14 de maio de 2012

O que somos nós?



What are We? A Study in Personal Ontology, de Eric T. Olson (OUP, 2007), é um dos muitos livros que marcam de modo nítido a diferença entre um interesse genuinamente cognitivo no que somos e uma ansiedade para-religiosa ou existencial quanto ao que somos. Neste caso, as pessoas podem não o conhecer porque está escrito na língua bárbara da Coca-Cola (podemos ignorar Shakespeare, que se esqueceu de ser alemão); já o caso de O Sentido na Vida, de Susan Wolf, tem a vantagem de estar traduzido na língua superlativamente culta de Camões. Mas também aqui as pessoas podem não conhecer o livro porque preferem comprar coisas mais interessantes do que livros. Nesse caso, poderiam ler o texto do poeta e filósofo John Koethe, "Estética e Sentido", gratuitamente disponível na Crítica. Este texto expõe a dificuldade seguinte: para alguns de nós, a entrega a  projectos de vida, nomeadamente artísticos, é vista como central para uma vida dotada de sentido; todavia, faz parte da natureza destes projectos o facto de poderem falhar completamente, e muitas vezes não temos maneira de o saber. O que pensar sobre isto? Até que ponto isto põe em causa, ou não, a concepção do sentido da vida tal como foi elaborada por Susan Wolf?

Por que razão quem lamenta e quer proibir que algumas pessoas se interessem por problemas filosóficos destituídos de interesse existencial ou para-religioso não fala sobre livros e textos destes? As razões foram por mim expostas em vários textos, entre os quais "A Religião de Darwin", publicado no livro Exuberâncias da Caixa Preta: Charles Darwin, organizado por Maria Rui Vilar-Correia, Sónia Martins, eJúlio Borlido-Santos (Matosinhos: ESAD, 2011), e "Compreender as Críticas à Filosofia Analítica". Numa palavra, a razão é que uma pessoa pode estudar respondendo a dois impulsos diferentes entre si, e na verdade dificilmente conciliáveis: a curiosidade intelectual, o prazer da descoberta -- da descoberta de realidades, mas também de problemas -- de que alguns de nós ainda nos lembramos quando éramos crianças (o intelectual genuíno mantém essa curiosidade radical da criança); e a vontade de conforto espiritual, a que chamo o impulso para-religioso -- o equivalente de sentir a protecção da mãe todo-poderosa quando tínhamos medo do escuro ou estávamos assustados e ela nos confortava e aquietava. A razão pela qual estes dois impulsos são dificilmente conciliáveis é que o primeiro exige a verdade, mesmo que isso implique sacrificar o conforto espiritual (não somos o centro do universo? Paciência!), ao passo que o segundo exige antes de mais palavras reconfortantes mesmo que sejam destituídas de sentido real ou que sejam literalmente falsas (a existência não precede a essência? Paciência!).

Assim, mesmo que tratemos da "questão do Homem", como o livro de Olson (entre tantos outros) ou do sentido da existência, como o livro de Wolf ou a antologia por mim organizada, quem procura sobretudo conforto espiritual na filosofia não terá qualquer interesse nestas leituras. Porque o que essa pessoa quer é ler palavras que a aquietem e inspirem; quer confirmar a cada passo a sua superlativa importância, o heroísmo da sua vida, a centralidade cósmica das suas dores de alma.

Esta diferença é mais difícil de compreender porque no caso de ciências como a física, biologia ou matemática, este género de discursos e de atitudes foi infelizmente expulsa das universidades e da cultura oficial. O resultado disto é dar a ideia falsa de que só nas humanidades e na filosofia há dois campos: quem encara o seu trabalho de um ponto de vista primariamente cognitivo, e quem o encara primariamente como para-religioso, encantatório ou algo místico. Contudo, tudo o que a universidade fez foi expulsar dela quem faz numerologia, astrologia, alquimia e outras actividades para-religiosas do género. Continuam a existir e sempre continuarão a existir livros de partidários destes assuntos, pela simples razão de que o impulso religioso humano é muitíssimo forte -- e a capacidade para o auto-engano e a mentira de si para si também.

O que me surpreende é a dificuldade de ambas as partes -- quem tem interesses primariamente cognitivos e quem tem interesses primariamente para-religiosos ou existenciais -- reconhecerem tranquilamente que a outra existe e tem o direito de existir desde que existam pessoas que queiram que exista. O que não consigo encontrar maneira de defender é o unanimismo epistémico -- a expulsão dos poetas da cidade cognitiva, que os cientistas conseguiram fazer, ou o inverso. Parece-me que a liberdade intelectual, de ensino e de estudo é muito difícil de refutar, e esta implica aceitar com tranquilidade a existência de pessoas com interesses e atitudes muitíssimo diferentes dos nossos. A mim não me perturba minimamente que segundo alguns critérios académicos se considere excelente o que segundo outros se considera pouco mais do que cómico, e vice-versa. Isto sempre aconteceu e sempre acontecerá. O que nos dá a ideia de que é possível uma unanimidade ou quase unanimidade é o falso modelo da ciência. Mas na ciências só há esta aparência de unanimidade porque os cientistas começaram a expulsar das universidades quem não tinha uma concepção estritamente cognitiva de ciência. Na verdade, um ou dois séculos antes também havia uma falsa unanimidade nas universidades, quando estas eram dominadas pelo pensamento católico: se expulsarmos das universidades quem não pensa como nós, caímos depois na ilusão de pensar que há unanimidade -- e, o que chega a ser cómico, elegemos depois essa unanimidade inventada por nós como critério de verdade absoluta. Nunca devemos menosprezar a capacidade humana para a mentira e o disparate, mesmo entre quem é mais culto e inteligente.

74 comentários:

  1. Um exemplo de que ainda há um apetite para-religioso mesmo em áreas que supostamente teriam eliminado esse anseio irracional são os cursos de homeopatia ministrados em alguns departamentos de farmácia no Brasil - uma teoria que não satisfaz os padrões mínimos de rigor aceitos, mas que ainda assim encontrou um meio.

    Eu aceito tudo o que você disse, mas penso que de um reconhecimento da tolerância não se segue que seja errado expulsar a inclinação para-religiosa da academia. A razão é que se concebemos a academia como um ambiente de compartilhamento entre pares que tem interesse cognitivo, sendo inclusive financiados para esse fim, nada mais justo do que manter apenas aqueles que têm esse interesse. A idéia de que deveríamos arranjar um cantinho para todo místico e pseudo-cientista dentro da academia para não sermos intolerantes me parece indesejável e injustificada. Estou ignorando alguma coisa aqui?

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  2. Sim, estás ignorando um aspecto fundamental, e parece-me que todas as pessoas que discordam de mim fazem o mesmo erro. Na verdade, há dois, mas o segundo é menos importante.

    O primeiro é este: as próprias pessoas que consideram as conversas tolas de Heidegger ou Lacan interessantes não consideram que são interessantes apenas de um ponto de vista para-religioso ou emocional. Este é outro aspecto da mesma coisa: não interessa que a homeopatia seja uma tolice, o que interessa é que as pessoas que a querem fazer pensam que não é uma tolice. Quando o que está em causa é uma discordância metodológica, por exemplo, sobre o que conta a favor de uma teoria, como testamos ideias, como avaliamos trabalho académico, não temos maneira de fugir disto: o que eu considero trabalho académico pueril e muitíssimo mau, colegas meus com o mesmo poder que eu (ou até mais, na maior parte dos casos) consideram excelente; e vice-versa: o que eu considero um trabalho excelente, eles consideram uma merda. Não temos uma terceira instância a que possamos apelar para chegar a um consenso. A ilusão de consenso que nos chega da ciência é mesmo isso: uma ilusão, que resultou de se ter expulsado primeiro quem tinha discordâncias profundas da academia. A unicidade da academia -- um currículo, um método, um critério -- é uma mentira. A unicidade epistémica é uma mentira. Eu penso que as pessoas que fazem todas essas coisas que considero cognitivamente tolas, fazem realmente coisas cognitivamente tolas. Mas é óbvio que é impossível que eu as convença. Logo, temos de organizar as coisas aceitando esta diversidade epistémica.

    Assim, o primeiro erro é pensar que é relevante que quem tem uma perspectiva cognitivista da vida académica tem razão. Isso é irrelevante. Claro que eu penso que quem tem essa perspectiva tem razão. Mas isto é irrelevante. No que respeita aos direitos das pessoas, é irrelevante se elas têm razão ou não. Têm o direito de ser tolas e andar a ler Heidegger e o diabo a quatro e a ensinar homeopatia e sei lá que mais. Como raio se poderia argumentar que não têm esse direito só porque alguém pensa que não têm razão? O que é relevante é que elas mesmas pensam que têm razão.

    O segundo erro é misturar aqui o problema do financiamento público. Na verdade, não faz diferença. O financiamento público é o dinheiro roubado às pessoas, por meio de impostos, para elas financiarem o que não quereriam financiar se pudessem mandar no seu próprio dinheiro. Para juntar o insulto ao opróbrio, alguém -- eu -- decide então que com o dinheiro delas se deve financiar apenas o que eu penso que deve ser financiado. Isto é absurdo. Se quisermos manter este sistema absurdo em que roubamos o dinheiro às pessoas para elas financiarem o que não querem -- o que será visto pelos nossos descendentes, se a sociedade evoluir adequadamente, como uma das coisas mais doidas que alguma vez se fez -- então temos de distribuir esse financiamento igualmente por quem quiser usá-lo e tiver clientes. Se não temos razão para o unanimismo de critérios, então não temos razão para fingir que temos unanimismo de critérios no que toca a usar o dinheiro das pessoas. Palpita-me até que as pessoas estão mais dispostas a financiar estudos sobre Heidegger ou homeopatia do que sobre a metafísica da modalidade ou a ontologia do ser humano. Mas isso é irrelevante porque ninguém pergunta às pessoas onde querem que o dinheiro delas seja aplicado. Por isso, resta perguntar aos próprios profissionais que vão viver desse dinheiro -- os académicos. Ora, estes querem exactamente o que eu não quero, na sua maior parte: tolices místicas e curas mágicas para dores de alma infantis, jogos de palavras reconfortantes, etc. O que não querem é uma investigação sóbria, sem uma linguagem pomposa, que investigue as coisas com a paixão desapaixonada de um intelectual engajado com a sua curiosidade e desinteressado das suas dores de alma.

