19 de maio de 2012

Steiner e outros sobre Heidegger e o nazismo


Uma referência lateral ao nazismo de Heidegger, num dos meus comentários a este post do Desidério, deu origem a uma violenta indignação verbal de alguns leitores.

Alegaram, esses leitores indignados, que utilizar a "episódica ligação de Heidegger ao nazismo" para desvalorizar o seu pensamento filosófico não passava de uma "jogada rasteira", própria de "indigentes intelectuais" e de "analfabetos filosóficos ressentidos". Pois bem, estes adjectivos têm também de se aplicar a George Steiner.

Mas não é impossível que tenham razão quanto aos adjectivos utilizados para classificar os opinadores atrevidos. Isso é, contudo, irrelevante. O que interessa mesmo nem sequer é se a ligação de Heidegger ao nazismo é episódica ou não (e não foi, nem pouco mais ou menos), mas se a militância nazi de Heidegger decorre — ou se é, de algum modo, a expressão adequada — do seu pensamento filosófico. Heidegger poderia ter apoiado o nazismo por engano, por carreirismo ou até por simples conformismo, sem se dar conta do que o seu apoio significava verdadeiramente. Até porque nem as pessoas inteligentes, como Heidegger, estão livres disso. Muitas vezes, fechadas na profundidade das suas reflexões académicas, grandes cabeças são incapazes de compreender o que se passa à sua volta e cometem erros quase infantis. 

Frege, por exemplo, foi um desses casos. Também ele apoiou o nazismo, neste caso mais episodicamente, uma vez que Frege morreu em 1925, ainda o nazismo não tinha mostrado a sua face mais cruel. Mas isso em nada contaminou o seu importantíssimo trabalho filosófico, ou sequer foi por ele contaminado. Os seus imensos contributos para a lógica e para a filosofia da linguagem não encontram o mais ténue ponto de contacto com as suas opiniões políticas, além de que a sua personalidade fechada e introvertida não deu sequer azo a quaisquer intervenções públicas a favor do nazismo. O que hoje sabemos do seu anti-semitismo e do seu ultraconservadorismo político descobrimo-lo sobretudo pelo que deixou registado no seu diário.

Será que o caso de Heidegger é semelhante ao de Frege? Parece consensual que não, a julgar não só pelos factos conhecidos, como pelo próprio pensamento de Heidegger. Pensamento no qual se encontram elementos teóricos comuns ao nacional socialismo, o que, apesar de não ser reconhecido por todos, é reconhecido por muitos estudiosos, alguns dos quais heideggerianos. Elementos como a defesa de um certo irracionalismo anti-iluminista e anti-humanista, a ideia de que a acção tem primazia sobre a teoria, um anti-universalismo, aliado à ideia de que há um papel especial destinado ao povo alemão, o tradicionalismo anti-tecnológico (apesar do uso intensivo das tecnologias de guerra pelos nazis) e muitos outros aspectos. 

Um dos filósofos que pensam que a militância de Heidegger no partido nazi é tudo menos acidental é, como referi acima, George Steiner. Para mostrar que não estou a inventar, veja-se aqui e aqui o que ele mesmo escreve (traduzido para português).

Ou então, vejam-se as seguintes palavras de mais um "analfabeto filosófico ressentido", o filósofo Jonathan Glover (citado aqui):
Martin Heidegger que descobriu em si próprio a missão de re-acordar as pessoas para a compreensão do Ser, foi o mais famoso filósofo a apoiar os nazis. O seu entusiasmo foi muito mais além do conformismo; as suas aulas e conferências incluíam a saudação nazi. Ele foi contra a influência judaica na vida cultural alemã: em 1929 escreveu, “nós ou vamos voltar a encher a nossa vida espiritual com forças e educadores nativos genuínos ou então rendemo-nos de uma vez por todas à Judaicização crescente “(...).
O interesse pelo lado corporal do Ser ia muito mais além de fazer o pino. Quando Karl Jaspers lhe perguntou: “Como pode um homem tão ordinário como Hitler governar a Alemanha?” Heidegger respondeu, “A cultura não tem importância. Olha só para as suas maravilhosas mãos."

55 comentários:

  1. É de notar o seguinte: mesmo quem pensa que a filosofia de Heidegger é intrinsecamente nazi pode sustentar que a sua filosofia é cognitivamente relevante, ou que tem aspectos cognitivamente relevantes. Esse é certamente o caso do próprio George Steiner e de Richard Rorty.

    Pessoalmente, não conheço uma só ideia de Heidegger que seja cognitivamente relevante. Parece-me apenas um discurso inspirador, algo bíblico. Mas, como é óbvio, posso estar enganado. E mesmo que o não esteja, as pessoas devem ter não apenas a liberdade de o estudar e ensinar, como as melhores condições possíveis para o fazer.

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  2. Sem dúvida, Desidério. Mas estudá-lo não é esconder zelosamente aspectos do seu pensamento que podem ser relevantes para a sua compreensão.

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    1. Hum... concordo contigo, mas isso é pressupor que se faz um estudo primariamente cognitivo de Heidegger, que é o género de coisa que vês na bibliografia que citaste. Mas muitas pessoas querem estudar Heidegger de outro modo. Querem apenas parafrasear de maneira heróica e sugestiva certas expressões e palavras que consideram inspiradoras e reconfortantes. E têm todo o direito a isso. O que é curioso é que ao mesmo tempo que fazem isso querem que sejam vistas como se estivessem a fazer um trabalho primariamente cognitivo, como vemos no Cambridge Companion to Heidegger ou em muitas outras bibliografias.

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  7. A referência à obra filosófica supostamente "neutra" de Frege levanta uma questão muito interessante, a qual, os que seguem essa mesma orientação filosófica (filosofia da linguagem, lógica), tentam iludir, passando sobre ela como gato sobre brasas.
    Refiro-me à questão de saber se essa filosofia, que se pretende bacteriologicamente pura em relação à ideologia e à política, justamente por essa "neutralidade" mesma, não se tornar uma aliada objectiva do status quo (seja ele nazi o ou outro)?

    Já vi aqui D. Murcho defender explicitamente a tese de que, por exemplo, a democracia participativa não passa de uma "maçada", já que se devia era atender ao facto de que o que as pessoas querem mesmo é poder consumir e usufruir do que muito bem lhes apatecer, devendo deixar assim essas coisa da política e da ideologia para os " políticos profissionais".

    Trata-se de uma questão muito relevante no que à filosofia mesma toca. Porque uma coisa é termos uma concepção de filosofia virada sobretudo para si mesma, comprazendo-se na explicitação dos seus pressupostos e métodos, fechada na dilucidação do seu aparato teórico, bem comportada, cordata e certinha; outra coisa é trmos uma concepção de filosofia que, justamente por o ser, não abdica do seu rigor conceptual e metodológico, mas que tem por escopo a preocupação com a realidade humana - donde ela parte e à qual sempre voltará, em primeira e última análise -, com a dimensão ético-polítca do viver e da existência humana, com as perplexidades e desafios do seu devir histórico.

    As grandes obras que marcaram a filosofia ocidental - ocioso será citar nomes como os de Platão, Aristóteles, Agostinho, Espinosa, Leibniz, Locke, Kant, Hegel... - ergueram-se tendo em vista esse escopo.

    Para muitos, justamente, o problema da produção filosófica actual é a sua anemia constitutiva, o seu ensimesmamento estéril e autocomplacente, que a tornam numa mero exercício de vituosismo técnico-intelectual desprovido de grandeza espiritual e humana, num mundo devastado pela injustiça, pela alienação massificada, pela sua estrutural falta de sustentabilidade, que fecha cada vez mais o horizonte das possibilidades para a vida e para o pensamento.

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    1. Se é neutro, empreendimento cognitivo algum se torna aliado objetivo do status quo (seja ele nazi o ou outro) mais do que se torna aliado objetivo do valor da verdade. Afirmar que a filosofia analítica ser neutra implica a filosofia analítica ser (no sentido referido) aliada objetiva do status quo é, pois, nada mais do que fazer confusão. Se a filosofia analítica é aliada objetiva do status quo mais do que do valor da verdade, o é não por ser neutra, mas, sim, por não ser neutra. Portanto, como forma de teorizar a filosofia analítica como aliada objetiva do status quo, seria o caso de explicitar em que aspecto a filosofia analítica não seria neutra, sendo aliada objetiva do status quo, e justificar.

