22 de maio de 2012

Filosofia deixa escapar talentos?


Tem-se discutido nos comentários de alguns posts neste blog a relevância de alguns autores como Heidegger para a filosofia. Ocorre-me deixar aqui um problema que, apesar de parecer paralelo à discussão, talvez não o seja quanto possamos pensar. O interesse da filosofia não vem do nada, tal como o interesse na ciência ou nas artes. Um dos antecedentes desse interesse tem que ver com o ensino. Em Inglaterra, por exemplo, segundo as informações que tenho procurado obter, a filosofia não é, como em Portugal, obrigatória no ensino secundário, mas opção. Acontece que é uma opção muito procurada e concorre directamente com física, química, biologia, etc... Em Portugal, com 16 anos de ensino, desconheço interesse pela filosofia de alunos que ao mesmo tempo sejam bons alunos e pretendam seguir carreiras científicas ou relacionadas com as ciências. Já me passaram pelas mãos bons alunos que me disseram, rapazes e raparigas de 15 e 16 anos, que apesar de terem gostado da filosofia não podiam com ela fazer nada. O que é que se passará para que os jovens ingleses olhem para a filosofia em igualdade de plano de interesse para as suas carreiras académicas com a física, química ou biologia? O que é que explicará que a filosofia se apresente aos jovens ingleses que por ela optam (e que são muitos) como um saber de maior interesse para um dia seguirem carreiras científicas? Desconheço essa realidade em Portugal. A explicação que avanço é que em Inglaterra o ensino da filosofia tem um interesse primariamente cognitivo, sempre intrincado com a ciência, as artes ou a literatura, ao passo que entre nós tal realidade é mais difícil de transmitir aos estudantes com a formação com que os professores de filosofia saem das universidades. Será que a filosofia em Portugal deixa escapar talentos? O que pensar?

Nota: não possuo qualquer estudo que me indique as taxas de opção pela filosofia em Inglaterra. Os dados que disponho decorrem das informações dadas por pessoas ligadas ao ensino (não só em filosofia) e que têm experiência em Inglaterra. Em Portugal há naturalmente excepções, mas estou nesta questão a dar um tratamento geral ao problema. 

21 comentários:

  1. O ensino de filosofia deve ter em vista ampliar o conhecimento do aluno, e faze-lo compreender o mundo de diferentes formas, explicar novas formas de entender as coisas, quebrar com preconceitos ou sensos comuns, estimular a investigação... A filosofia é necessária em qualquer ensino.

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  2. Não sei responder às perguntas, mas pela minha parte, sempre me fascinou saber, com seu quê inseguro e de desconcertante, do intuir ao pensar e sentir, pensar o que se sente e sentir o que se pensa, do formular ao comunicar e do representar ao fundamentar, a filosofia esteve sempre no centro das minhas atenções, como algo de indomável, sobre "objectos" indomáveis, tais como o pensamento histórico, ou económico, ou religioso. As assolapadas, e não raro pretensiosas, certezas das ciências não me seduziam tanto. O pão pão, queijo queijo, nunca me convenceu; ocultava sempre qualquer coisa que eu ansiava desvelar. No fundo, talvez fosse a minha rebeldia em não me conformar com que as coisas tenham de ser como são. E a filosofia era como um oceano de vastos horizontes que não cessavam de se metamorfosear, ou tomar novas configurações e apelos, como um baralho com um número indefinido de cartas, ou uma mente que se desenvolve pela força do pensamento. Pensar sobre objectos presentes e pensar sobre memórias, de objectos, ou de acontecimentos, ou de pensamentos...
    Em vez de me sentir derrotado pela perspectiva das dificuldades, senti-me animado a progredir passo a passo, como se aprende a andar. E foi de pequenos prazeres de ir entendendo, ou de pensar que entendia, que me fui confirmando nessa curiosidade e nessa paixão (não declarada, insegura, hesitante e temerosa) do discurso filosófico.
    Há algo de potencial demolidor na filosofia que faz sempre falta para nos libertar. É como se ela fosse o único direito que ninguém pudesse tirar. É um sentimento que lembra o da literatura, a liberdade que só conhece os limites da imaginação e do engenho verbal.
    Mas a filosofia é tão rebelde que não pactua com imaginações e engenhos, de tudo "suspeitando" e se distanciando, ao ponto de suspeitar de si própria. E era este tipo de "autofagia" ou inquietação que eu não desejava para a minha vida. A liberdade não me parecia, em caso algum, independente. O triunfo da filosofia, na minha perspectiva, não estaria na filosofia, mas em mim.

