2 de abril de 2012

Bertrand Russell

Nunca daria a vida pelas minhas convicções, porque posso estar enganado.

12 comentários:

  1. A possibilidade do erro não exclui haver certas causas que mereçam sacrificar a própria vida. Por exemplo, lutar pela própria liberdade ou outros valores morais importantes. É claro que podemos estar errados (ninguém razoável nega isso), mas isso não significa que não haja causas porque vale a pena lutar e até morrer. Lembro-me de Giordano Bruno que morreu pelas suas ideias ou Claus von Stauffenberg que morreu depois de tentar assassinar Hitler. Em suma, a possibilidade do erro não parece justificar a tese de que não devemos ou não é desejável dar a nossa vida pelas nossas convicções.

    É claro que Russell aqui está de certeza a pensar num contexto de ideias religiosas (suponho eu), mas concluir daí que não se deve dar a nossa vida por nenhum tipo de convicções (de natureza moral, mas outras também) é uma generalização apressada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Analisar uma frase em separado é muito difícil, por certos termos terem interpretações variadas. O termo problema nessa afirmação é "convicção", pois se interpretamos como sendo ideia ou crença, a critica do José tem procedência, mas se tomarmos "convicção" como sendo um juízo necessário, isto é, uma ideia sobre o mundo que é de uma maneira e não poderia ser de outra, Russell está correto, pois se o que sabemos sobre o mundo é apenas o que as nossos sentidos nos transmitem, dificilmente poderemos defender uma interpretação de mundo como sendo necessária. E mesmo se pegarmos o exemplo de alguém que defende uma visão diferente da vigente, o valor de seu ato não está em ter morrer ou na sua convicção ser verdadeira, mas em nos possibilitar um modo diferente de perceber o real.

      Eliminar
  2. Não me parece que o Russel defenda que "não se deve dar a nossa vida por nenhum tipo de convicções", mas simplesmente afirma que "ele não daria a sua própria vida" por nenhum tipo de convicções.

    De qualquer forma o sentido desta frase do Russel parece-me muito mais apologética de uma certa atitude de "dúvida salutar" que deve estar presente em todos os nossos raciocínios e debates filosóficos, sem que seja necessário chegar ao ponto de "dar a nossa vida" para pormos em causa as nossas mais profundas convicções. Esse "pôr em causa" deve ser feito em qualquer altura da nossa "empreitada filosófica".

    Infelizmente, parece-me, a maioria das pessoas tem de esperar pela altura de ter de "dar a vida" para pôr em causa as suas convicções mais profundas e não o faz uns passos antes, isto ou porque não vê qualquer necessidade em o fazer, ou porque sente que está a pôr em causa algo mais que as suas convicções e ideias (a sua identidade). Talvez por esse motivo sejam muitas vezes conduzidas a situações em que têm realmente de equacionar dar a vida pelas suas convicções.

    ResponderEliminar
  3. Tomás, eu também me lembrei da tua interpretação mais moderada - e mais congruente com a frase - que Russell defende afinal que "ele não daria a sua própria vida por nenhum tipo de convicções". Mas, repara, que se a possibilidade de erro das pessoas em geral não justifica a crença que ninguém em geral pode ou deve em circunstância alguma morrer pelas suas convicções, então a possibilidade de Russell errar não justifica a crença que ele não deve em circunstância alguma morrer pelas suas convicções.

    Nem preciso de dizer que deveria ver melhor o texto de onde esta frase foi tirada para a avaliar criticamente, mas a partir dos elementos que me foram dados, aqui vai. Em relação às questões interpretativas, aposto que Russell está a fazer uma crítica aos mártires religiosos que morrem em nome de Deus (apesar de nesse caso, não morrerem por uma convicção, mas por alguém e, aí, a minha crítica ganha mais força, porque é claro que é permissível sacrificar a vida por alguém - um amigo). Só acho que na sua ânsia de criticar as pessoas religiosas, Russell generaliza.

    ResponderEliminar
  4. Esta é uma frase bastante conhecida de Russell, mas creio que ele nunca chegou a escrever isto. Julgo que foi dita numa das muitas entrevistas que deu, mas não tenho agora a certeza.

    De qualquer modo, acho que é uma afirmação que vale a pena discutir, independentemente do contexto em que ela foi dita.

    Também acho que a palavra chave é "convicções" (o termo original usado por Russell é "beliefs"). Mas parece-me que dar a vida por crenças é algo diferente de dar a vida por direitos: dar a vida pelo direito a ter crenças falsas ou heterodoxas não é o mesmo que dar a vida por tais crenças. Uma pessoa pode dar a sua vida lutando pelo direito de se exprimir livremente e, contudo, recusar-se a dar a vida seja por que crença for, incluindo aquelas que quer poder exprimir. SE isto for verdade, então a afirmação de Russell parece-me aceitável.