      Alardear que, justamente pela "neutralidade", a filosofia analítica seria aliada objetiva do status quo, dando a entender que "neutralidade" não é verdadeiramente neutralidade, mas sem expor o que seria, é só fazer jogo de fumaça e espelhos (em cuja insistência, justamente, está, a meu ver, o maior problema da, como diz Desidério Murcho, filosofia que não tem interesse primariamente cognitivo).

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    2. A filosofia analítica não é neutra. Tal como acontece com a filosofia dita continental, é muito vasta. Alguns temas da filosofia têm implicações práticas, políticas e éticas (basta pensar em Rawls ou Singer, Benatar ou Glover), outras são muitíssimo abstractas e sem relevância prática (tal como parte do trabalho de Aristóteles ou Locke, Hume ou Descartes, não tem relevância prática). O mesmo acontece na filosofia continental.

      Parece-me que as pessoas que vêm comentar coisas aqui sobre a filosofia continental o fazem não com a boa-fé de realmente discutir ideias, mas com o espírito tribal de tentar "ganhar" pontos, como quem discute equipas de futebol. E isso está longe de ter o mínimo de interesse.

      Vamos fazer uma coisa: parta-se do princípio de que eu, a filosofia analítica e todos os autores deste blog são uns tolos. E que quem estuda filosofia continental, assim como a filosofia continental, é muitíssimo melhor, mais interessante, etc. Pronto. Posto isto, talvez depois se possa discutir alguns temas em particular. Por exemplo, tem David Benatar razão quando defende que existir é sempre pior do que não existir? Tem Peter Singer razão quando defende que somos imorais se não dermos parte da nossa riqueza para ajudar as pessoas muitíssimo carenciadas, sejam ou não de outros países?

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  8. Caro Rui, deixe-me meter-me na discussão, se me permite. Segundo percebi, o Rui parece querer defender que a filosofia de Frege, tomando-a como exemplo, não inclui a neutralidade suposta em relação a um qualquer regime político. Mas depois termina o seu texto afirmado que “o problema da produção filosófica actual é a sua anemia constitutiva, o seu….. desprovido de grandeza espiritual”. E eu pergunto-lhe: como é que pode saber tal coisa? É a sua posição neutra em relação a quê? É que me parece que critica o lado pessoal da filosofia para imediatamente entrar nele. Há ainda outro aspecto: é que eu não acho que a filosofia tenha de ser aquilo que o Rui quer que ela seja. E sendo que eu discordo, em que passo ficamos? Por ter uma posição diferente da sua estou politicamente engajado? É que eu acho que não estou… Mas se o Rui achar que estou, com critérios é que o acha? Dou-lhe um exemplo: passei uma licenciatura de filosofia a fazer má leitura de Heidegger. O que é uma má leitura de Heidegger? É tentar decifrar o que ele escreveu que, na minha opinião, é indecifrável pois não está a dizer nada de muito especial. Parece-me que a sua defesa não passa de uma opinião particular que vale como tantas outras. Na verdade leio muitos filósofos sem qualquer preocupação espiritual e outros que me preenchem a alma. Mas primariamente parece-me uma ideia pouco adequada ler filosofia para preencher os vazios da alma. Mas se a ideia verdadeira for que ler filosofia preenche o vazio espiritual dos tecnicismos diga-me então qual a diferença entre ler filosofia ou ir á missa ao Domingo de manhã? Quando estamos no terreno das opiniões nada há a discutir e o erro consiste em confundir as nossas opiniões com afirmações discutíveis. As nossas opiniões são as nossas opiniões. De resto já preenchi muitas vezes os vazios da existência a comer uma lata de atum e nem sempre o fiz com a filosofia
    Para terminar: quando refere que a filosofia se torna num “mero exercício de vituosismo técnico-intelectual “, creio estará referir-se à chamada filosofia analítica, certo? Se a resposta for sim, então a afirmação é falsa. Mas pode sempre pensar que é verdadeira. Afinal de contas é exactamente isso que eu penso do que Heidegger escreveu: “mero exercício de vituosismo técnico-intelectual “ sem qualquer interesse filosófico.
    Peço desculpa se o interpretei erradamente.

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  9. Tornar o aspecto cognitivo como o centro de gravidade da filosofia e o seu motivo primeiro, não é propriamente um ponto pacífico nem desejvelmete consensual na filosofia.
    E não deve ser visto como um dogma fora do qual não há salvação intelectual ou, pior ainda, como se fosse ele que pudesse arvorar-se de detentor de um critério excludente ("jogo de fumaça", "espelhos") que menoriza ou estigmatiza outras possibilidades filosóficas ou outras vias para o pensamento .

    A "Justiça" do Sandel, aqui profusamente elogiado - e a justo título - como um grande livro de filosofia, é-o precisamente pelo seu rigor, argúcia e leveza argumentativa, mas sem quaisquer cedências aos maneirismos tecnicistas e à linguagem pretensiosamente encriptada (de que Heidegger, sua vítima, é um exemplo cimeiro), e, ao mesmo tempo (mas não por simples coincidência), pela sua tentativa de responder aos aspectos mais relevantes (éticos, políticos, sociais, culturais) que interpelam a sua consciência filosófica e cívica.

    Sandel, que faz filosofia "relevantemente cognitiva", que persegue a "verdade" (ou não?...), podia "reclamar-se neutro" ou "supor-se neutro"?
    Poderia, mas só se já não fosse Sandel...

    Perante o nazismo, por maioria de razão, pode-se, deve-se ser filosoficamente "neutro"?

    A neutralidde só fará sentido para uma concepção de filosofia desencarnada ou impessoal, senão assepticamente "escolástica" (ameaça que impende sobre Frege e seguidores).
    A filosofia tem a ver com o homem, com o homem individual que a protagoniza ou anima, com as suas características e tendências irredutíveis - com a parecela de verdade que lhe é dado ter ou merecer - e com o homem todo, porque, pela sua natureza mesma, aspira à universalidade.

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    1. Na verdade, o livro de Sandel é um de entre muitos outros do mesmo género. O Rui escreve como se o livro de Sandel fosse uma excepção na filosofia analítica. Mas isto é falso. Há muitíssima bibliografia analítica sobre problemas éticos e políticos, sobre o sentido da vida, sobre por que há algo em vez de nada.

      Rui, eu não estou a tornar o interesse cognitivo "o centro de gravidade" da filosofia, até porque nem estou a fazer física, se me permite a piada. O que eu estou a dizer é que há muitas maneiras de fazer filosofia, mas que dois modos distintos são visíveis, não só na filosofia contemporânea, mas ao longo da sua história. De um lado, uma abordagem primariamente cognitiva, como você vê no livro do Sandel e em tantos outros, nomeadamente nos livros por mim organizados sobre o sentido da vida e sobre a fé. Do outro, uma abordagem de cunho primariamente heróico, religioso, inspirador, literário. Nunca disse que um dos modos é melhor do que o outro, porque teríamos de explicar em que sentido é melhor. Eu penso que o segundo tipo de filosofia é melhor precisamente para quem não tem interesses cognitivos, antes procura a salvação, ou o consolo. E penso que quem quer fazer filosofia deste modo deve ter todas as condições para o fazer.

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  10. Seja-me permitido fazer um comentário mais pormenorizado a esta passagem do Rui Gomes:

    "outra coisa é trmos uma concepção de filosofia que, justamente por o ser, não abdica do seu rigor conceptual e metodológico, mas que tem por escopo a preocupação com a realidade humana - donde ela parte e à qual sempre voltará, em primeira e última análise -, com a dimensão ético-polítca do viver e da existência humana, com as perplexidades e desafios do seu devir histórico."

