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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2012

Os argumentos inválidos não têm premissas?

Deixo aqui o excerto de um diálogo real entre mim e um aluno meu do 11º ano, o João Xavier, na aula de correcção do teste intermédio de Filosofia. Estávamos a falar da pergunta 1.1. do Grupo II, de escolha múltipla. Pede-se para escolher a opção correcta para completar a afirmação «Num argumento, denominam-se premissas[...]»
JOÃO: Professor, Os argumentos inválidos têm premissas? EU: Claro que sim. JOÃO: E num argumento inválido as premissas justificam a conclusão? EU: Não, apesar de ser essa a intenção! Se justificassem a conclusão, o argumento seria válido. JOÃO: Portanto, nem sempre as premissas justificam a conclusão. EU: Exactamente! JOÃO: Então por que se diz nos critérios de correcção que a resposta certa à pergunta é que as premissas são as proposições que justificam a conclusão?
Creio que o João deixou esta por responder, pois não conseguiu encontrar a resposta certa entre as opções apresentadas. 
Quer dizer, foi penalizado por ser inteligente e por saber pensar, aplicando c…

Teste intermédio de... Filosofia? (parte 2)

Quanto aos aspectos de carácter científico, este teste não comete tantos e tão grosseiros erros como o do 10º ano, realizado no ano passado. Neste aspecto há, apesar de tudo, alguns progressos. Mas, diga-se em abono da verdade que isso é conseguido à custa de um questionário que evita a filosofia, escundando-se em perguntas que pouco mais pedem ao aluno além da paráfrase, como é o caso da pergunta sobre o patusco texto de Delfim Santos, ou da mera tabuada histórico-conceptual, como é o caso da pergunta sobre o ethos, o logos e o pathos. 
Algumas imprecisões científicas foram já referidas pelo Desidério. Mas há outras, não apenas no questionário, mas também nos critérios de classificação.
Já vi algumas pessoas protestarem por se chamar tabela de verdade ao que é designado por «inspector de circunstâncias». De facto são coisas tecnicamente diferentes, embora não pareça demasiado grave, pois o inspector de circunstâncias é formado por tabelas de verdade encaixadas sequencialmente. Em ri…

Teste intermédio de... Filosofia? (parte 1)

Realizou-se nesta sexta-feira o teste intermédio de Filosofia - 11º ano. Deixo aqui a minha opinião, que apresento em duas partes separadas, por uma questão de comodidade de leitura. Nesta primeira parte irei referir apenas questões gerais sobre a própria concepção do teste. Deixo a segunda para as questões de carácter científico.
Em primeiro lugar, o teste surpreende pela quase ausência da filosofia propriamente dita, pois praticamente não se pede aos alunos que argumentem ou pensem criticamente sobre questões filosóficas. Basta ver como começam as perguntas: «Indique as três provas...», «Diferencie os dois usos...», «Nomeie...», «Esclareça o sentido da frase...», «Explicite, a partir do exemplo do texto...», «Compare as posições de Hume e Descartes...». Onde estão aqui as competências críticas, argumentativas e problematizadoras, que nas orientações para o teste se diz serem objecto de avaliação?
Esta dispensa de competências filosóficas fundamentais viola, de resto, as próprias or…

Seminário Livre de Filosofia da UFSC

O Grupo de Estudos de Epistemologia da Universidade Federal de Santa Catarina convida a todos para os encontros do Seminário Livre de Filosofia, que serão realizados às sextas-feiras, às 14:30h, em local que será anunciado no mural da Secretaria do Departamento de Filosofia. A concentração para o evento acontecerá nesta sexta-feira na cantina do CFH.

O Seminário Livre de Filosofia foi criado para oferecer um ambiente de discussão sobre problemas filosóficos e tem por objetivo servir de fórum para os interessados em alguns desses problemas. O autor da comunicação disporá de 30 minutos para a exposição do problema que o motiva. É importante que o apresentador formule o problema de maneira clara, argumentada e que ele não pressuponha que os ouvintes conheçam o problema a ser discutido. À apresentação se seguirá uma discussão livre do problema exposto. A discussão eventualmente ajudará o apresentador com novas objeções e sugestões, e permitirão tornar seu trabalho mais sofisticado.

Os inter…

Raio de contrafactuais!

Se as condicionais indicativas dão tanto que discutir, que dizer das condicionais contrafactuais. Eis o exemplo de uma condicional contrafactual:

Se Lionel Messi tivesse jogado no Manchester United na época de 2008-2009, teria sido colega de equipa de Cristiano Ronaldo.

Saber qual o valor de verdade desta condicional é tarefa que não levanta grandes dificuldades. Mas o que dizer das seguintes contrafactuais?

Se Lionel Messi e Cristiano Ronaldo fossem compatriotas, Lionel Messi seria português.

Se Lionel Messi e Cristiano Ronaldo fossem compatriotas, Cristiano Ronaldo seria argentino.

Serão estas condicionais verdadeiras ou serão falsas?

História, Fundamentos e Filosofia da Ciência

A Contraponto tem lançado algumas boas traduções de ótimos livros. Merecem destaque esses seis acima. Todos eles, escritos por grandes cientistas, foram concebidos como livros introdutórios e fazem muito bem o trabalho, fornecendo os conceitos básicos das áreas apresentadas, traçando o seu desenvolvimento histórico, além de estarem recheados de insights bastante interessantes sobre a metodologia da ciência. Leituras fundamentais para aqueles que querem entender melhor o funcionamento da ciência.