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  3. Só uma achega mais: a minha posição não se confunde com quem quer apresentar uma atitude aberta quanto às ideias de pessoas que não fazem ideia do que é um modus tollens nem uma teoria das categorias mas imaginam que têm teorias sofisticadíssimas sobre lógica e metafísica, para lá das teorias redutoras de pessoas que realmente sabem lógica e metafísica. Quem faz isso é precisamente porque quer ser simpático e pensa que se tiver de confessar que considera tudo aquilo mau trabalho académico, teria a obrigação de se opor à sua existência na universidade. Concordo que esta atitude é mais confortável. Só que é uma confusão. Numa sociedade livre, as pessoas terão direito a estudar, ensinar, publicar e divulgar o que quiserem, mesmo que outras considerem isso que elas fazem uma tolice. Não tenho de aceitar que a homeopatia é como a biologia ou como química para aceitar que quem quiser estudá-la tem esse direito e quem quiser ensiná-la e divulgá-la também.

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  4. Mas suponha que não há espaço para todos e você fosse obrigado pelas circunstâncias a decidir quem fica e quem sai da academia. Nesse caso me parece profundamente errado deixar de fora alguém que faz um trabalho cognitivo genuíno apenas para dar espaço para alguém que tem crenças místicas preguiçosas. O meu argumento aqui é meio tolo, mas me parece que o direito de ensinar misticamente uma determinada idéia maluca é diferente do direito de ocupar uma posição acadêmica para ensinar para-religiosamente uma idéia maluca. Pesquisa acadêmica e ensino para-religioso não se misturam - são como água e óleo. Defender que um místico deve ter um espaço na academia equivale a defender que um cético deve ter lugar na igreja e um horário depois do sermão para negar tudo o que o padre fala. Não faz muito sentido, pois os objetivos de uma igreja, templo ou feira new-age e os objetivos da academia são muito diferentes.

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    1. A tua falácia é usar o termo "academia". Se usares o termo mais correcto "universidades" vês logo que nada impede a existência de universidades muito diferentes: umas em que se ensina biologia e outras em que se ensina criacionismo, e cada qual escolhe o que lhe apetecer.

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  5. Quanto ao fato da generalidade das pessoas não estar disposta a financiar a filosofia, isso me parece irrelevante, pois a generalidade das pessoas sequer tem uma idéia clara do que quer. É por isso que vivemos em uma democracia representativa, no qual um grupo eleito pela generalidade das pessoas decide o que é melhor para elas. É claro que há um tipo de paternalismo aqui, mas isso não me parece um problema. Considerando a academia, provavelmente se fizéssemos uma pesquisa de opinião, provavelmente a maioria só estaria disposta a financiar áreas como a medicina, o direito e a engenharia. Desse modo teríamos uma sociedade em que as pessoas são formadas apenas como médicos, advogados e engenheiros, mas não há historiadores, psicólogos, escritores, repórteres ou filósofos. Uma sociedade como essa não é desinteressante apenas para mim, mas também para a generalidade das pessoas, estando elas conscientes disso ou não.

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    1. Isso é uma mentira que contas a ti mesmo para justificares o facto de os brasileiros financiarem a tua formação, que para eles é totalmente irrelevante. Estás a aprender rapidamente a aprender a mentir como os aristocratas actuais, que vivem do dinheiro das pessoas comuns, e depois contam histórias da carochinha dizendo que o que fazem é de muito valor para elas, mesmo que elas não o reconheçam. Se fosse de muito valor para elas, não seria necessário roubar-lhes o dinheiro por meio de impostos para te dar formação: as próprias pessoas comprariam o que tu estás interessado em vender. Só que isso não acontece, e nunca acontecerá. As universidades e o sistema de financiamento da cultura é a grande mentira do século. Um dia, no futuro, os nossos descendentes irão olhar com incredulidade para este sistema, tal como nós olhamos com incredulidade para a sumptuosidade dos faraós, roubada evidentemente das pessoas comuns.

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    2. Me convenceu, mas se você pensa mesmo isso porque continua a receber desse sistema que rouba o dinheiro das pessoas? Isso é imoral.

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    3. Sim, é imoral. Eu, e toda a gente financiada pelos impostos das pessoas e que nada lhes dá em troca que elas queiram, somos parasitas da sociedade.

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    4. A posicao do Desiderio relativamente aos impostos e' primaria. O que quer dizer o dinheiro das pessoas? O
      dinheiro e' uma unidade de troca que so' adquire um
      significado real atraves de um consenso que e' atingido
      numa sociedade real e concreta. Isso traduz-se em precos
      etc. Mas as coisas concretas das quais as pessoas vivem
      (comida, abrigo) e com as quais as pessoas realizam as
      suas actividades (computadores, automoveis, maquinas)
      sao concebidas e produzidas por uma elite hiper-educada
      e hiper-preparada. Logo um modelo que assume ou pressupor que os cidadaos teem iguais responsabilidades e capacidades para tomar as decisoes sobre assuntos tecnicos nao tem sentido no contexto da sociedade tal como ela existe. Como a maior parte das pessoas nao tem a capacidade de conceber e organizar a producao dos bens reais, essa maioria esta' de facto dependente das decisoes
      organizacionais da responsabilidade dos que estao preparados. Para construir uma ponte temos um engenheiro de pontes a liderar; para construir avioes, engenheiros aeronauticos; para testar as propriedades de supercondutores, um fisico estado solido com a preparacao adequada e por ai' fora. Se os filosofos nao sao capazes de distinguir o que e' filosofia do que nao e', ou de a classificar por diferentes especialidades e' um problema deles.

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  6. Tudo bem que você ache o seu trabalho cognitivamente mais genuíno. Mas é estranho que você nem mesmo desconfie de que outras pessoas vão achar que, ao contrário, o trabalho delas é bem mais criterioso que o seu. Também não adiantaria apelar para uma disputa sobre o valor dos respectivos critérios cognitivos, uma vez que não haveria sequer acordo sobre quais os critérios para verificar esse valor. Eis por que alguém, justamente na trincheira oposta, poderia se sentir tão cheio de razão quanto você e igualmente respaldado para exercer seu direito de saneamento e expulsá-lo da universidade. E vocês, supostamente tão diferentes em princípio, terminariam se revelando, no final das contas, iguais na intolerância.

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  7. Claro, mas ausência de unanimidade epistêmica não consiste em paridade epistêmica. Quem pensa que as academias têm que expulsar os pesquisadores para dar espaço aos místicos tem que oferecer bons argumentos para justificar a sua posição, mas não são oferecidos argumentos minimamente inteligentes. Quem quiser fazer parte da academia para expulsar certos pesquisadores terá que se utilizar de noções epistêmicas como a racionalidade para justificar a sua posição, mas nesse caso há uma incoerência aqui, pois justifica-se a ausência de certos padrões epistêmicos com os próprios padrões epistêmicos. Além disso, se toda política pública concedesse um espaço para todas as partes simplesmente porque não há unanimidade epistêmica ficamos engessados. Não teríamos, por exemplo, como legislar sobre uma questão como o aborto. Afinal de contas, eu penso que o aborto em certas circunstâncias é correto, mas os padres pensam que é sempre errado. Nesse caso mais vale então suspender o juízo e não fazer nada, ao invés de fingir que há consenso epistêmico.

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    1. A analogia com o aborto é irrelevante, porque é possível conciliar quem não quer fazer abortos com quem quer fazê-los: quem quer faz, quem não quer não faz. A aparência de conflito só surge porque quem não quer fazer abortos quer que toda a gente seja como eles.

      Já no caso das universidades, uma vez mais não há qualquer conflito, desde que existam várias universidades diferentes com critérios diferentes. Não vejo qualquer problema nisso; pelo contrário, o pluralismo epistémico é crucial para aprendermos para experiência, vendo os resultados que têm diferentes atitudes e critérios.

      Em qualquer caso, a situação actual consiste apenas em fingir que há critérios relevantes, quando na verdade é óbvio que os não há, pois caso contrário não haveria tanta gente tão profundamente sem interesse no trabalho que fazem.

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    2. A analogia não é irrelevante, porque quem pensa que é imoral não quer permitir que quem faça abortos o faça, pois isso seria permitir o assassinatos de inocentes. Não é possível aprovar uma lei que legalize o aborto sem violar a intuição moral de um dos lados. É claro que não nos importamos com isso, pois não levamos a sério argumentos mal feitos de dogmáticos. Mas se não devemos levar a sério os argumentos de dogmáticos católicos ao estabelecer políticas públicas no caso do aborto, também não devemos levar a sério os argumentos de dogmáticos intelectuais ao estabelecer políticas públicas no caso da academia. Em ambos os casos não há critérios relevantes e em ambos os casos uma decisão implicará no prejuízo de uma das partes.

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    3. É preciso compreender o fundamento da liberdade, e a única maneira que temos de fazer uma sociedade bem ordenada. O fundamento da liberdade para fazer X ou Y não é que isso seja correcto ou bom ou interessante, mas antes e exclusivamente o facto de alguém querer fazê-lo e pensar que é correcto ou bom ou interessante, ainda que o não seja. Quando alguém quer fazer um aborto é irrelevante se outras pessoas pensam que é imoral, porque elas não prejudicam seja quem for excepto o próprio feto, que não se pode queixar.

      O crucial aqui é compreender que o que mais conta para deliberar políticas sociais é o que as pessoas crêem, e não se o que as pessoas crêem é verdadeiro ou falso. O pensamento imparcial simples mostra que se eu não souber se serei favorável ou desfavorável ao aborto e estiver a legislar imparcialmente, preferirei viver numa sociedade em que o aborto é permissível, precisamente porque isso em nada me prejudica se eu for contra o aborto, mas uma sociedade que não o permita irá prejudicar-me muito se eu quiser fazer um aborto.