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  3. Rolando

    Eu colocaria o problema da outra forma. Mesmo que o ensino da filosofia tivesse um interesse primariamente cognitivo, seria possível à mesma cativar os alunos ao ponto deles quererem ir para um curso de filosofia?

    O que poderá levar muitos bons filósofos em potência a fugir dos cursos de filosofia sejam precisamente o facto deles acharam, bem ou erradamente, que os cursos de filosofia de pouco valor têm no mundo profissional.

    O que pensas?

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  4. Olá Pedro, sim estou de acordo que as opções são ditadas muito em função das dinâmicas do mercado de trabalho. Mas então o que explica que os jovens ingleses optem muito pela filosofia sendo que nem sequer vão directamente fazer nada com a disciplina, isto é, não vão ser professores de filosofia, não vão publicar livros de filosofia, etc...? Se fosse somente pelo que dizes, nesse caso os jovens ingleses não optariam pela disciplina e parece que mesmo pensando no mercado profissional eles continuam a ter filosofia como uma das suas opções principais.

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  5. Rolando

    Desconheço em absoluto a realidade inglesa. Apenas tenho a vaga ideia de que tanto no RU como nos EUA, não há cadeiras de filosofia de frequência obrigatória no ensino secundário. Dito isto, a única coisa que posso afirmar é que o que poderá levar imensos jovens a tirar cursos de filosofia em Inglaterra seja precisamente o facto destes desejarem adquirem conhecimentos que poderão vir a ser úteis, de algum modo, para as suas futuras carreiras científicas.

    Este interesse poderá dever-se ao facto da filosofia ser uma área valorizada e respeitada naquele país, o que pode-se verificar na qualidade do ensino desta disciplina no ensino secundário. E talvez seja isso, aliado a um certo desejo dos estudantes em enriquecer o seu intelecto de modo a tornarem-se bons cientistas, que os leve a cursar filosofia.

    Eu não discordo da ideia que tu avanças Rolando. Mas será o facto de não haver um ensino de filosofia de qualidade o que explica em grande parte o facto dos jovens portugueses fugirem dos cursos de filosofia? Talvez explique, mas parece-me a mim que o problema é muito mais abrangente. Se a filosofia fosse dada pelas escolas deste país de uma forma intelectualmente estimulante e também intricada com as artes e ciências, será que se sucederia em Portugal algo semelhante ao que esta ocorrer em Inglaterra? Comparadas as culturas académicas e a forma como o ensino é organizado tanto aqui como lá, parece-te isso possível?

    São estas as perguntas que te faço. Não sei se são minimamente relevantes para o debate que se pretende com as questões por ti levantadas, por isso espero não estar a fugir ao assunto.

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  6. Caro Carlos, se ler livros de ciência desde Feynman até Sagan verá que é exactamente com essa emoção que estes autores se relacionam com a ciência.

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  7. Pedro, clqro que sim, o problema é sempre mais abrangente. Com efeito a questão da qualidade do ensino de uma disciplina parece-me central para a sua vitalidade . Sendo esta uma ponta entre outras pontas, parece-me uma ponta central. Mas 1uando dizes que o problema é mais abrangente, estás a pensar em quê?

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  10. Rolando

    Um dos problemas que tive mais em conta nos comentários que escrevi era se a adopção da estratégia dos estudantes ingleses é economicamente viável para os estudantes universitários portugueses de condição modesta e genuinamente interessados em cursar ciências.

