20 de maio de 2012

Russell sobre a covardia intelectual

As pessoas dirão que, sem os consolos da religião, elas seriam intoleravelmente infelizes. Tanto isto é verdadeiro, quanto também é um argumento de um covarde. Ninguém senão um covarde escolheria conscientemente viver em um paraíso dos tolos. Quando um homem suspeita da infidelidade de sua esposa, não lhe dizem que é melhor fechar os olhos à evidência. E eu não consigo ver a razão pela qual ignorar as evidências deveria ser desprezível em um caso e admirável no outro.
        Bertrand Russell, Is There a God?

71 comentários:

  1. O que é um argumento covarde?

    P. Martins

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  2. Um argumento que pretende estabelecer uma conclusão que somente um covarde defenderia.

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  3. Quer dizer que os argumentos que são válidos e sólidos podem depois ser classificados em covardes e não covardes?

    P. Martins

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  4. Caro Matheus Silva,

    Permita-me que o cite:

    "Se alguém afirma ter interesse cognitivo, mas não aceita valores epistêmicos como o rigor argumentativo, ele só pode estar falando da boca pra fora e é um covarde que não admite isso para si mesmo. Posso conceder também a possibilidade de que essa pessoa está confusa e não entende o que está sendo discutido."

    Para o meu ponto (classificar os argumentos em covardes e não covardes é uma tolice), não preciso discutir o que afirma na citação. Mas para o seu ponto (existem argumentos -presume-se que válidos e sólidos, caso contrário estaria a dizer banalidades - covardes), as suas afirmações acima citadas são demolidoras (e, escusadamente, pouco elegantes).

    P. Martins

    P. Martins

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  5. É no mínimo redundante dizer "argumentos válidos e sólidos" uma vez que todo argumento sólido é válido.

    E "argumento covarde" pode simplesmente ser entendido como um caso particular de falácia de apelo às consequências, onde a veracidade de uma proposição ("As religiões são constituídas por afirmações falsas", por exemplo) é supostamente refutada em função de ter consequências que alguns consideram ruins (a infelicidade de certas pessoas, por exemplo).

    A covardia consiste precisamente na recusa da verdade por esta ser inconveniente, no medo de encará-la.

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  6. Os argumentos podem ser classificados de vários modos. Eles podem ser longos ou curtos, antigos ou recentes, engenhosos ou tolos, banais ou invulgares, etc. Mas não podem ser amarelos ou azuis, triangulares ou quadrados (a não ser metaforicamente, claro), altos ou baixos, verdadeiros ou falsos.

    Frequentemente dizemos que uma dado argumento é inteligente e todos reconhecemos que há contextos em que dizer isso faz todo o sentido. Por que não há-de fazer sentido falar de argumentos covardes ou corajosos? Se estivermos a classificar o argumento quanto à sua validade, isso é certamente um erro. Mas pode ser que a ideia seja outra.

    E pode ser também que Russell esteja a a falar de forma imprecisa.

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  7. Nunca vi ninguém dizer que a veracidade de "as religiões são constituídas por afirmações falsas" é refutada em função de ter consequências que alguns consideram ruins (a infelicidade de certas pessoas, por exemplo). Mas se há quem o diga, é óbvio que está a recorrer a uma falácia.

    O que eu vejo é muita gente a dizer (talvez sem se aperceber disso) que a veracidade de "sem os consolos da religião, algumas pessoas seriam mais infelizes ou menos felizes" deve ser desconsiderada em função de ter consequências que alguns consideram negativas (essas pessoas não procuram a verdade, por exemplo, ou essas pessoas são covardes).

    A covardia é a recusa da verdade, mas essa covardia inclui a recusa (ou a desconsideração) das verdades que nos são desagradáveis.

    Lamento, mas classificar argumentos como covardes ou não covardes é mesmo uma tolice.

    P. Martins

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    1. Só resta mostrar porque é uma tolice, pois tudo que você fez foi reconhecer a falácia (que é bem comum, um fenômeno psicológico já famoso sob o título de "wishful thinking") e suponho que concorde que a falácia seja um caso de covardia (conforme você mesmo definiu "covardia").

      Mesmo porque tua observação sobre pessoas que desconsideram a suposta veracidade de "sem os consolos da religião, algumas pessoas seriam mais infelizes ou menos felizes" por causa de suas consequências é a mera repetição, em outras palavras, de coisas que já foram ditas.

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    2. Eu concordei que o exemplo que o senhor deu corresponde a uma falácia. Só isso.

      Sobre por que é que entendo que classificar argumentos em corajosos e não corajosos é uma tolice, peço-lhe que veja a minha resposta ao Aires Almeida.

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    3. Qual é a relação entre a falácia do apelo às consequências e o que geralmente é designado por "wishful thinking"?

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    4. Desde quando rejeitar um argumento sólido em função dele ser covarde é o mesmo que abandonar o rigor conceitual? Muitas vezes é completamente correto rejeitar um argumento sólido, como o exemplo óbvio da petição de princípio com uma proposição verdadeira mostra (Sócrates é mortal; logo, Sócrates é mortal). Inúmeras falácias informais (incluindo o apelo às consequências) podem ser formuladas como argumentos sólidos, a solidez de um argumento não garante que seja irracional recusá-lo.

      Da mesma forma que se pode rejeitar um argumento sólido apontando que ele é uma petição de princípio, se pode rejeitar um argumento sólido apontando que ele é covarde (entendendo que isto significa apontar que ele é um apelo às consequências).

