18 de maio de 2012

Helena Melo

Um aspecto pessoal sobre o qual nunca escrevi, mas que é crucial para compreender estes mais de 17 anos de trabalho de divulgação e ensino da filosofia, é uma história que envolve a minha colega de curso Helena Melo que, pelo menos até há alguns anos, era professora de Filosofia em Luanda, Angola.

A filosofia que era ensinada nas escolas secundárias e na universidade não me interessava. Mas fui estudar filosofia porque me apaixonei pelo género de coisa que vi Descartes a fazer nas Meditações, quando andava no décimo segundo ano. Raciocínio intenso, objecção e resposta, teorização sofisticada sobre problemas muitíssimo abstractos e apaixonantes. Quando vi isto percebi que já gostava muito de filosofia antes ainda de saber que era filosofia. Mas a filosofia na escola não tinha qualquer relação com tal coisa, não nos ensinava a fazer isso. Na universidade descobri que era mais do mesmo. Apesar de as carências culturais, intelectuais e bibliográficas não serem tão profundas, o ensino estava muitíssimo longe da excelência educativa e filosófica. Andei vários anos pensando se valia a pena realmente fazer um curso que não me preparava minimamente para fazer o que eu queria: filosofar.

Foi então que descobri que as bibliografias usadas na universidade e na escola eram apenas uma pequeníssima parte da bibliografia filosófica internacional. Descobri esta bibliografia na Biblioteca João Paulo II, da Universidade Católica de Lisboa, de que era leitor -- dado que a biblioteca da Universidade de Lisboa, onde eu era aluno, era muitíssimo pobre. Quando descobri bibliografias muito diferentes das que eram veiculadas na universidade, percebi que aquilo era o que eu procurava. Porque não apenas nessas bibliografias pessoas como eu faziam filosofia, com uma linguagem despretensiosa e muito directa, sem o lodo gramatical que era cultivado na universidade, mas também porque -- e isto era comovente -- se davam ao trabalho de escrever livros introdutórios muito, muito acessíveis e muito, muito inteligentes, que me ensinavam directamente, e sem pretensões, a filosofar.

Assim, continuei o curso, sabendo que era o sacrifício necessário para mais tarde poder estudar apenas o que eu considerava interessante. Nas horas vagas, tentava aprender filosofia, sozinho, o melhor que podia, com a ajuda de professores estrangeiros que nada me deviam mas que escreviam livros que para mim eram cruciais. Estava quase a acabar o curso quando a Helena Melo mudou tudo, para o bem ou para o mal.

No intervalo de uma aula particularmente desinteressante eu achei graça à cara de enfado dela. Eu tinha no máximo trocado um par de palavras com ela, ao longo do curso, porque tanto ela como eu fazíamos disciplinas de diferentes anos. Então perguntei-lhe se a aula era assim tão má, e ela respondeu que todos os anos pensava cancelar o curso e todos os anos voltava a ele e sempre se arrependia. Eu nunca tinha dito fosse a quem fosse que havia muitas outras bibliografias, com abordagens muito diferentes da filosofia. Mas disse-lhe a ela, e expliquei-lhe a diferença. Ela mostrou interesse e fez-me várias perguntas. Eu achei graça ao interesse dela, porque a verdade é que a generalidade dos colegas de curso não tinham quaisquer interesses culturais nem intelectuais -- nem em filosofia, nem em coisa alguma. E fui respondendo, dando exemplos, falando de autores e de temas.

Depois de um silêncio, ela disse-me com ar reprovador: "Então tu sabes de tudo isso e não dizes a ninguém?"

Pronto, agora já disse a alguém. Disse-o a muitas pessoas. E disse-o durante 17 anos. Já chega, Helena.

30 comentários:

  1. Permita-se-me um comentário curioso. Quando comecei então a falar com vários colegas de curso, no final da graduação e no mestrado, sobre as bibliografias alternativas, fui curiosamente interpretado como alguém que falava muito com as colegas -- porque nessa altura a generalidade dos estudantes de graduação de filosofia eram do sexo feminino -- para ir com elas para a cama. Nunca fui com nenhuma delas -- nem deles, já agora -- para a cama. O que é curioso nisto é ser tão exótico que alguém procure realmente fazer um trabalho de divulgação sem outra finalidade que não seja o amor pela sua própria disciplina. Mas, claro, quem não tem este amor pela filosofia é incapaz de entender quem o tem.