    Rigor conceptual e metodológico deverá incluir também o rigor histórico. Ora, é pura e simplesmente falso, historicamente, que a filosofia sempre tenha "por escopo a preocupação com a realidade humana"; isto é falso porque grande parte das obras filosóficas nada têm a ver com os seres humanos. Parte da filosofia tem implicações práticas e tem a ver com os seres humanos -- ética e filosofia política, partes da filosofia da religião e da arte -- mas grande parte dela não tem a ver com seres humanos.

    O que considero aqui significativo é a confirmação do que defendo. Quem faz filosofia continental é exactamente como quem faz numerologia em vez de matemática, ou astrologia em vez de astronomia: quer sempre enfiar no centro do universo os seres humanos, em grande parte porque nunca teve a experiência do que é a curiosidade intelectual pura. Quem faz astrologia não compreende que uma pessoa tenha curiosidade intelectual pura no sentido de querer saber como funciona o sistema solar, ou a galáxia, independentemente de isso encerrar ou não lições edificantes sobre os seres humanos. Já quem faz astrologia põe os corpos celestes a cantar louvores aos seres humanos e os seres humanos sempre ligados aos fenómenos astronómicos.

    Ora, o mesmo ocorre na filosofia continental. Ainda que nem sempre o antropocentrismo (ter "por escopo a preocupação com a realidade humana") esteja presente nos próprios filósofos continentais, isso ocorre muitas vezes. Mas mais evidente é que quem estuda filosofia continental está precisamente procurando não a satisfação da sua curiosidade intelectual, mas resposta aos seus anseios humanos: quer conforto, inspiração, um discurso edificante e heróico, quer sentir que é de suma importância cósmica. É por isso que eu penso que esta é uma atitude profundamente religiosa. E que respeito.

    As pessoas têm direito a ter perante a filosofia a atitude que quiserem. Trata-se apenas de esclarecer as diferenças. Além disso, volto a dizer que nem toda a gente estuda os filósofos continentais desse ponto de vista. Muitas pessoas estudam-nos de um ponto de vista mais académico, digamos, mais distanciado e objectivo, como se vê em muitas das bibliografias publicadas sobre esses autores.

    Muitas pessoas procuram na filosofia algo como auto-ajuda, e não há problema algum nisso. Há até uma longa tradição de escritos desses, na história da filosofia. Acontece que também há uma longa tradição, na história da filosofia, que nada tem a ver com isso. Uma longa tradição de investigação de problemas conceptuais abstractos irrelevantes para aquietar almas ou elevar o espírito ou para nos dar a sensação de heroísmo existencial. E, claro, há quem prefira uma destas tradições e quem prefira a outra.

    De novo: tanto se pode fazer a leitura de uma como de outra tradição de um ou de outro ponto de vista. Já li dissertações de mestrado sobre aspectos da filosofia de Platão que nada têm a ver com ansiedades humanas de cunho religioso, mas que o interpretava precisamente desse modo, construindo sobre Platão um discurso heróico. E já li trabalhos sobre Heidegger ou Nietzsche que são totalmente alheios ao discurso heróico de cunho religioso.

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  11. É importante esclarecer também o seguinte. Mesmo na bibliografia filosófica que tem "por escopo a preocupação com a realidade humana" há uma diferença entre fazer esse trabalho de um ponto de vista estritamente cognitivo, ou fazer esse trabalho de um ponto de vista literário, inspirador, com um discurso heróico. Por exemplo, a Ética Nicomaqueia tem "por escopo a preocupação com a realidade humana"; mas nela não se encontra o género de discurso de cunho religioso que encontramos em Nietzsche ou Heidegger ou Derrida. Aristóteles limita-se a estudar de modo muito directo e explícito os elementos que ele considera centrais para uma vida humana boa. E o mesmo podemos dizer da abordagem do sentido da vida que encontramos na antologia por mim organizada, com textos de Nagel, Baier, Wolf e outros. Kant, nos Prolegómenos, procura também esclarecer aspectos centrais para uma vida humana, mas também não o faz com um discurso heróico e inspirador, apesar de, como é habitual nele, estar longe de ser claro e elegante.

    Portanto, o que está em causa quando se afirma que a filosofia tem "por escopo a preocupação com a realidade humana" não é a insistência na centralidade da ética, filosofia política e outras áreas da filosofia. Até porque isso é historicamente falso. O que está em causa é considerar que as mais abstrusas abstracções, os mais difíceis textos, têm sempre um carácter bíblico e existencial, mesmo quando parecem falar de outra coisa. Ora, isto é exactamente o que acontece com a Bíblia: as pessoas não querem realmente saber se Deus fez Eva literalmente de uma costela de Adão, mas o que significa isso para as suas vidas, para a sua salvação, para o seu futuro aqui na terra e mais tarde no céu. Analogamente, as pessoas lêem Heidegger ou Sartre, quando eles parecem falar de ontologia, mas não é na ontologia, literalmente falando, que estão interessadas. Estão interessadas em penetrar nos mistérios arcanos daquela linguagem para encontrar confortos espirituais, uma impressão vaga de heróica salvação. E têm todo o direito a fazê-lo. O que seria bonito seria tentar compreender, e aceitar, as pessoas que têm uma atitude primariamente cognitiva da filosofia. Repito: quem faz da filosofia uma forma de vida de cunho religioso tem não apenas o direito de o fazer, mas de encontrar as melhores condições para o fazer sentindo-se bem com isso.

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    1. A influência romântica presente nesses autores é inegável, e eu diria até repudiável, mas - desculpe se o mal interpretei - ainda assim a leitura deles é de suma importância. Acredito que o real problema seja a recepção que se faz desses autores e a maneira como são lidos, a maneira como são usados. É possível encontrar elementos interessantes nos textos, pois se tratando de uma filosofia "literária", a falta de rigor é compensada pela multiplicidade de sentidos.

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  12. Desidério, se me permite, quem já aprofundou Aristóteles (não vamos para a Ética, veja-se a insuspeita Metafísica e, mormente, o debate sobre a "substância primeira/substância segunda") ou Kant (podemos, se quiser, excluir a Crítica Prática), percebe que é imanente à filosofia tentar - e a consciência da vacuidade ou futilidade, no limite, dessa tentativa - de escapar à realidade que não seja a constituída pelo homem, à sua sujectividade constitutiva ou transcendental, ou seja qual for o estatuto metafísico e valor epistémico que lhe depois lhe queiramos outorgar.
    Trata-se de uma escada que não conseguimos deitar fora - e chegamos até onde ela chegar; o que conseguirmos, será apoiados nela: não há outra.
    Depois, restar-no-á talvez o silêncio mais místico ou estridente...

    A tentativa de reduzir caricaturalmente a "espiritismo" ou a obras de "auto-ajuda" isso que se designa por boa parte da "filosofia continental", releva de uma visão muito empobrecedora e dogmática e que enfraquece notoriamente o interesse do argumentário associado (a não ser que nos contentemos com sound-bytes...).

    Essas obras têm relevantes conteúdos cognitivos, que podem ser tarefa de uma hermenêutica filosófica (tomada, para já, aqui na sua acepção geral, que reconhece, entre outros, contributos relevantes da filosofia da linguagem ou da mente), que é intrinsecamente problemática e problematizante, ou seja, inconclusa, e que não obedecem ao critério estrito (e estreito) de formalismos de inspiração positivista.

    Gadamer, para dar um exemplo significativo, na sua análise da experiência hermenêutica, permite-nos encetar uma crítica o conceito dominante de experiência por, precisamente, ser demasiado centrado num conhecer entendido como acto perceptivo e para um conhecimento visto como corpo de dados conceptuais, neglicenciando, designadamente, a historicidade intrínseca da experiência, que não pode, senão muito parcialmente, ser objectivável ou "formalizada".
    Não há, pois, "abordagem cognitiva" (ou "verdade") pura, desencarnada, objectivada ou objectivável, que tenha por objecto apenas os "conteúdos cognitivos", sem atender a essa historicidade e finitude constitutivas (não confundir, simplisticamente, com qualquer "contextualismo").

