21 de abril de 2012

Teste intermédio de... Filosofia? (parte 2)


Quanto aos aspectos de carácter científico, este teste não comete tantos e tão grosseiros erros como o do 10º ano, realizado no ano passado. Neste aspecto há, apesar de tudo, alguns progressos. Mas, diga-se em abono da verdade que isso é conseguido à custa de um questionário que evita a filosofia, escundando-se em perguntas que pouco mais pedem ao aluno além da paráfrase, como é o caso da pergunta sobre o patusco texto de Delfim Santos, ou da mera tabuada histórico-conceptual, como é o caso da pergunta sobre o ethos, o logos e o pathos

Algumas imprecisões científicas foram já referidas pelo Desidério. Mas há outras, não apenas no questionário, mas também nos critérios de classificação.

Já vi algumas pessoas protestarem por se chamar tabela de verdade ao que é designado por «inspector de circunstâncias». De facto são coisas tecnicamente diferentes, embora não pareça demasiado grave, pois o inspector de circunstâncias é formado por tabelas de verdade encaixadas sequencialmente. Em rigor, as tabelas de verdade não testam a validade dos argumentos mas as condições em que uma dada proposição é verdadeira ou é falsa, ao passo que os inspectores de circunstâncias testam a validade de argumentos. Mas também é verdade que uma coisa se baseia na outra. Tão impreciso como isto é pedir, como se faz no percurso A, para o aluno «testar a validade» do silogismo, aplicando as regras silogísticas. Só num sentido demasiado permissivo do termo é que se pode dizer que se trata de um teste. Em sentido estrito, um teste não nos dá razões, apenas resultados.

Ainda sobre a lógica proposicional (percurso B), algumas pessoas denunciaram o facto de, nos critérios de classificação, a disjunção exclusiva «Ou a Constança é kantiana ou a Constança é utilitarista» ser dada como inclusiva. Isso acaba por não interferir na validade ou invalidade do argumento, mas não deixa de ser uma incorrecção que acaba por lançar escusadamente alguma confusão nos alunos que estudaram os dois tipos de disjunção.

Mais grave do que isso é descobrir nos critérios de correcção para a pergunta 1, do grupo III, que as noções de «mundo exterior» e de «mundo material» são tomadas como sinónimas. Isto é simplesmente errado. Se Deus existir e for incorpóreo (como alguns pensam) ou se houver entidades abstractas independentes (como pensam os realistas acerca dos universais, por exemplo), então há coisas que fazem parte do mundo exterior e não são materiais. Este erro revela uma confusão conceptual básica inaceitável.

Ainda mais incompreensível é, depois de já nem sequer tantos alunos cometerem o erro de falar de conhecimento verdadeiro (como se houvesse conhecimento de falsidades), encontrarmos esse disparate precisamente nos critérios de classificação para as respostas à pergunta 2.2 do grupo III.

Porém, a pior de todas surge no mesmo lugar (critérios de classificação da pergunta 2.2). Aí se diz os alunos devem referir que o racionalismo é a afirmação de que «a razão é a origem (...) de todo o conhecimento verdadeiro». Quer dizer, se perguntássemos a um racionalista se sabia (e como o sabia) que a relva é verde, ele diria que não sabia, ou então que sabia, mas apenas pela razão. Claro que não há outra maneira de saber que a relva é verde a não ser através dos sentidos. E nem Descartes disputa isto. O que ele disputa é que este seja conhecimento fundacional, coisa bem diferente. Tiradas destas só provam que nunca é demais estudar bem o quadrado da oposição, para aprender a negar a afirmação universal de que todo o conhecimento acerca do mundo vem dos sentidos. E depois queixam-se quando alguém diz que os filósofos são lunáticos! 

Quanto ao resto, só não compreendo por que razão se indicam as editoras e a data da edição das obras de onde foram extraídos os textos, mas não as páginas. Qual é a ideia?

Em suma, hoje não foi um dos melhores dias para a filosofia. Resta-nos trabalhar para que melhores dias se sigam e que isto contribua para evitar piores males no exame nacional que se aproxima, e que seria bom que não desaparecesse.

12 comentários:

  1. Exacto, bem visto. O problema é didáctico já que há milhares de exemplos que não lançariam qualquer confusão. Há desacerto didáctico, concordo.

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  2. Por acaso penso exatamente ao contrário do Aires. Fiquei com a ideia que o teste intermédio fazia o que era esperado, ver até que ponto os alunos apreenderam os assuntos abordados nas aulas. Apresentava uma diversidade tal de questões que permitiam, aos alunos que estudaram, responder com acerto. O do 10º ano foi menos conseguido, parece-me.

