9 de maio de 2012

Por que há físicos em vez de nada?



A Universe From Nothing: Why There is Something Rather Than Nothing, de Lawrence M. Krauss, tem um título promissor. Puxei uma amostra para o Kindle para ver se era bom e não gostei: pareceu-me mais um episódio da guerra política contra as pessoas religiosas, tristemente iniciada por Dawkins, com a agravante de ser filosoficamente pouco pueril. Não fui o único que achou o livro, digamos, pouco interessante. David Albert, especialista em filosofia da física (e ele mesmo doutorado em física), publicou no New York Times uma crítica devastadora. Vale a pena ler.

10 comentários:

  1. Li o livro... É péssimo, a começar com o facto que ele usa "nada" como nome de alguma coisa (vácuo quântico)...

    A ignorância filosófica dele é comentada aqui: http://machineslikeus.com/news/lawrence-krauss-another-physicist-anti-philosophy-complex

    E esta entrevista com ele diz tudo: http://m.theatlantic.com/technology/archive/2012/04/has-physics-made-philosophy-and-religion-obsolete/256203/

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  2. Sim, eu também li a entrevista e alguns dos artigos entretanto publicados na Internet. Na revista Nature ele publicou mais um disparate, para se desculpar da afirmação de que os filósofos são tolos, mas borrou ainda mais a pintura. Para mim, tornou-se um autor para esquecer.

    O último livro de Hawking, The Grand Design, também tem disparates filosóficos, mas menos. E tem a vantagem de não usar o livro para fazer guerra contra as pessoas religiosas.

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  3. Fornecer uma definição física do nada é como fornecer uma definição física do livre-arbítrio, da verdade ou da validade lógica. Não faz o menor sentido e é típico de quem pensa que a filosofia enquanto disciplina acadêmica é lixo. Por algum motivo que me escapa todo mundo se sente no direito de resolver todos os problemas filosóficos sem ler nada do assunto: o aluno de ciências da computação acha que sabe solucionar o problema mente-corpo num passe de mágica, o aluno de matemática acha que os filósofos não sabem nada de lógica, o aluno de física pensa que metafísica é especulação mística e muitos leigos pensam que as discussões mais sofisticadas de ética e epistemologia são perda de tempo. O fato de outras disciplinas terem mais prestígio junto à população e instituições de financiamento explica essa atitude preconceituosa, pelo menos em parte. Mas acho que tem algo mais aqui, uma razão psicológica. Como todas as pessoas têm opiniões filosóficas, boas ou más, e os problemas filosóficos são acessíveis pela mera reflexão, muitos caem no erro de pensar que a filosofia é feita igualmente bem por qualquer um que tenha uma opinião sobre o assunto. O filosofar nesse caso gera uma ilusão semelhante à que está associada ao cantar: como todo mundo sabe cantar, bem ou mal, muitos concluem a partir daí que podem cantar tão bem quanto qualquer cantor que estudou canto durante anos e tem talento pra isso.

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  4. Sim, o tipo meteu os pés pelas mãos. Mas eu descobri por acaso um argumento divertido. Aqui está:

    (retirado de:
    http://freethoughtblogs.com/carrier/archives/468)

    Ex Nihilo Onus Merdae Fit
    -------------------------

    •P1: In the beginning, there was absolutely nothing.
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    •P2: If there was absolutely nothing, then (apart from logical necessity) nothing existed to prevent anything from happening or to make any one thing happening more likely than any other thing.
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    •C1: Therefore, in the beginning, nothing existed to prevent anything from happening or to make any one thing happening more likely than any other thing.
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    •P3: Of all the logically possible things that can happen when nothing exists to prevent them from happening, continuing to be nothing is one thing, one universe popping into existence is another thing, two universes popping into existence is yet another thing, and so on all the way to infinitely many universes popping into existence, and likewise for every cardinality of infinity, and every configuration of universes.
    -
    •C2: Therefore*, continuing to be nothing was no more likely than one universe popping into existence, which was no more likely than two universes popping into existence, which was no more likely than infinitely many universes popping into existence, which was no more likely than any other particular number or cardinality of universes popping into existence.
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    •P4: If each outcome (0 universes, 1 universe, 2 universes, etc. all the way to aleph-0 universes, aleph-1 universes, etc. [note that there is more than one infinity in this sequence]) is no more likely than the next, then the probability of any finite number of universes (including zero universes) or less having popped into existence is infinitely close to zero, and the probability of some infinite number of universes having popped into existence is infinitely close to one hundred percent.
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    •C3: Therefore, the probability of some infinite number of universes having popped into existence is infinitely close to one hundred percent.
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    •P5: If there are infinitely many universes, and our universe has a nonzero probability of existing (as by existing it proves it does, via cogito ergo sum), then the probability that our universe would exist is infinitely close to one hundred percent (because any nonzero probability approaches one hundred percent as the number of selections approaches infinity, via the law of large numbers).
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    •C4: Therefore, if in the beginning there was absolutely nothing, then the probability that our universe would exist is infinitely close to one hundred percent.

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  6. Não inteiramente tolo? Bastante engenhoso até, por sinal.

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  7. Desconfio que esconde uma falácia, mas talvez eu esteja enganado.

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  8. Mas é certamente engenhoso e inteligente.

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  9. É engenhoso e inteligente. Mas não creio que funcione. Um ponto fraco é que ele postula o nada com demasiadas propriedades e não esclarece o que quer dizer com a existência do nada. Uma dessas é o tempo (e o espaço). Não me parece evidente que o nada tenha de incluir o espaço e o
    tempo. E se o tempo não existir, então não faz sentido dizer que alguma coisa acontece, ou seja não faz sentido dizer que
    o universo surge a partir do nada, já que isso pressupõe uma parametrização temporal além da irreversibilidade (o tempo é unidimensional e só corre num sentido, logo havendo passado e futuro).

    A justificação dele é que

    1) my only task at present is to define what we must mean by absolutely nothing. This can only mean that nothing whatever exists except anything whose non-existence is logically impossible. That latter caveat is unavoidable for the obvious reason that if it is logically impossible for something not to exist, then there can’t have ever been a state of being where it did not exist. So if by “absolutely nothing” you mean even the non-existence of logically necessary things, then “absolutely nothing” is logically impossible, and thus there can’t ever have been “nothing” in that sense.

    Isto não é convincente. Parece que ele está a imaginar uma maneira construtiva de obter o nada a partir do que existe
    retirando tudo o que pode ser retirado da realidade sem contradição lógica -- caso em que concordaria com o argumento. Mas quem nos disse que a definição de nada tem de ser construtiva?

    Em seguida, explica por que razão o espaço eo tempo têm de fazer parte do nada.

    2) I have argued that that which exists at no location or at no point in time, by definition exists never and nowhere, which is by definition not existing. So one might think that if nothing exists, no place or time exists, therefore logical truths cannot exist. However, since it is logically impossible for logical truths not to exist, if logical truths must exist at some point in spacetime, then it would follow that spacetime is logically necessary and therefore there can be no “absolute nothing” that lacks at least a singular point of spacetime (which is of course practically nothing).

    Ele postula que o que existe tem de ter uma localização espácio-temporal. A partir de 1) mostrou que a lógica tem
    de existir no nada. Logo, o espaço e o tempo têm de pertencer ao nada. Se também não aceitarmos o postulado o argumento falha.


    Outro problema pode estar ligado à inedaqueção do conceito de
    existir para o conceito de nada. O que quer dizer existir alguma coisa? Nós sabemos. O que quer dizer existir o nada? Não faço ideia.

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