2 de maio de 2012

Martin Heidegger

Que é isso, a filosofia? Com esta questão tocamos um tema muito vasto. Por ser vasto, permanece indeterminado. Por ser indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais diferentes pontos de vista e sempre atingiremos algo certo.

12 comentários:

  1. Que é isso, a biologia?
    Com esta questão tocamos um tema muitos vasto.Por ser vasto permanece indeterminado.Por ser indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais diferentes pontos de vista e sempre atingiremos algo certo.

    Que é isso, a física, a história, a pintura?...

    Sem contar que é falso que se algo é vasto é indeterminado; a minha biblioteca digital é bastante vasta -- contém quadrinhos, novelas, manuais de lógica, livros de receitas vegetarianas, etc. -- mas não é de modo algum indeterminada.
    Poderíamos também tratar algo determinado de diferentes pontos de vista. Um místico vê o arco-íris de um ponto de vista diferente do físico, por exemplo.
    E do fato de algo ser indeterminado não se segue que qualquer coisa que dissermos será certo. Do fato de ser difícil decidir se alguém com 200 fios de cabelo na cabeça é careca, não se segue que tanto faz eu dizer que ele é careca, ou que é cabeludo.

    Parece que quando o Heidegger resolve dizer algo claro, dá o azar de dizer banalidades e falsidades...

    ResponderEliminar
  2. Por vezes vale mesmo a pena ler directamente Heidegger, pois é um exercício bastante instrutivo. Pensemos, pois no, que ele diz. E o que ele diz em tão curto espaço são duas banalidades e duas falsidades óbvias:

    1. A filosofia é uma assunto vasto.
    Isto é uma banalidade que toda a gente sabe.

    2. O que é vasto é indetermindado.
    Isto é uma falsidade, como bem mostra o Luís acima.

    3. O que é indeterminado pode ser tratado de diversos pontos de vista.
    Outra banalidade. Aliás, até o que é determinado pode, ao contrário do que é sugerido, ser tratado de diversos pontos de vista.

    4. Ao falar de filosofia dizemos sempre algo certo.
    Outra falsidade rotunda. Até parece que tudo se pode dizer sobre filosofia.

    Ah, grande Heidegger. Vou já acender-lhe uma velinha e curvar-me perante a sua estatura filosófica. Ámen

    ResponderEliminar
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  4. Vocês estão a ver isto radicalmente mal. É como se pegassem num texto bíblico e desatassem a ver todos os pormenores em que está cientificamente errado ou em que é banal. Evidentemente, não é desse modo que a Bíblia, ou outros textos religiosos são lidos por quem os aprecia e pensa que contém mensagens profundas. O mesmo acontece com autores como Foucault, Nietzsche, Heidegger, Deleuze, Lacan e, mais recentemente, Zizek. Lidos desse ponto de vista, são autores, na melhor das hipóteses, cómicos (quando não são politicamente sinistros por ajudarem a fundamentar regimes ditatoriais e opressores em nome de uma liberdade mais genuína).

    Todos estes autores pertencem a uma tradição sapiencial que sempre existiu na humanidade e sempre existirá, porque o impulso religioso humano é profundo e só algumas pessoas se libertam dele. Esse impulso religioso inclui duas ideias cruciais.

    Primeiro, que há pessoas que têm um acesso privilegiado à verdade. Estão acima de nós, pobres mortais. De modo que não lhes dispensamos outra leitura que não a reverencial: o que afirmam tem de ter um sentido profundo, importante e verdadeiro, e se superficialmente parece uma falsidade banal ou uma verdade banal é porque somos impuros de espírito e não "entrámos" no pensamento do autor.

    Segundo, os processos cognitivos corriqueiros de descoberta das coisas são inadequados para descobrir as verdades mais profundas, místicas e fundamentais. Quando fazemos ciência e filosofia tradicional nada de especial fazemos: limitamo-nos a aplicar de modo sistemático, cuidadoso e tenaz exactamente os mesmos processos cognitivos que usamos no dia-a-dia. A mentalidade religiosa vê isto como obviamente disparatado, um pouco como alguém que vai a um casamento de cerimónia de bermudas e chinelos. A ideia religiosa é que no que respeita às verdades mais profundas temos de adoptar processos linguísticos e de pensamento que ultrapassem os supostos limites dos processos normais de pensamento.

    Evidentemente, as duas ideias são profundamente ilusórias. Ninguém tem um acesso privilegiado à verdade -- aliás, mesmo que alguém o tivesse, não seriam certamente autores pouco mais do que infantis como os citados que o teriam. Além disso, é precisamente a aplicação cuidadosa dos processos cognitivos banais que nos permite descobrir as verdades realmente profundas sobre a origem do sistema solar, a natureza humana ou o sentido da vida. Buda, por exemplo, ficou muito impressionado com o sofrimento humano e partiu em busca de respostas. Não encontrou resposta alguma, mas fingiu que sim, defendendo meia-dúzia de ideias tolas em que os outros acreditaram porque parecia um discurso edificante e reconfortante. Mas o que contribuiu realmente para melhorar a condição humana e minorar o sofrimento foi... a ciência, a filosofia, o comércio.

