23 de junho de 2012

Seis Sinais de Cientismo



1. Usar as palavras "ciência", "científico", "cientificamente", "cientista", etc., honorificamente como termos genéricos de louvor epistêmico.

2. Adotar as maneiras, as pompas, a terminologia técnica, etc. das ciências a despeito de sua real utilidade.

3. Uma preocupação com a demarcação, i.e., em traçar uma linha precisa entre a ciência genuína, a coisa real, e impostores "pseudo-cientistas".

4. Uma preocupação correspondente com a identificação do "método científico", presumido a explicar como as ciências têm sido tão bem sucedidas.

5. Procurar nas ciências respostas para questões além do seu âmbito.

6. Negar ou denegrir a legitimidade ou a excelência das outras espécies de investigação distintas da científica, ou o valor de atividades humanas distintas da investigação, tais como a poesia ou a arte.

Susan Haack, Six Signs of Scientism

8 comentários:

  1. Acerca do ponto 2. A terminologia técnica é utilizada em situações onde termos demasiado abrangentes não servem. Se isto sinaliza pompa, é equívoco da pessoa sugerir um status que não possui, pois pode-se explicar um fenômeno sem necessariamente dar ares de autoridade.
    Ademais, quando se trata de descrever, a linguagem técnica é a melhor. Se utilizamos termos ambíguos e ficamos a debater acerca de definições, é porque ainda não se tem domínio da substância, e sim apenas de conhecimento superficial. Estamos limitados a ponto de não dominar completamente o conteúdo, seja cognitiva ou epistemicamente. Ex: não-físicos falando sobre física. Há que tenha a formação adequada em outras áreas e domina as ferramentas matemáticas, mas penso que seja uma pequena parcela da academia.

    Quanto ao ponto 4. As ciências são bem sucedidas. Quando se fala em sucesso, penso em progresso na solução de questões.
    O fato de haver um procedimento presente em todas as investigações, o qual se chama 'método científico', é outra questão.

    Ponto 6. A permanência de linhas de pesquisa falhadas consome recursos que poderiam estar sendo empregados em algo com mais probabilidade de obter retorno a médio prazo. Se o critério de avaliação está equivocado, se é demasiado utilitarista, bom, que se altere o critério através do controle dos órgãos que suportam finaceiramente seja quem for. O fato é que se uma produção não dá um retorno desejado, o simples fechamento ou abandono é algo esperado. O exemplo que vem em mente é o da literatura.

    Vejo muitos pensadores temendo o destino das humanidades. Se este pensamento esta correto, se o ataque a determinados departamentos indica este caminho, acredito que a saída seja a mescla com áreas tradicionalmente com sinais de avanço, ainda que lento.

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    1. Ponto 2. Estamos falando de abuso da terminologia científica. É óbvio que não há problema algum em utilizar a terminologia de ciências como a física ou a biologia quando estamos fazendo física ou biologia, mas utilizar o linguajar dessas ciências quando estamos fazendo filosofia, por exemplo, é indício claro de confusão intelectual e é esse o ponto.

      Quando você afirma que a linguagem técnica é a mais adequada já está passando ao largo da questão. Diferentes áreas de investigação têm diferentes linguagens técnicas, mas o que está sendo criticado é a pressuposição de que a linguagem técnica de determinadas áreas (ciências como a biologia, por exemplo) envolve maior rigor ou é digna de maior louvor do que outras.

      Ponto 4. Saber se há ou não um método científico que possa demarcar a ciência das demais áreas é um problema normal de filosofia da ciência, é uma das soluções para o chamado problema da demarcação, mas se utilizar de critérios de demarcação para descartar como lixo qualquer que seja a área de investigação que não satisfazer esse critério é sinal de cientismo injustificado. Uma coisa é a conversa sobre o método científico que pretende distinguir pseudo-ciências como a homeopatia da medicina tradicional, não há problema aqui. Outra bem diferente é passar a encarar a filosofia como lixo por ela não ser falseável, por exemplo.