      A relação entre o apelo às consequências e o wishful thinking é que o wishful thinking é o fenômeno psicológico em que agentes cognitivos formam crenças sobre o mundo em função do que desejam ou do que parece agradável em vez de formarem crenças em função de evidências ou da razão, de modo que o apelo às consequências é uma maneira do wishful thinking ser articulado em um argumento.

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    5. Nunca perceci por que é uma petição de princípio do tipo "se p, então p" é considerada uma falácia (onde é que está o erro?)

      Parece-me um argumento válido e que será sólido se a permissa for verdadeira. Enquanto não perceber por que é que estou errado, prefiro chamar-lhe um argumento estéril (esta classificação parece-me fazer sentido) e não uma falácia. Nada adianta, mas não o recuso.

      Portanto, não o acompanho quando diz que se pode rejeitar um argumento sólido apontando que ele é uma petição de princípio do tipo "se p, então p".

      Pode dar-me um exemplo de um argumento sólido que configure a falácia do apelo às consequências?

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    6. "Da mesma forma que se pode rejeitar um argumento sólido apontando que ele é uma petição de princípio, se pode rejeitar um argumento sólido apontando que ele é covarde (entendendo que isto significa apontar que ele é um apelo às consequências)."

      Isto parece-me completamente errado. Se souberes que um argumento é sólido, não o podes rejeitar sob pena de irracionalidade porque sabes que tem premissas verdadeiras e é válido, logo tens de aceitar a conclusão. Quem pode rejeitar o argumento, se este for uma petição de príncipio, é alguém que negue a conclusão e aponte que só aceitaria as tuas premissas quem já aceitasse a tua conclusão. Mas este caso não é análogo ao que apresentaste, em que alguém reconhece que dado argumento é sólido mas rejeita-o porque é cobarde (apesar de ter de apontar que a cobardia dos argumentos não foi definida em toda esta discussão...). Seja como for, também se poderia responder que se um agente sabe que as premissas são verdadeiras e o argumento é válido, então seria intelectualmente desonesto não o aceitar. Mesmo que o argumento fosse cobarde, seria ao menos honesto... O ponto principal é que as petições de príncipio são maus argumentos porque se está num diálogo com alguém que não aceita que o nosso argumento seja sólido, porque disputa a verdade das nossas premissas, mas isso não significa que seja possível aceitar a solidez de um argumento e rejeitá-lo não sendo irracional. Poder-se-ia dizer que as petições de princípio são dialecticamente ineficazes (não funcionam com alguém que não aceita a nossa posição à partida, se este for racional), mas não foi provado aqui que os argumentos "cobardes" o são.

      Seja como for, nada disto disputa o que Russell diz pois ele parece indicar que há um problema no argumento, pois nós sabemos que seria irracional em circunstâncias normais a um marido rejeitar todas as evidências de que a sua mulher o está a trair... Na realidade, penso que Russell está a dizer que um agente cognitivamente virtuoso (coragem intelectual) não aceitaria o argumento e isso é uma razão para desconfiar dele da sua força à partida.... O que Russell diz que é verdadeiro é a proposição "Sem os consolos da religião, a classe relevante de pessoas (crentes?) seria bastante infeliz". Imagino que a conclusão seja "Logo, devemos ser religiosos". O que Russell está a notar, conscientemente ou não, é que a conclusão não se segue da premissa nem lhe dá apoio significativo, pois a aceitação ou rejeição de crenças não depende significativamente da felicidade mas principalmente de se resulta de um funcionamento apropriado das virtudes intelectuais....

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    7. P. Martins

      Não se pode confundir a rejeição do argumento com a rejeição de uma proposição. Não se pode rejeitar a conclusão de um argumento reconhecido como sólido porque isto significaria rejeitar algo que se reconhece como verdade. Mas, se pode rejeitar o próprio argumento na medida em que se rejeita que se deva aceitar a conclusão em virtude de se aceitar as premissas, sobretudo quando se espera que o argumento (e isto se espera de qualquer argumento) nos dê razões independentes para aceitar certa proposição.

      Rejeitar um argumento sólido não é o mesmo que rejeitar uma proposição (sua conclusão), e é racional rejeitar um argumento sólido mesmo que se aceite sua conclusão porque o que estará sendo rejeitado é que o argumento sirva como uma razão para nos fazer aceitar a proposição em causa. Se a solidez por si só tornasse um argumento razoável, então não precisaríamos de outras formas de argumento além da petição de princípio para fazer as pessoas concordarem racionalmente conosco, e mostrar as razões independentes que nos fazem aceitar certa proposição seria um luxo desnecessário.

      Enfim, um argumento sólido não se torna irrecusável por ser sólido, fosse assim "A Lua é menor que a Terra, logo, 2+2=4" seria um caso exemplar de argumento razoável e irrecusável.

      Sobre o exemplo de argumento sólido que seja um apelo às consequências: se a cura de todas as doenças não existe, então a vida não vale a pena, a vida vale a pena; logo, existe a cura de todas as doenças. Claro, a solidez é questionável, talvez não exista um apelo ás consequências sólido de fato, mas não é isto que importa, o que importa é que mesmo que existisse ele não seria um argumento razoável e ser sólido não mudaria isto.

