever o que as pessoas pensam que é arte. Isto é tremendamente desinteressante, e nem sequer é filosofia: é sociologia ou antropologia. Uma definição normativa de arte visa dizer-nos as condições a que algo tem de obedecer para que seja adequadamente identificada como arte, seja por quem for que quiser pensar correctamente sobre o caso. Até aqui, é tal como a lógica. A diferença é que a arte, por ser fortemente social, parece um conceito metafisicamente arbitrário, no sentido em que nada impede as pessoas de estabelecer normas totalmente diferentes do que conta como arte. A minha resposta a isto é que se a arte fosse realmente esse conceito totalmente arbitrário, não teria qualquer interesse filosófico.

    Mas não é; pensa no dinheiro. Uma pessoa descuidada (e até Searle, que é a referência crucial aqui parece descuidar-se em alguns momentos) poderia dizer que é puramente convencionar que tipo de papel se usa para fazer papel-moeda. Mas isto é falso: se houvesse um papel no nosso mundo que, posto em gavetas escuras, se reproduzia como amebas, este papel não poderia ser usado. O que isto significa é que há fortes limites metafísicos (e também lógicos) ao conceito de dinheiro, apesar de ser fortemente social. A minha intuição é que ocorre exactamente o mesmo na arte, e portanto a tarefa da filosofia não é dar atenção ao que as pessoas pensam que é a arte, mas antes ao que devem pensar que é a arte, se quiserem pensar correctamente.

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  18. Ocorreu-me que talvez haja lugar aqui para uma confusão semelhante à que ocorre entre "intenções" e "intencionalidade", mas entre "normas" e "normatividade". As intenções são um subconjunto dos estados intencionais, tal como as normas são um subconjunto das... coisas normativas (coisas que têm direcção de correspondência e condições de satisfação)?

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  19. Há aqui um detalhe, não importante, mas que pode gerar confusão: o Desidério e eu estamos a usar "mente-mundo" e "mundo-mente", a propósito da direcção de correspondência, em sentidos diferentes, consoante entendemos qual dos membros do par se ajusta ou adequa ao outro. Assim, no meu sentido, é o primeiro elemento do par que tem de se adequar ou ajustar ao segundo. O Desidério tem usado ambas as expressões ("mente-mundo" e "mundo-mente") no sentido inverso, em que é o segundo elemento do par que se ajusta ou adequa ao primeiro. Na verdade, é indiferente como usamos, desde que nos entendamos.

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  20. Considere-se a seguinte passagem, do livro de Dickie "Introdução à Estética":

    "A propósito do tema da teoria da arte, devo sublinhar que o termo «arte» ou «obra de arte» é usado em pelo menos dois sentidos: um sentido classificativo e um sentido valorativo. O primeiro diz respeito à questão de saber se um determinado objecto será classificado como uma obra de arte. A classificação de um objecto como obra de arte, contudo, não determina que esse objecto é uma boa obra de arte. O facto de um animal ser correctamente classificado como um cavalo não significa que seja um bom cavalo."

    Eis o que me parece a confusão desta perspectiva: NENHUMA definição de arte, nem mesmo uma que seja valorativa, pode determinar que um objecto em particular é uma boa obra de arte. Há uma diferença considerável entre "ter algum tipo de valor estético" e "ser uma boa obra de arte". As más obras de arte parecem boas a quem as fez, e com alguma diligência provavelmente encontraremos elementos, mesmo que ínfimos, nessas obras, com algum valor estético, ou pelo menos poderemos compreender por que razão pareciam boas a quem as fez.
    Para acomodar a má arte não precisamos de uma noção valorativamente neutra. Um relógio pode ser disfuncional sem deixar de ser um relógio. O mecanismo não deixa de ter a função que permite individuar o artefacto como o artefacto que é, embora por alguma razão seja incapaz de realizar essa função que lhe foi atribuída. Do mesmo modo, uma obra de arte pode parecer boa a um certo agente cognitivo, em certas circunstâncias, sem que o seja. Se tivermos uma explicação para a ilusão do valor artístico e estético, não precisamos de uma noção valorativamente neutra para acomodar a má arte.

    A separação que Dickie faz entre classificativo e valorativo também induz o erro de que se uma definição é valorativa então não é classificativa. Mas como vimos, todas as definições são classificativas (dividem o mundo em X e não-X), todas têm elementos descritivos (descrevem condições de satisfação para pertencer à categoria) e todas são normativas (têm direcção de correspondência e condições de satisfação).

    Na definição que procuramos, contudo, o elemento prescritivo (não confundir com normativo) predomina sobre o descritivo. Quando o descritivo predomina, temos uma definição que respeita a "restrição pragmática" (não quer ser metafisicamente revisionista, o que para mim consiste em abdicar de fazer metafísica sequer). Quando temos uma definição filosófica, o elemento prescritivo predomina sobre o descritivo. A definição descreve as condições que qualquer coisa que seja arte *tem* de satisfazer - é nisso que consiste ser "prescritiva": descrever as condições que *têm* de ser satisfeiras em vez de descrever apenas os critérios que as pessoas usam, ou o modo como pensam.

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