24 de abril de 2012

Os argumentos inválidos não têm premissas?

Deixo aqui o excerto de um diálogo real entre mim e um aluno meu do 11º ano, o João Xavier, na aula de correcção do teste intermédio de Filosofia. Estávamos a falar da pergunta 1.1. do Grupo II, de escolha múltipla. Pede-se para escolher a opção correcta para completar a afirmação «Num argumento, denominam-se premissas[...]»

JOÃO: Professor, Os argumentos inválidos têm premissas?
EU: Claro que sim.
JOÃO: E num argumento inválido as premissas justificam a conclusão?
EU: Não, apesar de ser essa a intenção! Se justificassem a conclusão, o argumento seria válido.
JOÃO: Portanto, nem sempre as premissas justificam a conclusão.
EU: Exactamente!
JOÃO: Então por que se diz nos critérios de correcção que a resposta certa à pergunta é que as premissas são as proposições que justificam a conclusão?

Creio que o João deixou esta por responder, pois não conseguiu encontrar a resposta certa entre as opções apresentadas. 

Quer dizer, foi penalizado por ser inteligente e por saber pensar, aplicando correctamente aquilo que tinha aprendido nas aulas. Mas é possível que quem sabe menos do que ele tenha tido melhor resultado nesta pergunta. Quem o manda ser inteligente? Será isto aceitável?

Enfim, surpresas dos testes intermédios. Mas, o que nos garante que as provas de exame serão diferentes? Bom, talvez isto aqui ajude a melhorar as coisas. 


NOTA: A prova é pródiga em pequenas imprecisões e incorrecções. O próprio tronco da pergunta aqui em causa é disso exemplo: a palavra «premissas» deveria estar entre aspas, como mandam as regras, pois está a ser referida e não usada. Aparentemente, os autores do teste desconhecem a diferença entre uso e menção. 


15 comentários:

  1. Aires,

    Infelizmente, o sistema "educativo" não se coaduna com o pensamento crítico. É objectivo deste formar ferramentas para o mercado de trabalho, ao invés de cidadãos capacitados para reflectir sobre as problemáticas com que diariamente se deparam. É, para mim, motivo de perplexidade que a Filosofia ainda figure no currículo do secundário, especialmente como disciplina obrigatória -- segundo ouvi, desenvolveram-se alguns esforços no sentido de expurgá-la.

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  2. Caro Flávio, faz todo o sentido a filosofia figurar no currículo do secundário, até para contrabalançar esse tal pendor acrítico a que alude. O que não faz sentido é substituir a filosofia por uma caricatura de filosofia.

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  3. Devo dizer que o Desidério já tinha apontado, num texto que publicou no blog De Rerum Natura, este e outros erros do teste intermédio. Mas acho que vale a pena reproduzir aqui a conversa na aula com o aluno, que não fazia a mais pequena ideia do que o Desidério tinha escrito.

    Isto mostra que os erros apontados em textos como o do Desidério não são apenas embirrações sobre pormenores que em nada afectam a resolução concreta do teste por parte dos alunos. A verdade é que se trata de erros que os prejudicam efectivamente e que eles próprios são capazes de detectar.

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  4. Não costumo comentar aqui, mas faço-o só para esclarecer uma coisa. "Premissas" no texto está a ser usada e não mencionada. Não está a dizer que "premissas" tem um "a", ou que tem três sílabas. Está a dizer-nos o que as premissas são (mesmo que imprecisamente), e não o que e não o que a palavra "premissas" é.

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    1. A expressão empregada no texto é "denominam-se premissas", uma vez que apenas palavras podem servir a função de denominar, a palavra "premissas" deveria estar entre aspas. Compare com este caso: denomina-se "Sócrates" o mestre de Platão. O próprio Sócrates não poderia ser denominação de nada.

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  5. Teresa, os teus comentários aqui são sempre bem vindos, mesmo quando estás enganada. Denominar é dizer o nome, ou estou enganado?

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  6. Curiosamente, no último número da Analysis há um esclarecedor artigo de John Biro sobre os dispositivos de menção que não as aspas. Ele defende que

    1) As denominadas "premissas"

    seria uma menção dupla, porque "denominadas" já tem o papel semântico de mencionar, mas não usar, a expressão seguinte. Assim, a expressão 1 seria equivalente a

    2) As " "premissas" ",

    que certamente não é o que se quer dizer. Talvez ele tenha razão.

    Mas não foi certamente por terem estudado o artigo de Biro que os autores dos famigerados exames se exprimiram daquele modo!

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  7. Estranha a proposta do Biro, se o dispositivo tem por natureza o papel de mencionar e com isto dispensa as aspas, então este caso seria aceitável: Sócrates é um nome.

    Não consigo ver razão nenhuma para aceitar tal coisa, mas teria que ler o artigo dele...

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  8. "Sócrates é um nome" não inclui qualquer termo que tenha a mesma função das aspas, pelo que é uma frase incorrecta. Já "Sócrates era denominado sábio" inclui o termo "denominado", que Biro defende ter o mesmo papel das aspas.

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    1. Desenvolvi mal o exemplo, veja este: Sócrates é o nome de Sócrates. Não encontro diferença substancial entre "é denominado" e "é o nome de" ("é o nome de" me parece um caso particular de "é denominado"). Assim, se a tese de Biro implica que "Sócrates é denominado Sócrates" é uma expressão correta, então não vejo razão para aceitá-la, pelo contrário.

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  9. A um argumento com uma ou mais premissas ocultas dá-se o nome de entimema.
    Chama-se entimema a um argumento com premissas ocultas.
    O termo utilizado para designar um argumento com premissas ocultas é entimema.

    É isto que defende Biro? É que as expressões «dá-se o nome de», «chama-se» e «o termo utilizado para designar» têm o mesmo papel semântico que «denomina-se».

    Assim à primeira vista, a proposta de Biro parece-me algo forçada.

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  10. No artigo ele parece oscilar entre uma tese empírica -- que me parece claramente verdadeira -- e uma tese conceptual. A tese empírica é que de facto as pessoas fazem isso: só os filósofos desatam a pôr aspas porque distinguem muito cuidadosamente uso de menção. Bom, nem todos os filósofos: apenas os analíticos. Mas ao mesmo tempo ele parece defender uma tese conceptual, de que realmente tais expressões têm o mesmo papel das aspas, pelo que uso de aspas juntamente com expressões como "dá-se o nome de" ou "denomina-se" resulta numa dupla menção, que não é o que se pretende.

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  11. Vou falar minha maluquice também:
    Se as premissas são inválidas, abandone-as! Se for adiante chegar-se-á a uma conclusão válida, porque aquelas determinam esta. É válida embora possa ser questionada.
    É um jogo de armar.Duas crianças num jogo de cartas, cada qual constrói o se lhe dá na veneta.O resultado é inquestionável.
    Pode-se dizer:
    É uma invalidez válida pela intenção ou armação...
    Fernando Garcia

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  12. Quanta punheta hein gente!

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