    Para um estudante pobre, é mais pragmático que ele se forme primeiro no curso em que ele pretende fazer carreira e só depois cursar numa área que só lhe terá utilidade na medida em que lhe enriquecerá o intelecto.

    Honestamente só consigo encontrar razões de ordem económica que expliquem a fuga dos jovens dos cursos de filosofia, para além daquelas que tu mencionaste.

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  11. De conversas que às vezes tenho com uma amiga a viver nos E.U., fiquei com a ideia que, por aquelas paragens, quem tem cursos de filosofia, pode conseguir interessantes saídas profissionais, para lá, bem entendido, do circuito escolar/académico.

    Pelo que percebi, em sectores empresariais mais dinâmicos e inovadores (coisa que por cá escasseia notoriamente), quem vem da área da filosofia ou das artes é visto como alguém que poderá trazer outra criatividade e inovação, que introduz divergência e perplexidades no pensamento.

    De quem é de filosofia, espera-se então que traga, sobretudo, novos conceitos, i.e, a capacidade de pensar e apresentar novas conceptualizações.
    Porque os "conceptores" das áreas de marketing, comunicação ou gestão já dificilmente conseguem avançar propostas que façam a diferença, que abram possibilidades inusitadas.

    Curiosamente, quando ouvia e pensava nisto, lembrava-me de uma concepção (e prática, passe a redundância) de filosofia, que está cada vez (mas se calhar ainda bem...) mais afastada das academias, filosofia como "criação de conceitos" (aí, lembramo-nos, claro, de Deleuze), conceitos que - se confrontam e suscitam problemas verdadeiros - têm uma capacidade de irradiação própria, uma potência de produzir diferenças ou mesmo paradoxos, que ultrapassa quem os propôs, e que impedem o pensamento de de tornar simplesmente uma opinião, uma habilidade adestrada ou uma tagarelice, por mais sofisticadas que se apresentem ou presumam.

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    1. Caro Rui Gomes,

      Dados recentes (que agora não tive tempo de procurar) mostram que o curso de filosofia é, nos EUA, o que tem um maior índice de empregabilidade (e não há ensino obrigatório de filosofia nas escolas para absorver muitos dos licenciados nesta área). Os dados mostram que muitos lugares de relações públicas e até de direcção não executiva de muitas empresas de topo eram "filósofos". Lembro-me de ter visto referidas empresas como a IBM, a Winnie the Pooh e outras gigantes. E também é frequente ver "filósofos" entre equipas pluridisciplinares em domínios tão diferentes de investigação como a inteligência artificial, as neurociências, os sistemas de informação, etc.

      Também há dados sobre as disciplinas cuja formação é mais valorizada. Também aí a filosofia está nas três primeiras, nos EUA. E no Reino Unido as coisas também são relativamente animadoras para os licenciados em filosofia. Pode, por exemplo, ver no seguinte artigo:

      http://www.timeshighereducation.co.uk/story.asp?sectioncode=26&storycode=404855

      Mas porquê? As razões apontadas prendem-se geralmente com o treino que os filósofos têm para detectar problemas e distinções subtis, para argumentarem correctamente e detectarem raciocínios falaciosos, para apresentarem ideias difíceis de forma clara. Enfim, porque têm um treino das competências críticas que é muito útil quando se trata de o aplicar a situações concretas da vida das empresas e para encontrar soluções para problemas e impasses persistentes.

      Mas isso é nos EUA e no RU, onde o ensino da filosofia é uma coisa que não é na generalidade das universidades francesas ou italianas, onde se inventam conceitos todos os anos, como o inovador conceito deleuziano de "dobra". Os cursos de filosofia americanos que dão acesso a bons trabalhos são os de Harvard, MIT, Berkeley, Yale, Rutgers, Stanford, Cornell, CUNY, NYU.

      Sugiro que se vá ver quem são os filósofos que lá ensinam.

