16 de maio de 2012

Pluralismo epistémico


Um leitor amável deste blog protestou por eu pôr aqui na mesma categoria teorias como a homeopatia, por exemplo, e autores como Heidegger. A razão de ser do protesto é, presumivelmente, que esse leitor considera a homeopatia lixo, mas não considera o mesmo de autores como Heidegger. Ora, eu penso que há aqui duas confusões cruciais.

Em primeiro lugar, muita gente não considera que a homeopatia seja lixo pseudocientífico; há quem pense isso, e eu penso isso, mas há quem não o pense. Um livro equilibrado sobre a homeopatia, entre outros temas das fronteiras da ciência, é 13 Things that Don’t Make Sense, de Michael Brooks, uma leitura que recomendo. Portanto, o leitor protestou precisamente por pensar que a homeopatia é lixo intelectual — mas isso é certamente ofensivo para quem pensa que não é lixo intelectual, e para quem, como no Reino Unido, é médico homeopata reconhecido pelo estado e com consultório aberto. O que se esconde então nesta confusão do meu leitor? A incapacidade para compreender que o que ele mesmo considera lixo intelectual ou académico outras pessoas consideram que é trabalho intelectual e académico de grande valor. Esta incapacidade, por sua vez, é uma das consequências mais danosas do actual totalitarismo epistémico que é exercido nas universidades, com a protecção do estado. Não houvesse este totalitarismo e as pessoas teriam uma maior consciência da imensa diversidade epistémica humana, que faz algumas pessoas considerar de extremo valor intelectual o que outras consideram puro lixo, confusão e incompetência elementar.

Em segundo lugar, devia ser evidente que, porque os seres humanos são falíveis, seja quem for que pensa algo, talvez esteja errado. Assim, quando alguém pensa que algo é cognitivamente interessante, ou de extremo valor intelectual e académico, talvez esteja errado. E, claro, quando alguém pensa que isso é destituído de interesse cognitivo e sem valor intelectual nem académico, talvez esteja errado. A confusão do meu leitor é pensar que só porque várias pessoas discordam de mim quanto ao valor intelectual de algo, então eu estou errado quanto a isso — ou, pior, não tenho o direito de exprimir publicamente as minhas opiniões eventualmente erradas sobre tal coisa.

Estas duas confusões são o resultado do totalitarismo epistémico operado nas universidades. O problema do totalitarismo epistémico é dar uma aparência de infalibilidade aos juízos falíveis conjuntos dos académicos. Acontece que é verdade que, se estes juízos forem honestamente produzidos e discutidos num clima de completa abertura, há efectivamente maiores probabilidades de tais juízos acertarem na verdade, do que se forem juízos feitos à toa. Mas esta maior probabilidade não exclui a possibilidade do erro, e a história aí está para nos mostrar que praticamente nenhuma instituição — talvez à excepção da igreja católica — cometeu mais erros epistémicos crassos do que as universidades. As ideias de Descartes foram proibidas nas universidades do seu tempo, Hume nunca conseguiu ser professor universitário, e o trabalho académico, reconhecido pelos pares, feito por quem os expulsou está hoje esquecido -- e se fosse lido ficaríamos talvez espantados com a indigência intelectual (para usar o termo do meu leitor) aí manifestada.

Como expliquei no livro A Ética da Crença, agentes cognitivos falíveis como nós precisam de estar continuamente a fazer controlos e ajustes: controlos, para ver se o que parece verdade é realmente verdade, e ajustes, para reajustar as nossas crenças face a novos dados relevantes. Acontece que os outros agentes cognitivos são uma parte crucial desses controlos e ajustes: se me parece ver o João ao longe, mas os meus três amigos me dizem que não é o João, eu desconfio de que vi mal, apesar de que talvez sejam eles que estejam errados. Passamos a vida a controlar e ajustar as nossas crenças, mesmo as mais banais, com as crenças de outros agentes cognitivos à nossa volta. Isto faz pleno sentido, porque desse modo baixamos a probabilidade de estarmos errados. Mas agora dá-se outro erro crucial: a tentação do unanimismo epistémico.