    O "conteúdo cognitivo" ou de "verdade" de uma obra filosófica não pode ser abordado e tratado como se ele pudesse ser dado todo e de uma só vez. A consciência histórica, o horizonte significativo no qual um texto filosófico se situa é abordado interrogativamente a partir do nosso horizonte, em que o próprio sujeito epistémico se constitui, e, quando interpretamos, não abandonamos o nosso horizonte histórico/epistémico, antes o alrgamos de modo a "fundi-lo" como o do acto ou da obra.

    Isto, além do mais, evidencia a falta de sentido e de relevância (diria até, ou sobretudo, cognitiva...) da distinção que intenta entre filosofia teórica (de teor mais "cognitivo") e filosofia prática (política ou moral) - erro leviana e estrepitosamente acolhido na 11ª Tese sobre Feuerbach -, como se qualquer filosofia pudesse pensar e falar de, ou dirigir-se a, algo que não traga já, irremediavel e irredutivelmente, os limites da compreensão e da significação humanas (se Kant nos propõe sair do "sonho dogmático", deste ninguém ou escada alguma nos pode retirar; pois se se pudesse fazê-lo, quer dizer, transcendê-lo, já nem estaríamos no domínio filosófico ou cognitivo, ou humano...) e que por esse pensar e dizer mesmo o não transformasse (i.e, lhe conferisse a forma que lhe é consentido dar, a sua).

    A não ser, enfim, que quando se invoca acintosamente a "auto-ajuda" se pretenda exutorar, de maneira liminar, a fórmula esquiliana, tomada por Gadamer, "pathei mathos" ("aprender pelo sofimento"), mas a que talvez o próprio Frege não tenha sido imune. Ele precisou, quem sabe, também de algo para se "consolar": o seu trabalho filosófico...

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    1. Penso que há aqui um equívoco. Por "abordagem primariamente cognitiva" eu quero dizer uma abordagem motivada primariamente por curiosidade intelectual, que visa principalmente conhecer as coisas; esta abordagem é diferente de uma abordagem que visa reconfortar a alma.

      No primeiro caso, o que desejamos ou ansiamos que as coisas sejam é irrelevante; o que queremos é saber o que as coisas são. No segundo caso, o que as coisas são é irrelevante; o que queremos é um discurso que nos conforte.

      No seu discurso esta diferença é manifesta. Pois este consiste em procurar autoridades que já digam o que você quer ouvir, sem se preocupar em saber se o que eles dizem é plausível ou não; não importa se é plausível nem se há bons argumentos a seu favor, não importa se há outras alternativas teóricas mais plausíveis, ou tão plausíveis quanto elas. Tudo o que conta é que isso é o que você quer ouvir, e por isso é o que você aceita.

      O seu primeiro parágrafo revela uma confusão que, do seu ponto de vista, é irrelevante, porque você não procura saber como as coisas são, mas apenas como gostaria que as coisas fossem. Você afirma que "é imanente à filosofia tentar [...] escapar à realidade que não seja a constituída pelo homem". E porquê? O argumento histórico vagamente aludido é que ao fazer metafísica, por exemplo, tentando saber o que é a substância primeira, inevitavelmente somos nós que fazemos metafísica -- o que significa, entre outras coisas, que podemos estar enganados, projectando na realidade o que lá não está. Ora bem, este aludido argumento não é particularmente promissor por duas razões óbvias. Primeiro, porque nesse caso também quanto fazemos astronomia ou química estaríamos a tratar de questões humanas, se o que isso quer dizer é que não podemos evitar sermos nós a fazer o que fazemos, e não podemos evitar a possibilidade de errar, projectando na realidade o que lá não está. Segundo, porque a tese de subir pela escada e tudo isso é uma tese filosófica entre outras e uma pessoa não tem de a aceitar para fazer filosofia -- e muitos filósofos, tanto antigos como contemporâneos, não a aceitam. Este fenomenismo kantiano, a ideia de que nunca conhecemos a realidade em si, era partilhado por vários filósofos analíticos... positivistas, ou de tendência positivista. Hoje, muitos filósofos não aceitam isso. E, claro, no passado também muitos filósofos não aceitaram. De modo que 1) é historicamente falso que seja "imanente à filosofia" algo como o fenomenismo kantiano e 2) mesmo que aceitemos tal tese, continua a haver uma grande diferença entre o trabalho de Carnap, que é fenomenista, e Heidegger.

      E a diferença é o modo como se trabalha. Num caso, temos análise cuidada, raciocínio sofisticado, teorização pormenorizada e intensa, linguagem directa e sem insinuações. No outro, temos um discurso de cunho religioso, com muitas distorções linguísticas, recurso a figuras de estilo literárias, etc., que não visam de modo algum estabelecer de modo racional uma tese, mas antes seduzir o leitor, edificar-lhes o espírito, fazê-lo sentir-se bem com um discurso heróico.

      Ora, este modo de fazer filosofia, que se quer afirmar como único e como a única alternativa -- "é imanente" -- pretende excluir outras formas de fazer e estudar filosofia, que sempre existiram. É por isso que quando surge uma alternativa e esta se torna visível as pessoas ficam chateadas. É como se quiséssemos fingir que no que respeita aos corpos celestes, a única maneira de os estudar é a astrologia. Depois aparece a astronomia e está o caldo entornado. Bom, eu penso que isto é uma tolice, porque o mundo é muito grande e há muito espaço para fazer as duas coisas. E penso até que é muito bom, dado que somos falíveis, que pessoas diferentes se dediquem a actividades muitíssimo diferentes, com diferentes métodos e objectivos, porque nunca sabemos de onde podem vir ideias interessantes.

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  13. errata: e que por esse pensar e dizer mesmo não fosse transformadora (i.e, não conferisse a forma que lhe é consentido dar, a sua).

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  14. Se uma pessoa não considera o aspecto cognitivo o "centro de gravidade da filosofia", não considera tampouco que afirmar que um trabalho filosófico consista em "jogo de fumaça e espelhos" seja minorar ou estigmatizar "outras possibilidades filosóficas ou outras vias do pensamento". Se uma pessoa considera que um trabalho filosófico ser um "jogo de fumaça e espelhos" implica esse trabalho ser filosoficamente menor, o faz porque considera o aspecto cognitivo o "centro de gravidade da filosofia". Afinal, se o aspecto cognitivo não é de ser considerado "o centro de gravidade da filosofia", não é verdade que trabalho filosófico consistente em um "jogo de fumaça e espelhos" seja de ser considerado menor. "Jogos de fumaça e espelhos" são ruins do ponto de vista cognitivo, mas não é o caso de o serem de outros pontos de vista. Não é verdade que "jogo de fumaça e espelhos" não seja justamente a forma de realizar "outras possibilidades filosóficas ou outras vias do pensamento". "Jogo de fumaça e espelhos" pode ser justamente a forma de realizar essas "outras possibilidades filosóficas ou outras vias do pensamento".

    Considerar o aspecto cognitivo o "centro de gravidade da filosofia" não é deixar de "tentar responder aos aspectos mais relevantes (éticos, políticos, sociais, culturais) que interpelam a sua consciência filosófica e cívica". Considerar o aspecto cognitivo o "centro de gravidade da filosofia" é simplesmente procurar saber se tais ou quais idéias são verdadeiras ou falsas e não simplesmente acreditar que ter essas idéias implica obter algum efeito salvífico em sua vida.

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  15. Um aspecto curioso de quem vê a filosofia como um consolo da alma é a irritação que provoca afirmar tal coisa claramente, quando depois a própria pessoa o afirma, mas de uma maneira esquisita. Dizer que estudamos filosofia procurando consolo espiritual é tão irritante porquê? Afinal, esta maneira de ver filosofia não é nova, sempre existiu, estando presente em Epicuro, nos estóicos e em Boécio, em Epicteto e em muitos outros filósofos.

    A minha hipótese é que é irritante devido à falta de pluralismo epistémico nas universidades. De algum modo, uma pessoa tem vergonha de assumir que vê a filosofia desse modo e que ao mesmo tempo quer ser visto como académico, com todo o prestígio que isso carrega -- afastando-se do desprestígio do epíteto de "auto-ajuda", que é visto como ofensivo.