    ResponderEliminar
  5. Bem, não sei se é possível fazer uma ligação demasiado relaxada entre crenças e direitos (e, seja como for, há cientistas que morreram pelas suas ideias e não apenas pelo direito de as dizerem). Se alguém dá a sua vida pela igualdade de direito entre raças, então também o faz porque pensa que a crença na igualdade de direitos é verdadeira. E, neste sentido, também está a morrer por causa de uma crença.

    Mais do que isso, se alguém luta por direitos, então também tem de lutar pela aceitação da sociedade de crenças nesses direitos. Novamente, penso que a afirmação de Russell revela-se problemática.

    E, ainda vou mais longe na minha crítica, a afirmação de Russell não é a de que não se deve sacrificar a própria vida por ideias (ou crenças), mas que não se deve fazê-lo PORQUE podemos estar errados. Mesmo que interpretemos a afirmação de Russell em relação a crenças e não a direitos, a afirmação continua a ter problemas. Afinal, também podemos estar errados quanto a direitos. Por isso, se a possibilidade de erro não impede que se possa ou deva sacrificar a nossa vida por direitos, então a possibilidade de erro também não deve impedir que se possa ou deva sacrificar a nossa vida por crenças.

    ResponderEliminar
  6. Não tenho o hábito de comentar citações (a não ser na imediatez do Facebook, sem quaisquer preocupações de dizer algo que tenha algum proveito), mas esta frase de Russell parece-me ser condizente com a humildade intelectual que o caracteriza como um intelectual coerente.De outro modo, um ser humano pode perfeitamente dar a vida por muitas circunstâncias sem que essas tenham que ver com convicções.

    ResponderEliminar
  7. José, é completamente irrelevante que tenha havido cientistas ou seja quem for a dar a sua vida pelas suas ideias, pois o que está em causa não é se há, ou se houve. pessoas a fazê-lo. Essa é uma questão factual: sempre houve pessoas a morrer pelas suas crenças, fossem elas verdadeiras ou falsas. Deixemos isso de lado, pois só introduz ruído na discussão.

    É claro que podemos estar errados quanto a direitos, mas certos direitos são tão básicos que, sem eles, não há sequer condições para nos batermos por quaisquer crenças. Uma coisa é batermo-nos pelo direito a defender uma dada crença, outra diferente é morrer em nome dessa crença. É certo que esta é uma interpretação caridosa do que diz Russell, apesar de a expressão "posso estar errado" dar azo a interpretações diferentes.

    ResponderEliminar
  8. Aires, é óbvio que houve cientistas a morrer pelas suas ideias, o meu ponto é que nós não achamos nesses casos paradigmáticos que é impermissível da parte deles fazerem isso (o que vai contra a afirmação de Russell e é por isso relevante). Mas vou deixar isso de lado por agora.

    Não percebi a segunda parte do teu comentário, por isso peço-te que clarifiques melhor se faz favor face às críticas que eu fiz.

    Distinguiste entre lutarmos por crenças e lutarmos por direitos, mas eu já tinha admitido essa distinção e fiz duas críticas que ainda se aplicam em todo o caso.

    Primeiro, se alguém luta pela igualdade de direitos, também tem de lutar pela aceitação da sociedade da crença na igualdade de direitos. Neste caso, a igualdade de direitos e a aceitação da crença na igualdade de direitos estão demasiado próximas para dizer que uma pessoa está a lutar por uma e não por outra.

    Segundo, o "posso estar errado" de Russell parece-me claramente a asserção que as nossas crenças são falíveis ou de que não são crenças certas (nem vejo outras interpretações). E, se assim for, se o facto de não podermos estar certos quanto a crenças for uma razão decisiva para não ser permissível ou desejável lutarmos ou dar a nossa vida por elas, então o facto de não podermos estar certos quanto a direitos é uma razão decisiva para não ser permissível ou desejável lutarmos ou dar a nossa vida por eles.

    Dizes que há certos direitos tão básicos que sem eles não há condições para nos batermos por quaisquer crenças, mas não vejo o que isso adianta. A verdade é que também há certas crenças tão básicas que sem elas também não haveria condições para nos batermos por quaisquer direitos (crenças sobre como deve proceder o debate racional, por exemplo).

    Outra coisa a apontar é que, no sentido moral, que penso que é o que está a ser usado, ninguém luta para ter direitos (esses, ou se têm ou não se têm independentemente de qualquer sociedade), luta é pela aceitação desses direitos numa determinada sociedade, o que normalmente implica uma data de coisas sobre as crenças dessa sociedade (o que leva à minha primeira crítica).

    A falibilidade não é necessariamente uma razão decisiva para não morrer por certas ideias ou crenças.

    ResponderEliminar
  9. José, a afirmação de Russell nada tem que ver com permissibilidade ou impermissibilidade, até porque ele nunca diz o que as pessoas devem ou não devem fazer. Dito de outro modo, do que ele afirma não se segue que, do seu ponto de vista, seja impermissível alguém morrer por determinadas crenças, pelo que não vejo aqui qualquer questão moral.