    A completa ineficácia do discurso religioso destes autores é irrelevante. Porque tudo o que conta para quem está mergulhado na ilusão cognitiva deste tipo de (falta de) pensamento é o seu carácter reconfortante. Daí que me pareça profundamente infantil. Tudo o que os leitores destes autores querem deles é o equivalente do que quer uma criança assustada que ao colo da mãe recebe o conforto de palavras carinhosas.

    ResponderEliminar
  5. Pois, o Desidério pode ter toda a razão na sua diatribe. Mas qual é o problema? Os filósofos citados colocam o seu produto no mercado e as pessoas (neste caso, com uma educação bem acima da média) apenas o consomem se estiverem interessadas. Acontece que estes filósofos têm uma enorme quota de mercado tanto na Europa como nos EUA, incluindo as melhores universidades. É a máquina da verdade associada ao livre comércio nas sociedades capitalistas.

    ResponderEliminar
  6. Há uma grande diferença, que deveria ser óbvia mas infelizmente não o é para muitas pessoas, entre discordar de algo, ou pensar que algo é destituído de interesse, e defender que deve ser proibido ou que as pessoas não devem fazer isso ou pensar isso. Eu defendo, e sempre defendi, a liberdade na sua máxima extensão, compatível com igual liberdade para os outros. Assim, defendo o direito pensar de maneira diferente da minha, e de ensinar isso, publicar e fazer.

    Defendo até mais: defendo que quem quiser chamar "filosofia" ao puré de batata, tem o direito de o fazer. E eu tenho o direito de dizer que o puré de batata é uma coisa muito diferente do género de coisa que fazia Aristóteles ou Hume.

    Eu penso que há uma diferença profunda entre o género de coisa que fazia Heidegger e o género de coisa que fazia Aristóteles ou Hume. E penso que o que fazia Heidegger é destituído de interesse cognitivo. Mas penso também que as pessoas são livres de fazer o género de coisa que fazia Heidegger.

    ResponderEliminar
  7. O problema é que infelizmente quem considera que o género de filosofia que eu prezo é lixo não tem a atitude que eu tenho perante a filosofia que eu considero cognitivamente destituída de interesse. A diferença é só esta: se eu pudesse proibir a filosofia do género da de Heidegger, não o faria; e se alguém o tentasse fazer, eu opor-me-ia. Mas quem considera que o género de filosofia que eu faço é lixo passa a vida a tentar proibi-la e se pudesse proibi-la por decreto, iria proibi-la sem hesitar um segundo.

    ResponderEliminar
  8. Prof. Desidério, respeito muito o senhor como também este blogue. Visito com frequência. Concordo contigo em quase todos os pontos. Mas, não acha que está generalizando demais? Conheço excelentes professores que trabalham com Foucault, Nietzsche ou Heidegger e produzem material que tem valor cognitivo. Estes professores passam longe de um “discurso religioso”, e nunca conheci um que queira “proibir” aulas de fil. analítica (seja lá o que isso signifique; não sei como pode haver filosofia que não seja analítica).

    Certamente a melhor produção filosófica dos últimos 60 é dos "analíticos". Mas, do lado de lá, o "continental", há coisas boas. Como, por exemplo, Herman Philipse (trabalha muito bem com o problema do fundamento em Aristóteles, Kant e Heidegger).

    Mas, bem, quanto a Deleuze, Lacan e Zizek... realmente não conhecço excelentes professores que trabalhem com eles. Na verdade, são os piores que conheço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Artur

      Obrigado pela sua ponderada objecção.

      Primeiro, eu estava a falar do carácter bíblico dos textos de Heidegger, e não das leituras que se possa fazer dos seus textos. Certamente que se pode fazer um trabalho cognitivamente relevante com textos que não têm qualquer relevância cognitiva. Uma pessoa pode fazer boa história do nazismo, por exemplo, escrevendo sobre textos nazis que são meros panfletos sem relevância cognitiva.

      Segundo, eu sei que muitos colegas meus, e alguns com melhores currículos do que eu e trabalhando em instituições de grande prestígio académico, consideram que alguns textos de Heidegger, ou outros autores, têm interesse cognitivo. Eu mesmo traduzi um texto de Hales, publicado na Crítica, sobre o que pensava Nietzsche sobre a lógica -- Hales certamente não pensa, como eu, que nada do que Nietzsche pensava sobre a lógica tem a mínima relevância cognitiva. Acontece que continuo a discordar desses meus colegas e a não ver o mínimo de relevância cognitiva em Heidegger. Posso estar enganado, mas nunca li fosse o que fosse que me mostrasse que estou errado. O que me parece que acontece é que os meus colegas vão ler Heidegger pressupondo já que aquilo é de máximo interesse, interpretando-o de um modo abusivo; basta abandonar esse pressuposto e tudo cai por terra. O texto de Hales que traduzi só me mostra isso mesmo: Hales pressupõe que Nietzsche era um génio e que por ter um acesso privilegiado à verdade, o que pensava sobre a lógica, apesar de superficialmente parecer pouco mais do que comentários de ocasião de um ignoramus, eram afinal as pontas de um iceberg de profundidade cognitiva. Mas como eu não tenho esse pressuposto de Hales -- nem razão para o aceitar -- leio as observações de Nietzsche acerca da lógica nos seus próprios termos. E só vejo neles tolices de ignorante. Repito: posso estar enganado.