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  2. Desidério
    O que quer dizer?
    Nós ouvimo-lo, lemos os seus artigos, aceitámos as suas sugestões bibliográficas, partilhámos um pouco dessa paixão pela filosofia... e "isto" teve finalmente o propósito e o proveito desejado.
    Eu sei que também não fomos consigo para a cama :) no último ano nem pagámos as nossas contribuições para a Crítica...
    Mas tudo isso pode ser remediado... ;)
    Continue, continuamos deste lado.
    Paula

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  3. parabéns pelo trabalho efectuado ao longo destes anos.

    nuno.

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  4. Desidério:
    A Crítica e a Filosofia Aberta foram para mim e para muitas outras coisas aquilo que a universidade não conseguiu ser: um curso de filosofia. A nossa “Oxford de filosofia”, como muito bem disse o Rolando Almeida.
    Se a utilidade do teu trabalho se pudesse traduzir em riqueza serias certamente mais milionário que o Bill Gates. :) Espero que se tenha traduzido, ao menos, em felicidade e realização intelectual.
    Obrigado! E votos de sorte e felicidade para os teus projetos futuros!

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  5. Queria dizer "para muitas outras pessoas" e não coisas, claro.

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  6. Muitíssimo obrigado, Carlos. Fi-lo com muito gosto e muita paixão porque gosto de ensinar e porque a filosofia é apaixonante. E o trabalho que tu, o Aires, o Rolando, a Sara, e tantos outros colegas do secundário têm feito é maravilhoso. Quem me dera a mim ter tido professores como vocês. Continuem esse excelente trabalho!

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  7. Desidério,
    Com o fim da tua colaboração na Crítica, eu - no “Dúvida Metódica”- sinto-me mais sozinha. Sem os materiais que disponibilizaste ao longo de todos estes anos na Crítica, sem tudo que ai aprendi, o blogue que eu e o Carlos criamos seria muito diferente do que é. E, sobretudo, o modo como eu ensino Filosofia aos meus alunos seria muito diferente. A Crítica permitiu, a mim e a vários professores, perceber como se podia saber e fazer Filosofia de outro modo. Por isso, é que o teu contributo para a qualidade do ensino e a divulgação da Filosofia é inestimável.

    Mas compreendo que, depois de remar tanto tempo contra a maré, procures outras paragens. Já fizeste muito, muito mais do que devias.
    Obrigada!

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    1. Muito obrigado, Sara! Os teus alunos são uns sortudos! Continua o bom trabalho!

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  8. Apesar de que nunca comentei aqui, sempre leio a Crítica e tenho muito que agradecer. Tenho 16 anos, moro no Amazonas, estudo numa escola péssima. Não fosse por haver descoberto o site da Crítica no ano passado, é provável que eu nunca viesse a me interessar por filosofia. Eu desconhecia por completo o trabalho maravilhoso que alguns filósofos fazem hoje.

    Estou começando a estudar filosofia, lógica, a ler artigos na internet e – ainda que mal – a pensar e escrever. Pretendo trabalhar como filósofo no futuro. A boa filosofia é o que mais me interessa, e foi na Crítica (e nos livros de divulgação recomendados na Crítica) que eu a descobri.

    Acesso a Crítica todos os dias. Felizmente os artigos permanecerão online. É de longe o melhor site de filosofia em português (e também melhor que muitos sites em inglês). Foi e espero que continue sendo importante para jovens interessados por filosofia - como eu.

    E boa sorte no seu trabalho futuro! Provavelmente vai ser interessante...

    Obrigado,
    Otávio Magnani

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    1. Querido Otávio

      Tudo valeu a pena nestes 17 anos para chegar até si. Foi para si, e para outros como você, que fizemos a Crítica. Vá em frente, estude, estude e continue a estudar.

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  9. Descobri a 'Critica' em 2001. A filosofia no secundário passou-me completamente ao lado, mas por um conjunto de circunstâncias curiosas lá fui parar a uma licenciatura em filosofia que apesar de não ser totalmente desinteressante, deixou-me muito confuso. Foi então que li muitos dos artigos deste local. E fez-se luz! A confusão dissipou-se e percebi bem melhor o que era a filosofia, seus problemas, perplexidades, argumentos... Parabéns por este imenso trabalho ao longo destes anos todos! Muito obrigado!
    Luís Pedro

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    1. Já valeu a pena todo este trabalho, Luís Pedro. Eu não tive a sua sorte!

