20 de abril de 2012

Teste intermédio de... Filosofia? (parte 1)

Realizou-se nesta sexta-feira o teste intermédio de Filosofia - 11º ano. Deixo aqui a minha opinião, que apresento em duas partes separadas, por uma questão de comodidade de leitura. Nesta primeira parte irei referir apenas questões gerais sobre a própria concepção do teste. Deixo a segunda para as questões de carácter científico.

Em primeiro lugar, o teste surpreende pela quase ausência da filosofia propriamente dita, pois praticamente não se pede aos alunos que argumentem ou pensem criticamente sobre questões filosóficas. Basta ver como começam as perguntas: «Indique as três provas...», «Diferencie os dois usos...», «Nomeie...», «Esclareça o sentido da frase...», «Explicite, a partir do exemplo do texto...», «Compare as posições de Hume e Descartes...». Onde estão aqui as competências críticas, argumentativas e problematizadoras, que nas orientações para o teste se diz serem objecto de avaliação?

Esta dispensa de competências filosóficas fundamentais viola, de resto, as próprias orientações oficiais, as quais incluem um elenco das competências a avaliar, distribuindo-as por 4 categorias diferentes, que são as seguintes:

PROBLEMATIZAÇÃO:
- Identificar problemas filosóficos (zero perguntas no teste sobre esta competência);
- Formular problemas filosóficos (zero perguntas)
- Relacionar problemas filosóficos: entre si e com outros problemas (zero perguntas)
- Justificar a relevância de um problema (zero perguntas)

CONCEPTUALIZAÇÃO:
- Identificar conceitos filosóficos (três perguntas: a 1.1 e, com algumas reservas, as 2.1 e 2.2, todas do grupo I)
- Clarificar o significado dos conceitos recorrendo, por exemplo, à sua definição, classificação, explicitação, contextualização (uma pergunta: a 1, do grupo III)
- Relacionar conceitos, por exemplo, por oposição, por interdependência, por hierarquização (1 pergunta, mas apenas em parte: mais uma vez a 1, do grupo III). 
- Aplicar conceitos, por exemplo, na formulação de problemas, na análise, na reconstituição, na produção de teses e argumentos (1 pergunta: a 2.2, do grupo III consiste na aplicação de conceitos na reconstituição de teses)

ARGUMENTAÇÃO:
- Identificar teses e teorias que sejam respostas a problemas filosóficos (zero perguntas)
- Reconhecer o alcance e os limites das teses e teorias (zero perguntas)
- Formular teses e argumentos que constituam ou se integrem em teorias filosóficas (1 pergunta, mas apenas em parte: a 2.1, do grupo III)
- Comparar teses relativas a um mesmo problema filosófico (1 pergunta: a 2.2, do grupo III)
- Defender teses, apresentando argumentos, objecções, ou contraexemplos (zero perguntas)
- Identificar formas argumentativas (duas perguntas: a 3 do grupo I e a 1.6, do grupo II)

ANÁLISE, INTERPRETAÇÃO E CRÍTICA
- Analisar textos filosóficos (2 perguntas: a 1.2, do grupo I, e, em parte, a 2.1 do grupo III)
- Avaliar criticamente teorias filosóficas (zero perguntas)
- Redigir composições filosóficas (não é claro o que seja isto)

Sinceramente, não consigo encaixar aqui algumas perguntas de escolha múltipla nem os percursos A e B do grupo II, pelo que as contas não vão bater certo.

Deixando de lado a enorme confusão conceptual presente na classificação anterior (identificar, formular e comparar teses são competências argumentativas?), consegue-se ver não só que a prova manifestamente não cumpre o que foi anunciado, como não cumpre nos aspectos filosoficamente mais importantes. Em suma:

- rigorosamente nada sobre as tão badaladas competências de problematização;
- 90 pontos sobre algumas das competências de conceptualização elencadas;
- 65 pontos sobre as supostas competências de argumentação indicadas, embora apenas cerca de 10 pontos se destinem a testar competências efectivamente argumentativas;
- cerca de 35 pontos destinados às competências de análise e interpretação, mas não de crítica.

Quase metade do teste incide, portanto, sobre o mesmo tipo restrito de competências. Impressionantemente desequilibrado, no mínimo.