    Mas eu não vejo qualquer ofensa na auto-ajuda. Para algumas pessoas este é o único género de interesse bibliográfico que têm: querem sarar as suas dores de alma e é para isso que se dedicam a estudar o que estudam. Não vejo problema algum nisso. A tradição da auto-ajuda faz parte da história da filosofia, tal como a tradição estritamente cognitiva.

    E nem sequer é verdade que as duas se excluam mutuamente. Isso é patente em muitos textos da história da filosofia que, procurando consolar as pessoas, ao mesmo tempo apresentam ideias, teorias e raciocínios muitíssimo interessantes, como no caso de Epicuro e a sua famosa Carta a Meneceu (disponível na Crítica). Contudo, há uma diferença crucial. A auto-ajuda clássica não tinha de fingir sofisticação académica porque não havia unanimismo epistémico, não havia universidades monopolistas. Parece-me que só com Plotino a tradição filosófica do consolo da alma adoptou um discurso difícil, por razões que desconheço. Mas a tradição filosófica posterior do consolo na maior parte das vezes não adoptou um discurso difícil, como é visível na filosofia romana.

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    1. Na realidade o que está subjacente é algo mais fundamental e pouco tem a ver com a falta de pluralismo epistêmico: é o valor que as pessoas atribuem à verdade, até mesmo as desonestas. Afirmar que uma pessoa apenas deseja conforto espiritual é como afirmar que uma pessoa não está realmente interessada na verdade, mesmo que isso implique em viver alegremente no paraíso dos tolos. É claro que somente um covarde admitiria para si e para as outras pessoas que gostaria de viver no paraíso dos tolos. É por isso que os continentais se sentem ofendidos pelo Desidério, pois querem apenas viver alegremente no paraíso dos tolos, mas fingem para si mesmas que estão interessadas na verdade, pois admitir o contrário seria admitir a própria covardia intelectual. Filósofos como Epicuro, que também deram importância ao conforto espiritual, são feitos de algo inteiramente diferente: ele faz parte de uma tradição filosófica com interesses genuinamente cognitivos. Um filósofo que fornece bons argumentos com o objetivo de nos fornecer conforto possui interesses genuinamente cognitivos, pois de fato oferece razões para aceitar o seu ponto de vista e está aberto à possibilidade de refutação. Já Plotino queria apenas satisfazer-se com aspirações místicas, pois se de fato tivesse interesses cognitivos genuínos teria apresentado argumentos rigorosos para sustentar suas idéias.

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    3. Isto é apenas a conclusão natural que se segue da ausência de interesse cognitivo. Se alguém afirma ter interesse cognitivo, mas não aceita valores epistêmicos como o rigor argumentativo, ele só pode estar falando da boca pra fora e é um covarde que não admite isso para si mesmo. Posso conceder também a possibilidade de que essa pessoa está confusa e não entende o que está sendo discutido. Afinal de contas, é preciso estar imerso em um lodaçal de confusão intelectual muito grande para pensar sinceramente que filósofos como Heidegger são sérios.

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  17. Desidério, você respondeu apenas parcialmente ao meu comentário. Retorquirei então a isso.

    A "objecção" da astronomia e da química que apresenta não colhe, porque não chega verdadeiramente a sê-lo, e você mesmo o diz: trata-se de actividades humanas, por isso mesmo com todas as implicações - entre outras que salientei, epistémicas - que daí decorrem.

    A segunda objecção (como aliás decorre da improcedência da anterior) não alcançou o âmago ou a profundidade do problema: a realidade jamais poderá ser conhecida por nós (nós assim, desta humana forma que é a nossa, com todos os instrumentos cognitivos ou técnicos de que conseguirmos com ela criar) senão pelos nossos próprios meios - outra coisa não é possível. Se conseguíssemos transcender tal condição, já teríamos então deixado de ser o que somos.
    Talvez se pudesse supor que o realismo, neste sentido, tenha a pretensão de se constituir como um soberbo "anti-humanismo". Porém, apenas se revela pretenciosamente inocente, ainda "humano, demasiado humano"...

    Aristóteles, na Metafísica, na sua resposta a Platão (e, nesse sentido, também a filosofia deste), a "revolução coperniciana de Kant" são momentos, e apenas momentos, embora bem significativos historica e filosoficamente, (por isso os nomeei - e, já agora, por lhes ser reconhecido "relevância epistémica"...) da tomada de consciência reflexiva dessa impossibilidade com que a filosofia jamais se conformou e contra a qual em grande medida se constituiu (de que o fracasso heideggeriano constitui uma espécie de testemunho - e para alguns, o corolário - involuntário e irónico).

    Trata-se, em primeira e última análise, com efeito, de uma "abordagem primariamente cognitiva", quer dizer, "uma abordagem motivada primariamente por curiosidade intelectual, que visa principalmente conhecer as coisas". A questão é que essa abordagem, por não conseguir deixar de ser o re-conhecimento de uma dificuldade insuperável, de uma impossibilidade (que não pode ser simplesmente "refutada" ou "invalidada", dissolvida pela razão ou pelo pensamento lógico, apenas melhor dilucidada), não será, muito provavelmente, o mais "reconfortante para a alma".

    Nessa medida, se quiser, toda a filosofia - sublinho: toda - mais não é do que uma forma de "consolo espiritual" para o homem, que lhe permitirá de algum modo atenuar a consciência dolorosa dos seus limites - e, ao mesmo tempo, dar renovadas asas ao seu indestrutível impulso prometaico de superação (você chama-lhe sarcasticamente "heroicidade").
    A "filosofia relevantemente cognitiva" como lhe chama e pela qual se bate, não passa de uma manifestação, porventura mais exacerbada ou inocente, dessa condição mesma, dessa "vontade de conhecer".

    Não pretendo mostrar senão isso com estes meus comentários.
    Que são também um apelo à humildade essencial que deverá unir todos os que escolheram o caminho da filosofia para responder às suas perplexidades e anseios, ou se se quiser, à sua fome de verdade. E também de justiça, sublinharei eu...

    (Acrescento, à guiza de nota final, o meu sincero pesar por este espaço ter, pelo que percebi, os dias acabados).

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    1. Não quero de modo algum irritá-lo, mas o seu comentário exibe precisamente um pensamento de cunho religioso, que respeito, mas que é muitíssimo diferente do que se faz quando se encara a filosofia de um ponto de vista primariamente cognitivo. Você invoca as ideias de Gadamer como uma pessoa religiosa invoca a Bíblia: a verdade insofismável, a autoridade que não pode ser posta em causa.

      A atitude primariamente cognitiva é totalmente distinta dessa: consiste em começar por entender com muito cuidado e rigor o que pensa Gadamer, para depois -- e este é o trabalho crucial -- discutir rigorosamente, sem subserviência, se ele tem razão ou não, e porquê, que argumentos há a seu favor, se haverá alternativas teóricas pelo menos tão plausíveis quanto a que ele defende e porquê. Evidentemente, isto é um trabalho totalmente descabido quando se tem uma atitude primariamente acognitivista. É tão absurdo ter essa atitude com Gadamer, ou Heidegger, quando se adopta esse ponto de vista, como seria absurdo uma pessoa pôr-se a discutir que indícios há que Deus realmente fez o mundo em sete dias, por que razão não poderia tê-lo feito em dois ou três, e por que razão precisava ele de descansar, sendo supostamente omnipotente. Tudo isto é ridículo, de um ponto de vista primariamente acognitivista, porque tudo o que conta no Génesis é os significados que se ocultam, se desvelam velando-se, a impressão de mistério e de exultação heróica que a leitura nos provoca, etc. Ler o Génesis cognitivamente é totalmente destituído de interesse. O mesmo acontece com a leitura de Gadamer, quando se tem uma visão primariamente acognitivista da filosofia.