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  10. O Desidério tem o direito de terminar a actividade do blog. O cansaço é uma boa razão. Sem me querer precipitar na generalização, penso andarmos todos exaustos, às vezes por excesso de trabalho, outras por nada fazermos.
    Acontece que tenho de expressar o meu profundíssimo agradecimento por me ter feito de novo - ou talvez pela primeira vez - gostar da filosofia. Sim, daquela que nos entusiasma quando lemos as meditações!
    Ao fim de 32 anos de ensino e quase 29 a ensinar uma mixórdia ideológica onde se misturava sociologia+psicologia+marxismo+politicamente correto+história da filosofia, descobri os manuais "Arte de Pensar" e o "Criticamente".
    Não estava habituado a este tipo de pensamento e eu próprio tive de reaprender muita coisa; posso ainda dizer que noto nos alunos que realmente trabalham um entusiasmo verdadeiro na discussão dos problemas, depois da sua leitura.
    É certo que não concordo com todos os seus pontos de vista, nomeadamente com alguns que colidem com o meu catolicismo, mas isso agora é uma questão menor, pois ajudou-me a reflectir melhor sobre os mesmos.
    Agora, o que interessa, é agradecer-lhe, do fundo do coração e da razão, claro, pelo que me ensinou.

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    1. Muito obrigado, António. Gostaria apenas de distinguir duas coisas: o meu ateísmo do meu ensino.

      Sou ateu e tenho esse direito. Mas no meu ensino e divulgação jamais tentei fazer a cabeça dos outros, e espero que me faça essa justiça. Se acaso num ou noutro momento falhei na imparcialidade de divulgador e professor, espero que seja visível que é um erro de um ser humano falível, e não um desejo sistemático de fazer a cabeça dos outros.

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  11. A primeira vez que escrevi um comentário para a Crítica foi há uns 12, 13 anos atrás quando alinhavei umas frases quaisquer a relativizar o bem e o mal - uma teoria brilhante que eu defendia na altura. Do outro lado respondeu-me um senhor que não me tratou de forma paternalista ou sarcástica, não me insultou nem me chamou IDIOTA! nem nada do que eu estava habituado noutros sítios na net (e não só!).

    Essa pessoa foi o Desidério (e a Célia Teixeira também participou nessa discussão) que, com muita paciência lá foram desmontando o que eu ia dizendo, argumentando contra a minha posição, respondendo às minhas perguntas sempre de forma muito paciente e educada.

    Acho que na altura fiquei com a minha posição (não a abandonei totalmente, devo dizer) mas ficou-me para sempre essa forma de dialogar, de discutir ideias respeitando o outro e tomando realmente interesse no que ele tem para nos dizer que nunca mais me abandonou. Essa discussão marcou-me tanto que (depois de milhares de outras discussões na net e não só) nunca mais me esqueci desta primeira e ainda tenho na memória algumas das frases e ideias que trocamos. Essa discussão marcou-me tanto que hoje em dia dedico todo o meu tempo a ensinar miúdos e graúdos a dialogar como o Desidério e a Célia me ensinaram a fazer, há uns 12, 13 anos atrás.

    Um grande Abraço!

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    1. Obrigado, Tomás! E continua o teu interessante trabalho de discussão socrática!

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  12. Caríssimo Professor Murcho,
    Sou um estudante brasileiro de direito da Universidade de Brasília e até o presente momento nunca fiz comentários aqui.
    Buscando ardentemente respostas às questões jurídicas fundamentais, comecei a estudar filosofia, o que eu logo percebi que não deixaria jamais de fazer.
    Entretanto, depois de algum tempo eu tive a impressão persistente e perturbadora de que a maioria dos textos mais reputados não apresentavam teses cogentes e que sua aceitação era favorecida em razão da linguagem esotérica empregada pelos autores, aos quais as pessoas se dirigiam como a verdadeiros gurus, postos, numa atitude reverencial, acima da compreensão comum. Eu era, então, um órfão disparando heresias contra Habermas, Foucault, Feyerabend e Boaventura Santos.
    Descobrir a Crítica nesse período deu-me a esplêndida oportunidade de fazer jus às minhas exigências cognitivas quanto à filosofia e de me surpreender maravilhado com a imensa pertinência dos artigos em que o Professor fazia denúncias ao estado de coisas da disciplina.
    Sem receio de exagerar, estudar filosofia para mim foi, a partir daí, e ainda é sinônimo de ler os textos da Crítica e as obras aí recomendadas pelo Professor. Os resultados são muito satisfatórios e a minha dívida intelectual, incomensurável.
    Lamento, hoje, como aprendiz, porque talvez precisasse de que essa dívida fosse ainda maior.
    Muitíssimo Grato,
    Meus Melhores Votos,
    Matheus de Queiroz