Mas há um segundo aspecto em que o teste viola descaradamente as orientações, desta vez em relação aos conteúdos anunciados. Aí se diz claramente que a lógica formal vale entre 35 a 55 pontos. E explicita o que se entende por lógica formal: a distinção verdade/validade (isto não é lógica formal, mas enfim); as regras do silogismo ou, em alternativa, as conectivas proposicionais e as tabelas de verdade; e, por fim, as falácias formais. 

Ora, sobre a distinção verdade/validade há, com boa vontade, duas perguntas de escolha múltipla (a 1.1 e a 1.3 do grupo II, num total de 10 pontos), sobre falácias formais nada há e sobre teoria silogística ou lógica proposicional, há apenas 20 pontos em jogo. Resultado: um total de 30 pontos para a lógica formal, quando se anunciou que seriam 35-55 pontos.

É notório que os autores da prova procuraram defender-se do desconforto que se adivinha sentirem relativamente à lógica. Mas isso não justifica que tenham violado, mais uma vez, as suas próprias orientações, defraudando as legítimas expectativas dos alunos. E não foram poucos os que já se queixaram disso. 

23 comentários:

  1. Manda isso ao Crato. Se são incompetentes ao ponto de nem saberem fazer contas têm de ser corridos.

    ResponderEliminar
  2. Parece-me grave, no exercício de lógica "moderna", haver uma premissa irrelevante (P V Q). Não é um deslize,trata-se de uma falácia informal, sendo "curioso" ter-se escolhido um argumento formalmente válido mas (informalmente) falacioso. Isso prejudica os bons alunos, que perdem tempo a pensar para que está lá tal premissa.
    E também a confusão no inspector de circunstância/tabela de verdade apresentados nos critérios de correcção, onde não se percebe sequer onde está, e qual é, o resultado final, que devia justificar a validade do argumento.

    ResponderEliminar
  3. As pessoas que fizeram o teste intermédio sentem certamente algum “desconforto (…) relativamente à lógica”. Infelizmente esse desconforto é partilhado por muitos professores de Filosofia – que despacham a lógica, no 10º e mesmo no 11º, com umas conversas vagas sobre argumentação (por exemplo, textos de Perelman e textos ‘argumentativos’ sobre o racismo).
    A equipa que fez o teste intermédio pode ser substituída facilmente, mas não esses professores. Como fazer então provas nacionais de Filosofia sem prejudicar os seus alunos, por inteligentes e empenhados que estes sejam?
    Acresce que esse desconforto talvez não diga apenas respeito à Lógica. Que fazer então?
    Desistir dos testes intermédios e dos exames nacionais não é uma boa opção, devido às diversas vantagens que estes possuem quando são bem elaborados.
    A mudança do programa, se for feita por pessoas com menos desconfortos relativamente à filosofia que os autores do teste intermédio, seria uma opção muito melhor.

    ResponderEliminar
  4. Sem dúvida, Carlos, a mudança de programa é a medida mais sensata. Até porque, como já tenho defendido, parte dos problemas com o ensino da filosofia se deve aos maus programas.

    ResponderEliminar
  5. Vocês os dois sabem que partilho convosco o mesmo amor pela filosofia e pelo seu ensino de excelência. Andamos todos nisto há anos. Eu concordo que seria excelente para os alunos ter bons programas e bons exames nacionais.

    Mas, em primeiro lugar, isso nunca vai acontecer. Quem fizer os programas e exames será mais do mesmo: a filosofia vista como cultura geral doutrinante.

    Segundo, esta concepção de filosofia e do seu ensino que nós rejeitamos é aplaudida por muitos professores. Se eles não têm o direito de no-la impor a nós, o que nos dá a nós o direito de impor a nossa concepção de filosofia e do seu ensino a eles?

    Nada.

    Por isso, a única alternativa é a descentralização total e completa de programas e exames e manuais. E aí, professores diferentes adoptam perspectivas diferentes da filosofia e do seu ensino. E respondem perante pais e alunos, nada mais.

    ResponderEliminar
  6. Desidério, dizes que isso (bons programas e bons exames) nunca vai acontecer. Mas então achas mais provável acontecer o que sugeres? A alternativa que propões, independentemente dos seus méritos, é ainda mais improvável, parece-me.