      José Gusmão

      Espero que a resposta ao P. Martins solucione o que você apontou. O que eu discordo é que só quem rejeita a conclusão de uma petição de princípio pode rejeitar o argumento por ser uma petição de princípio. O que nos faz aceitar ou rejeitar argumentos não é a veracidade de suas conclusões, mas o fato dos argumentos consistirem ou não em razões para nos fazer aceitar certa proposição, por mais que já aceitemos tal proposição. Podemos concordar que a neve é branca, mas se eu lhe perguntar "Por que você pensa que a neve é branca?" e você responder "Porque penso que ela é branca", por mais que estejamos de acordo, é descabido dizer que eu não poderia racionalmente rejeitar tuas supostas razões.

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    8. Grégory, se você aceitar que a neve é branca e as leis do cálculo proposicional então tem sim de aceitar o argumento: "Se a neve é branca, logo a neve é branca". O que podes rejeitar é que seja cogente, isto é, que alguém pudesse aceitar as suas premissas não acreditando já à partida na sua conclusão. Ou seja, o argumento seria mau relativamente a um agente que não acreditasse já à partida na conclusão (e das premissas que a pressupõe), mas relativamente a um agente que já acreditasse na conclusão, então este teria de aceitar o argumento "Se a neve é branca, logo a neve é branca" mesmo que admitisse ser um argumento inútil.

      "Sobre o exemplo de argumento sólido que seja um apelo às consequências: se a cura de todas as doenças não existe, então a vida não vale a pena, a vida vale a pena; logo, existe a cura de todas as doenças. Claro, a solidez é questionável, talvez não exista um apelo ás consequências sólido de fato, mas não é isto que importa, o que importa é que mesmo que existisse ele não seria um argumento razoável e ser sólido não mudaria isto. "

      Isto é que eu nego. Se houvesse um apelo às consequências que fosse um argumento sólido, então rejeitá-lo seria sim irrazoável por se o agente souber que ele é sólido. O ponto é simples, a honestidade intelectual exige que se soubermos de um dado argumento que é válido e que a conclusão se segue, aceitarmos a conclusão. Até vou tentar criar um argumento que seja um apelo às consequências sólido:

      Premissa 1- Se algo tem como consequência que todos os membros de um Universo vão viver em agonia intensa ininterrupta nos períodos de tempo em que existirem, ninguém o deve fazer.

      Premissa 2- Num mundo possível Y, para a única espécie w existente, devido à sua constituição genética e a uma dada de eventos aleatórios, a rejeição da crença em Deus tem como consequência uma agonia intensa ininterrupta em todos os períodos que essa espécie existir.

      Conclusão - Num mundo possível Y, nenhum dos membros de w deve rejeitar a crença em Deus.

      Vamos deixar os detalhes de ficção científica e afinamentos que este mundo hipotético precisaria e discutir o argumento (já agora, os membros desta raça estão programados à nascença para crer em Deus, mas conseguem rejeitá-la se fizerem um grande esforço de concentração e repetirem para si mesmos centenas de vezes as típicas razões para não acreditarem em Deus).

      Ele é sem dúvida um apelo às consequências, em que se justifica a crença em Deus por apelo às consequências desastrosas a que levaria a sua rejeição.

      Nenhuma teoria ética razoável conseguiria evitar a primeira premissa, pois todas as teorias éticas contemporâneas razoáveis que conheço aceitam que a promoção do bem é um factor moralmente relevante e como neste caso o Universo se tornaria infinitamente desvalioso caso eles rejeitassem a crença em Deus, não haveria nenhuma restricção contra promover o bem que não atingisse o seu patamar. Por isso, a primeira premissa é verdadeira.

      A segunda premissa é verdadeira porque o exemplo é meu e não há nada que viole a necessidade lógica ou metafísica.

      O argumento é modus ponens (eu formulei-o de uma maneira deselegante mas a sua forma é clara, a não ser que me tenha enganado em algo), por isso é válido e todas as pessoas sãs o aceitam (excepto uns quantos filósofos da lógica doidos).

      Agora, vais dizer-me que podes rejeitar o argumento? Como, se sabes que as premissas são verdadeiras e o argumento é válido? Apelo às consequências ou não, terias de o aceitar mesmo admitindo ser um mau argumento por qualquer outra razão.

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    9. "Enfim, um argumento sólido não se torna irrecusável por ser sólido, fosse assim "A Lua é menor que a Terra, logo, 2+2=4" seria um caso exemplar de argumento razoável e irrecusável."

      Há duas maneiras de enfrentar esse contra-exemplo há tese de que é irrazoável recusar um argumento sólido sabendo que o é (que é a tese que eu tou a defender btw).

      A primeira é dizer que quem reconhece que é sólido, aceita-o, apesar de saber que é um argumento que não convencerá ninguém.

      A segunda (mais prometedora) é modificar a tese da seguinte maneira, é irrazoável recusar um argumento se este for sólido e relevante tendo conhecimento disso. Mas não é a diferença entre esta tese modificada e a outra inicial que está em causa.


      "Não se pode confundir a rejeição do argumento com a rejeição de uma proposição. Não se pode rejeitar a conclusão de um argumento reconhecido como sólido porque isto significaria rejeitar algo que se reconhece como verdade. Mas, se pode rejeitar o próprio argumento na medida em que se rejeita que se deva aceitar a conclusão em virtude de se aceitar as premissas, sobretudo quando se espera que o argumento (e isto se espera de qualquer argumento) nos dê razões independentes para aceitar certa proposição."