O unanimismo epistémico é para nós confortável porque nos poupa o trabalho de desconfiar que talvez as nossas crenças mais centrais e operativas — as que regulam as nossas escolhas no que respeita ao tempo investido no que investigamos, por exemplo — estejam erradas.  Só que o unanimismo epistémico só é indício de maior probabilidade da verdade das nossas crenças se as ideias opostas e incómodas morreram de morte natural: porque as pessoas, livremente, abdicaram dessas crenças por as considerarem, com boas justificações, falsas. Portanto, há muitos casos em que o unanimismo epistémico, tal como a avaliação pelos pares, não nos faz acertar na verdade, mas antes persistir no erro.

Ora, o que o meu leitor quer é unanimismo epistémico quanto ao valor do que ele estuda. Acontece que isso não existe. Muitos filósofos pensam que Heidegger é um filósofo incompetente; e este género de juízos é normal entre filósofos — na verdade, o próprio Heidegger pensa que quase todos os filósofos depois de Parménides se esqueceram do ser, o que denota pelo menos uma certa incompetência da parte deles. E são conhecidas as invectivas pouco simpáticas de Nietzsche contra Platão. O filósofo Leo Strauss é posto em causa por muitos académicos, como se pode ler na recensão de Kenneth B. McIntyre ao livro Leo Strauss and the Conservative Movement in America, de Paul Gottfried. O filósofo vienense Paul Edwards, dificilmente um filósofo fechado e sem conhecimentos abrangentes da filosofia — uma vez que organizou a excelente Encyclopedia of Philosophy, que abrange todas as áreas da filosofia —explica no livro Heidegger’s Confusions por que razão este pensador era vítima de confusões sistemáticas.

A ânsia de unanimismo epistémico compreende-se, mas não é saudável. Compreende-se que uma pessoa não queira perguntar-se se o que está estudando é realmente um autor interessante, ou se será antes uma vítima de confusões intelectuais constantes, sendo o nosso investimento no seu estudo algo desavisado. Mas a reacção adequada a isso é fazer um trabalho intelectual honesto. Quando estudamos um autor, quer ele se revele intelectualmente desinteressante quer não, se o nosso trabalho for feito de acordo com os mais exigentes padrões de objectividade, clareza, confronto de ideias, discussão de argumentos e alternativas teóricas, nunca estaremos perdendo tempo. O livro Thinking the Impossible: French Philosophy Since 1960, de Gary Gutting, parece-me interessante do que já li dele, e não é um trabalho em vão – ainda que a conclusão seja que os filósofos estudados estão mergulhados em confusão, como defende Edwards relativamente a Heidegger.

Acontece que a julgar pelas teses publicadas na Crítica, a maior do trabalho académico sobre estes autores não se orienta por padrões exigentes de objectividade, clareza, confronto de ideias, discussão de alternativas teóricas e um domínio sólido dos conceitos e ideias relevantes. Pelo contrário, pouco mais são do que jogos de palavras intelectualmente pouco promissores, para não dizer indigentes. Todavia, as pessoas têm o direito de encarar a filosofia dessa maneira; não vejo problema algum nisso. Se o interesse que têm num dado autor ou tema é primariamente cognitivo ou se, pelo contrário, é sobretudo existencial e espiritual, isso só a elas diz respeito. O que defendo é que o unanimismo académico transforma trabalhos que poderiam ser explicitamente bíblicos e panfletários em coisas que imitam o género de rigor, objectividade, clareza e confronto de ideias que as pessoas de algum modo interiorizaram que é obrigatório nos trabalhos académicos. Mas entre fingir superficialmente que se faz um trabalho desse género, e ser honesto e rejeitar tais padrões, eu voto pela liberdade e portanto pela segunda alternativa: cada qual que escreva como bem lhe aprouver e faça o que quiser. A situação actual é, em qualquer caso, medonha: pessoas que têm exactamente as mesmas qualificações académicas que outras, ou até mais, são contudo totalmente incompetentes naquilo que as segundas são competentes, mas não há quaisquer competências que as primeiras tenham que as segundas não tenham. De maneira que era melhor acabar com a mentira e admitir, como famosamente afirmou Feyerabend noutro contexto, que tudo vale.