    Voltando aos programas, não se trata de uns imporem seja o que for a outros (aliás, num certo sentido, os programas de todas as disciplinas são imposições de quem os faz a muitos outros professores que os leccionam), mas antes de se discutir abertamente as coisas e chegar a um mínimo denominador comum. Afinal não é verdade que todos reconhecem que a filosofia é uma actividade crítica e argumentativa? Não é verdade que a filosofia trata de problemas? Não é verdade que há filósofos que todos reconhecemos como tal?

    As pessoas falam e podem chegar a algum sítio, mesmo que não seja exactamente o que cada um quereria. Acho que este é o caminho mais promissor.

    ResponderEliminar
  7. Espero que tenhas razão. Mas o que penso que acontecerá não é minimamente parecido com sensatez, capacidade para ceder e chegar a um mínimo denominador comum. O que acontecerá é cada vez mais professores como tu e o Carlos e a Sara serem impedidos de leccionar filosofia como entendem que devem leccioná-la.

    A descentralização será impossível? Não é. Custa apenas a imaginar, como custava a imaginar, no séc. XIX, que as mulheres tivessem os mesmos direitos dos homens. Ou como custava a imaginar em 1970, já que hoje é 25 de Abril, que algum dia em Portugal tivéssemos a liberdade para publicar o que nos der na telha.

    ResponderEliminar
  8. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  9. Se quiserem um exemplo do que seria um ensino sem programa, vejam o caso do Brasil. Até existem diretrizes curriculares (absurdamente centradas na história da filosofia), mas como não há testes nacionais de filosofia*, o resultado dessa situação é sofrível:
    1) O professor ensina o que quer (quando quer ensinar)e não existe a mínima unidade do que é lecionado em cada escola.
    2) O aluno que se transfere para outra escola descobre que nunca estudou os assuntos "importantes" que o novo professor leciona
    3) Em sua maioria, os professores não ensinam lógica, nem a pensar, nem mesmo filosofia (alguns confundem filosofia com sociologia, outros criam um grupo de autoajuda, outros só tratam de mitologia grega).

    * O Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM - exige apenas questões de ética e política para as quais é melhor não saber filosofia, pois o aluno só tem que saber ler os textos ideológicos apresentados - nada de textos da tradição filosófica.

    ResponderEliminar
  10. Eu sei disso, Tiago. Mas o que te daria a ti o direito de impor aos nossos colegas o que tu pensas que deve ser ensinado? Se tens esse direito, por que não terão eles o mesmo direito de te impor a ti que ensines generalidades vagamente sociológicas ou de auto-ajuda?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu não possuo nenhum tipo de autoridade para isso. Mas o Ministério da Educação sim. Eu sinceramente estaria mais tranquilo se houvesse um programa que dissesse: na 1a série (o equivalente ao 10o ano) devem ser ensinados conceitos de ética e política, na 2a devem ser ensinados fundamentos da lógica e epistemologia, na 3a história da filosofia etc.

      Mesmo que a ordem dos conteúdos pareça estranha ou eu pense que epistemologia é muito difícil para meus alunos, eu saberia que meus colegas devem lecionar os mesmos assuntos em cada série.

      Se alguns professores simplesmente vão oferecer uma caricatura da ética, ou da lógica ou qualquer outro item do programa, isso seria um problema dele e da escola que o contrata. E nada impediria um trabalho decente de quem vai tentar fazer com os alunos uma boa epistemologia, uma boa filosofia política etc.

      Dentro da realidade brasileira, a falta de programa é preenchida pelo vestibular que, quando exige filosofia, propõe um programa que pode variar tanto de Universidade para Universidade que torna impraticável lecionar a disciplilna com a carga horária que a mesma tem no Ensino Médio.

      Eliminar
  11. Há muito venho afirmando que não se ensina filosofia no ensino secundário e que isso será uma das razões porque aqueles alunos não conseguem autonomamente construir saberes próprios! Não aprendem a distinguir verdades de sofismas e, daí para o sistema serem fácilmente manobráveis pelos demagogos da nossa praça!

    ResponderEliminar
  12. É falso que não se ensina filosofia no ensino Secundário. Há muitos professores que o fazem. E há muitos alunos que sabem filosofar muito melhor do que alguns professores.

