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Susan Haack sobre o formalismo na filosofia

Uma manifestação de inveja da ciência é o pseudo-rigor matemático ou lógico que assola boa parte da recente escrita filosófica. Isto, falando diretamente, é um tipo de obscuridade exagerada. Não que o recurso às linguagens da matemática ou da lógica nunca ajudam a tornar um argumento ou tese filosófica mais claros; claro que torna. Mas, pode também obstruir o caminho da real claridade, ao disfarçar com uma impressionante sofisticação lógica o fracasso de pensar de modo suficientemente profundo ou crítico sobre os conceitos que estão sendo manipulados. E isso passou a ser, muito frequentemente, o que Charles Sykes chama "Profescurso" -- usar símbolos desnecessários para transmitir uma falsa impressão de rigor e profundidade.
Science, Scientism, and Anti-Science in the Age of Preposterism

Comentários

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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  2. Há uma grande diferença entre o tecnicismo necessário para exprimir uma ideia complexa e o tecnicismo usado para disfarçar precisamente a falta de ideias. É tão tolo rejeitar o primeiro como aceitar o segundo.

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  3. Pois há, Desidério. Acho que é precisamente isso que Haack quer realçar.

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  4. É curioso como esta citação de S. Haack quadra na perfeição com a intervenção de Fernando Gil num pequeno colóquio com o André barata há alguns anos atrás. Dizia Fernando Gil que a "complicação, a afectação, o pesadume retiram ao pensamento o seu efeito de convicção" e podem mesmo "mascarar défices de inteligibilidade". Continuava Fernando Gil, dizendo que era bastante sensível aos desnivelamentos entre o teórico e o técnico em filosofia ( "o requinte técnico no tratamento dos problemas disfarça por vezes um nível teórico assaz grosseiro"), e questionando se fazia sentido introduzir um instrumento tão fino como a análise modal para tratar os problemas filosóficos do mind-body problem.

    Paulo Ferreira

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  5. Não concordo que a finalidade do pensamento seja o seu "efeito de convicção"; a finalidade é a descoberta da verdade, e na melhor das hipóteses há apenas uma correlação vaga entre a convicção e a verdade.

    Também não concordo que a análise modal seja irrelevante para tratar dos problemas filosóficos da natureza dos fenómenos mentais, pela simples razão que sem pensamento contrafactual não é possível dar um só passo sequer na formulação do problema.

    É preciso distinguir entre o uso de tecnicismo que nenhum ganho cognitivo produz, do uso de tecnicismo que produz ganho cognitivo. Mas para ver a diferença é preciso dominar o tecnicismo. As opiniões sobre o tecnicismo de quem não o domina são irrelevantes, e podem até denotar inveja epistémica.

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  6. O foco maior das discrepâncias de interpretação é devido ao que se diz ser "pseudo-rigor". O que vem a ser exatamente esse "pseudo-rigor"? Se ele realmente existe? Pelo fato da autora já ter escrito livros de lógica acredito que ou a tradução não foi feliz ou seria necessário um contexto para entendermos precisamente o que ela defende.
    O rigor técnico nos textos em filosofia serve para termos maior esclarecimento e melhor desenvolvimento de raciocínio, mas acontece casos onde a preocupação técnica supera o próprio desenvolvimento do pensamento do filósofo, e devido a essa confusão mental o texto e o filósofo se tornam inteligíveis. Ou seja apesar de parecerem defender um rigor devido ao esclarecimento defendem o rigor por causa da técnica.
    Conclusão: o problema não está no raciocínio técnico mas numa estética desse raciocínio vinculada a falta de esclarecimento no pensamento.

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