8 comentários:

  1. Esqueci-me de acrescentar o seguinte: o protesto do meu leitor é muito semelhante ao protesto dos defensores de pseudociências como a numerologia ou a astrologia. Estas pessoas não defendem que a matemática ou a astronomia deveriam desaparecer, mas antes que o que elas fazem tem a mesma dignidade cognitiva. Talvez tenha, apesar de eu pensar que não. Mas o crucial é que só porque estas coisas foram expulsas das universidades há dois séculos, mas Heidegger não, é que o meu leitor se sente ofendido com a comparação entre Heidegger em a numerologia. Mas isto só é ofensivo porque o meu leitor concorda que a numerologia deve manter-se afastada das universidades, e é aqui que discordamos. Eu penso que o género de totalitarismo epistémico que os cientistas operaram nas universidades tem o efeito perverso de fazer as pessoas pensar que só porque algo é estudado nas universidades está acima de suspeita quanto ao ser real interesse cognitivo. E isso faz as pessoas ficar acríticas perante qualquer autor que seja comummente estudado nas universidades, quando deviam ser críticas relativamente a tudo, incluindo os mecanismos que fazem os professores universitários aceitar Heidegger mas não a numerologia.

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  2. Desidério, antes de mais, devo declarar que este leitor não se julgava merecedor de tão subida honra e atenção.

    Por mais voltas que lhe queira dar, o problema é que você não consegue ultrapassar o facto de ver e colocar a questão em termos já contaminados pelo preconceito e pelo maniqueísmo: de um e do outro lado (há aqui uma fixacção pelo dualismo que, por uma espécie de correcção política, se pretende travestido de "pluralismo epistémico"), apenas temos gente a julgar que os que pensam diferente só cultivam e produzem coisas irrelevantes cognitiva ou filosoficamente ("lixo").

    E você, debatendo-se nesse falso dilema, para se defender, não está com muitas contemplações: dispara sobre a outra trincheira, como se não houvesse alternativas a esse campo intelectual e filosoficamente minado. Depois, à sombra do "pluralismo epistémico", concede que o outro lado (um pluralismo dual, lá está...) também tem direito a existir e a manifestar-se - mas apenas sob uma condição que já fora rebaixada intelectualmente ("tolice") e filosoficamente ("lixo do ponto de vista cognitivo").

    Este "dualismo axiológico e epistémico" não me parece o meio ou o caminho mais apropriado, em qualquer sentido, para obstar ao "totalitarismo" ou ao "unanimismo".

    Isso, de resto, fica também patente quando se lê o seu artigo "Compreender as Críticas à Filosofia Analítica".

    Veja-se, ainda, este excerto de um comentário seu:
    "eu defendo o direito de (o Mário) estudar Heidegger ou seja lá o que for, seja do modo que for. E já escrevi várias vezes que Heidegger pode ser estudado segundo os mais rigorosos critérios académicos. Tal como o Mein Kampf."

    Apresentar a título de exemplo comparativo "Mein Kempf" torna por demais óbvio qual o tipo de juízo preconceituoso sujacente. Podia ter sido mais subtil...

    Enfim, é contra esse argumentário falacioso e tendencioso que eu me insurgi aqui.

    Qualquer um deve ter o direito - pelo menos à partida - de estudar, defender e divulgar a filosofia analítica ou quaisquer outras vias de orientação ou de investigação que entender. Agora, para isso, não necessita de ser enfileirado, rotulado e colocado de um dos lados da "barricada" ("cognitivo"/"espiritual-existencial" ou outra semelhante) - isto é, ter de entrar, ipso facto, num jogo inquinado pela suspeição intelectual, senão moral.

    Finalmente, se, do "outro lado", não deve haver "vacas sagradas", não nos podemos admirar de receber dele idênticas respostas.
    Quando não, ainda poderemos ser levados a pensar que o que subsiste é apenas insegurança nos terrenos que se pisam...

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  3. Desculpe-me se estou a ser indelicado, mas não compreendo por que não tenho o direito de ser maniqueísta, mesmo que isso seja errado e seja falacioso e tendencioso e revele um dualismo axiológico e epistémico. Descartes era dualista; o que você pensa dele? Que não tinha o direito de o ser, tal como eu não o tenho também?