    ResponderEliminar
  13. Que estranho, fala-se com uma espontaneidade acrítica em "bons programas" e "maus programas", e bons e maus professores, sendo que a virtude está na via analítica. Pela primeira vez concordo com Desidério, não com o que pensa da filosofia, mas com esse princípio de liberdade, ou melhor, de não imposição de uma perspectiva filosófica sobre outras. Por que acham mais relevante uma "tecnologia filosófica" da lógica sintáctica do que, por exemplo, uma fenomenologia existencialista? Por que devemos preferir um pragmatismo rortyano a uma "hermenêutica" da subjectivação foucaldiana? Ou uma crítica kantiana ao hiper-racinalismo hegeliano? Por que não começam por pensar sobre os vossos próprios preconceitos (tantas vezes derivados de uma estreiteza de pensamento confrangedora).

    ResponderEliminar
  14. Não me parece que o programa actual de filosofia português seja bom sob qualquer ponto de vista, pela simples razão de que não tem qualquer filosofia. Não se trata de ter Heidegger em vez de Kripke; trata-se de não ter nem um nem outro, nem Platão, nem Descartes, nem Kant.

    Só que eu sou mais radical ainda: se há colegas que querem fazer da filosofia conversa fiada, não sou eu que os vou proibir, porque não vou fazer com eles aquilo que o Vítor quereria fazer comigo, que seria proibir-me a mim de ensinar e escrever filosofia com essa "espontaneidade acrítica".

    ResponderEliminar
  15. Desidério, a tua proposta está irremediavelmente condenada ao fracasso, pois levados os seus pressupostos a sério, terias de a aplicar também a quaisquer outras disciplinas, como a matemática, a física, a biologia e a história e até acabar com o próprio ensino público obrigatório.

    Atenção que não estou a dizer que o ensino público obrigatório é indiscutível. Claro que não é, pois nada o é. Apenas sublinho que a tua proposta de cada professor ou escola ensinar o que bem entende é incompatível com os princípios em que assenta qualquer sistema público de ensino.

    Por exemplo, uma vez que cada professor pode ensinar o que bem lhe apetecer, pode até decidir nem sequer ensinar seja o que for e, já agora, os próprios alunos ou os seus pais nem sequer querer aprender filosofia, matemática, etc. E se cada professor ou escola podem decidir ensinar o que querem na disciplina de filosofia, podem também decidir dispensar a disciplina de filosofia.

    Mais uma vez, não estou a tentar dizer que isso seria errado. Estou apenas a dizer que, nesse caso, não estamos a falar do sistema de ensino público. Assim, o que propões é mudar o sistema ou até acabar com ele. Mas porquê? Porque achas muito difícil os professores de filosofia chegaram a um consenso mínimo sobre o que se deve ensinar. Mas, caramba, achas mais fácil chegarmos a um consenso sobre o que propões em alternativa?

    Repara que não estávamos a discutir o próprio sistema de ensino, mas o ensino da filosofia nas nossas escolas.

    De resto, não me parece que sejas relativista ao ponto de defender que, perante a diversidade de opiniões, nada mais há a fazer do que aceitá-las todas como igualmente boas.

    ResponderEliminar
  16. Mas que tipo de consenso julgas possível com pessoas que não apenas não sabem que os argumentos inválidos têm premissas, como consideram que isso é irrelevante? Repara na reacção do Vítor Gonçalves, acima. Para ele, é irrelevante quaisquer erros que qualquer exame ou programa tenha, desde que seja claramente anti-analítico. Não se trata, ao contrário do que se pensa por vezes, de se ensinar Hegel ou Heidegger ou Sartre nas escolas; trata-se de, sob o pretexto de se ensinar fenomenologia ou existencialismo, se fazer uma conversa mole em que tudo cabe, menos o rigor, a precisão, a seriedade. E com colegas destes, como propões chegar a um consenso? As pessoas que fizeram os programas, e agora os exames, não estão minimamente interessadas em excelência educativa.

    Não vejo como resolver isto. Há anos que andamos na mesma conversa, e vamos continuar na mesma conversa, e não vamos dar um só passo em frente. É mais simples liberalizar completamente as coisas, e cada professor ou cada escola faz como entender. Assim, acaba-se o conflito que existe desde há anos e que não tem possibilidade de solução, conflito entre quem quer excelência e rigor no ensino e quem quer conversa fiada sob o disfarce de ser fenomenologia ou marxismo ou seja o que for.