      Também contesto, em parte isto. É claro que um bom argumento nos deve dar razões para acreditar independentemente na conclusão, mas o meu ponto é precisamente que se aceitarmos que um argumento é sólido em estamos a aceitar o argumento, mesmo se admitirmos que é mau quando utilizamos com outras pessoas. Mais, dizes que se pode rejeitar o argumento em virtude de se rejeitar que a se deva aceitar a conclusão em virtude de se aceitar as premissas. Mas num argumento dedutivo, sabemos que a conclusão é verdadeira em virtude da verdade das premissas (e as leis lógicas relevantes). Como rejeitar que se deva acreditar na conclusão em virtude da verdade das premissas, quando é em virtude da verdade das premissa que a conclusão se segue?

      Alguém que acredite que a neve é branca e leis do cálculo proposicional, aceitará a inferência "Se a neve é branca, logo a neve é branca".

      O que não aceitará é que isto seja um bom argumento em relação a alguém que não acredite que a neve é branca, mas aceitará a inferência certamente. Já agora, obrigado pelos comentários, isto também me está a obrigar a pensar....

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    10. Seja como for, penso que o argumento que Russell está a criticar nem sequer é dedutivo, pelo que esta discussão já está desligada do comentário inicial.

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    11. José Gusmão

      Devo elogiar a engenhosidade do teu exemplo, mas penso que ele não resolve a questão. Creio que ele possa ser exposto da seguinte maneira:

      P: A espécie W tem a propriedade F (de sofrer desastre caso a ação X seja realizada)
      Q: A ação X (rejeitar a crença em Deus no exemplo) é desastrosa.
      não-R: Ações desastrosas não devem ser realizadas.
      não-S: A ação X não deve ser realizada.
      O argumento teria duas etapas:
      (I) Se P, então Q. Se Q e não-R, então não-S, logo, se P, então não-S.
      (II) Se P, então não-S, P, logo, não-S.

      O problema do teu exemplo é que ele simplesmente não é um apelo às consequências: não há proposição sendo supostamente estabelecida ou refutada em função de suas consequências. Teu argumento é um raciocínio prático (algo que as ocorrências de "deve" tornam evidente), mas raciocínios práticos são muito diferentes de apelos às consequências: é perfeitamente plausível que algo não deva ser feito em função de suas consequências, mas disto não segue que seja plausível que algo não possa ser verdade em função de suas consequências.

      Acho que o que torna teu exemplo enganoso é o fato de que de todo apelo às consequências se possa inferir algo que não deve ser feito (parece até que o apelo é capaz de estabelecer que certa coisa não deva ser feita), mas o que torna os apelos argumentos ruins não são os raciocínios práticos que podem estar baseados neles, mas antes as proposições (e note-se que são proposições fatuais, não normativas) cuja falsidade eles tentam estabelecer de modo indevido: o objetivo de um apelo às consequências não é nos dizer o que devemos ou não devemos fazer, mas sim nos dizer o que devemos considerar verdadeiro ou falso.

      Pelo menos é isto que tipicamente se entende por um apelo às consequências, e é o que estou entendendo como apelo às consequências desde que comentei neste post.

      Observe que não teria sentido objetar que o apelo mostraria que é verdade que devemos ou não devemos fazer certa coisa, pois o problema é que é precisamente este tipo de coisa que não se entende que um apelo às consequências busca estabelecer. A inferência "Se 'não-S' é verdadeira, então é falso que um apelo às consequências não pode mostrar que certa proposição, mesmo que não seja fatual, não possa ser verdadeira em função de suas consequências." não adianta porque não é uma proposição como "não-S" que qualquer apelo às consequências tentará estabelecer.

      É interessante, mas talvez eu tenha de conceder que os apelos à consequência são formalmente inválidos e, portanto, que sequer poderiam ser sólidos. Não que faça diferença eu conceder isto porque não é o que está em causa.

      A discussão já está ficando muito longa, tentarei ser bem breve sobre os pontos restantes.

      "Grégory, se você aceitar que a neve é branca e as leis do cálculo proposicional então tem sim de aceitar o argumento: "Se a neve é branca, logo a neve é branca"."

      Note que você não mostra um argumento, mas sim uma condicional. O que a lógica me obriga a aceitar é a proposição, não o argumento, mesmo porque a lógica só indica uma condição necessária (a validade) para a aceitação racional de um argumento, as outras condições estão fora de seu alcance.

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    12. "O ponto é simples, a honestidade intelectual exige que se soubermos de um dado argumento que é válido e que a conclusão se segue, aceitarmos a conclusão."

      Só que aceitar a conclusão não é o mesmo que aceitar o argumento! Em verdade é inadequado dizer que se aceita a conclusão (porque ser uma conclusão supõe a devida relação com premissas), o que se aceita é uma proposição qua proposição, não qua conclusão. Se soubermos que o argumento é válido e soubermos que suas premissas são verdadeiras, tudo que saberemos é que a conclusão também será verdadeira, mas isto ainda não assegura que as premissas forneçam razões para aceitar a conclusão, e dado que satisfazer esta condição é o que torna um argumento aceitável, apenas saber que a conclusão será verdadeira não assegura que o argumento seja aceitável.

      "A primeira é dizer que quem reconhece que é sólido, aceita-o, apesar de saber que é um argumento que não convencerá ninguém."

      Aqui o que me parece absurdo (que não é eliminado na reformulação): como se pode dizer de um argumento, do qual se pensa que não convencerá ninguém, que ele é aceitável?