      Mas repare numa diferença crucial: quando os meus colegas falam da filosofia analítica é como se toda a gente concordasse com eles que Frege e Russell eram uns tolos de direita, opressores e redutores. Nunca se dão ao trabalho de referir que muitos colegas deles, e com melhores qualificações académicas do que eles, não pensam isso de Frege nem Russell.

      Eliminar
  9. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  10. Amigo Desidério, eu vou dar meu testemunho do que ocorre numa grande universidade do Brasil em relação a proibições

    Uma pessoa, amiga minha, trabalha com a escola moderna da filosofia analítica, ou seja, com autores como Daniel Dennett e Searle. Pois bem, essa pessoa é muito gabaritada e tem extensa experiência na área. Mas acontece que, como você sabe, a universidade brasileira é dominada pelos adoradores do irracionalismo de Adorno e Foucault.

    A pessoa passou num concurso para uma grande universidade, mas, infelizmente, vive a ser excluída pelos outros docentes que não aceitam o seu trabalho.

    ResponderEliminar
  11. Os entusiastas mais radicais do desconstrucionismo inspirado em Derrida constituem uma ilustração vívida de contradição argumentativa — pois não faz sentido tecer elaboradas teias textuais para demonstrar que os textos nunca têm uma construção interpretativa estável. Se os textos são incapazes de transmitir uma mensagem fixa, não faz claramente sentido qualquer diligência no sentido de transmitir esta lição por meio de textos. O rótulo “pseudo filósofo” é particularmente adequado para aplicar aos que usam os recursos da razão para substanciar a afirmação de que a racionalidade é inalcançável em questões de investigação — pois a sua prática trai claramente a sua doutrina.



    E se a verdades dos textos não podem ser conhecidas, como os partidários de Derrida podem conhecer e passar a mensagem de Derrida de que as verdades dos textos não podem ser conhecidas? Eles não precisaram ler os textos de Derrida que afirmam isso? É totalmente contraditório.


    E se a desconstrução quer desconstruir tudo, por que não desconstrói a própria desconstrução? Simples: porque os partidários de Derrida dizem que a desconstrução não é uma categoria. Nem um método, nem uma análise, nem uma crítica. Como diz o Derrida*, desconstrução não é nada. E tem que continuar assim, protegida em uma espécie de teologia negativa (como o próprio Derrida também concede). Enfim, desconstrução é só mais um objeto de fé do famigerado pensamento pós-moderno. É algo que quando funciona (quando realmente tem um resultado interessante ou razoável, o que reconheço que seja possível) o faz por outras razões (cujas relações com a desconstrução são acidentais) que não sejam aquelas obviamente auto-refutantes ou puramente retóricas.


    O objetivo por detrás de se dizer que ela "é nada" é mantê-la incompreensível e resistente à própria desconstrução, para que ela seja uma eterna possibilidade de libertação para o pensamento. Não é muito diferente do que faz alguns dizerem que Deus é tudo (embora neste caso o objetivo não seja a libertação do pensamento, mas o sentimento de comunhão e plenitude). Claro que isto tudo é muito ingênuo e ilusório: o que pensamos sobre o significado das palavras, por si só, não faz o mundo mudar.


    E ela é auto refutante porque se alguém vai nos falar algo inteligível e que seja, supostamente, resultado da desconstrução, então este algo plausivelmente será uma proposição verdadeira ou falsa. Agora, se a desconstrução pretende ser (e Derrida parece milagrosamente claro sobre ela ter esta pretensão) algo que coloque em causa a própria compreensão de valores de verdade (ou mesmo da lógica em geral, de sentenças, e de toda sorte de noções básicas para o pensamento e para a linguagem), então o resultado não poderá ser uma proposição, pois se fosse se auto-refutaria (no sentido de que geraria uma contradição). Como é inerente à desconstrução resultar em algo (ela não é um fim em si) e tipicamente se assume que este algo tem valor cognitivo (constitui conhecimento), ela é auto-refutante. Não tem valor cognitivo. Claro, isto não impede que ela tenha algum valor não-cognitivo, como uma prática religiosa pode ter

    A noção de verdade não é uma fantasia mitológica, como os deuses da antiguidade clássica, pois pode-se abandonar as noções mitológicas mas não a noção de verdade. Pode-se abandonar sem pena de incoerência a noção de Zeus porque se pode afirmar que é verdade que Zeus não existe. Mas não se pode abandonar sem pena de incoerência a noção de verdade porque não se pode afirmar que é verdade que a verd
    ade não existe.

    Pode-se perguntar: é verdade que não existe verdade? é fato que não existe fato? É apenas uma opinião que tudo que temos são opiniões? É uma interpretação que só podemos ter acesso a interpretações? Se só podemos conhecer representações, como foi possível descobrir objetivamente que só podemos conhecer representações?

    ResponderEliminar