    ResponderEliminar
  17. E o caso da matemática, da biologia, da física é exactamente igual: o conflito que opõe quem quer realmente ensinar matemática e quem quer fazer conversa fiada a fingir que é matemática existe há anos e nunca será resolvido. Mais vale liberalizar tudo. Assim, quem está interessado em ensinar matemática seriamente não tem de perder tempo com debates inúteis. E quem quer ensinar conversa fiada ou nada ensinar fingindo que é matemática, que o faça; se isso prejudica os alunos e os pais, estes que se queixem. Deste modo, quem quer fazer um bom trabalho no ensino da matemática não tem de perder tempo com essa guerra.

    ResponderEliminar
  18. A maior objecção à minha ideia é que é impraticável. Pois bem, e é praticável tentar ter bons exames e bons programas? Há anos que andamos a tentar isso e nunca o conseguimos. A minha previsão é que nunca se conseguirá tal coisa. E o tempo que perdemos nesse debate inútil mais vale estar a estudar, escrever e publicar.

    ResponderEliminar
  19. Uma das infelizes características do ensino da filosofia no nosso país é muitos professores acharem que apenas aquilo que eles estão a investigar ou estudar merece ser ensinado aos outros. Foi assim que eu próprio tive de passar metade do ano lectivo na disciplina de Filosofia Política (na faculdade, nos anos 80) a ouvir falar do pensamento social do padre e filósofo Jean Meslier (séc. XVII e XVIII), uma eminência parda da filosofia política ainda por reconhecer e que o nosso professor andava há anos a estudar profundamente.

    Parece que a ideia é: eu interesso-me por (ou calhou trabalhar em) X; logo, á X que vou ensinar aos meus alunos. Isto tem claramente a vantagem de o professor não ter de preparar outras coisas para ensinar. E depois é assim que alunos que dão os primeiros passos na filosofia e que é suposto aprenderem os rudimentos básicos acerca dos problemas e da discussão filosófica, acabam por ter de aturar a hermenêutica da subjectivação foucaultiana.

    ResponderEliminar
  20. «logo, é X que vou ensinar aos meus alunos», queria dizer.

    ResponderEliminar
  21. Desidério, estas coisas levam tempo e exigem paciência e preserverança. Apesar de tudo, já estivémos pior. A discussão pública, o debate de ideias leva tempo a dar frutos, mas não acho que seja inútil, até porque não há outra maneira de avançar. Afinal de contas, a maior parte dos professores de filosofia não deixa de reconhecer que a filosofia trata de problemas, que é uma actividade crítica, etc., mesmo que depois na prática mandem isso às malvas, declarando de forma espontaneamente acrítica e preconceituosa tratar-se de tecnologias filosóficas da lógica sintáctica. Ainda assim, não deixa de haver um ponto de partida comum.

    Seja como for, ainda que isto leve muito tempo, levarás provavelmente muito mais tempo a convencer as pessoas a aceitar o que propões em alternativa.

    ResponderEliminar
  22. Eu acho é que me estou nas tintas para o ensino da filosofia. São demasiados anos a tentar fazer alguma coisa útil, e o resultado oficial é nulo. Se houve resultados, são todos extra-institucionais: os livros que publiquei que são úteis a muitos professores e alunos (que são também odiados por muitos mais e desprezados por outros, o que aceito sem problemas).

    Pensa bem, Aires: o que se conseguiu institucionalmente depois de tantos anos a perder tempo tentando ser consensual e tolerante com ignoramus que falam da lógica sintáctica e nem sabem o que é a factividade, a validade ou sequer uma condição necessária? Institucionalmente, nada. Estes exames, assim como as Orientações que emanam do Ministério são disso a prova viva.

    Dizes que a alternativa que proponho levará mais tempo. A minha resposta é que a alternativa que proponho é a única possível, porque dentro de alguns anos lá estarás tu obrigado a ensinar esse importantíssimo filósofo que é o Delfim Santos, talvez numa leitura deleuziana e com uns pós lacanianos.

    Não duvides. Este exame é apenas o primeiro passo para voltarmos exactamente ao que era o (des)ensino da filosofia em Portugal há 20 anos.

    ResponderEliminar