      "Mas num argumento dedutivo, sabemos que a conclusão é verdadeira em virtude da verdade das premissas (e as leis lógicas relevantes). Como rejeitar que se deva acreditar na conclusão em virtude da verdade das premissas, quando é em virtude da verdade das premissa que a conclusão se segue?"

      Reconhecer que um argumento é sólido não basta para aceitá-lo ou para que ele seja racionalmente aceitável (é o que estou defendendo). Na afirmação "sabemos que a conclusão é verdadeira em virtude da verdade das premissas" a expressão "virtude" é ambígua. Sabemos que 2+2=4 em virtude de saber que a Lua é menor que a Terra? Em um sentido estritamente lógico e formal, sim, mas não é neste sentido que acreditamos que argumentos devem nos fazer aceitar certas proposições em virtude de aceitar outras. Se fosse, como eu disse, para a argumentação racional nos bastariam as petições de princípio.

      "Alguém que acredite que a neve é branca e leis do cálculo proposicional, aceitará a inferência 'Se a neve é branca, logo a neve é branca'."

      Cuidado novamente: esta é uma condicional, não um argumento. A condicional é claramente aceitável, mas não seria o caso se fosse um argumento.

      E obrigado pelo debate!

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    13. Jodé Gusmão

      Uma correção:
      A formalização adequada do teu argumento não seria a que foi feita, mas esta:
      (I) Se P e não-R, então Q, se Q, então não-S, logo, se P e não-R, então não-S.
      (II) Se P e não-R, então não-S, P e não-R, logo, não-S.

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    14. "A Lua é menor que a Terra, logo, 2+2=4" não me parece um argumento válido (logo, não será sólido). A conclusão não decorre das premissas.

      Quanto ao exemplo, como diz, as premissas são (muitíssimo) questionáveis. Não me parece um argumento sólido, ou, se preferir, claramente sólido. Se existir um apelo às consequências, eu acho que estaremos perante uma falácia e a questão de aceitarmos ou não “argumentos sólidos que não são razoáveis” nem sequer se põe. Posso estar enganado. Basta-me um exemplo, para perceber que estou enganado.

      “Mas, se pode rejeitar o próprio argumento na medida em que se rejeita que se deva aceitar a conclusão em virtude de se aceitar as premissas, sobretudo quando se espera que o argumento (e isto se espera de qualquer argumento) nos dê razões independentes para aceitar certa proposição.”

      Confesso que não percebo o que está a dizer. Eu sinto-me obrigado a aceitar um argumento sólido, por muito que a sua conclusão me desagrade. Intuo que algo “não bate certo”? Cabe-me então procurar perceber e mostrar o que está mal. Onde? Na validade do argumento e na verdade das premissas. Dizer que o argumento é longo, covarde, cruel, não razoável, é perfeitamente aceitável numa conversa, mas não serve como argumentação.

      P. Martins

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    15. "Se soubermos que o argumento é válido e soubermos que suas premissas são verdadeiras, tudo que saberemos é que a conclusão também será verdadeira, mas isto ainda não assegura que as premissas forneçam razões para aceitar a conclusão"

      O problema é certamente meu, mas não percebo mesmo nada do que está a dizer. Se o argumento é válido, isso não assegura que as premissas forneçam razões para aceitar a conclusão?

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    16. Esqueci-me de assinar.

      P. Martins

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    17. P. Martins

      O argumento é válido, pois é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa (2+2=4 é verdade em todos os mundos possíveis). As premissas não são é relevantes para a conclusão. A propriedade que falta ao argumento é relevância...

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    18. E, já agora, também é sólido, pois é verdade que a Lua é mais pequena que a Terra...

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    19. Grégory, antes do mais obrigado pela paciência a formalizar o meu argumento. Mas, a verdade é que o meu exemplo pode ser facilmente reformulado de modo a ser uma instanciação do modus ponens, de modo que não é preciso teres-te dado a esse trabalho, pelo que ambos sabemos que se um argumento for uma exemplificação que de uma forma argumentativa válida então é válido, não sendo muito interessante para esta nossa discussão estar a especificar a estrutura do argumento.

      Antes do mais, a maneira como definiste um argumento por apelo às consequências não é incontroversa. E, mais, nem todos os argumentos ad consequentiam são falaciosos. Se definirmos apelo às consequências como um argumento que apela às consequências para a justificação da aceitação ou rejeição de uma dada proposição, então o meu exemplo é correcto. Encontras uma discussão deste tipo de argumentos (e em que condições são falaciosos ou não, mais uma boa análise da literatura especializada em que há várias definições e não apenas uma) no livro de Douglas Walton, Argumentation Schemes. Mas, seja como for, não vale a pena alongarmo-nos nisso porque não é o crucial.

      Em relação à condicional, eu poderia ter sido mais claro, mas utilizei a palavra 'logo' para indicar um argumento e não apenas uma condicional em que teria usado 'então'. Mais cuidadosamente teria dito, "A neve é branca. Logo, a neve é branca." Isto já claramente não é uma condicional, mas um argumento e há um sentido estritamente lógico em que o tens de aceitar.

      "Sabemos que 2+2=4 em virtude de saber que a Lua é menor que a Terra? Em um sentido estritamente lógico e formal, sim, mas não é neste sentido que acreditamos que argumentos devem nos fazer aceitar certas proposições em virtude de aceitar outras. Se fosse, como eu disse, para a argumentação racional nos bastariam as petições de princípio."