    Além disso, o seu verdadeiro e honesto protesto é apenas este: você crê que dados autores são interessantes e eu penso que não. Mas qual é o problema, Mário? Isto é a coisa mais normal do mundo. Há quem pense que certas obras de arte são lixo e outras pessoas pensam que são de superlativa qualidade; e o mesmo relativamente a muitas outras coisas, como a astrofísica -- há quem a considere importante e há quem a considere uma tolice desinteressante, nunca tendo livro um só livro dessa área, por haver questões mais profundas e mais interessantes. Qual é o problema?

    Não quero acusá-lo de uma postura voluntariamente falaciosa, mas é difícil não ver na sua posição uma maneira de evitar discutir a nossa discordância. Não faz muito sentido alguém declarar que uma dada obra de arte é desinteressante e a outra pessoa, que discorda fortemente, limitar-se a lamentar que ela tenha esse maniqueísmo dualista de classificar umas obras de arte em boas e outras em más. Não quero ser pouco caridoso com a sua posição, mas parece-me que é apenas uma maneira de tentar proibir-me de eu afirmar publicamente algo que lhe desagrada. Por exemplo, você poderia enviar-me um pequeno texto, para o blog, ou um texto mais extenso para a Crítica, explicando o interesse que vê em Heidegger — podia até ser algo pessoal, como um texto muito honesto que me lembro de ter lido há tempos de Alexandre Guerra, e que me parece apenas confirmar o que eu penso sobre a atracção de Heidegger: é uma coisa para-religiosa, emocional, que eu respeito e aceito, mas não tem qualquer interesse cognitivo, é pura ilusão cognitiva. Claro, posso estar enganado, mas a reacção adequada a isso não é tentar proibir-me de pensar isto mas mostrar que estou enganado, explicando um aspecto do pensamento de Heidegger que seja particularmente interessante. E isso nem você nem ninguém é capaz de fazer, porque Heidegger, de tudo o que dele e sobre ele li, é puro texto bíblico: banalidades ou falsidades triviais, escritas de modo pomposo e sugerindo profundidades inexistentes.

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  4. Já que o Desidério enveredou pelo registo "argumentativo-caritativo", apenas algumas notas finais:

    - Uma argumentação, como a sua, montada sob um falso dilema, não representa propriamente um modelo de consistência. Lamento.

    - O maniqueísmo em que você persiste não é uma forma de combater o que designa por totalitarismo, mas um aliado subjectivo e objectivo dele. As posições maniqueístas sempre foram apanágio e estratégia dos totalitarismos...

    - "E isso nem você nem ninguém é capaz de fazer, porque Heidegger, de tudo o que dele e sobre ele li, é puro texto bíblico: banalidades ou falsidades triviais, escritas de modo pomposo e sugerindo profundidades inexistentes".
    Nesse caso, o melhor mesmo será poupar-me a mim, a si e aos incautos leitores...

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    1. A consistência não é uma virtude interessante num argumento. Em primeiro lugar, porque um argumento consistente pode ser inválido ou até falacioso. Por exemplo:

      Se Deus existe, a vida tem sentido.
      A vida tem sentido.
      Logo, Deus existe.

      Este argumento é consistente, isto é, todas as suas proposições podem ser simultaneamente verdadeiras. Mas o argumento não apenas é inválido como é falacioso.

      Em segundo lugar, porque um argumento pode ser inconsistente e válido, ainda que não seja cognitivamente interessante. Por exemplo:

      Deus existe e não existe.
      Logo, a vida tem sentido.

      Este argumento é inconsistente porque as duas proposições que o constituem não podem ser ambas verdadeiras ao mesmo tempo. Contudo, é um argumento válido (ainda que vacuamente válido, dado que a premissa é em si inconsistente).

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  5. Não sei como você ainda não entendeu, mas o problema é que você não deveria ficar falando isto ou aquilo sobre Heidegger porque não pega bem ficar se pronunciando com falsa propriedade sobre um assunto que você não conhece direito, um assunto que nem precariamente domina. Você conhece muito pouco de Heidegger (e também de tantos outros filósofos não analíticos) em comparação àqueles que realmente se dedicaram um bocadinho a estudar a sua obra. Por isso suas recorrentes e previsíveis achincalhações jamais aparecem amparadas em quaisquer argumentos minimamente elaborados sobre o tema que pudessem fornecer algum respaldo crítico. Não acho que você deva se calar, mas acho que uma tagarelice que não se empenha em refinar um pouquinho seu discurso acaba valendo menos que o silêncio. Por que ficar tomando emprestado críticas prontas a obras de Heidegger e outros filósofos quando você parece não ter particularmente nada a dizer sobre isso? Agir assim é como se esconder sob a autoridade crítica de outros, fazendo uso dela sem saber ao certo qual seu escopo. Sob essa ótica, é até curioso como alguém que fala tanto em prol de rigor teórico, honestidade intelectual, interesse cognitivo pode agir de um modo tão contrário em relação a isso tudo, apresentando objeções simplesmente grosseiras ao pensamento dos supostos adversários do 'caminho correto da filosofia'.