      As pessoas que foram educadas na tradição acognitivista da filosofia tendem a pensar que quem tem uma formação analítica só muda os autores, o objecto de estudo, mas tem a mesma atitude acrítica, religiosa, de subserviência. E pensam então que tudo o que pessoas como eu fazem parafrasear as ideias de Frege, Carnap ou Wittgenstein. É verdade que algumas pessoas fazem isso, mas isto é fazer outra vez o mesmo -- filosofia acognitivista -- mudando apenas o objecto de estudo. É como mudar da Bíblia para o Corão, mas a atitude é a mesma. Pelo contrário, o que se faz quando se entende a filosofia como uma actividade primariamente cognitiva é discutir muito cuidadosamente se a teoria do significado de Davidson, por exemplo, é plausível e se é mais plausível do que as alternativas, e se os argumentos por ele avançados a favor dela são cogentes; o que não se faz é parafrasear Davidson de maneira desnecessariamente complicada, para dar um ar de profundidade académica à banalidade intelectual assim produzida.

      Assim, tanto se pode ter uma atitude primariamente acognitivista perante Russell ou qualquer outro filósofo analítico, como se pode ter uma atitude primariamente cognitivista perante Gadamer.

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  18. Não sei se concordo com a distinção feita pelo Desidério, acho que ela não corta o problema em suas juntas, embora eu concorde com a intuição por trás de sua crítica.

    Pelo que já li de filósofos continentais e pelo que já discuti com estudantes destes filósofos, o problema é mais simples: não é como se eles (filósofos e estudantes) estivessem todos buscando alguma espécie de consolo espiritual, muitas vezes o interesse deles é cognitivo, o problema é que em geral eles são ruins. Isto mesmo: ruins. Incompetentes. Normalmente eles não conseguem formular um argumento com clareza, não conseguem fazer distinções básicas. Claro que é difícil fazer tais coisas (ou é difícil fazer tais coisas e soar profundo e original), mas o normal é que eles desprezem tais coisas por não conseguirem realizá-las, e assim desprezam seus resultados (os argumentos e os critérios em virtude dos quais tais argumentos são considerados bons) e seus objetivos (a verdade ou que possamos descobrir a resposta para certos problemas).

    É muito mais comum o ser humano procurar por respostas fáceis do que procurar por consolo espiritual, tanto é assim que muitos continentais até gostam da ideia de rejeitar qualquer busca por "consolos espirituais" (como fazem os famosos pós-modernos), mas nenhum deles abandona a ideia de que há alguma resposta e que é fácil obtê-la (mesmo que seja a resposta de que não há nenhuma resposta ou nenhuma verdade para ser encontrada). Eles fazem de conta que não é fácil, que é preciso ler páginas e páginas de prosa obscura, mas o acordo deles sobre as "limitações severas da razão" é tão difundido e defendido por todos com tanta convicção que fica difícil não pensar que eles só fingem que não é algo que julgam óbvio. No fundo é só um dogma, só o resultado de um conjunto de preconceitos filosóficos injustificados que por uma razão ou outra são convenientes para eles.

    E não que a razão não tenha limites ou que nenhum filósofo tenha os mostrado com sucesso, acontece que os continentais não conseguem demonstrar tais limites, eles supõem que tais limites existem para justificarem a obscuridade e a ausência de argumentos.

    Para dar um exemplo, citarei o próprio Heidegger: "Não pode haver círculo vicioso na colocação da questão sobre o sentido do ser porque, na resposta, não está em jogo uma fundamentação dedutiva, mas uma libertação demonstrativa das fundações."(HEIDEGGER, 2008, p.43)

    Como é de se esperar, Heidegger não define o que seria uma "libertação demonstrativa das fundações", o que ele deixa claro é que não é uma questão dedutiva, e é fácil supor que tampouco é uma questão indutiva ou empírica em qualquer sentido. Assim, quais parâmetros de avaliação racional Heidegger nos disponibiliza para concordar ou discordar dele? Nenhum? Não é realmente surpreendente.

    *HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Rio de Janeiro: ed. Vozes, 2008.

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    1. Gregory, a filosofia continental não pode ser uma mera consequência da preguiça intelectual, pois os continentais têm muito trabalho ao escreverem, traduzirem e interpretarem calhamaços de livros ininteligíveis. Isso tudo dá muito trabalho, mas é um trabalho que é cognitivamente irrelevante, pois não envolve rigor metodológico. Repare que também o astrólogo, o numerólogo ou homeopata também têm muito trabalho cognitivamente irrelevante. O que está em causa não é o fato de serem preguiçosos ou não, mas a vontade de acreditar em determinadas idéias a despeito de objeções em contrário. Só isso explica como alguém pode acreditar piamente que intelectuais fraquíssimos como Heidegger são filósofos profundos, que a homeopatia funciona, etc. É claro que esse trabalho picareta é muito mais fácil do que um trabalho filosófico genuíno que envolve não apenas domínio da bibliografia relevante, como distinções conceituais refinadas, raciocínio intenso, etc. Mas trabalho picareta ainda assim é trabalho.

      A única possibilidade alternativa que considero nesses casos é a de as pessoas estarem muito confusas por deformação intelectual. Nesse caso eu concordaria com você: as pessoas sinceramente querem fazer filosofia, mas são incompetentes demais para isso, são muito ruins. Esse é um dos maiores problemas da falta de domínio das competências mais básicas para fazer filosofia: a ausência de competências coloca em pé de igualdade aquele que desde o início tem interesses cognitivos genuínos e aquele que deseja disfarçar seus anseios místicos de teoria. A longo prazo o primeiro se torna tão confuso por não dominar instrumentos conceituais básicos que ele se torna indistinto do segundo, ainda que suas motivações não sejam um anseio para-religioso.

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    2. Gregory, eu concordo consigo que há muita simulação nos filósofos ditos continentais, como Heidegger, Marcuse e outros. Simulação no sentido em que usam palavras filosóficas que têm, em filosofia, um significado diferente do seu significado comum, mas usam-nas sem dominar muito bem o seu significado filosófico. Deparei-me recentemente com isso ao estudar Marcuse. Ele afirma que uma dada ideia é quase uma tautologia, mas uma tautologia a que chegámos por meio de vários juízos sintéticos. Bom, isto é ignorância, porque muito dificilmente uma tautologia, que é uma frase analítica, pode ser a conclusão relevante de um processo correcto de raciocínio que inclui frases sintéticas. Outro exemplo é Heidegger, que tem um livro intitulado "A Fundamentação Metafísica da Lógica". Acontece que o que ele entende por lógica nada tem a ver com a lógica tal como realmente se faz desde Aristóteles; é uma caricatura escolar que ele tem em mente, e na qual a lógica se basearia em três leis fundamentais (identidade, terceiro excluído e não-contradição), o que é falso, já se sabia que era falso no seu tempo, e nem mesmo Aristóteles pensava tal coisa, nem os lógicos estóicos.

      Portanto, é verdade que se encontra nos filósofos continentais muito disparate; é como pôr pessoas com formação em física ou em literatura a ler filosofia e depois a dizer disparates de amador. Concordo com isso. E concordo também que depois é essa a formação que se dá aos estudantes: estes habituam-se ao jogo académico de simular saber o que realmente não sabem, mencionando obras que realmente não leram, conceitos que realmente não dominam rigorosamente e teorias que só entendem muito superficialmente.

      Só que é possível fazer uma leitura caridosa dos filósofos continentais. Errar é humano, e ainda que o erro seja fruto da desonestidade intelectual de simular ser um especialista em algo que de facto não se domina, esse pensador pode mesmo assim ter ideias que mereçam estudo sério cuidadoso. Neste caso, o que se faz é pura e simplesmente ignorar as tolices e os casos em que o autor está a simular, e vamos ao coração das suas ideias, fazendo então uma exposição muito rigorosa do seu pensamento. É o que hoje fazem vários historiadores da filosofia que têm formação académica sólida, como é o caso de Gary Gutting, que estuda a filosofia francesa do séc. XX, o que implica ter de estudar Heidegger e Nietzsche, assim como Freud, que são referências sempre presentes nestes pensadores.

      Assim, Gregory, concordo realmente com o que afirma. Mas eu estou a explicar por que razão esses aspectos são irrelevantes para tantas pessoas. Para quem tem o género de formação primariamente cognitivista, como você e eu, ler autores que parecem simular o que não dominam faz-nos pensar que estamos a perder tempo lendo um tolo que simula uma sofisticação intelectual que não tem. Mas se uma pessoa não tem uma formação primariamente cognitivista nem tem essa atitude perante a filosofia, o que a você e eu nos repugna é para essa pessoa irrelevante. Pelo contrário, o que nos atrai num texto -- rigor, argumentação cuidadosa e explícita, sofisticação, imaginação, poder explicativo, inteligência -- é desprezado por quem quer de um texto apenas um exercício performativo, literário, retórico, muito heróico e sugestivo.

