30 de maio de 2012

Filosofia para crianças


Para quem pensa que a filosofia é uma disciplina muito avançada, complexa, abstrata, etc. para ser apresentada para crianças, a leitura de Big ideas for little kids de Thomas Wartenberg vem em boa hora. Esse pequeno livro, baseado na própria experiência do autor com o ensino da filosofia para os pequeninos, mostra o quanto as crianças podem se interessar por questões filosóficas e o quanto é fácil ajudá-las a pensar sobre elas.
O método é simples e dispensa qualquer formalismo: através de estórias infantis. Tudo o que o professor precisa fazer é detectar as questões filosóficas que venham a surgir das estórias e incitar as crianças a discuti-las. É claro que não esperamos que crianças de 6 ou 7 anos consigam pensar sobre o paradoxo da condicional material ou sobre possibilidades relativas; é o suficiente que percebam a complexidade de certas coisas no mundo, como por exemplo, a dificuldade de se dizer o que é uma obra de arte, o que é que faz uma ação ser correta, por que há algo e não nada, e assim por diante. Também não esperamos respostas brilhantes e nunca d’antes ensaiadas; tudo o que queremos é que as crianças consigam perceber os problemas filosóficos e ousem respondê-los.
O livro se divide em quatro partes. A primeira trata do interesse das crianças por questões filosóficas e como podemos conduzi-las a uma discussão filosófica. Através de sua experiência, Wartenberg nos ajuda a desfazer a idéia de que a filosofia não é para crianças. Ele menciona uma conversa que teve com o filho de cinco anos: o garoto ficou perplexo com o fato de existirmos –- se para tudo o que existe, existe sempre algo anterior que foi responsável por sua existência, sempre existiram coisas? Isso significa que o universo não teve começo? Longe de ser uma anomalia, as crianças geralmente têm esse tipo de perplexidades, nós é que na maioria das vezes não paramos para ouvi-las. Para ensiná-las a filosofar tudo o que precisamos fazer é dar ouvidos a essas perplexidades, tornado natural a elas o processo de procura por respostas.
Mas para ensinar as crianças a filosofar é preciso abandonar uma prática comum no ensino em geral: o modelo voltado para o professor, cujo objetivo é transmitir ao aluno, quase que por osmose, o maior número de informações que se conseguir. Já se vê que esse método é ineficaz para ensinar a filosofar -– a maioria das questões filosóficas ainda não foi resolvida. O modelo proposto por Wartenberg é o modelo voltado para o aluno, onde o objetivo é, sobretudo, fazer com que o aluno desenvolva por si próprio a capacidade de defender seus próprios pontos de vista. Sem esse método o ensino da filosofia é completamente inviável –- até mesmo para adolescentes e adultos. O papel do professor se reduz, de acordo o modelo voltado para o aluno, a um mediador, tendo como principal função ajudar os alunos numa discussão filosófica. Sua função, além de iniciar a discussão, é clarificar aos alunos o que está em questão, ajudá-los a articular melhor as suas idéias, colocar ordem na discussão, etc. Para usar a metáfora de Wartenberg, a atividade filosófica é como um jogo, e como todo jogo possui regras; o professor é o juiz e sua função é fazer com que as regras do jogo sejam cumpridas.
As outras três partes nos ensina a botar a mão na massa. A parte 2 ensina a montar um plano de aula. A parte 3 dá exemplos de várias estórias (e.g., O Mágico de Oz) que levantam questões filosóficas relativamente simples e compreensíveis às crianças. A última parte sugere algumas atividades complementares a fim de ajudar os alunos a se expressarem melhor, enxergarem o problema com mais clareza, etc.
Professores, mãos à obra!

6 comentários:

  1. Uma proposta interessante e oportuna, a propósito do bicentenário dos famosos Contos dos Grimm.

    Agora quanto às estratégias do ensino "centrado no aluno" e do professor como mero mediador/moderador... muito haveria que dizer. Aplicando já ao caso: se o professor não tomar desde o início a iniciativa e o protagonismo de contar a história de maneira a fixar a atenção e o interesse dos alunos...

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  3. Do prefácio, uma ideia polémica:

    "you do not have to have a background in philosophy to become an elementary-school philosophy teacher. All you need is a genuine interest in fostering the independence, creativity, and inquisitiveness of your students—as well as patience and a sense of humor!"

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  4. Boa noite,

    O referido livro já foi traduzido para o português?Há como fazer download?

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  5. Boa noite,

    O referido livro já foi traduzido para o português?Há como fazer download?

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