      É preciso distinguir o debate ético do debate legislativo sobre o aborto. E aqui dá-se uma inversão curiosa, pois só há debate racional interessante no primeiro caso, mas não no segundo, mas publicamente as pessoas só estão interessadas no segundo, e não no primeiro. O debate sobre a ética do aborto é um debate importante e interessante, e talvez infindável, como outros problemas da filosofia. Mas o debate legislativo é um não-debate, porque de um ponto de vista imparcial, precisamente porque algumas pessoas pensam que o aborto é permissível, e porque quando o praticam não prejudicam pessoa alguma que possa protestar, não há qualquer razão imparcial para proibir o aborto.

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  8. Seja-me permitido esclarecer um aspecto crucial. O que conta não é ser verdade que o alquimista está errado e que o químico está certo. Isso conta cognitivamente, certamente, mas nada mais. Não conta para se tomar uma decisão sobre se é legítimo que um expulse o outro. Para este tipo de decisões a verdade é irrelevante. O que conta é o que as pessoas pensam que é a verdade. E, claro, o alquimista pensa que é verdade que o químico é redutor, etc., e o químico pensa que não. Que um tenha razão e outro não é irrelevante.

    Isto vê-se melhor se pensarmos imparcialmente. Se eu não souber se serei alquimista ou químico, vejo muito claramente que, seja eu o que for, pensarei que tenho razão e que o outro não tem razão. Mas desse ponto de vista imparcial vejo que, como não sei o que serei, quero uma sociedade em que, seja eu o que for, possa inserir-me nela de igual para igual, sem ser prejudicado por ser químico ou alquimista. E claro, vejo também muito claramente que nada me prejudica a existência de colegas com ideias muitíssimo opostas às minhas. Pelo contrário, pode até ser interessante, pois nunca se sabe muito bem de onde poderão vir ideias interessantes. (Afinal, a química nasceu da alquimia!)

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    1. O que é então que conta para se tomar uma decisão sobre se é legítimo que um expulse o outro?

      Essa analogia não me convence. Se estivesse sob o véu de ignorância, admitiria que o alquimista é desonesto intelectualmente e não mereceria um lugar nas universidades, mesmo correndo o risco de ser um alquimista.

      Eu posso aceitar todos os pontos da sua argumentação, que é sem dúvida bem mais sofisticada que a minha, mas essa conversa de que colegas picaretas não me prejudicam eu não posso aceitar, Desidério. É um lugar-comum que os melhores departamentos de filosofia são fortes porque há professores de formação similar e com os mesmos padrões de excelência acadêmica. Um departamento formado por picaretas e filósofos é muito pior do que um departamento formado apenas por filósofos e quem percebe isso mais claramente são os alunos, que deveriam aprender a discutir problemas éticos em uma disciplina de ética, mas aprende a decorar uma obra de um filósofo X ou Y.

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    2. Mas estás a dar-me razão: o único problema é as coisas andarem misturadas, e andam misturadas porque queremos fingir que há unanimismo epistémico. Daí a vantagem da pluralidade epistémica: diferentes universidades, diferentes departamentos, teriam diferentes abordagens, diferentes critérios, diferentes métodos. E toda a gente ficaria bem. Quem prefere dizer banalidades com base em filósofos mortos e mal lidos, sente-se mal com o meu ensino, e eu respeito isso; mas então essa pessoa poderia escolher não me ter como professor. E tu, que nunca gostasse do que chamas picaretagem, poderias escolher outro departamento em que terias professores como eu. Qual seria o problema disto? Seria um paraíso, pá.

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  10. Logo, se há diferentes concepções de academia, segue-se que uma sociedade livre não proíbe uma determinada concepção de academia, por mais estapafúrdia que ela seja. Contudo, proibir X é diferente de preferir não-X. Assim se você tivesse a oportunidade de organizar um departamento, escolheria apenas os professores que satisfazem certos critérios que você admite como relevantes, excluindo aqueles que não considera relevantes. Ou estou a ver mal? Não há nada de errado aqui, pois em certas circunstâncias alguém tem que tomar decisões e assumir certos critérios como relevantes, mesmo que eles não sejam consensuais.

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    1. Claro, se houvesse diversidade seria uma maravilha. Teríamos departamentos de filosofia muitíssimo diferentes uns dos outros, onde todas as pessoas se sentiriam bem nos departamentos em que estão porque seriam o género de departamento que preferem. É a exigência de ilusória unanimidade que faz toda a gente fingir que nas universidades todos concordamos com os critérios de selecção e de qualidade, o que é mentira: a maior parte dos meus colegas, incluindo analíticos, considera puro lixo o meu trabalho, por exemplo, e têm todo o direito a isso; mas o que pelos critérios deles é trabalho de qualidade eu considero, por sua vez, lixo. A única maneira de viver em paz é viver e deixar viver: se houver diversidade, não há qualquer problema, pois cada qual faz exactamente o que quer. Nós os dois, por exemplo, concordamos amplamente com respeito a critérios de qualidade académica; então, se nós escolhêssemos os colegas de departamento, usaríamos esses critérios. E quem concorresse já o faria aceitando tais critérios.

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    2. Sim, agora entendi melhor a sua posição. Você está com toda a razão.

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  11. - "o direito de ser tolas e andar a ler Heidegger e o diabo a quatro e a ensinar homeopatia e sei lá que mais".

    Comparar Heidegger e os seus estudiosos à homeopatia e aos seus seguidores (fiquemos por aí, para não dar mais rédea ao dislate) revela como o atributo "ser tolo" pode adquirir uma interessante e implacável propriedade boomerang relativamente a quem o lançou...

    (De resto, o post, com os supostos erróneos e maniqueístas donde que partiu, já deixava antever o pior...).

    Para já não falar do simples respeito intelectual e pela opinião alheia...

    Podia não ter escrito este comentário por saber que o mesmo será logo eliminado, dado o espírito de tolerância aqui exibido?
    Pois podia, mas não era a mesma coisa...

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    1. Há uma grande diferença entre Heidegger e os estudiosos de Heidegger: seja o primeiro de grande qualidade intelectual ou não, certamente se pode estudá-lo de acordo com os mais exigentes padrões académicos. Já expliquei isto várias vezes.

      Quanto a comparar o estudo de Heidegger com o estudo da homeopatia, eu não o fiz. O Mário claramente leu à pressa. Eu falei de duas coisas polémicas, e são ambas polémicas: há quem pense que a homeopatia é tão relevante, cognitivamente, quanto a medicina científica, e quem pense que é uma tolice; e também há quem pense que Heidegger é um filósofo cognitivamente tão relevante quanto Platão, mas há quem pense que não. Eu não comparei directamente a homeopatia com Heidegger.

      Mas o seu comentário sugere fortemente que, fosse você a mandar nas universidades, expulsaria aquilo de que você não gosta, como é o caso da homeopatia. E é essa a nossa diferença profunda: eu não o expulsaria a si da universidade, ou fosse de onde fosse, fizesse você o que fizesse -- mesmo que faça algo que eu considero uma tolice -- mas você só não me expulsa a mim da universidade porque não pode.

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    2. Mas qual é afinal o problema de considerar Heidegger tolo e de o comparar à homeopatia? Se alguém me pode achar tolo por dizer tal coisa, por que razão não posso achar tolo alguém que diz que a filosofia fala grego ou que o homem é o pastor do ser?

      Perante a afirmação de que as ideias de Heidegger são tolas, o que deve ser perguntado é quais são essas ideias e porquê? E, caso não se esteja de acordo, mostrar também porquê.

      De resto Heidegger defendeu ideias que dão cobertura ao nazismo. Essas ideias não são tolas? Ou será que Heidegger é um santo intocável? Isso é religião.

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  12. Desidério, bem vistas as coisas, o panorama geral actual acaba por não ficar muito longe do que preconizas.

    Vejamos, há diferentes departamentos e diferentes universidades em que se ensina e estuda livremente aquilo que qualquer um de nós acha tolo (sim, tolo, caro Mário Esteves; ou não reconhece aos outros o direito de achar ideias como as de Heidegger tolas? é uma heresia?). Mais, essas tolices até convivem nos mesmíssimos departamentos onde encontras outros que preferem ensinar o que tem genuíno interesse cognitivo. É preciso dar exemplos?

    Mesmo no que diz respeito às ciências isso acontece, pois ainda ninguém impediu que se abram centros de investigação sobre as propriedades curativas da oração. A livre concorrência está aí, é só procurares. Alegas, contudo, que a concorrência não é livre porque a quase unanimidade que se verifica nos departamentos de ciências das universidades é apenas o resultado de se terem daí expulso as ideias tidas como cognitivamente tolas. E acrescentas que isso é fruto de intolerância epistémica. Mas porquê? Por que razão não vês aí antes o resultado da tal livre concorrência, de que saiu vencedora a investigação que consideras ter genuíno interesse cognitivo. Por que não admitir que a livre concorrência e a decisão das pessoas acabou, ao longo dos anos, por se virar mais para esse tipo de investigação do que para o que consideras lixo epistémico? Dizes, e bem, que a química nasceu da alquimia. Mas por que razão não fia afinal a alquimia a vencer, dando lugar à química?

    Concordo com a tua motivação de base, em particular com a ideia de que a livre concorrência de ideias (independentemente de acharmos que são cognitivamente interessantes ou não) nos pode levar a melhores decisões sobre o que é preferível e cognitivamente mais relevante. Ora, a situação actual de privilégio das ciências em detrimento dos estudos místicos nas universidades é o resultado dessa livre concorrência de ideias: aos poucos foi-se verificando que as ciências médicas davam resultados mais satisfatórios do que a oração em grupo. Mas quem prefere fazer oração em grupo para curar as maleitas, não está impedido de o fazer, pois há aí muito que o ofereça.

    Por vezes parece que no teu diagnóstico subvalorizas o poder dos argumentos, como se a expulsão do misticismo dos departamentos científicos não fosse, em grande parte, feita à custa de muita argumentação paulatinamente desenvolvida ao longo dos tempos, aliada à livre escola das pessoas e à comparação com os resultados de práticas rivais.

