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Simon Blackburn

A palavra «filosofia» tem conotações infelizes: coisas abstractas, remotas, esquisitas. Tenho a impressão de que todos os filósofos e estudantes de filosofia passam por aquele momento de embaraço silencioso quando alguém nos pergunta inocentemente o que fazemos. Eu preferiria apresentar-me como engenheiro conceptual. Pois, tal como um engenheiro estuda a estrutura das coisas materiais, o filósofo estuda a estrutura do pensamento. Para compreender a estrutura é necessário ver como as partes funcionam e como se conectam entre si, o que significa saber o que aconteceria de melhor ou pior se fizéssemos algumas mudanças. É este o nosso objectivo quando investigamos a estrutura que dá forma à nossa visão do mundo. Os nossos conceitos e ideias constituem o lar mental em que vivemos. No fim, talvez tenhamos orgulho nas estruturas que construímos. Ou talvez pensemos que esses conceitos precisam de ser desmantelados e que temos de começar a partir do zero. Mas primeiro, temos de saber o que são estes conceitos.

Comentários

  1. Não concordo com Blackburn e penso que ele está a confundir o método que usamos para fazer filosofia -- um método inteiramente a priori -- com a natureza do que estudamos com esse método. O que queremos saber não é apenas como funcionam os nossos conceitos, apesar de querermos saber também isso; queremos saber como funciona a realidade de que falam os nossos conceitos. Mas porque somos filosofia, estudamos apenas aqueles aspectos da realidade que não podemos estudar empiricamente.

    Tal como o matemático não estuda apenas conceitos matemáticos apenas, mas antes a realidade matemática, apesar de usar unicamente o pensamento a priori, também em filosofia estudamos a realidade extraconceptual também, além da conceptual, ainda que o façamos apenas conceptualmente.

    Apesar disso, note-se a sugestão de Blackburn de chamar à filosofia "engenharia conceptual", parcialmente pelas mesmas razões de McGinn.

    Pelas razões que expus, penso que o melhor nome novo para a filosofia seria algo que dissesse etimologicamente que estudamos toda a realidade susceptível de ser estudada conceptualmente ou a priori por meio de métodos não formais. Quem tem sugestões?

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  2. Desidério

    Lendo os comentários deixados no outro post em que discutíamos precisamente este problema, só me surge um nome digno de substituir "filosofia": Ciência das Ideias.

    Quanto a proposta de Simon Blackburn:

    Se se pretende em mudar o nome da disciplina de filosofia é evitar confundir-se o trabalho que filósofos como o Desidério têm desenvolvido com aforismos soltos e com uma certa literatura pretensiosamente espiritual, mudar o nome para engenharia conceptual seria talvez um desastre. Não seria também embaraçoso para nós explicar aos outros, interessados no que fazemos mas desconhecedores em absoluto do tipo de problemas que procuramos resolver e do nosso método, que o que nós fazemos também constitui uma "engenharia"?

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  3. Só para lembrar: Blackburn estará no Brasil este ano, é um dos conferencistas do Fronteiras do Pensamento.

    Sobre o tema da discussão, não concordo com a mudança de nome, por isso não tenho sugestão. Penso que é necessário um bom serviço de divulgação, não uma mudança de nome. A situação da filosofia (especialmente de algumas de suas áreas, como a metafísica) não é muito diferente da situação da física quântica. Penso que uma mudança de nome só se justificaria se houvesse uma mudança metodológica drástica entre o que se fazia e o que se faz, mas as práticas filosóficas não mudaram muito desde Aristóteles.

    Má filosofia sempre vai haver, que ela seja mais popular é um problema de divulgação, não um problema com o nome.

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  4. Filosofia Pedestre: afinal, também as outras ciências, como a física, se caracterizam pelo discurso sóbrio e pela investigação muito modesta de aspectos aparentemente irrelevantes. O discurso bombástico e sedutor pertence à astrologia, espiritismo, numerologia, etc.

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  5. Penso que a maneira como os filósofos entendem a relação entre os conceitos e a realidade é um dos fatores que determinam o tipo de filosofia que se estar a fazer. As transformações pelas quais passou a filosofia de Wittgenstein me parecem um bom exemplo disso.

    Investigar "como funcionam os nossos conceitos" já pressupõe de algum modo aquela relação. Logo, a investigação conceitual não pode estar completamente desligada de considerações sobre a realidade.

    PS
    Acho que a restrição de "não formais" aos métodos da filosofia, proposta pelo Desidério, é um pouco forte.

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