    Também é evidente que essa defesa do pluralismo epistêmico soa como uma espécie de derradeira boa ação do psicopata. Ela parece não passar de uma adesão constrangedora e artificial que se pretende enquadrar numa posição politicamente correta. É bem pouco convincente uma exaltação do pluralismo como essa, que se mostra envolvida por uma atmosfera de resignação conveniente àqueles que muito a contragosto reconheceram que suportar a liberdade alheia é a única forma de garantir a sua própria liberdade- esta, sim, a única sentida como realmente digna. Um pluralismo de fato embalado por uma convicção legítima jamais se apresentaria dessa maneira, purificado da menor empolgação pelo que é diverso. Afirmar o pluralismo significa afirmar o valor do diferente em si, ter interesse por sua existência, e não somente suportá-la como um estorvo necessário. Significa admitir que as perspectivas são diversas porque elas são, cada qual a seu modo, incompletas, ganhando uma com o que singularmente pode lhe oferecer a outra, sendo a coisa viva e a coisa pensada elementos inesgotáveis para qualquer uma delas, de modo que sua recíproca eliminação não significaria algum passo adiante na concorrida batalha pela posse do verdadeiro, mas a perda irreversível de uma das faces da verdade. Mas você não está nem perto de encarar com tal ânimo o sentido do pluralismo ou da diferença. E, já que é assim, sugiro apenas que, poupando aos outros e a si mesmo de tamanho desconforto, você passe a empregar, ao invés de 'pluralismo epistêmico', o termo 'totalitarismo pacífico'. Não combina melhor com o teor de seu discurso?

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    1. A generalidade das pessoas tem imensa dificuldade em compreender o que é a liberdade e o pluralismo. Pensam erradamente que defender a liberdade de alguém dizer X implica aceitar que X tem algum interesse. Mas isto não é pluralismo nem tolerância, é apenas defender os meus interesses: que eu tenho interesse no que considero interessante é óbvio. Que eu tenha interessem em defender os interesses alheios nos quais não tenho qualquer interesse -- isso sim, é defender o pluralismo. A grande ilusão das pessoas é pensar que quem pensa que tudo tem valor é tolerante. Pelo contrário, quem pensa que tudo tem valor está apenas a defender o seu interesse no valor dessas coisas. A verdadeira tolerância, o verdadeiro pluralismo, é o que está presente na afirmação falsamente atribuída a Voltaire: discordo inteiramente de tudo o que você defende, mas defenderei até à morte o seu direito a defendê-lo.

      Já agora só mais uma ideia. Sou acusado de maniqueísmo, mas isto é falso porque o maniqueísta é quem pensa nas coisas em termos de equipa de futebol: a minha equipa é boa, as dos outros é sempre má. Eu não penso isso, tal como um matemático certamente não pensa que todo o trabalho publicado sobre matemática é interessante. Nem pensa sequer que todo o trabalho publicado em numerologia é desinteressante. O que o matemático pensa é que a numerologia não é como a matemática porque o interesse principal de quem faz isso não é a curiosidade intelectual, mas antes o impulso para-religioso. E isso é o que vejo num autor como Heidegger: ele não tem manifesta qualquer curiosidade intelectual, tudo o que ele faz é produzir um discurso de recorte bíblico, uma coisa com a qual e sem a qual tudo fica tal e qual.

      Posso estar errado? Claro, sou falível. Não li a obra completa de Heidegger? Não. Do que li e leio, é o que concluo. Li toda a bibliografia sobre Heidegger, oriunda das melhores universidades? Não. Mas do que li e continuo a ler, é o que concluo. Posso estar errado, sim. Mas também posso não estar errado.

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