      Obrigado pela sua contribuição, aprendi bastante com ela. Este é o meu último comentário neste blog.

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    3. Concordo com tuas observações Desidério, sobretudo com o que você colocou sobre fazer uma leitura caridosa, pois é algo em que peco com alguma frequência (o discurso continental tem uma capacidade ímpar de acabar com minha paciência e com minha boa vontade).

      Muito obrigado pela tua resposta e lamento imensamente que este seja teu último comentário no blog, espero que você reconsidere esta escolha.

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    4. Grégory, eu não estou neste momento com muito tempo para defender Heidegger das vossas críticas, onde ele pode ser defendido. Mas, pelo menos, indique a página e o capítulo donde citou isso Grégory para não me obrigar a gastar tempo à procura da citação (imagino que seja nos parágrafos introdutórios, mas não tenho a certeza).

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    5. Vi agora que indicaste a página, mas a minha edição é inglesa, pelo que se pudesses indicar o parágrafo, agradecia...

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    6. Olha, não compreendo bem a organização do texto na minha edição, mas a passagem citada consta em uma parte do primeiro capítulo identificada como "§2. A estrutura formal da questão do ser".

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    1. Não seria mais simples, antes de comentar a qualidade da minha leitura, apresentar a suposta definição oferecida por Heidegger ou dizer o que é "liberação demonstrativa das fundações"? Estou certo de que significa alguma coisa, mas minha questão não é esta, minha questão é: Heidegger apresenta seu problema de modo que tenhamos maneiras de discordar ou concordar racionalmente com ele?

      Cabe lembrar que esta conversa toda de "liberação demonstrativa das fundações" pretende evitar uma circularidade séria na base da questão proposta por Heidegger, de modo que a resposta dele, para ser satisfatória, tem de ser em alguma medida cognitiva (dado que a circularidade é um problema cognitivo).

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    2. A impressão que tenho sempre que critico charlatões muito respeitados em certos círculos acadêmicos é que me tacam na cara uma espécie de falácia da referência bibliográfica. Ao criticar um simples argumento de Heidegger eu sou obrigado a ouvir o mantra de que estou “citando o filósofo fora de contexto e para entender o contexto teria que ler o livro inteiro e dominar toda a sua obra”. Obviamente que na maioria dos casos um crítico não vai ler toda a obra de um autor que ele considera de partida irrelevante e assim ele é silenciado. Se alguém quer demonstrar que algum autor não é sério tem que dominar toda a sua obra, mas alguém somente terá interesse em dominar toda a obra de um autor se o considera sério de partida. É claro que esse tipo de defesa é uma grande bobagem e um filósofo que só pode ser avaliado à luz de todos os seus escritos não é digno de atenção, pois não pode ser avaliado de modo independente por contra-exemplos e intuições contrárias. De qualquer modo vocês deveriam ao menos ter a decência de explicar em que sentido a passagem citada está fora do contexto e como esse contexto bloquearia as objeções contrárias. Dizer que se considerarmos o livro como um todo a objeção não funciona é balela.

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  20. Desculpe-me meter a "colherzinha torta da Emília" na discussão (o que, na atualidade, já é, por si mesmo, bastante incorreto politicamente), mas acho que se falou aqui demais em Heidegger falando-se pouco demais nele. Vi muitos juízos de valor, muita passionalidade (tanto pró quanto contra), mas poucos argumentos substanciais acerca do pensamento de Heidegger. Deve haver argumentos filosóficos em Heidegger, não é? Se há, vamos discuti-los. Se não há argumento algum, vamos ler Pessoa. Entretanto, é da condição humana errar, acalentar falsas opiniões (morais, políticas, religiosas, futibolísticas), e não creio que devamos condenar quem tem uma opinião (que consideramos) errônea, mas sim indicar por qual razão consideramos errônea a tal opinião.

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  21. Não posso deixar de fazer três comentários (apesar de provavelmente ter de voltar a este tópico para um comentário mais extenso quando acabar os exames e trabalhos daqui a um mês...):

    1- Apesar de ser consensual que o caso de Heidegger não é como o de Frege (francamente, isso é óbvio porque as suas opiniões em filosofia da matemática e da linguagem são completamente desligadas de qualquer reflexão política), não é nada consensual que quem aceite a filosofia de Heidegger tenha de aceitar o nazismo ou que a filosofia de Heidegger tenha qualquer contraparte nazista na política sequer... Na realidade, entre os estudiosos do pensamento de Heidegger há uma grande divisão sobre isso nos estudiosos de Heidegger, Victor Farias, Habermas, Adorno, Hans Jonas, Pierre Bourdieu e Blanchot pensam que sim, Fédier (já mencionado por alguém), Pierre Joris, Jacques Derrida, Hanah Arendt e Otto Poggeler pensam que não. Seja como for, há tudo menos consenso na questão relevante.

    2- Segundo, não há qualquer apoio para o nazismo biológico de Rosenberg racista na filosofia de Heidegger. Na realidade, a filosofia de Heidegger é incompatível com qualquer tipo de racismo, pois as diferenças entre as várias raças são claramente aquilo que H. chamaria de "ôntico", sem qualquer importância filosófica para a reflexão ontológica que este pensava realizar.

    3- Mesmo que houvesse alguma implicação nazista nas ideias filosóficas de Heidegger, ainda há a hipótese de ser algo bastante lateral ao que são as ideias heideggarianas mais fundamentais (qualquer uma que se encontre em Ser e Tempo sobre tempo, existência, fenomenologia, linguagem, ciência, por exemplo). Da mesma maneira que Hegel (ou Aristóteles, while we are at it) também defendia ideias sexistas baseado na sua filosofia, mas isso não implica que que as suas discussões mais influentes (filosoficamente) tenham o mínimo traço de sexismo.

    Há bastante mais a dizer, tanto a disputar na tua lista de factos (Heidegger não quebrou com Husserl quando descobriu que ele era judeu, nem penso, mas nisto posso estar errado, que Husserl alguma vez tenha dito isso... o que ele se queixou e muito foi de lhe ser negada a entrada na biblioteca, mas isto tanto aconteceria na universidade de Heidegger como em qualquer outra...), apresentada num post anterior algures, como a acrescentar (Heidegger impediu que dois professores judaicos fossem expulsos da Universidade e defendeu-os). E, ainda a questionar a tua interpretação de Heidegger em alguns pontos que parecem sugerir o nazismo, que a acção tem primazia sobre a teoria, por exemplo (ele nega isso de modo claro na Carta sobre o Humanismo)...

    Isto por agora ainda está um esboço do que hei-de dizer no futuro e, espero, que, em discussões informais como esta, tenham paciência com a brevidade deste post que necessitaria de ser bem mais longo para responder adequadamente a tudo o que foi dito... Para não falar na importância filosófica (ou não) de Heidegger, para esse aceito o desafio lançado por alguém de defender por escrito uma ideia ou argumento de Heidegger num artigo ainda com data incerta....

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  22. José, já discutimos longamente noutro lugar sobre a importância de Heidegger e também não disponho de muito tempo agora para retomar a discussão (na verdade, também me queixo um pouco daquilo que o Desidério se queixou: as sucessivas discussões no blog levam a que outras coisas importantes fiquem sistematicamente penduradas). Seja como for, qualquer discussão contigo é sempre uma boa oportunidade para aprender também.