    Em suma, defendes que temos de deixar cada um fazer e ensinar o que bem entende. E depois logo se vê o que proporciona melhores resultados ou mais satisfação das pessoas. Mas eu digo que é isso mesmo que tem sido feito ao longo de séculos e que foi isso precisamente que nos fez chegar onde estamos. O misticismo foi, em grande parte, expulso das universidades pelos argumentos, pelos seus resultados e pela escolha das pessoas. E nada disto obsta a que, quem quiser, estude as tolices que quiser.

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    1. Era bom que tivesses razão, mas se a tivesses, teríamos hoje genuínas diferenças de fundo -- universidades de misticismo, por exemplo, e departamentos de alquimia. Não os temos, apesar de a maior parte da população dar mais crédito a essas coisas do que às outras, porque se inventou a ideia centralizada de certificações; aí, meteu-se o estado ao barulho. Este concede às universidades o monopólio de certo tipo de certificados e, para poderem dar esses certificados, têm de obedecer a critérios que as fazem ser todas mais ou menos iguais.

      Pensa assim: cada qual pode fazer sapatos como quiser, somos todos livres. Pois, mas o estado obriga-te a cumprir certos requisitos e esses requisitos são tais que só podes fazer sapatos castanhos. Isso é o que temos hoje. E claro, a guerra política continua, com os cientistas a pedir mais e mais dinheiro ao estado, contando a mentira que isso beneficia a sociedade, quando na verdade apenas serve para satisfazerem a sua saudável curiosidade intelectual.

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    2. Convinha repôr algum rigor histórico a propósito da relação entre o Estado e as universidades. Consideremos o caso dos
      EUA. O investimento público maciço das universidades públicas e privadas a partir do pós-guerra (suportando quase toda a investigação nestas -- por exemplo o MIT -- através de grants) resultou do reconhecimento de que estas
      desempenham um papel muito importante na
      formação dos cidadãos, na transmissão de conhecimentos e valores sociais para um conjunto mais alargado de pessoas, e pela importância estratégica da tecnologia no confronto com outros países nomeadamente a URSS. Não foi o resultado de lobbies de cientistas e investigadores que há época eram bem pouco numerosos.

      A função das universidades antes desta enorme mudança era essencialmente a reprodução das elites económicas e políticas. Exactamente como em Portugal até ao 25 de Abril.

      Por isso, o investimento público maciço nas universidades, é hoje ainda mais importante visto que a inovação e literacia tecnológicas
      de estratos alargados da população, e a fluência de saber colocar problemas, conceber soluções e executá-las, em suma saber pensar e saber fazer, têm uma enorme (maior doque antes) importância estratégica do ponto de vista económico e cultural.

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    4. Concordo com o rigor histórico. Mas nesse caso é preciso ver bem como as coisas se passaram. Vou publicar um pequeno texto sobre isso.

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  13. Só mais uma achega: se a argumentação não tem aí qualquer papel a desempenhar, então não se percebe de todo qual o interesse de argumentar. Ora, se a argumentação servir para alguma coisa, serve certamente para ajudar a decidir quais pontos de vista são racionalmente aceitáveis e quais não o são.

    No cenário que o Desidério apresenta parece que a argumentação não tivesse qualquer papel a desempenhar. Ou estou a ver mal?

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    1. Uma condição necessária para a argumentação nos ajudar a descobrir as coisas, e até a chegar a consensos, é quem discute estar de boa fé. Se quem discute está de má fé, é epistemicamente vicioso, não há modus tollens que te valha, homem. E é dessa discordância profunda de que estou a falar, pois é quando há essa discordância profunda que o que tu e eu consideramos da maior relevância intelectual, outros consideram lixo, e vice-versa.

      Portanto, a questão é esta: o que fazer quando não conseguimos chegar a consensos mínimos? A minha proposta é: pluralismo epistémico. Que cada qual faça, ensine, escreva, segundo os critérios que quiser. Isto só não é hoje praticável porque queremos tolamente que um diploma da Universidade de Lisboa seja tão reconhecido pelo estado como um diploma de outra universidade qualquer. E é isto que está errado. Nenhum diploma de nenhuma universidade deveria ter qualquer reconhecimento do estado, a menos que o estado reconheça exactamente todos os diplomas, o que é equivalente a não reconhecer quaisquer diplomas, tal como não reconhece livros, por exemplo, ou jornais. E é por isso que temos tantos jornais diferentes uns dos outros, e tantos livros diferentes uns dos outros. O unanimismo imposto que temos no ensino é o unanimismo que no tempo de Salazar e Caetano tínhamos nos livros e jornais.

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  14. Peço desculpa pelas gralhas dos meus comentários. Devia ter lido tudo antes de enviar.

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  15. Comparou lá! Apenas as colocou, amavelmente, em idêntico plano de "cognitivamente tolas" (ou seja, cito:" outro aspecto da mesma coisa")...

    Basta ler bem estas passagens do texto...
    "O primeiro é este: as próprias pessoas que consideram as conversas tolas de Heidegger ou Lacan interessantes não consideram que são interessantes apenas de um ponto de vista para-religioso ou emocional. Este é outro aspecto da mesma coisa: não interessa que a homeopatia seja uma tolice, o que interessa é que as pessoas que a querem fazer pensam que não é uma tolice".
    "o direito de ser tolas e andar a ler Heidegger e o diabo a quatro e a ensinar homeopatia e sei lá que mais".
    "Palpita-me até que as pessoas estão mais dispostas a financiar estudos sobre Heidegger ou homeopatia do que sobre a metafísica da modalidade ou a ontologia do ser humano".

    Quanto à intolerância, o modo desabrido e insidioso como trata quem supostamente tem outra perspectiva (mas acontece que não há apenas a "outra perspectiva", a "cognitivamente irrelevante", porque não há apenas, maniqueisticamente, de um lado, a que você subscreve e, do outro, a caricaturada como "místico-existencial", isso é de um simplismo assustador), que não a sua; a maneira intelectualmente desonesta e filosoficamente imberbe como se citam aqui excertos descontextualizados de alguns filósofos para os achincalhar (como aconteceu recentemente, a título de exemplo, com Heidegger, tratado como um analfabeto funcional de filosofia - cf. post de M.A.) - deixam perceber bem a natureza e o valor da tolerância que aqui se apregoa.

    Eu e os meus colegas de mestrado (Heidegger, que descaramento!) nunca nos preocupámos em rotular e, muito menos, rebaixar, quem seguia outras vias, designadamente as da filosofia analítica, tratando-o por "tolo" e estas por "lixo".

    Esse tipo de atribuição depreciativa, parece relevar, outrossim, de uma posição de quem é vítima de algum complexo de inferioridade, que o incita a sobrereagir - ataca para se proteger.

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    1. Nesse caso, nem merece resposta. Se eu lhe reconheço o direito de estudar o que lhe apetecer, ainda que do meu ponto de vista não passe de misticismo palavroso com palavras portentosas só para dizer banalidades reconfortantes, qual é o problema? É proibido eu ter ideias parvas e idiotas?

      A razão pela qual é tão incómodo que eu diga a verdade é que mal a dizemos as pessoas desatam a pensar. Se há pessoas que pensam genuinamente que Heidegger é um tolo, isso é relevante -- tal como é relevante haver pessoas que pensam que Frege era um tolo.

      O que é incómodo é o pluralismo epistémico. Queremos dar ideia de que somos todos os académicos muito unânimes nos nossos critérios e métodos. Mas isto é mentira. O que muitos colegas meus consideram um bom trabalho, como é o caso de Marcuse (que agora estou a estudar, como já estudei Heidegger), eu considero incrivelmente mau -- tão mau que só uma mentira académica pode fazer as pessoas pensar que autores destes têm algo a ver com Frege ou Aristóteles.

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  16. Acho importante voltar a sublinhar o seguinte: eu defendo o direito de o Mário estudar Heidegger ou seja lá o que for, seja do modo que for. E já escrevi várias vezes que Heidegger pode ser estudado segundo os mais rigorosos critérios académicos. Tal como o Mein Kampf. Mas daqui não se segue que quem estuda isso considere que o seu objecto de estudo são ideias plausíveis e interessantes.

    Mas imaginemos que a pessoa considera que Heidegger é realmente muito interessante. Óptimo, tem esse direito. E tem o direito de escrever mais ou menos como Heidegger, ou como Deleuze, Lacan ou Marcuse. Cada qual escreve como lhe apetece. Isso é saudável. Qual é o problema?

    O problema é que há quem pense que esses autores são sumamente desinteressantes. Pior: são intelectuais incompetentes, que trocam os pés pelas mãos, são incapazes de raciocinar com rigor e escondem-se em jogos de palavras sonantes. E por que razão é isto um problema? Porque quem gosta destes autores quer proibir quem não gosta de pensar estas coisas. E isso não me parece defensável. Eu tenho o direito de pensar tolices, admitindo que é uma tolice o que penso desses autores.

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  17. Desidério, o problema é que você só consegue ver e colocar a questão em termos completamente viciados e maniqueístas: de um lado e do outro, temos gente a julgar que os que pensam diferente apenas cultivam ou produzem "lixo".
    E você, debatendo-se nesse falso dilema, para se defender, não está com contemplações: começa logo a disparar sobre a outra trincheira, como se não houvesse alternativas a esse campo intelectual e filosoficamente minado. Depois, à sombra do "pluralismo epistémico", concede que o outro lado (um pluralismo dual, enfim...) também tem direito a existir e a manifestar-se - mas apenas sob uma condição que já fora rebaixada intelectual e filosoficamente ("tolices").
    Ora, foi contra este argumentário falacioso que eu me insurgi.

    Você tem todo o direito de estudar, defender e divulgar a filosofia analítica (e tem, aliás, mérito por isso, principalmente num país tão culturalmente anémico como o nosso); agora, para isso, não precisa desqualificar ou anatemizar quem segue vias de orientação ou investigação diversas. Os outros merecem que lhes seja reconhecido idêntico direito e respeito intelectual.
    E se, do outro lado, não deve haver "vacas sagradas", não nos podemos admirar de receber dele idêntica resposta.
    Quando não, ainda poderemos ser levados a pensar que você está é apenas inseguro nos terrenos que pisa...

    O post de M. Aires sobre Heidegger é de uma baixeza e de uma indigência intelectual tais que só por irreprimível analfabetismo filosófico seria credor de resposta ou consideração.