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    1. Fico satisfeito por saber que valeu a pena este trabalho! Continue o seu estudo, e não se encolha perante quem se cobre do manto da autoridade para ocultar a vacuidade cognitiva.

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  13. Resta-nos agradecer-lhe e desejar-lhe boa sorte nos futuros projetos.
    Paula

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  14. É de grande mérito o trabalho e disponibilidade do Desidério neste blogue, que descobri há tempos e não mais dispensei, porque nestas coisas do conhecimento é imprescindível que os interlocutores não façam o favor de estar de acordo connosco só para não serem desagradáveis. E o Desidério, às vezes, tinha essa coragem e essa ousadia, sem ser por capricho ou mero exercício retórico, ou por causas ideológicas.
    Aproveitei muito da minha passagem por aqui e agradeço-o ao Desidério Murcho.

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  15. Aprendi muito com a Crítica e ao ver esta notícia fiquei com a sensação que ia perder algo muito importante. Algo que acredito ter tal qualidade não só para mim, mas para a cultura portuguesa em geral (existe algum outro site em portuguẽs com tamanho e qualidade semelhantes para qualquer outra área do conhecimento?), para o ensino de filosofia, professores, alunos, para investigadores, curiosos, etc.

    De tal modo que, como muitos outros já expressaram, também eu penso que esta revista tem uma importância e qualidade demasiado grandes para ficar por aqui.

    Aqueles que têm contribuído para que a Crítica tenha mais conteúdos (e eu desde recentemente sou um destes) num futuro próximo só precisam de unir esforços e seguir o conselho do Desidério: fazer outra revista.

    Mas por ora compreendo que nos fiquemos pelos agradecimentos. Desidério, obrigado pelo empenho e dedicação ao longo de todos estes anos à frente da Crítica.

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  16. Caro Desidério,
    Acabo de ler a despedida da Crítica. Não sei se - como escreves - o papel da Crítica está cumprido (penso que não, porque, se estivesse, já não deveria ser possível termos testes intermédios de Filosofia como o último). Sei que foi, e é, muito importante.
    Sou professor de Filosofia desde 1981. E não hesito em dizer que fui um professor antes e sou outro professor depois da Crítica.
    Obrigado, meu amigo.

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    1. Grande Padrão, muito obrigado pelas tuas palavras. Continua o trabalho de qualidade que tens feito, e que certamente é muitíssimo importante para muitos alunos e colegas.

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  17. Infelizmente depois de algum tempo sem acessar o blog, me deparo com essa triste notícia. Muito obrigado Desidério, nunca comentei aqui (pra ser sincero, comentei uma vez, mas nem lembro a senha da conta que utilizei), apenas lia, pelo menos uma vez por semana, mas deixo agradecimento pelo trabalho que divulgastes durante todo esse tempo.

    Apesar do árduo caminho que trilhastes, tenha certeza que de tudo valeu a pena. Assim como no caso dos navegantes portugueses retratados por Fernando Pessoa, a alma dos atraídos pela sabedoria jamais será pequena.

    abs,
    Lucas.

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  18. Frequentava Geografia quando apanhei a Crítica.
    Adorei aquele esquema de argumentação curto e directo em rede (algo parecido ao que são agora as discussão po mails)
    Adorei as discussões do Desidério Murcho e do João Miranda (por vezes tensas, mas a manterem, ambos, a resposta e contra-resposta)
    Adorei a evolução ao longo dos anos deste projecto.
    Hoje, em 2014, tendo esperado o assento da sua decisão de parar, escolhi o fundo deste post para vos saudar.

    Nota: atrevo a sugestão de hangouts de conversas tranquilas para publicar no youtube - eu certamente iria ser, outra vez, vosso leitor ;)

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