      Sim, acho que parte do problema entre nós é que tu estás a utilizar um sentido mais estrito de aceitar argumentos e eu a utilizar um mais lato. Para mim, se aceitas as premissas de um argumento e aceitas que uma conclusão se deduz das premissas e fazes a inferência para conclusão das premissas então estás a aceitar o argumento. Se isto for assim, então aceitamos petições de principio apesar de não serem argumentos persuasivos e o facto de não serem persuasivos relativamente a agentes que não partilhem a nossa visão justifica o facto de não os usarmos apesar de os aceitarmos neste sentido mais lato. O problema parece-me é que tu estás a utilizar um sentido mais estrito de 'aceitação de argumento' em que para aceitar um argumento é necessário aceitar que ele é persuasivo. Em parte, talking past each other.

      Mas atenção, que eu nunca disse que aceitamos argumentos que não convenceram ninguém, pois há certamente situações hipotéticas em que alguém pode não perceber que de "A ana foi ao cinema" e "O joão foi ao cinema" se segue que "A ana e o joão foram ao cinema". Apesar deste argumento também não ser muito persuasivo para pessoas racionais e informadas que negam a conclusão e por isso como é óbvio também rejeitam as premissas. Talvez o que te faça confusão e a mim não em dizer que aceitamos tautologias triviais como argumentos(chamar petição de príncipio é tendencioso, porque já se pressupõe que são falácias), é porque tu estás a considerar interlocutores em circunstâncias normais, mas eu acho que há interlocutores não devidamente racionais ou informados que podem nem se aperceber que uma conclusão obviamente se segue das suas premissas, apesar de ninguém que já não aceitasse a conclusão à partida aceitasse as premissas. Ser persuasivo ou não depende dos interesses e competências dos nossos parceiros conversacionais. O que eu acho é que é esta ambiguidade de "aceitar um argumento" que está a causar problemas.

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    20. Ainda se pode expressar isto de outra maneira. Vamos definir um argumento como um conjunto de proposições em que se pretende que a verdade de uma seja justificada pela verdade de um dos membros do conjunto. O que definiria se um argumento é sucede ou não é se a verdade de uma proposição é justificada ou não pela verdade outra. Ora, há um sentido mais lato de justificação, em que a verdade de "A neve é branca" é justificada pela verdade de "A neve é branca", pois há uma relação dedutiva entre elas e as relações dedutivas justificam, neste sentido lato. Mas há um sentido mais estrito de justificação, em que só conta como justificação aquilo que os nossos parceiros conversacionais (imaginando que são razoáveis... bla bla bla) estiverem dispostos a aceitar. E, neste sentido mais estrito concordo que o argumento não é aceitável.

      Talvez seja o meu uso de "aceitação de argumentos" que é anómalo (apesar de não me parecer inteiramente injustificado), mas não é uma discussão frutuosa estar a discutir que usos são anômalos ou não.

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    21. Já agora, isto sim mais interessante. Gostava era que tu me apresentasses um exemplo de um argumento cobarde e sólido que possamos razoavelmente rejeitar por ser cobarde. Isto é que duvido que exista...

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    22. José Gusmão Rodrigues,

      Não concordo. Uma sequência de frases não é suficiente para configurar um argumento. Concordará comigo que isto não é um argumento:

      O João é português,
      A minha camisola é azul,
      6 x 3 = 18

      E se se disser:

      O João é português,
      A minha camisola é azul,
      Logo, 6 x 3 = 18

      presume-se que decorre do João ser português e da minha camisola ser azul que 6 x 3 = 18. Não decorre. Logo, é um argumento inválido. Uma sequência de frases não se torna num argumento válido pela introdução da palavra "logo" antes da última frase.

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    24. Uma 'sequência' de proposições pode sim ser um argumento, desde que se ofereça uma proposição com a pretensão de justificar outra. O que ofereceu foram maus argumentos, ou argumentos inválidos, como correctamente nota que são, mas argumentos inválidos são argumentos. E, é claro que a introdução da palavra 'logo' não torna uma sequência de frases num argumento válido, mas eu nunca disse isso...

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    25. Eu disse que uma sequência de frases (proposições, teria sido mais correcto) não é suficiente para configurar um argumento. Não disse que não podia ser.

      Eu não disse que

      O João é português,
      A minha camisola é azul,
      Logo, 6 x 3 = 18

      não era um argumento, disse que era um argumento inválido (se bem muitos filósofos, por razões que não conheço, considerem que se trata dum argumento válido mas não relevante).

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    26. José Gusmão Rodrigues,

      O José disse que "A Lua é menor que a Terra, logo, 2+2=4" é um argumento válido.
      Agora diz que "O João é português, a minha camisola é azul, logo, 6 x 3 = 18" não é um argumento válido.

      Não percebo por que é que considera o primero válido e o segundo inválido.

      P. Martins

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    27. Fui eu que li mal o seu exemplo, desculpe!

      Premissa 1- O João é Português.

      Premissa 2- A camisola é azul.

      Conclusão- 6 vezes 3 é igual a dezoito.

      Este argumento é válido, porque é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão não o ser (que é uma das definições de argumento válido). Outra definição de argumento válido é esta, num argumento dedutivamente válido se as premissas forem verdadeiras a conclusão também o será. A conclusão do argumento é verdadeira em todas as circunstâncias de avaliacção, logo se as premissas forem verdadeiras as conclusão também o será. Ainda outra definição de argumento válido (para mostrar que o argumento apresentado por si de facto é válido), um argumento é válido se e só se a falsidade da conclusão for incompatível com a verdade das premissas. A falsidade da conclusão é uma falsidade necessária, logo é incompatível com não importa o quê.