Steven French

Em entrevista concedida a David Mossley, no The Subject Centre for PRS, Steven French fala sobre sua experiência como professor e filósofo da ciência, e sobre a importância e o estado atual da filosofia da ciência.

Filosofia da Ciência

Eis uma boa leitura introdutória. Embora não seja completo, tem uma pequena vantagem sobre os outros manuais, dá mais atenção ao debate acerca do realismo científico, dedicando-lhe dois capítulos -- um sobre o realismo e o outro sobre o antirrealismo. A leitura é agradável e a tradução está inteligível, pecando apenas em algumas traduções literais que não fazem sentido na língua portuguesa como, por exemplo, traduzir "no miracle argument" por "argumento sem milagre". Aliás, traduzir "key concepts" por "conceitos-chave", como aparece  no título da série, não é lá a melhor opção. Infelizmente as editoras brasileiras ainda não perceberam a importância de se colocar boas traduções no mercado. 

Bas van Fraassen

Estou a chamar a atenção para o fato de que o microscópio não precisa ser entendido como uma janela, mas mais certamente como um instrumento que cria novos fenômenos ópticos. Daquilo que vemos no microscópio é certo dizer que estamos “vendo uma imagem” (como “vendo um reflexo”, “vendo um arco-íris”), e que essa imagem poderia ser ou uma cópia de uma coisa real não visível a olho nu ou uma mera alucinação pública. Sugiro que é muito mais certo e de fato mais iluminante manter neutralidade a esse respeito e pensar  nessas imagens apenas como uma alucinação pública.

Kant era um sapo?

Tome-se o seguinte argumento:

Se a Ana disser que Kant era alemão, estará dizendo que era europeu.
Se ela disser que Kant era europeu, estará dizendo a verdade.
Logo, se ela disser que Kant era alemão, estará dizendo a verdade.Este argumento parece ter uma forma lógica válida:
Se p, então q.
Se q, então r.
Logo, se p, então r.
Isso significa que qualquer outro argumento com a mesma forma lógica não poderá ter premissas verdadeiras e conclusão falsa. Porém, o argumento seguinte parece ter premissas verdadeiras e conclusão falsa:

Se a Ana disser que Kant era um sapo, estará dizendo que era um animal.
Se ela disser que Kant era um animal, estará a dizer a verdade.
Logo, se ela disser que Kant era um sapo, estará dizendo a verdade.O que está errado?

Análise intensa

Está já disponível online o número 2 do volume 72 da Analysis, cujo índice é o seguinte:
Indeterminacy and normative silence (J. Robert G. Williams)Is 'no' a force-indicator? Sometimes, possibly (Luca Incurvati e Peter Smith)        The T-schema is not a logical truth Roy (T. Cook)A novel (and surprising) argument against justification internalism (Sanford Goldberg)Look-blindness (Jason Leddington)Musical materialism and the inheritance problem (Chris Tillman e Joshua Spencer)Explaining causal loops (Ulrich Meyer)Time for distribution? (Jonathan Tallant e David Ingram)Presentists may say goodbye to A-properties (Joshua Rasmussen)The problem of true-true counterfactuals (Aidan McGlynn)Calling names (John Biro)A comment on McCall (Brian Garrett)Some mixed strategies can evade Pascal's Wager: a reply to Monton (Steven Robertson)Reply to Forbes (Kathrin Gluer e Peter Pagin)Sets and worlds again (Christopher Menzel)Gettier and the stopped clock (Adrian Heathcote)Mad, bad …

Alexander Nehamas

A amizade, a totalidade dos nossos amigos - entre os quais os nossos amigos próximos são os mais importantes - é um dos principais instrumentos ou mecanismos que nós utilizamos para estabelecer um caminho na vida que é distintivamente nosso. A amizade, em outras palavras, não pode ser acomodada dentro dos limites da moralidade, porque a individualidade nem sempre é consonante com a moralidade. A amizade e a arte têm um valor distintivo próprio, que depende, como disse anteriormente, da individuação e diferenciação e não na semelhança e solidariedade com o resto do mundo. Mas ambos são essenciais para a vida e às vezes, para o melhor ou pior, entram em conflito. E, quando entram, não é claro para mim que a moralidade tenha de vencer sempre. Os filósofos têm muitas vezes suposto, - em parte, por influência de Kant - que os valores morais devem sempre prevalecer e, - em parte, por uma leitura moralista da discussão da philia (amizade)em Aristóteles - que eles sempre o fazem. Mas, eu nã…

Thomas Kuhn

Fiquei especialmente impressionado com o número e a extensão dos desacordos expressos entre os cientistas sociais no que diz respeito à natureza dos métodos e problemas científicos legítimos. Tanto a História quanto meus conhecimentos fizeram-me duvidar de que os praticantes das ciências naturais possuam respostas mais firmes ou mais permanentes para tais questões do que seus colegas das ciências sociais. E contudo, de algum modo, a prática da Astronomia, da Física, da Química ou da Biologia normalmente não evocam as controvérsias sobre fundamentos que atualmente parecem endêmicas entre, por exemplo, psicólogos ou sociólogos.