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    1. Caro Mário

      Infelizmente, penso que não me fiz entender. Eu penso que você tem o direito de pensar que o que Aires Almeida escreveu é intelectualmente indigente, e que está profundamente errado no que pensa -- pior, que é de tal modo destituído de interesse o que ele pensa que nem vale a pena discutir.

      E penso que você tem o direito de pensar que eu sou maniqueísta, e que sou presa de uma falsa dicotomia. Você tem o direito de pensar o que lhe apetecer sobre mim, entende?

      O que você não me reconhece a mim é a liberdade de pensar o que eu penso sobre alguns autores que você considera intelectualmente interessantes e que eu não considero intelectualmente interessantes. Na verdade, considero-os exactamente como você considera o que Aires escreveu: intelectualmente indigentes.

      E, uma vez mais, sublinho: isto nada tem a ver com o seu trabalho académico, pois eu não conheço o seu trabalho académico. E já disse mais de uma vez que se pode fazer bom trabalho académico com base em autores que são intelectualmente indigentes; Gary Gutting, do que já dele sobre Foucault e outros faz precisamente isso. Assim, o seu trabalho, Mário, pode não ser visto por mim como intelectualmente indigente, ainda que seja sobre autores que eu considere (com razão ou sem ela) que são intelectualmente indigentes.

      Outra coisa que parece que também não ficou clara é o seguinte: imaginemos que eu leio o seu trabalho e o considero intelectualmente indigente, tal como você considera intelectualmente indigente o que escreveu o Aires. Eu penso que tenho o direito de pensar isso do seu trabalho, mesmo que eu esteja errado. Mas penso que, tenha eu razão ou não, você tem o direito de fazer o trabalho que faz. E eu serei o primeiro a defender esse seu direito.

      Ficou claro, agora?

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  19. Caros, chega a ser intrigante a tendência de algumas pessoas para confundir sistematicamente alhos com bugalhos. O Desidério apresentou uma dada ideia para discussão, mas acabamos a discutir algo completamente lateral, mesmo irrelevante, desviando-nos assim do que estava em causa. Na prática, isto é acaba por ser uma forma de boicotar a discussão. Ora, uma coisa que não estava directa nem indirectamente em causa era essa treta da filosofia analítica vs o que quer que seja. Isso devia ser muito claro, mas é estranho verificar que não.

    E o que está em causa no post do Desidério é se se deve ou não proibir o estudo nas universidades (incluindo as públicas) de matérias que cada um de nós (ou até mesmo a maioria de nós) considera cognitivamente desinteressantes ou mesmo tolas. O Desidério defende que sim, acrescentando que as universidades públicas deviam permitir isso, sem qualquer tipo de restrições. O Matheus defende que não. Eu defendo que sim, mas, ao contrário do Desidério, alego que é precisamente isso que se tem feito ao longo dos tempos (defendo que o ponto a que chegámos é, digamos, o resultado da selecção entre livres competidores ao longo da história académica). Que me tenha dado conta, nenhuma outra posição foi defendida nos comentários anteriores. Estas são, pois, as ideias que devíamos estar a discutir e não vejo onde entra aqui a estafada querela entre a filosofia analítica versus filosofia filosofia sintética ou dialéctica ou o que se queira chamar, a não ser que a suspeita esteja sempre à espreita quando se lê o que aqui se escreve.

    De onde vem, então, a comichão? Vem do facto de o Desidério ousar dar exemplos de estudos que ele considera cognitivamente desinteressantes e, em alguns casos, mesmo tolos. Poderia dar o exemplo da homeopatia, que ninguém se iria aborrecer. Poderia, talvez, até dar o exemplo dos estudos heideggerianos, que não haveria problema (desde que omitisse a palavra "tolos"). Mas dar o exemplo de Heidegger juntamente com o exemplo da homeopatia, isso é que não. Curiosamente, o Desidério está a dar exemplos de coisas que ele considera cognitivamente desinteressantes, mas que devem poder ser livremente ensinadas e estudadas sem restrições nas universidades. Dar estes exemplos ou outros é completamente lateral e só ele sabe se os exemplos são adequados ou não, pois está a defender que não se deve proibir o que ELE, mal ou bem, acha tolo ou desinteressante.

    Só que, para algumas pessoas, isso não chega: o Desidério teria também de achar que Heidegger é cognitivamente interessante e, quem sabe, talvez até fazer uma vénia quando o nomeia. Assim, quando o Desidério ou outros aqui dão esses exemplos, algumas pessoas encandeadas pelo brilho divino do seu deus filosófico, cancelam a discussão e desatam a atacar directamente os hereges. Da parte que me toca, confesso que não me sinto lesado a não ser pela perda de tempo que isto acarreta.

    Em suma, o Desidério e outros dos que aqui têm escrito, têm o direito de achar que Heidegger é cognitivamente desinteressante, mesmo que estejam redondamente enganados. Mas, mesmo que o estejam, isso não altera rigorosamente nada quanto à justeza dos exemplos, pois o que está em causa não é se o Desidério tem ou não razão quanto aos exemplos dados, mas àquilo que com eles quer exemplificar. Não compreender isto é compreender muito pouco. E é óbvio que outras pessoas têm exactamente o mesmo direito de achar que o Desidério está completamente enganado quanto à questão lateral de os exemplos dados por ele serem bons exemplos de estudos cognitivamente interessantes. Mais, o Desidério pode até ele próprio achar Heidegger muito interessante e digno de ser estudado, que isso não altera rigorosamente nada quanto à adequação dos exemplos dados.

    O problema foi mesmo o de invocar o santo nome de deus em vão. E depois chamam-lhe analíticos contra sintéticos ou lá o que isso é. Ou então ignorantes indigentes. O que se escreve é frequentemente um bom espelho da mente que se tem.

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  21. Não é complicado. Para mim.
    Para si, Aires, pelo que vejo, é.
    A sua interpretação das minhas palavras é completamente enviesada, para ser simpático.

    Você está rotinado em procurar o efeito argumentativo/retórico fácil - e a tornar, com isso, os outros alvo de leviana desconsideração
    Mas quando não o consegue - como neste caso - o seu estilo ressente-se.

    Não, o problema não foi você ter atacado uma "vaca sagrada".
    Foi o modo intelectualmente rasteiro e filosoficamente pueril e desleal como o fez, tratando Heidegger como um analfabeto funcional de filosofia, um simplório pastor... do ser.

    De resto, com outros filósofos "menores" ("espirituais/existenciais"), você utiliza, recorrentemente, um tom chocarreiro e acintoso para atacar as suas ideias, habilidosamente escolhidas e descontextualizadas, para melhor fazer sobressair o seu numerozinho de correcção lógica.

    Estou, porém, desconfiado de que não são eles quem sai mais apoucado com esse exercício vicioso...

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  22. Mário Esteves, acho bom ficarmos por aqui, pois não estou interessado em continuar esta conversa intelectualmente degradante e suponho que os restantes leitores do blog também não terão paciência para esta sua ânsia de se ocupar de mim.

    Eu falo de Heidegger e de outras coisas, mas o Mário está apenas interessado em mim. Não me dê assim tanta importância, pois muito sinceramente não a tenho. Fique lá com os seus adjectivos (nada rasteiros e muito polidos, certamente) sobre mim e discuta ideias. É para isso que serve este blog e não para se falar das minhas qualidades, ou antes, da falta delas. Não vou, pois, jogar este joguinho algo patético para ver quem é mais espertinho e chama mais nomes ao outro.

    Se quiser discutir ideias, cá estarei. Para isto não. Mas não espere que as minhas ideias tenham de lhe agradar. No que me diz respeito, pode defender todas as ideias que quiser sobre os meus filósofos "maiores", incluindo a ideia de que tais filósofos só dizem tolices, que não o vou insultar e até terei todo o gosto em o ouvir sobre isso.

    Para começar deveria antes dizer por que razão fui intelectualmente rasteiro e outras coisas assim. Ou será intelectualmente rasteiro achar que as ideias de Heidegger são filosoficamente desinteressantes?

    Mas provavelmente este meu comentário é inútil e reconheço que já nem sequer devia ter feito o comentário anterior.

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  23. "De resto Heidegger defendeu ideias que dão cobertura ao nazismo. Essas ideias não são tolas? Ou será que Heidegger é um santo intocável? Isso é religião."

    Aqui você foi rasteiro. Usou de maneira obscura a notória relação episódica entre Heidegger e o nazismo para tentar desqualificar inteiramente o interesse intelectual pela sua obra. São, a propósito, coisas como essa que se encontram aos montes espalhadas pelos posts do blog. E, por favor, não me dê o trabalho de catá-las- eu não o mereço.

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  24. Mas eu disse alguma falsidade em relação a Heidegger? Foi público e notório que Heidegger defendeu o nazismo e até foi membro do partido nazi, mas parece que só o corajoso anónimo não sabe.

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  25. O comentário anterior seguiu sem querer antes de o ter terminado. Acrescento apenas que a ligação de Heidegger ao nazismo foi tudo menos episódica. Basta documentar-se sobre isso. Mas a ideia de que o nazismo tem muito que ver com a sua filosofia nem sequer é uma originalidade minha. eu simplesmente concordo com isso. Se quiser discutir isso podemos fazê-lo

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  26. O ónus da prova recai para o lado de quem insinua ou acusa.
    Cabe, então, ao Matias Aires demonstrar convincentemente por que é que concorda que a filosofia heideggariana (de que modo e até onde) se articula com o nazismo.
    Ficamos a aguardar...

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    1. O que eu considero curioso nisto é que não vejo problema algum se acaso for verdade (como me parece que é) que a filosofia de Heidegger -- e não apenas o homem Heidegger -- é nazi. Afinal, qual é o problema de ser nazi?

      Os nazis defendiam várias ideias que, sem o rótulo "nazi", que faz as pessoas irreflectidas rejeitá-las logo, muitas dessas mesmas pessoas defendem. Por exemplo:

      1) Que a racionalidade é muito limitada e que há que sentir com a alma e com a alma da terra, à pátria-mãe, com o sangue dos nossos antepassados: ou seja, os nazis defendiam aquilo a que hoje se chama as políticas da identidade. E defendiam que a ciência e a técnica "ocidentais" eram muito redutoras (apesar de obviamente as usarem na sua máquina de guerra).