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    28. Mas o argumento não é relevante, pois as premissas não parecem importar para a verdade da conclusão, ou seja, não parece haver a conexão apropriada entre premissas e conclusão.

      Atenção, que há quem pudesse concordar contigo que o argumento é inválido, teria é de rever a noção tradicional de validade e construir lógicas que capturem a noção de relevância. Por isso, acho que há lógicos que concordariam que o argumento não é válido. Outros diriam que é válido, não é é relevante

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    29. Mas qual por que é que as definições de validade (pelo menos, as mais divulgadas) não consideram necessária a conexão entre as premissas e a conclusão?

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    30. Um argumento não é suposto ser um raciocínio? Que raio de raciocínio (válido!) é este: o que é verdade é mentira, logo, 2+2=4?

      Parece-me que estas definições de validade dos argumentos entram em contradição com a definição de argumento (as premissas - pelo menos, uma delas - fornecem razões para a conclusão, etc.) A ideia que dá é que essas definições de argumentos válidos não se aplicam a... argumentos.

      Eu presumo que existam razões lógicas para essas definições de validade. Mas essas definições - se têm que ser aceites - obrigam a uma definição de argumento diferente das que são geralmente apresentadas.

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    31. Eu presumo que existam razões lógicas para essas definições de validade. Mas essas definições - se têm que ser aceites por causa da lógica que geralmente usamos - obrigam, sob pena de recusarmos a lógica que geralmente usamos, a uma definição de argumento diferente das que são geralmente apresentadas.

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    32. O que está a dizer tem a sua razão de ser, pois há lógicos da relevância que acham que a noção de validade normal é uma invenção que não satisfaz as nossas intuições de validade. A noção de validade normal é utilizada por várias razões, entre as quais é bastante simples e permite-nos perceber o raciocínio dedutivo e depois as lógicas da relevância ainda são bastante controversas quando comparadas com a lógica clássica... Mas se tiver interesse em filosofia, eis um bom tópico de investigação.

      A definição típica de argumento seria algo como: Um encadeamento de proposições em que uma é oferecida como justificação de outra. Há argumentos dedutivos e não-dedutivos, pelo que é óbvio que nenhuma noção de validade (dedutiva, que é o sentido relevante), pode captar o que é um argumento. O que pode dizer é que a noção clássica de validade não captura todas as nossas intuições sobre o raciocínio dedutivo bem sucedido, mas isso é uma longa discussão e não é o que está em causa neste post.

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    33. Obrigado pela sua resposta.

      Mas deveria haver noções de validade para argumentos dedutivos que não entrassem em contradição com a definição de argumento dedutivo.

      Eu refiro esta contradição porque parece-me que não é só a contra-intuição que aparece aqui; é também a contradição.

      (Para mim, só há raciocínios dedutivos. Os ditos indutivos parecem-me raciocínios dedutivos cheios de premissas "escondidas"; mas isso é outro assunto, ainda mais afastado do tema deste post).

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    34. "Seja como for, penso que o argumento que Russell está a criticar nem sequer é dedutivo, pelo que esta discussão já está desligada do comentário inicial."

      Parece-me que o argumento que ele critica é este:

      Nós - e nós somos muitos - sem o consolo da religião, das nossas crenças religiosas, seríamos insuportavelmente infelizes.

      Nós não queremos ser insuportavelmente infelizes.

      Admitimos que a análise racional das nossas crenças religiosas possa levar-nos à descrença.

      Logo, nós não queremos analisar racionalmente as nossas crenças religiosas.

      O que é muito interessante neste argumento é que ninguém está a dizer que ELES sem o consolo... Não. NÓS, sem o consolo...

      O argumento é válido.

      Russell, na parte do texto em que admite a hipótese das premissas serem verdadeiras, chama-lhes covardes e, por isso, recusa o argumento.

      Está implícito não só que Russell apregoa valorizar mais a coragem intelectual do que a felicidade (mesmo quando esta não implica a infelicidade de outros), mas também que ele quer que os outros valorizem mais a coragem intelectual do que a felicidade. E, em relação aos outros (aos outros, claro), tudo indica que ele não se contentaria com simples declarações de adesão a tão corajosas ideias.

      P. Martins

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  8. Aires Almeida,

    Devemos recusar um argumento sólido se ele for "covarde" (o que quer que isso queira dizer)?

    Se sim, está-se a recusar o rigor argumentativo (em nome duma suposta "coragem").

    Se não, qual é o interesse dessa classificação para a argumentação?

    Para efeitos de pirotecnia retórica é que esta tolice dos "argumentos covardes" poderá ser útil.

    P. Martins

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    1. Caro P. Martins,

      «Devemos recusar um argumento sólido se ele for "covarde" (o que quer que isso queira dizer)?»

      Boa pergunta. Mas antes de lhe responder directamente à pergunta, deixe-me só dizer que podemos interpretar o que os outros dizem de forma mais caridosa ou menos caridosa. Vendo as coisas de forma pouca caridosa, claro que não faz sentido dizer que um argumento é covarde, pois só um agente o pode ser e os argumentos não são agentes. Mas, se formos um pouco menos caridosos, não vejo por que razão não poderíamos dizer tal coisa, como por vezes dizemos que há argumentos inteligentes. Assim, dizer que um dado argumento é covarde significa, neste contexto, apenas que é uma estratégia argumentativa típica de alguém que tem medo de enfrentar a verdade. E eu acho que é sempre melhor sermos caridosos, por razões óbvias.