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  3. O anónimo ficou com a ideia contrária, mas não diz porquê. Seria bom apresentar razões para o que diz, tal como eu fiz. Já agora, pergunto: qual das razões apontadas por mim a favor do que defendo lhe parece não colher, e porquê?

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  4. Vale a pena ler a opinião da professora Sara Raposo, aqui.

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  5. Olá, Aires. Concordo com a sua opinião sobre o teste aplicado. Sou professora de Filosofia numa escola do nordeste brasileiro e percebo a necessidade de que as provas levem de fato o aluno a refletir. Formular bem as questões de um exame nacional é o mínimo que podemos esperar, já que as próprias provas aplicadas servem de ampla divulgação da Filosofia. Gosto tanto das suas opiniões que venho a questionar-lhe se tens disponível alguma prova de Filosofia para o Ensino médio que tenhas tu elaborado; ou se tens alguma indicação de alguma que eu possa me inspirar. agradeço atenção.
    meu email: binha.marques@yahoo.com.br

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  6. Obrigado, Binha. Neste momento estou bastante ocupado com a correcção dos testes, mas irei enviar o que tiver aqui à mão por email. E o ensino da filosofia aí no Brasil, como vai?

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  7. Os alunos que se inscreveram para fazer o exame nacional de Filosofia (que é opcional) que pensarão destes erros e imprecisões? Alguns talvez já se tenham arrependido dessa inscrição, receando que o exame nacional seja igualmente impreciso e pouco filosófico.
    Como disse o Aires no facebook, este teste é um tiro nos pés. Uma saraivada de tiros nos pés.

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  8. Das questões que coloquei na opinião que escrevi (e o Desidério referiu num dos comentários anteriores), há duas delas que gostava de ver respondidas pelos autores das orientações do programa para o exame nacional (Alexandre Sá, Manuela Bastos, Maria do Carmo Themudo, Pedro Alves e Ricardo Santos), enquanto representantes de instituições ligadas à Filosofia e ao seu ensino:
    1º O que pensam do teste intermédio realizado?
    2º O exame nacional será elaborado nos mesmos moldes que o teste intermédio?
    Julgo que era importante serem dados esclarecimentos públicos sobre estes dois assuntos.
    Os alunos já se inscreveram no exame nacional e alguns vão utilizá-lo como específica para entrarem nos cursos universitários que pretendem. Por isso, deveriam saber - de forma clara e transparente (tal como os professores, aliás) - com o que podem contar ou não terão esse direito?

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  9. Não, Sara, do ponto de vista dos donos da filosofia, os alunos é a última coisa a ter em conta. Muito à frente disso vem tudo o resto: a vontade de doutrinar, a preguiça de estudar, a falta de vontade para admitir lacunas de formação e desconhecimento de bibliografias elementares, o ódio ao que pensam que é a filosofia analítica (mas que na realidade é apenas ódio ao rigor, ao esforço, à dedicação, ao amor pela filosofia). Tudo isso está bem à frente dos direitos dos alunos, para essas pessoas.

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  10. Desidério,
    É-me difícil aceitar esta falta de transparência e de esclarecimentos públicos em relação às questões que coloquei, sobretudo pelos alunos. Começo a perceber que não tenho alternativa, o silêncio impera e não parece incomodar muita gente, incluindo aqueles que representam os professores de Filosofia e sociedades científicas. Eu julgava que também fazia parte das funções destas organizações pronunciarem, do ponto de vista científico e pedagógico, sobre assuntos desta natureza, como aliás já vi acontecer em exames e testes intermédios de outras disciplinas do secundário. Descobri que, afinal, não é assim.
    Só agora estou a acabar de escrever uma resposta aos teus posts do Rerum Natura, gostava de já o ter feito, mas não tenho tido tempo. Ainda não acabei de corrigir os testes intermédios e tenho uma série de outras coisas para fazer. Desculpa a demora.

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  11. Sara, certamente as associações de professores e as sociedades científicas terão de se pronunciar sobre os exames e testes intermédios, havendo canais próprios para isso. Mas há uma boa maneira de o saber, que é perguntares directamente à SPF e à APF em vez de o fazeres aqui.

    Conheces a minha opinião sobre o teste, que tenho publicado a título pessoal. Mas atrevo-me a dizer que a direcção da SPF certamente subscreve a maior parte delas. Seja como for, acho que a SPF não deve fazer alarido das suas posições, pois isso pode até ser prejudicial para a manutenção do exame de filosofia. O que é importante é que não deixe de manifestar a sua posição junto das entidades responsáveis, como tem feito até aqui.

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