      2) Que os processos corriqueiros de descoberta das coisas não se aplicam aos génios, que são únicos e fadados e iluminar o caminho dos outros. Este génios têm um contacto directo com a verdade, vêem-na sem precisarem dos processos corriqueiros, "ocidentais" (a que eles chamavam também "ciência judaica"), que incluem coisas como a discussão aberta de ideias, a formulação de objecções e contra-exemplos, a argumentação explícita cuidadosa e aberta à refutação, a experimentação empírica.

      3) Que o capitalismo é uma forma judaica e errada de organizar a sociedade, baseada na livre iniciativa económica que beneficia os judeus, quando na realidade toda a economia deve pertencer directamente à Pátria Mãe, que organiza, coordena, distribui, planeia e controla a vida económica para o bem geral da sociedade -- daí a parte "socialismo" na designação do partido "nacional-socialista".

      4) Que os seres humanos verdadeiramente superiores são os seres humanos apreciadores das artes sofisticadas -- a grande música clássica romântica, por exemplo, onde se abriam algumas excepções no caso de compositores judeus considerados superlativos, mas também a ópera, a pintura, o teatro clássico, a arquitectura. Poucas pessoas sabem que o próprio Hitler talvez nunca tivesse dado no que deu se as suas tentativas artísticas (ele pintava quadros e interessava-se pelo design -- mais tarde, foi ele que concebeu a simbologia nazi) tivessem recebido apoio dos meios artísticos, em vez de terem sido rejeitadas por falta de qualidade.

      5) Que a verdadeira liberdade não é a liberdade de cada um fazer o que lhe dá na gana, mas antes a liberdade para fazer o que os seres superiores dizem aos inferiores que eles devem fazer. Daí que uma sociedade de consumo, onde a economia, a sociedade e a política responde ao que as pessoas efectivamente querem, e não ao que as elites gostariam que elas quisessem, seja vista como uma aberração contra-natura: os superiores, por definição, existem para liderar os outros, para os guiar, e estes têm tudo a ganhar com essa liderança.

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    2. Caro Anónimo, só coloco três condições prévias:

      1. Dado que não costumo discutir com pessoas de "cara tapada", pois não me parece adequado numa discussão civilizada, franca e leal (o anonimato é geralmente propício ao insulto rasteiro), gostaria que se identificasse.

      2. Se nada do que eu alguma vez lhe possa dizer ou mostrar for capaz de alterar a sua opinião, então a conversa é completamente inútil e não passará de pura perda de tempo, pelo que seria bom saber antes se está aberto a isso.

      3. Não me obrigar a sujeitar a ataques pessoais (como alguns que já aqui se verificaram) nem à adjectivação gratuita da minha pessoa, ainda que a coberto da indignação relativamente às minhas opiniões. Seria estranho que quem não se indigna com a defesa dos ideais nazis (episódica ou não) por parte de Heidegger se indigne com opiniões bem menos perigosas. até porque as minhas opiniões acerca de Heidegger podem também ser episódicas. Assim, independentemente do que pensarmos sobre cada uma destas coisas, penso que a conversa só é viável se não houver lugar a indignações deste tipo.

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    3. Só mais um aspecto, Anónimo. Vamos usar as palavras certas e não jogar com elas: eu não insinuo nem acuso seja o que for, ao contrário do que escreve. Simplesmente digo e digo-o claramente. Registo a sua vontade de me atribuir intenções duvidosas que não tenho. Se não formos honestos a discutir, não me apetece a discussão.

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  27. Desidério, o problema disso é simplesmente essas ideias serem tolas, não é ele defender essas ideias.

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    1. Não era uma pergunta de retórica; a questão é que muitas pessoas ficam em pulgas quando se fala do nazismo mas 1) não sabem bem que ideias eram defendidas e 2) ainda menos sabem explicar o que há de errado nelas. Não há quase diferença entre o pensamento nazi e o pensamento de Heidegger, excepto um vir assinado com um nome que começa com H e o outro não. Só que as pessoas não sabem disso.

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    2. "Não há quase diferença entre o pensamento nazi e o pensamento de Heidegger, excepto um vir assinado com um nome que começa com H e o outro não."

      Essa foi uma das coisas mais bizarras que já li. Se você tem consciência disso e quis fazer uma piada, ainda ssim foi uma piada de mau gosto, que só funcionaria num círculo bem específico de detratores da filosofia heideggeriana. Se você realmente pensa isso, aí a coisa é bem séria. Pois, neste último caso, você só demonstra que 1)teve um contato rudimentar com a obra de Heidegger, ou 2) leu o autor, mas não faz a menor idéia do que está falando.

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  28. É curioso que Matias Aires queira estipular condições para o debate, alegando querer "defender-se" - reinvidicando, à partida e sub-repticiamente, a vantagem estatutária de "virgem ofendida" para condicionar o opositor -, e, sobretudo, pretenda estabelecer uma cláusula como a segunda ("Se nada do que eu alguma vez lhe possa dizer ou mostrar for capaz de alterar a sua opinião, então a conversa é completamente inútil e não passará de pura perda de tempo, pelo que seria bom saber antes se está aberto a isso"), quando neste espaço os seus "administradores" se permitem assumir - e de forma ostensivamente preconceituosa e falaciosa -, posições como esta que aqui foi tomada contra um comentador, que, no fundo, até fora bem educado e caridoso na sua argumentação:
    "Claro, posso estar enganado, mas a reacção adequada a isso não é tentar proibir-me de pensar isto mas mostrar que estou enganado, explicando um aspecto do pensamento de Heidegger que seja particularmente interessante. E isso nem você nem ninguém é capaz de fazer, porque Heidegger, de tudo o que dele e sobre ele li, é puro texto bíblico: banalidades ou falsidades triviais, escritas de modo pomposo e sugerindo profundidades inexistentes."

    Quanto ao anonimato, que não seja por isso: o meu nome é Rafael Sanches.

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    1. Desculpe intrometer-me Rafael, mas não me parece que eu tenha dito fosse o que fosse de pessoalmente ofensivo ao meu interlocutor. Nada de pessoal disse, nem o acusei seja do que for. Apenas continuei a defender ideias, no plano das ideias, a minha opinião sobre o valor cognitivo do trabalho de Heidegger. Nada disse sobre o meu próprio interlocutor. Na verdade, revelei bastante abertura, fazendo um desafio intelectual, e não pessoal: escreva-me um texto explicando a relevância cognitiva de um aspecto do pensamento de Heidegger, disse eu ao meu interlocutor. E disse-o porque essa é a melhor maneira de o meu interlocutor mostrar que eu estou enganado. E eu agradeço que me corrija se eu estiver enganado. Claro que não acredito que isso seja possível, porque já li bastantes coisas sobre Heidegger (porque sou uma pessoa curiosa) e nunca li algo que me parecesse cognitivamente relevante.

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  29. Rafael (a propósito, o meu nome não é Matias), não me interessa saber se é curioso ou não é curioso estabelecer condições para o debate. Não vamos mais uma vez discutir a discussão. Pergunto-lhe simplesmente se as aceita, e daí podermos ir directamente para a discussão civilizada. Se não aceitar, tenho o direito de não querer perder tempo com uma conversa que, a julgar pelo que já se viu, corre sérios riscos de degenerar em triste fanfarronice intelectual. A idade da afirmação já passou por mim há décadas.

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  30. Uma falácia comum é pensar que alguém somente pode criticar de modo adequado um determinado filósofo se conhece a sua teoria de trás pra frente e leu toda a sua obra. Isto é falso e, se fosse verdade, impossibilitaria a atividade filosófica.

    Isto é falso, pois muitos argumentos defendidos por filósofos não dependem das suas teorias ou explicações. Um caso óbvio consiste nos argumentos de Heidegger de que a filosofia é indeterminada por ser vasta, de que por ser indeterminada, a filosofia pode ser tratada de diversos pontos de vista e de que por ser tratada ser tratada de diversos pontos de vista, ao falar de filosofia dizemos sempre algo certo. São três argumentos péssimos e que se percebe que são péssimos mesmo que nunca se tenha lido uma página de Heidegger. Responder essas críticas dizendo que a citação está fora de contexto é uma manobra ad hoc que não funciona. No mínimo, teríamos que reinterpretar os termos que aparecem no argumento como contendo um significado especial que só existe na teoria de Heidegger. Assim “ponto de vista” ou “indeterminado” teriam um significado especial. Além da credulidade que é necessária para levar a sério esse gênero de resposta, fica logo evidente que ela só funciona se tornar o filósofo desinteressante.

    É por isso que disse que esta manobra também torna a atividade filosófica impossível. Ora, se a única maneira de avaliar as idéias de Heidegger é ler inúmeros livros quase ininteligíveis e argumentar por meio de heideggerianês, suas idéias pressupõem a sua própria teoria e não podem ser avaliadas de modo independente. Portanto, não têm valor cognitivo. Repare que essa confusão não é um honraria concedida apenas àquelas que passam a vida a comentar Heidegger, pois se pode defender da mesma maneira falaciosa Frege, Kant, Wittgenstein, Quine ou qualquer outro filósofo.

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    1. "Um caso óbvio consiste nos argumentos de Heidegger de que a filosofia é indeterminada por ser vasta, de que por ser indeterminada, a filosofia pode ser tratada de diversos pontos de vista e de que por ser tratada ser tratada de diversos pontos de vista, ao falar de filosofia dizemos sempre algo certo."

      Isso que está escrito acima é uma tremenda bobagem. O fato de você atribuir idéias como essas à obra de Heidegger só demonstra que você não tem um conhecimento sequer rudimentar do pensamento do autor. Nunca é bom para um candidato a filósofo perder a oportunidade de ficar calado.

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    2. É exatamente disso que estamos falando: vocês não conseguem fazer uma coisa simples como defender um simples argumento do Heidegger diante das críticas e respondem com evasivas. Esses três argumentos estão no primeiro parágrafo de “Que é isto – A Filosofia?”. O texto pode ser encontrado até mesmo na internet para qualquer um ir lá e ver por si mesmo. Será que vou ter que citar o texto no alemão aqui para provar que essas bobagens foram ditas por Heidegger?