      Ponto 6. Presumir que áreas como a literatura são linhas de pesquisa falhadas é não entender a relevância de áreas que não têm, ou pelo menos não precisam ter os mesmos fins das ciências empíricas. Eu poderia me alongar nesse ponto, mas não vou. Se alguns pensadores temem o fim das humanidades eles precisam pensar mais uma vez sobre isso, pois não há razão para medo. As humanidades têm o seu papel e ele não pode ser confundido ou substituído por outras áreas. Todo progresso do mundo nas ciências empíricas sequer arranha a superfície de um problema de ética, por exemplo. Portanto, não há razão para não ter medo assim como também não há razão para ter inveja dessas áreas.

      Quando é defendido por um cientista o cientismo é indício de soberba epistêmica e confusão, mas quando defendido por alguém de fora da ciência é indício de inveja epistêmica e confusão.

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  2. Susan Haack vem bem ao encontro da maneira como vejo o cientismo ser difundido atualmente. Observo o comportamento delineado por ela especialmente nas redes sociais onde participo em debates.

    O ponto de vista abordado por ela sobre as proposições de Karl Popper é digno de nota.

    Acho que o artigo mereceria uma melhor atenção dos comentaristas para que não se deixem levar por prováveis preconceitos a partir somente do excerto da citação neste artigo.

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  3. Isto que aqui é dito a propósito do "cientismo" mais não é, afinal, do que aquilo que poderá ser dito, genericamente, para caracterizar qualquer "pensamento" com tendências dogmáticas, vítima, por vezes inconsciente, do sectarismo e do maniqueísmo, cujo resultado tende para avaliações ou formulações simplistas e esquemáticas que obnubilam a realidade e debilitam a capacidade (auto)crítica.

    Esse tipo de "pensamento" não é exclusivo do domínio científico ou doutro qualquer; e também pode ser surpreendido - para sermos francos - no campo filósófico, quando este se abeira descuidada e levianamente da ideologia.

    Com efeito, há quem venha defender o seu modo de ver a filosofia tendo, sobretudo (como vem no ponto 3), a preocupação com a demarcação, i.e., traçar uma linha precisa entre a "filosofia genuína" (a sua), e impostores "pseudo-filósofos", recorrendo para isso (ponto 1) a formas de análise e conceptualização em que determinados palavras são usadas honorificamente como termos genéricos de louvor filosófico ou epistémico, adoptando por vezes maneiras e terminologia técnica a despeito da sua real utilidade (ponto 2), e procurando, finalmente, negar ou denegrir a legitimidade ou a excelência das outras espécies de investigação filosófica (ponto 6).

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  4. Parece-me que os itens 3 e 5 estão em franca contradição.

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  5. Mauro,

    não há contradição entre 3 e 5. Considere 3. Eu posso defender um critério de demarcação no qual apenas disciplinas como a biologia e a química serão ciências mesmo que eu não utilize esse critério de demarcação como uma arma de retórica ideológica para desacreditar tudo o que não é química e biologia como lixo. É apenas esse interesse ideológico pelo problema da demarcação que é criticado na citação. Repara também que eu posso defender tranquilamente que a filosofia não é uma ciência como a biologia ou a química e negar que a filosofia seja uma pseudo-ciência, pois é uma disciplina não tem o mesmo objeto de investigação dessas ciências.

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  6. Não creio que 3 e 4 pertençam a esse conjunto, pois não constituem fontes necessariamente de falácias. Creio também que se pode dar o nome de pseudo-ciência à área de investigação que usa as falácias advindas de 1, 2 ou 5 para para obter aceitação junto aos incautos.

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  7. Leonardo,

    o que a Haack critica é o uso do problema da demarcação e da discussão sobre a natureza do método científico como uma arma ideológica contra tudo o que não é demarcado como ciência ou utiliza o método científico - se é que faz sentido falar de apenas um método científico. No artigo ela argumenta e explica de modo cuidadoso essas distinções.

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