19 de março de 2012

O Deus Malévolo

Stephen Law desafia os teístas a responderem ao seguinte desafio: "Se o bem no mundo é suficiente para excluir um Deus Mau, porque é que o mal no mundo não é suficiente para excluir um Deus Bom?"

Para perceber o desafio de Law é preciso perceber o que é problema do Mal para os teístas. Se acreditarmos num Deus omnipotente, omnisciente e sumamente bom, então o mal no mundo (especialmente o mal natural - aquele que não é causado por nós) torna-se especialmente problemático. Afinal, porque é que um Deus sumamente bom haveria de criar um mundo com cancro, velhice, terramotos, pragas e tantas outras coisas más?

Como resposta a este problema, foram propostas várias teodiceias ou defesas da coexistência de Deus com o mal no mundo. Parte do mal que existe é resultado da nossa liberdade, que tem de existir, como condição de possibilidade de acções boas (ou particularmente boas). Talvez outra parte do mal exista porque Deus criou o mundo em que leis da natureza que regem os eventos físicos, para que nós possamos explicar e controlar os fenómenos naturais (e prever os resultados das nossas acções), ou talvez algum mal esteja justificado nesta vida, face ao bem-estar infinito da vida eterna no Paraíso.

Neste contexto, Stephen Law nota que estas explicações também poderiam ser dadas para explicar a compatibilidade entre o Deus Malévolo e a existência de Bem. Talvez o Deus Malévolo valorize mais o mal livremente causado e, por isso, nos dê liberdade, não obstante isso implicar algum bem. Talvez o Deus Malévolo permita o bem natural (a alegria espontânea, ter filhos, apaixonar-se ou simpatizar com alguém, ter o prazer do Sol a bater-nos na cara ou passar um dia na praia, a existência de comida saborosa) porque também quer que o Universo permita regularidades, para que nós sejamos especialmente responsáveis pelas nossas acções - seja como for, à primeira vista, a mim parece-me que há muito mais mal natural do que bem natural. Ou talvez, algum bem nesta vida esteja justificado pelo sofrimento eterno que vamos passar na próxima no Inferno.

Por isso, porque é que consideramos a existência de um Deus bom mais provável que a existência de um Deus Malévolo, quando parecem ambos tão improváveis face ao que observamos no mundo?

Aqui, pode ver no blog do filósofo uma exposição divertida do desafio do Deus Malévolo que foi postada no Youtube, embora tendenciosa, que também considera um argumento ontológico invertido (mas note-se que Law quer que o seu desafio seja acerca de evidência empírica que, aparentemente, há tanto contra o Deus Bom como contra o Deus Malévolo).

Alguém tem uma resposta a Stephen Law? Não há alguma coisa de estranho em todo este desafio? Ou será que o raciocínio dele está correcto?

11 comentários:

  1. Não tenho coisa alguma a dizer contra este raciocínio. Uma predra de toque da boa argumentação é ver se consegue pôr de parte que o mesmo tipo de considerações apresentadas para defender a verdade de uma proposição qualquer P não sejam apresentadas para defender a verdade de não-P. E isto parece ser especialmente difícil de fazer quando P aparenta ser acerca de entidades cuja existẽncia é discutida.

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    1. Deus é uma entidade cuja existência é discutida só para os maus filósofos que não conseguem na contemplação da natureza ascender pouco a pouco a causa primária da mesma que é evidente que é o próprio Deus.

      Deus é uma entidade cuja existência é sobretudo uma pedra de tropeço para muitas mentes tacanhas.

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  2. Acredito que uma boa razão para não haver nenhuma contraprova ao Deus malévolo é o fato de que essa nunca foi uma proposta séria quer de filósofos, quer das religiões mais seguidas no mundo.

    A teodiceia de um Deus Mau sofre dos mesmos problemas da teodiceia de um Deus Bom. A questão, portanto, é:

    1) Se Deus é bom, então não deveria haver mal
    existe o mal
    Logo, Deus não é bom

    2)Se Deus é mau, então não deveria haver bem
    existe o bem.
    Logo, Deus não é bom

    3) Deus é bom ou mau
    mas não é bom (argumento 1) e não é mau (2)

    Redução ao absurdo

    Talvez a única solução para o impasse seja afirmar que Deus é neutro em relação ao bem e ao mal.

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    1. Deus deixou os mandamentos, mas se, pelo nosso livre-arbítrio, os desobedecemos por que Deus seria malvado por aplicar a sua justiça contra nós?

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  5. Não é propriamente uma resposta ao repto lançado, mas sim uma versão possível do argumento ontológico invertido, que formulei há tempos atrás, meio a sério, meio a brincar, e a que chamei argumento aontológico, ontológico negativo ou ateulógico:

    Deus é, por definição, o ser absolutamente perfeito, logo não existe, pois toda a determinação é ou implica negação, dado que afirmar algo ou possuir uma qualquer característica implica necessariamente negar outra coisa ou ficar privado de outra característica contrária ou contraditória com a que se possui ou é afirmada, o que implica que não há nem pode haver nada que seja absolutamente perfeito, uma vez que perfeição e existência são metafisicamente incompatíveis: se algo existe, logo é imperfeito, quer dizer, finito, relativo, limitado e condicionado, mais que não seja pelo facto de existir e pelas suas propriedades essenciais. Ora, como Deus é essencialmente o ser perfeito por excelência, então não existe.

    Ou, numa versão talvez mais simples, mas mais refinada:

    Deus é o ser Absoluto por excelência, a "absolutidade" é uma propriedade metafísica que implica completude, a completude significa que nenhuma propriedade lhe pode faltar, o que implica que tem necessariamente de possuir propriedades superlativas contrárias ou contraditórias - como ser ao mesmo tempo finito e infinito, infinitamente bom e mau, ou omnipotente e impotente -, o que é lógica e metafisicamente impossível, logo Deus não existe.

    Serve? Funciona? Não sei, se calhar funciona tão bem ou tão mal quanto o ontológico, mas fica à consideração... :-)

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  6. O maior problema da filosofia da religião não é propriamente filosófico, mas teológico.

    Os filósofos analisam os argumentos e propõem soluções que para os crentes seriam inaceitáveis. Uma questão filosófica como a existência do mal exigiria que Deus não fosse todo poderoso ou sumamente bom. Mas os teólogos não estão dispostos a modificar os atributos tradicionais de Deus.

    Ora, será que o sistema de crenças teísta está protegido contra falhas?

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  7. Resposta ao argumento "ateulógico" de Law... O Ser não vem do não-Ser, sendo assim a moral não vem do que é não-moral, então temos o seguinte argumento: 1) Se Deus é mau não há moral; 2) Há moral; 3) Logo, Deus não é mau.

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  8. Por que o deus malévolo daria livre arbítrio às pessoas?
    Isso me parece incompatível com a maldade...

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