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    3. É realmente espantosa tal capacidade de distorcer o discurso de um filósofo de que não gostam unicamente para agredi-lo de forma rasteira. Evidentemente, o sentido das frases depende da função delas no interior da totalidade do discurso a que pertencem. Por isso, arrancar um trecho qualquer da obra de um filósofo e apresentá-lo como se fosse reflexo de uma idéia acabada, e não como o momento de um processo em que o próprio pensamento pode estar reconhecendo os seus equívocos, ou é sinal de uma lastimável má-fé ou denuncia uma inépcia aterradora.

      Heidegger não disse mesmo o que você escreveu. Além de tudo, você nem sequer citou literalmente o autor, mas usou suas próprias palavras para elevar a distorção a uma segunda potência. Eu nem mesmo preciso elaborar uma resposta, basta deixar que o suposto excerto- primeiras palavras de uma argumentação! e não conclusão cabal de um argumento!- se integre um pouco mais ao discurso de onde foi ardilosamente extraído:

      "O que é isto- a filosofia?"

      "COM ESTA questão tocamos um tema muito vasto. Por ser vasto, permanece indeterminado. Por ser indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais diferentes pontos de vista e sempre atingiremos algo certo. Entretanto, pelo fato de, na abordagem deste tema tão amplo, se interpenetrarem todas as opiniões, corremos o risco de nosso diálogo perder a devida concentração.
      Por isso devemos tentar determinar mais exatamente a questão. Desta maneira,levaremos o diálogo para uma direção segura. Procedendo assim, o diálogo é conduzido a um caminho. Digo: a um caminho. Assim concedemos que este não é o único caminho. Deve ficar mesmo em aberto se o caminho para o qual desejaria chamar a atenção, no que segue, é na verdade um caminho que nos permite levantar a questão e respondê-la."

      Heidegger simplesmente sugere que o tema em questão pode ser vasto e indeterminado (basta pensar na história do problema abordado). Reconhece que a pergunta poderia ser legitimamente feita de muitos pontos de vista (tem gente que perde tempo, por exemplo, fazendo a pergunta de um ponto de vista exclusivamente lógico-linguístico, dá pra imaginar?). Mesmo assim ele assume a confusão que isso causaria ("Entretanto...") e decide trilhar um único caminho seguro, ainda mantido como duvidoso, talvez insuficiente.

      Querer ver, nessa passagem, mais do que uma cuidadosa introdução do leitor em alguma coisa que ainda será discutida, querer ler as primeiras palavras de um filósofo, num momento em que ele ainda confessa a dificuldade oferecida pelo tema, como se constituíssem um resumo de seu último e definitivo olhar para a filosofia é algo que chega a ser cômico.

      E eu realmente acredito que nenhum filósofo com genuína consistência teórica se permitiria comentar e muito menos depreciar um texto que foi de tal forma arrancado de seu contexto discursivo. Ainda que não conhecesse o contexto original, teria a compostura intelectual de não se lançar ao alvo, meticulosamente arquitetado, como algumas crianças se lançariam aos doces derramados no meio da rua.

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    4. “O que é isto- a filosofia?"

      "COM ESTA questão tocamos um tema muito vasto”.
      Banalidade.

      “Por ser vasto, permanece indeterminado”.
      Argumento inválido: a premissa pode ser verdadeira e a conclusão falsa. Do fato de um tema ser vasto não se segue que ele é indeterminado.

      “Por ser indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais diferentes pontos de vista e sempre atingiremos algo certo”.
      Argumento inválido: a premissa pode ser verdadeira e a conclusão falsa. Do fato de podermos tratar um tema sob diferentes pontos de vista, não se segue que sempre atingiremos algo certo.

      O que se passa na cabeça de uma pessoa que pensa que argumentos bobos como esses são profundos e dignos de atenção? Um anseio para-religioso de acreditar que algumas pessoas têm acesso privilegiado à verdade. É claro que esses argumentos são vergonhosos e qualquer aluno de primeiro período com uma formação minimamente decente os recusa de imediato.

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    5. Precisamente por me parecer óbvio que as inferências e afirmações de Heidegger são destituídas de interesse cognitivo -- como, aliás, todo o livro dele -- é que eu defendo a tese que o interesse dos seus textos não é cognitivo. O género de desconstrução (se me for permitida a piada) que aqui fazes, Matheus, é um pouco como perguntar como pôde Deus ter feito Eva de uma costela de Adão, dado que se pôde fazer Adão sem usar costelas alheias, certamente poderia também usar o mesmo processo para fazer Eva. Como é evidente, esta pergunta é algo tola, pois quem gosta de ler a Bíblia para sentir conforto não a lê literalmente. O mesmo acontece com quem lê o texto de Heidegger: o que conta não é se o que afirma é literalmente interessante ou sequer verdadeiro, não interessa se as inferências são sólidas. Tudo o que interessa é que é um discurso reconfortante espiritualmente; é um discurso heróico, que dá a impressão de estarmos a penetrar num domínio só para eleitos, pleno de mistérios que se escondem por detrás das palavras. Se não leres Heidegger assim, é totalmente desinteressante. É por isso que é totalmente desinteressante para ti e para mim, mas não para quem gosta de Heidegger e pensa que ele é muito importante. E é importante. É importante para quem entende a filosofia desta maneira.

      O que eu defendo não devia ofender as pessoas, mas peço desculpa por ofender. Acontece que é o que eu genuinamente penso: Heidegger, como Derrida ou Deleuze, é interessante para quem faz da filosofia um discurso inspirador, heróico, salvífico. E eu penso que isso é perfeitamente legítimo, pois cada qual faz da filosofia o que bem entender.

      O que irrita as pessoas é a impressão vaga que elas têm que, se a filosofia for encarada desse modo salvífico, não tem dignidade académica. Assim, as minhas opiniões seriam vistas como um modo de dizer que essas pessoas deviam ser despedidas ou afastadas da universidade, como aconteceu com a alquimia ou a astrologia. Mas eu não penso isso. Penso que a única condição que conta para uma dada prática cultural estar na universidade é haver pessoas que queiram que lá esteja, nada mais. A mim não me incomoda que se estude Heidegger na universidade. E o pluralismo epistémico até é bom; quem sabe se afinal há interesse cognitivo em Heidegger, ou se a maneira salvífica de fazer filosofia não se revela interessante de outros modos? O melhor é deixar quem tem paixão por essa maneira de fazer filosofia continuar o seu trabalho, segundo os critérios que julgar mais adequados, e que certamente nada têm a ver com os meus critérios académicos.

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    6. Desidério, não sei se você está sendo irõnico ou se realmente acredita no que escreve. Seja como for, você está errado. O melhor seria você tentar entender (ou explicar) por que filósofos mais chegados à corrente filosófica que você tanto admira, como Rorty e K. Otto Apel, por exemplo, reconhecem enorme importância na obra de Heidegger e estabelecem fortes associações com as de Wittgenstein. Nenhum deles alega que os textos de Heidegger são deprovidos de interesse cognitivo.

      Agora, quando o sujeito usurpa 3 frases de seu contexto discursivo original e se põe obcecadamente a espremer delas "interesse cognitivo", então não há muito mesmo o que obter daí. Uma atitude como essa está fadada ao fracasso, por ser completamente absurda.

      Eu poderia fazer facilmente o mesmo com filósofos da vertente analítica que apresentam um estilo mais solto, quase informal. Poderia implicar com as piadas de Goodman ou Danto; poderia apontar como a tentativa de aproximar discurso filosófico e linguagem corrente acaba gerando um discurso por vezes não mais que medíocre, como já vi no fraco livro sobre arte de N. Carroll. Mas assim como não se julga a qualidade de alguém tomando por base exceções, e sim o que ele faz sistematicamente, também não se deve julgar a relevância do pensamento de um filósofo detalhando seus piores momentos. Quando alguém fica preso a coisas pequenas como essas, não consegue demonstrar verdadeiramente nada, além do fato de que sua estatura intelectual corresponde às dimensões de seu tão perseguido objeto.

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  31. Vou apresentar aqui um desafio para os defensores do Heidegger: eu gostaria de ver se vocês conseguem defender esses três argumentos péssimos em linguagem civilizada, de gente, não em heideggerianês, para que possamos avaliar a resposta de modo independente e debater filosoficamente. Simplesmente insistir que eu terei que ler toda a obra de Heidegger para entender o seu argumento é dar uma resposta implausível demais para ser levada a sério.

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  32. A tentativa de identificar o nazismo com o pensamento de Heidegger (são quase a mesma coisa - um "quase" que é decerto um exemplo de rigor na óptica cognitivista...) é intelectualmente pouco rigorosa e filosoficamente improfícua.

    Para não se partir de simples enunciação de preconceitos (filosóficos ou ideológicos, cuja distinção nem sempre é nítida, a começar logo nos que se reinvidicam da "perspectiva cognitivista"), teremos que começar por ser claros neste ponto: o nazismo é o filho maldito, mas legítimo, da Revolução Francesa ("onde se viu um cabo austríaco a governar um país?", como dizia o aristocrata Churchill), da revolução industrial inglesa, do racionalismo e do empirismo, como também dos movimentos irracionalistas do século XIX.

    O nazismo não necessitou da filosofia heideggariana para nada de fundamental ou originário da sua doutrina ou vocação, não encontrou nela nada que, afinal, não tivesse já.

    Também é duvidoso que a filosofia heideggariana tenha precisado do nazismo para iluminar a sua intuição e perspectiva originárias e que o seu caminho tenha sido alterado, no que lhe é mais fundamental, por aquele.
    Ela não tinha outro destino que não o seu glorioso fracasso (algo que no fim Heidegger compreendeu, mas que talvez desde sempre o tenha ensombrado).