    Mas, neste caso, acho que alguns dos teus comentários acima não alteram nada do que disse e, em alguns casos até o reforçam. Vejamos:

    Todo o teu ponto 1 reforça o que eu procurei mostrar, a saber, que não é pacífico que a questão do nazismo de Heidegger seja filosoficamente irrelevante. Recorda que a motivação principal do meu post foi o protesto indignado de alguns leitores por ter referido o facto de Heidegger ter sido militante nazi. Algumas pessoas procuram descartar pressurosamente a ligação de Heidegger ao nazismo e eu limitei-me a sublinhar que fazê-lo é esconder uma face da moeda que não deve ser escondida e que pode até, por que não, ser iluminante acerca de algumas das suas ideias mais centrais. Insisto que foi o próprio Heidegger que sublinhou que as suas acções se seguiam naturalmente da sua filosofia. Remeto-te, a propósito, para o que o insuspeito Charles Guignon escreve na p. 36 do seu Companion to Heidegger. Aí diz isso claramente e diz ainda que não é possível encarar o nazismo de Heidegger como um produto do seu tempo sem correr o risco de trivializar o seu pensamento (bom, eu acho que nem sequer é preciso irmos chamar o nazismo para correr esse risco). Mais, diz também sobre a sua defesa do nazismo, que «given his own firm belief that those actions followed quite naturally from his philosophy, there is no way to buy into his philosophy without reflecting deeply on its moral and political implications. We must keep in mind that, as is true with Nietzsche, there is no way to make Heidegger's thought consonant with our own deepest democratic sentiments without distorting it» (p. 36).

    Já agora, entre os estudiosos que apontam um nazismo imanente ao pensamento de Heidegger, deves ainda acrescentar George Steiner, Emannuel Faye, Jonathan Glover e Christian Delacampagne, entre outros. Sem dúvida que do lado oposto encontrarás outros tantos.

    O teu ponto 2 também não altera uma vírgula ao que eu afirmei e, já agora, também não mostra que o pensamento de Heidegger não está sintonizado com o nazismo. A verdade é que Heidegger defendia uma espécie de destino especial para o povo alemão.

    Já agora, e a propósito do que pensava Husserl de Heidegger, foi o próprio Husserl que, numa carta a Dietrick Mahnke, da Universidade de Magdburgo, que o corte de relações entre ambos começou com heidegger, ainda antes de aderir ao partido nazi, mas que o corte se tornou mais notório após isso, alegando que o seu anti-semitismo se tornou cada vez mais vigoroso, mesmo contra a corte de estudantes seus entusiastas. Podes ler um execrto desta carta na p. 85 do referido Companion to Heidegger, desta vez no artigo de Thomas Sheehan.

    Concordo, em parte, com o teu ponto 3. Nada do que eu disse atrás sugere que não se deva prestar atenção ao pensamento de Heidegger. Mas também não está acima de qualquer crítica. Afinal Heidegger é Deus a falar?

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  23. Eu não estou mesmo com muito tempo agora, mas o que eu estava principalmente preocupado em discutir agora é a ligação entre a filosofia de Heidegger e o nazismo, não a sua importância como já o fizemos aqui: http://omeubau.net/ecos-wittgenstein-e-heidegger/

    E, claro que Heidegger não é um Deus, diz imensos disparates, se não há também muitas ideias proveitosas é que é a questão relevante (e, claro que os disparates devem ser corrigidos independentemente das ideias boas que possa, ou não, ter... como em qualquer outro filósofo, acrescente-se).

    A relação entre Heidegger e Husserl é notoriamente complicada (e essa carta que citas é bastante conhecida, apesar da veracidade do que Husserl diz ser novamente muito contestável... ele também diz que Heidegger o impediu de entrar na biblioteca da Universidade, apesar de estar firmemente estabelecido que não houve qualquer envolvimento nisso por parte de Heidegger), mas penso que uma análise cuidada nos mostra que não foi o anti-semitismo de Heidegger que o levou a cortar com ele. Como ele escreveu numa carta a Hannah Arendt em que esta menciona os boatos de anti-semitismo: "This man who comes anyway and urgently wants to write a dissertation is a Jew. The man who comes to see me every month to report on a large work in progress is also a Jew. The man who sent me a substantial text for an urgent reading a few weeks ago is a Jew. The two fellows whom I helped get accepted in the last three semesters are Jews. The man who, with my help, got a stipend to go to Rome is a Jew. Whoever wants to call this 'raging anti-Semitism' is welcome to do so. Beyond that, I am now just as much an anti-Semite in University issues as I was ten years ago in Marburg. To say absolutely nothing about my personal relationships with Jews [e.g., Husserl, Misch, Cassirer, and others]. And above all it cannot touch my relationship to you." (Ludz, Letters:1925-1975, p. 53)...

    Ainda podemos ir mais além, já que também é um facto conhecido que Heidegger defendeu professores judeus de serem descriminados por razões raciais e prejudicou colegas admitidamente anti-semitas. A biografia de Safranski é uma boa fonte de reflexão sobre este assunto.

    Mas, por hoje, não tenho tempo para discutir isto mais longamente. Obrigado pela pronta resposta!

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  24. Também acho que não vale muito a pena discutir detalhes biográficos, até porque confesso que a biografia de Heidegger pouco me interessa. Há biografias bem mais inspiradoras.

    Para a nossa discussão, basta conhecer alguns factos que não deixam quaisquer dúvidas acerca da militância nacional socialista de Heidegger e o facto notório de nunca ter sequer lamentado isso. De resto, no meu post nem sequer referi o anti-semitismo. Há muitos outros aspectos talvez até mais relevantes, mesmo do ponto de vista de um nazi. Aliás, há historiadores que defendem que o anti-semitismo de Hitler foi algo que simplesmente estava ali à mão e não tanto um dos fundamentos caracterizadores do nacional socialismo: a impopularidade dos judeus entre os alemães era bem conhecida e Hitler pode ter-se aproveitado disso para ir de encontro aos sentimentos das pessoas, unindo-as na luta contra um inimigo comum. No fundo, dizem esses historiadores, o que é realmente importante é a ideia de que o povo alemão é um povo com um destino singular. E este tipo de irracionalismo místico-nacionalista tresanda a Heidegger.

    Mas, mais uma vez, estamos de acordo que, no meio de todos esses disparates, até pode haver ideias ou intuições interessantes em Heidegger, as quais valerá a pena explorar. Só que o trabalho filosófico mais interessante começa precisamente a partir daí: na sua discussão, em mostrar racionalmente como essas ideias podem ser correctamente justificadas, em mostrar como elas podem ser reveladoras e frutuosas. Mas o que vejo frequentemente é tornar mais obscuro ainda o que precisaria de clarificação e justificação racional. Quase sempre que pedes a um heideggeriano que faça tal coisa, ele sente-se insultado e protesta violentamente. O que é isto senão uma religião? Nem percebo como muitas pessoas inteligentes não se sentem intelectualmente diminuídas com esta submissão voluntária que é a própria negação da atitude crítica filosófica.

    Não digo que isto acontece com todas as pessoas que estudam Heidegger, mas acontece com demasiada frequência. Com uma frequência que não se verifica relativamente a nenhum outro filósofo. E não achas que vale a pena pensar porquê? Não será, talvez, a atracção pelo oráculo.

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  25. Acho que concordo completamente com o teu comentário acima. O problema principal está no modo de proceder. Um filósofo a sério tem de considerar adequadamente as objecções às suas ideias e responder-lhes, ter atenção aos erros e falácias que podemos estar a cometer, ver se não há alternativas melhores ao que está a propor, dar bons argumentos contra teorias rivais, mostrar as vantagens da sua teoria e podia continuar e enumerar mais coisas que um filósofo sério deve fazer... Há todo um modo de proceder que Heidegger não cumpre habitualmente e ao qual os heideggarianos continentais activamente se opõe...

    Mas isto é uma perfeita estupidez e parece-me a mim que é baseado num falhanço em reconhecer a ignorância que têm face à investigação actual e, mais, que o que lhes foi ensinado nos cursos não é filosofia nem de perto nem de longe... No fundo, é o reconhecimento do que aquilo que num certo circulo intelectual se pratica como filosofia é uma farsa e está errado. Que têm de aprender lógica e estudar a bibliografia relevante... Tudo isto dá trabalho, não é a razão porque alguns deles foram para filosofia e envolve uma grande humildade e coragem que muitos não têm....

    Sobre o fascínio por Heidegger, bem eu acho que hoje o fascínio está bem reduzido... Mas o estilo aparentemente profundo e enigmático fará certamente parte da explicação...

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