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  12. Soube há pouco da decisão do prof. Desidério pôr termo à revista Crítica e distanciar-se da intervenção assídua na blogosfera. Tem todo o direito de se reservar mais tempo para o trabalho profissional e a vida pessoal. Mas, desde já, é de elementar justiça reconhecer o extraordinário esforço que tem feito de há anos pela promoção da cultura filosófica nesta sáfara terra portuguesa, tão agreste para tais cultivos, e que não abandonou nunca, mesmo longe. Um esforço tanto mais extraordinário quanto foi em não pequena parte de uma entrega generosa e gratuita. Um exemplo raro de genuíno serviço público. Professores a alunos de Filosofia, o público culto em geral ficamos-lhe a dever esse inestimável serviço, que aliás continua acessível e prestável.

    E não podia ter-se despedido melhor, quando ainda há poucos dias aqui (a propósito do caso Heidegger), nos deu uma lição de lúcida crítica cultural e de ética magnimidade para com as mais díspares posições e expressões do espírito humano, assim na cultura como na política.

    Pouco ou nada me interessam as escolas e estilos de fazer filosofia. Interessam-me as pessoas e o que cada uma pensa, diz e faz. Mantive, e mantenho, com o prof. Desidério frontais divergências, em graves questões como o abortamento ou o fenómeno religioso; mas enconcontrei nele sempre um opositor aberto, leal, paciente e tolerante, como em poucos. Eis o que, em consciência, não posso deixar aqui de reconhecer e homenagear.

    Um agradecimento também ao prof. Aires Almeida por esta oportunidade.

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  14. Peço desculpa: sem menoscabo do prof. Aires, eu queria nomerar Rolando Almeida.

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  15. Olá Duarte, pela nossa parte um grande agradecimento pelas suas palavras. Transmitirei o que disse ao Desidério, caso ele não passe mesmo por aqui. Um abraço e volte sempre

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  16. A pessoa que referi, por razões profissionais, está mais ligada às dinâmicas da área do empresariado. Conhece essa realidade de perto, não por "estudos" ou "dados estatísticos" (o que, claro, tem vantagens e desvantagens).

    As competências que mencionei no meu comentário são aquelas que, pelo que percebi, parecem mais suceptíveis de fazer a diferença, de trazer verdadeira novidade e inovação, nos sectores mais dinâmicos da economia.

    O principal problema entre nós, para as pessoas da filosofia (mas de modo geral para todos os sectores criativos), prende-se com uma indigente tradição e cultura empresariais, que procura a "competitividade" pelo lado mais ruinosamente fácil dos salários baixos, da diminuição dos direitos laborais, e por aí fora...

    Por falar em Deleuze, ocorre-me questionar se muitos desses "filósofos encartados made in USA" não militarão na causa que se pode designar por "cogito mercantil"...

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  17. Caro Rui, se quiser obter mais informações pode consultar aqui: http://stephenlaw.blogspot.pt/2012/05/this-previous-post-bears-repeating-in.html Se é cogito mercantil ou não, não sei responder pois não me parece relevante. Obrigado

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  18. E por que a filosofia precisa estar associada a seja o que for para ser interessante? Talvez por não ser óbvio, mesmo para alguém minimamente informado, como contribuir para alargamento de nosso conhecimento ingressando em um curso superior de filosofia.

    Outro ponto, áreas como inteligência artificial e filosofia da ciências especiais talvez tenham mais possibilidade de gerar empregos fora do modelo tradicional, enquanto outras especialidade não atingem estes setores.

    Em uma perspectiva mais abrangente, se a visão geral que se tem no país não é tão boa, inevitavelmente ser terá poucas pessoas seguindo em direção ao curso, ainda que o esforço profissional de alguns esteja a par do que melhor se produz.

    Se a qualidade do trabalho dos filósofos gera mais atenção e pessoas para profissão, conclui-se que ainda não se tem a qualidade necessária para satisfazer os olhos de alguém cujos os parâmetros são países de língua inglesa.

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