    A questão que aqui se deve colocar é a seguinte: há ou não boas razões para dar a vida por certas crenças? Russell admite certamente que há boas razões para defender empenhadamente aquilo que se acredita ser verdadeiro, mas parece que não a ponto de morrer por isso, pois a sua crença pode sempre ser falsa. E, além disso (acrescento eu), se morrer, deixa definitivamente de poder continuar a bater-se por ela.

    No que eu disse também não está em causa a IGUALDADE de direitos, pois lutar por um direito não implica, ao contrário do que sugeres, lutar pela igualdade de direitos: posso achar que eu, e mais ninguém, tenho o direito sobre determinada coisa; posso achar que tenho o direito de fazer certas coisas, mesmo que me esteja nas tintas para os direitos dos outros em relação a isso.

    Mas a minha ideia talvez fique mais clara se pensarmos nas seguintes situações:

    Suponhamos que vivo numa sociedade em que não me é permitido defender as minhas crenças. Seria eu capaz de arriscar a vida para ter o direito (não reconhecido) de as exprimir, sejam elas quais forem? Provavelmente sim. Será isto estar disposto a morrer por certas crenças? Parece-me que não é que queremos dizer quando falamos de morrer por certas crenças.

    Imagina agora que vives na mesma sociedade e que o teu interesse não é o poderes exprimir as tuas crenças, sejam elas quais forem, mas apenas uma dada crença em particular (por exemplo, que o autoflagelo pascal leva à redenção dos pecados cometidos). Se alguém estiver disposto a morrer por isto, creio que não está, em bom rigor a morrer por um direito, mas por uma crença.

    Um direito é uma pretensão legítima a fazer algo, ao passo que uma crença é uma representação do mundo que pode ou não corresponder à realidade. Sendo assim, faz toda a diferença estar ou não errado quanto à verdade da crença.

    Há muitas razões que as pessoas encontram para morrer. Umas são boas e outras nem tanto. Quanto ao resto, isso é lá com elas.

    ResponderEliminar
  10. Aires,

    Antes do mais, um ponto interpretativo. A igualdade de direitos (entre sexos, por exemplo) era apenas um exemplo de direitos pela qual podemos lutar. Eu nunca sugeri, e seria muito pouco caridoso ler-me desse modo, que lutar por um direito é lutar pela igualdade de direitos.

    Outra coisa em que se calhar não fui tão claro, e te induziu em confusão, é que quando dizes que a questão de Russell nada tem a ver com a permissibilidade ou impermissibilidade num sentido ético, certamente tens razão, mas também certamente tem a ver com racionalidade prática e era nesse sentido que eu estava a usar os termos. Como em, se formos racionais a deliberar é permíssivel... ou se formos racionais a deliberar é impermíssivel...

    E a questão particular, especificamente sobre a frase de Russell, é se o facto de sermos falíveis é sempre uma razão boa ou decisiva para não sacrificarmos a nossa vida e eu acho que não é.

    Para dar um exemplo, vamos imaginar que numa sociedade se queima pessoas que acham que a Terra gira à volta do Sol e um cientista que trabalhou a sua vida toda na teoria heliocêntrico é apanhado e lhe são dadas duas opções ou salva a sua vida renunciando à verdade dos seus escritos ou insiste que está certo e sofre a morte. Suponhamos também que o cientista está-se nas tintas para que o seu direito ou das outras pessoas em divulgar as suas ideias seja respeitado, ele apenas está interessado na verdade das suas crenças. Não me parece nada que seja irracional da parte dele insistir que a sua crença é verdadeira e, mesmo que o seja, não é certamente por uma razão tão desinteressante como a mera possibilidade do erro.

    Nada disto implica negar a distinção entre crenças e direitos e, novamente, se podemos estar errados sobre quais são as representações correctas do mundo, também podemos estar errados sobre quais das nossas pretensões são moralmente legítimas.

    Há de facto muitas razões, boas e más, para morrer, mas a mera possibilidade (por oposição a probabilidade significativa) de estarmos errados não é para aqui chamada.

    ResponderEliminar
  11. Alguém morre para salvar duzentos judeus de serem assassinados pelos nazis. Esta pessoa deu a sua vida primariamente em nome da vida dessas duzentas pessoas. Secundariamente, tinha a crença ou convicção de que estava a fazer uma coisa correcta. E podemos conceder que não é possível dar a sua vida para salvar os judeus sem ter a crença ou convicção referida. Mas o que é relevante é a vida dos judeus e não a sua crença de que a vida dos judeus é importante. Isto porque seria algo disfuncional uma pessoa afirmar que está a arriscar a sua vida em nome da sua convicção. Isto revelaria um autocentramento caricato.

    O que Russell tem em mente na passagem acima é uma pessoa dar a sua vida puramente, primariamente, pelas suas convicções, e não por outras razões. O próprio Russell não deu a sua vida por convicções, mas arriscou-se várias vezes -- estando preso em duas dessas vezes -- não pelas suas convicções, primariamente, mas para salvar outras pessoas ou para evitar injustiças que afectavam outras pessoas. E é isto que está em causa na citação que lhe é atribuída -- e que talvez seja apócrifa, porque nunca descobri onde o escreveu ou disse.

    ResponderEliminar