    O totalitarismo, antes de mais, é inimigo do pensamento.
    Mas não de todo o pensamento.
    Quando o pensamento se deixa seduzir pelo maniqueísmo ("nós, deste lado, que nos cremos 'bons', que a nossa crença é que é fundamentada, - se não fosse a força dessa crença, que sentido faríamos estar deste lado, ou haver um 'lado'? -, contra todos os que crêem outra coisa ou doutra maneira, do outro lado") e ficar refém dele ("nós cremo-nos 'superiores', - senão, para quê persistir? -, todos os outro que façam o mesmo com a sua crença", e o resto, outros lados, o "meio", não conta), quando se torna uma forma de monólogo que só ouve os seus ecos, então está mais perto do totalitarismo do que ele pode ou admite suspeitar. E, talvez, mais longe de si mesmo...

    Como Heidegger talvez tenha percebido à sua custa, o pensamento que é digno de si mesmo, isto é, de poder merecer um nome como seja o de "filosofia", é um pensamento que ama a pluralidade, que é plural e produz pluralidade, que tem a ânsia e volúpia da pluralidade. E a sua inocência...

    Isto, para o Desidério e para o Aires, deve parecer só "paleio sem conteúdo cognitivo"...
    Ainda bem que assim parece. (Também o fiz para que assim pudesse parecer...).

    Eu já compreendi a natureza e o valor dos seus "conteúdos cognitivos", do seu "rigor argumentativo" (agentes cognitivos e os seus estados, plausibilidade, ideologia... - tantos pontos de fuga, tantas tentações, tantos tropeções... ). Não passam de ficções, dessas que se levam demasiado a sério.

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    1. Caro Rafael Sanches, a ironia do seu último parágrafo é o tipo de coisa que apenas introduz ruído no debate.

      Vamos, então, começar com alguns factos rigorosamente documentados:

      1. Heidegger era um homem inteligente, com uma inteligência muito acima da média. (eu acho que isto é um facto, que não me passa pela cabeça disputar).

      2. Heidegger apoiou o partido nazi (o NSDAP) ainda antes de Hitler tomar o poder, em 1932.

      3. Heidegger aderiu oficialmente ao partido nazi no dia 1 de Maio de 1933, logo após Hitler ter subido ao poder.

      4. Heidegger manteve-se como militante do partido nazi até 1945 (como todos os militantes, pois foi quando a festa acabou).

      5. Depois de terminada a guerra, Heidegger nunca chegou a condenar o nazismo.

      6. Em 1950 defendeu ainda, no seu ensaio "A Coisa" ideias anti-igualitárias muito caras aos nazis.

      7. Até ao fim da sua vida nunca fez questão de se demarcar da ideologia nem da prática nazis em geral (nem sequer na sua última e famosa entrevista à revista Der Spiegel o faz).

      8. Aplicou as chamadas "leis de limpeza" racial na Universidade de Friburgo, enquanto foi seu reitor.

      9. Mesmo depois disso foi informador nazi, tendo denunciado secretamente colegas seus, como o professor Hermann Staudinger, por ter sido pacifista durante a Grande Guerra e propôs o seu despedimento, sem direito a a pensão.

      10. Depois disso defendeu na rádio nacional a decisão de Hitler de a Alemenha abandonar a Liga das Nações.

      11. Defendeu o anti-semitismo no seu departamento da universidade e fora dela, aplicando-o mesmo aos seus mais fiéis seguidores judeus.

      12. Husserl queixou-se de Heidegger ter cortado com ele ao saber que era judeu.

      13. O seu amigo Karl Jaspers, cristão e opositor ao nazismo, cortou com Heidegger por este defender o nazismo.

      Tudo isto são factos, e há muitos mais deste género perfeitamente documentados. Mas, e depois? O que tem isso que ver com a sua filosofia?

      14. Tem tudo que ver, sublinhou por várias vezes o próprio Heidegger. Assumiu várias vezes que a sua militância no partido nazi se prendia de forma indelével com uma das ideias mais centrais do seu pensamento: a sua ideia de historicidade, alegando que as suas acções e opções políticas eram uma consequência natural da sua filosofia.

      Mesmo estudiosos heideggerianos destacados, como Charles Guignon e outros, reconhecem e lamentam todos estes factos. E confirmam que o próprio Heidegger sublinhava a ligação intrínseca entre o seu pensamento e a sua adesão ao partido nazi.

      Posto isto, e ainda antes de avançar, gostaria de saber se o Rafael Sanches confirma ou desmente estes factos. Há mais alguns para a fase seguinte, mas

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    2. ... mas é melhor irmos por partes, ia eu concluir.

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    3. É sério, ainda tem mais? Já não acabou o roteiro da wikipédia que você seguiu? Primeiro, você aproveita um excerto descontextualizado pra agredir covardemente um filósofo renomado, que, francamente, pouco depende de alguma pérfida opinião sua. Depois, você, que se diz conhecedor da suposta biografia nazista heideggeriana, não faz mais que recolher dados disponíveis a qualquer um na wikipédia. Sinceramente, estou curioso pra saber qual o próximo passo. É realmente admirável o rigor intelectual dos filósofos da ilha da fantasia.

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    4. Este comentário foi removido pelo autor.

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    5. Caro Anónimo, é lamentável essa arrogância, mas vejo que não há muito a fazer. E cobardia não é achar mau um filósofo renomado (onde está a agressão?), cobardia é não dar a cara pelo que aqui se diz e escreve, pois o anonimato não costuma ser característica dos corajosos.

      Seja como for, tenho a informá-lo que não consultei sequer a Wikipédia, mas não veria mal algum caso a tivesse consultado. Afinal, o que está em causa não é se as afirmações que faço são ou não são factuais? Assim, caso não concorde, o que de fazer é mostrar-me quais delas são falsas.

      Claro que não tenho as datas e factos referidos decorados na minha cabeça. Algumas das minhas fontes podem ser encontradas em livros especializados como o compêndio sobre Heidegger, da Cambridge, organizado por Charles Guignon, em especial os artigos do próprio e de Thomas Sheehan. Mas também em Histoire de la Philosophie au XXe Siècle, de Christian Delacampagne (Seuil). E não, não fui sequer ao Victor Farias nem ao Emmanuel Faye, veja lá.

      Entretanto, encontrei um curioso texto de George Steiner (um pensador que não me costuma ocupar muito tempo) sobre o assunto, traduzido para português por Álvaro Cabral (que não conheço). O texto está dividido em duas partes, cujos links são os seguintes:


      http://speminaliumnunquam.blogspot.pt/2012/02/martin-heidegger-e-o-nazismo-i.html

      http://speminaliumnunquam.blogspot.pt/2012/02/martin-heidegger-e-o-nazismo-ii.html


      Agora o corajoso anónimo faça o favor de ir chamar os nomes que me chamou a mim também ao George Steiner. Ok?

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  33. Caro anónimo, cumprimento-o pela paciência, que eu não tive - você até se deu ao trabalho de ir "catar" (como você diz) o texto de Heidegger -, de tentar mostrar a estes nossos "cognitivistas" a imperícia e futilidades dos seus intentos.

    Ainda tive a breve tentação de invocar aqui coisas suspeitas e sinistras (desprovidas de "interesse cognitivo") como hermenêutica, interpretação, compreensão..., mas a desaforada indigência intelectual dos comentários de Matheus Silva fez-me temer o pior.

    Já me bastou o argumentário falacioso e preconceituoso de que fui alvo por parte de D. Murcho (chegou a invocar o dualismo cartesiano, a título de argumento de autoridade, que lhe daria direito de ser, ele!, também "dualista", como se o dualismo cartesiano fosse uma conquista ou demonstração insuperáveis e não algo extremamente discutível, sobretudo para quem diz professar o "pluralismo espistémico"...), a que caridosa ou ingenuamante chamei "inconsistente" (como ele, a seguir, se encarregou de demonstrar-me, porque, para ser preciso, eu deveria ter usado os termos "fraco", ou talvez antes, "mau").

    Mas eu tornei-me definitivamente suspeito por ter "atacado"
    Matias Aires, cometendo um crime de lesa majestade (receio que a expressão ad hominem pudesse ser mal interpretada...), por ter ousdo vir aqui dizer-lhe que o seu estilo de comentar apresenta, frequentemente, a ligeireza pueril dos alunos ressentidos para com os seus antigos mestres, procurando, mesmo que inconscientemente, uma espécie de desforra póstuma contra essa autoridade castradora.

    Adeus!

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    1. Não vá, Mário! Fique e discuta as idéias de Heidegger! Eu ainda estou esperando uma defesa dos argumentos do primeiro parágrafo de "O que é isto, a filosofia?". Onde estão?

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    2. «a ligeireza pueril dos alunos ressentidos para com os seus antigos mestres, procurando, mesmo que inconscientemente, uma espécie de desforra póstuma contra essa autoridade castradora.»

      Caro Matias Esteves, não leve a mal que lhe agradeça a enorme gargalhada que me proporcionou: conseguiu deitar-me no seu divã mental para me fazer uma sessão psicanálise, mesmo sem me conhecer. Isso é obra. E são, sem dúvida, precisos dotes intelectuais raríssimos.

      Só não consigo compreender essa sua obsessão por mim. Não usa um único argumento identificável e não discute as minhas ideias, mas não consegue deixar de falar da minha pessoa, do meu carácter, dos meus ressentimentos. Se for ler todos os comentários que fiz, nem uma única vez me referi ao seu carácter ou adjectivei a sua pessoa, tendo-me limitado responder às suas ideias. Mas o Matias Esteves quase me faz acreditar que, se eu estivesse à sua frente, era capaz de me bater.

      Só porque não penso o que o Matias Esteves quer que eu pense? Só porque eu não lhe digo que os seus argumentos (quais?) são geniais? Isto é algo que me ultrapassa e não ouso tentar explicá-lo. Ao contrário do Matias Esteves, não sou psicanalista. Muito menos conseguiria fazer psicanálise à distância.

      Seja como for, já me tentou rebaixar intelectualmente (a mim, que consegui tirar excelentes notas nos trabalhos que fiz sobre Heidegger na universidade, na altura em que ele nos era enfiado pela boca à colherada), já me chamou uma data de nomes, já me tentou achincalhar. Espero ao menos que agora se sinta melhor.

      Sem ressentimentos, pois eu gosto de ver toda a gente feliz.

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