      Respondendo agora à excelente pergunta colocada (digo que é excelente por que nos obriga a pensar mais e melhor), tenho a dizer que o problema é que nem sempre é fácil sabermos se um argumento é sólido, caso em que o ele ser "covarde" pode ser um bom indício de que há algo que não funciona. Como sabe, um argumento sólido é um argumento válido com premissas verdadeiras. Ora, frequentemente pessoas diferentes disputam precisamente a verdade das premissas, e talvez nunca se chegue a acordo se as premissas são mesmo verdadeiras ou não. Ou seja, muitas vezes o acordo sobre a solidez ou não de um argumento é inviável (o que não significa que o argumento não seja efectivamente sólido), sendo apropriado recorrer a outros critérios, como o de o argumentador mostrar apenas estar interessado em evitar conclusões desagradáveis.

      Em suma, se o argumento for efectivamente sólido, a covardia é irrelevante. Mas muitas vezes não estamos de acordo quanto à solidez dos argumentos, pelo que a covardia é indício de que a motivação principal não é a verdade mas simplesmente a recusa em a enfrentar, caso seja desagradável.

      Penso que com isto acabei por lhe responder às duas outras questões que coloca.

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    2. Caro Aires Almeida,

      Eu concordo com o que diz sobre interpretações caridosas, mas uma interpretação menos caridosa ter-me-ia levado a dizer que se estava perante um apelo à emotividade visando impedir a discussão racional. Mesmo assim, não fiz a leitura mais caridosa possível? É possível que tenha razão.

      No excerto citado, tudo parece indiciar que Russell está a admitir a solidez do argumento e, lendo o texto completo, percebe-se que nessa parte do texto ele está mesmo a admitir a hipótese dessa solidez. Mais à frente é que ele vai disputar a verdade das permissas (sem sucesso, parece-me a mim).

      O que me parece é que Russell defende que mesmo que o argumento fosse efectivamente sólido, a covardia seria relevante. Eu acho isto estranho.

      Sim, repondeu a todas as minhas questões e agradeço-lhe por isso.

      P. Martins

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    3. Não li o texto completo, mas se for como diz, então a objecção de Russell é mesmo irrelevante. O que mostra que, mesmo com os grandes filósofos, devemos manter-nos críticos.

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    4. Concordo, mas vou um bocadinho mais longe: devemos manter-nos particularmente críticos com os filósofos que muito admiramos.

      Eu pagava para ler críticas a este texto do Russell se ele viesse assinado por João Silva, licenciado em Sociologia das Religiões pela Universidade de Vão de Escada, Macedo de Cavaleiros.

      Um dia que tenhas tempo lê o que ele escreve na parte em vai disputar a verdade das premissas. E, já agora, mais acima, o espantalho em que ele transforma o argumento de William James.

      Mas como é o Russell, respeitinho, que este é cá dos nossos e o que há a fazer é ir a terreiro defender até mesmo... o que ele, com um, dois ou três ll, não escreveu.

      P. Martins

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    5. Russell foi impreciso nessa passagem ao chamar de argumento apenas uma condicional - sem os consolos da religião, os crentes seriam intoleravelmente infelizes. Ficar debatendo se há ou não um argumento implícito defendido pelo crente e se um argumento sólido pode ou não ser covarde é um ótimo expediente para ignorar o ponto do Russell: apenas um covarde que não tem virtude epistêmica vai recusar uma idéia porque esta o tornaria infeliz. Essa é uma observação sobre o que se espera de um agente epistêmico virtuoso e não uma observação sobre propriedades relevantes de argumentos. Além disso, não sei se me parece que isto é uma questão de coragem intelectual, mas sim de honestidade intelectual e a honestidade intelectual não é negociável para alguém que realmente tem interesse cognitivo. Isto é mesmo curioso: o Russell afirmou que apenas um covarde coloca a felicidade acima da verdade e de repente alguns afirmam que devemos ser muito cautelosos com as afirmações de Russell. É claro que devemos ser cautelosos com qualquer filósofo, mas toda cautela do mundo é insuficiente para refutar a sua afirmação de que apenas um covarde coloca a felicidade acima da verdade.

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  9. Vi agora que há um erro de tradução.

    "It is a coward's argument", no original.

    Ou seja "é o argumento de um covarde" e não "é um argumento covarde".

    P. Martins

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  10. Sim, P. Martins. Está certo e eu traduzi errado! Eu já ia checar no original, pois percebi que tinha um problema ai, obrigado pela crítica.

    De qualquer modo, mesmo que Russell dissesse que o argumento é covarde não penso que isso seria uma tolice e seria apenas um preciosismo irrelevante. Quer dizer que posso chamar um argumento de várias coisas, como inteligente, por exemplo, mas não posso chamá-lo de covarde? Isso é um modo pouco técnico de se falar de argumentos que não é problemático para fins argumentativos.

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    1. Eu farto-me de cometer erros. O pequeno erro que o senhor cometeu é perfeitamente compreensível.

      Quanto ao resto, eu não consigo aceitar que se tente desvalorizar um argumento sólido dizendo que se trata de um argumento dum covarde. Se é sólido é sólido, por muito que nos custe. Quanto a classificar o próprio argumento como covarde, admito que possa ser um preciosismo irrelevante e não uma tolice.

      P. Martins


      P. Martins

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