10 de julho de 2012

Temos maus alunos de Filosofia?

Foto: Aires Almeida

Foram ontem publicados os resultados dos exames de Filosofia do 11º ano, da 1ª fase e não parecem mesmo nada animadores. Vejamos:

A média nacional é negativa, de 8,9 valores, contando apenas os alunos internos. Se contarmos os internos e os externos, a média desce para 7,8 valores.  

Os valores anteriores atiram directamente a Filosofia para o pódio dos piores resultados, tendo apenas atrás de si as temidas disciplinas de Física e Química e de Matemática B.

Nenhum aluno é obrigado a fazer o exame de Filosofia, ao contrário do que acontece com os alunos que frequentam as disciplinas de Matemática e de História A, por exemplo. 

Por um lado, o exame de filosofia funciona, na maior parte dos casos, como uma espécie de joker que os alunos podem usar em vez de fazerem exames de outras disciplinas nas quais sentem mais dificuldades. Por outro lado, os que fazem o exame de Filosofia, não porque se sintam mais confortáveis com a disciplina, fazem-no porque pretendem ingressar em algum curso superior que exige como prova de ingresso o exame de Filosofia.  

Será que temos mesmo maus alunos de Filosofia? Como explicar este inesperado e intrigante insucesso?

15 comentários:

  1. Sim, temos maus alunos de Filosofia. Pensar dá trabalho, quanto mais pensar racional e logicamente - com a radicalidade necessária. Reformulando, temos alunos que, apesar de não serem maus directamente, são preguiçosos, vivem o sentido que a caixa tecnológica lhes dá e mais nenhum. Sentem o que lhe dão, mas nada descobrem. O que faz desses alunos maus, na Filosofia, mesmo que indirectamente.

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  2. Claro que temos maus alunos de folosofia.
    Apesar de ter sido a disciplina que mudou a minha vida, o meu filho odeia e não percebe nada. É tudo muito teórico, odeia.
    Quando o tento ajudar, estudando com ele, verifico que as matérias não têm nada a ver com o que me foi lecionado no secundário.
    Devia ser uma disciplina opcional, pelomenos nas áreas de ciências. De quelhes serve?
    Também não percebi porque passou a ser obrigatória em todas as áreas. Para dar trabalho aos licenciados em filosofia?
    Só não fui para o cursode filosofia era ser professora e não o queria ser. Enveredei pela gestão, sou TOC. Estou muito arrependida, devemos seguir os nossos sonhos.
    Vivo em Setúbal, não há estudos superiores em Filosofia e não tenho possobilidades de ir para Lisbos com muita pena minha.
    Já me alonguei, peço descula.
    Uma boa noite!

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    1. Boa noite Pérola!

      Poderia-me explicar, muito sucintamente, o porquê de se ter arrependido na escolha do curso de Gestão? Porque se arrepende de não ter seguido Filosofia?

      Uma boa noite.

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    2. Boa noite Pérola!

      Poderia-me explicar, muito sucintamente, o porquê de se ter arrependido na escolha do curso de Gestão? Porque se arrepende de não ter seguido Filosofia?

      Uma boa noite.

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  3. Temos maus alunos nos exames de filosofia, o que não será exactamente o mesmo que maus alunos de filosofia.

    Mas mereceríamos ter melhores alunos de filosofia?

    Ter muitos bons alunos nesta filosofia examinada, examocrática, é que seria ainda mais preocupante.
    Uma filosofia vertida em técnica pedagógiga, objectivada, medida: sintoma do academismo que a mina por dentro (erro primeiro de Platão?), e que a torna imprestável a não ser como ganha (pouco) pão de mestres escola.

    Ainda conseguirá a filosofia levantar voo neste crepúsculo donde a ave de Minerva parece ter desertado?

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  4. A pergunta que deve ser feita é: o que é ensinado é filosofia mesmo? vi alguns testes de filosofia e me pareceu muito mais uma "decoreba" de "quem disse isto" ou de quem é a teoria tal. Muito se assemelha com aulas de literatura; é mais um monte de informações e não um complexo de conhecimento. Nossos professores não estão preparados para ensinar filosofia, mas só jogar a matéria de decoreba.
    Observem quantas teses de doutorado existem que são só uma "releitura" ou uma mera interpretação de texto, tais como "a razão em kant". Que inovação existe nisto? onde está a filosofia? isto é interpretação de texto puro e simples. Se kant deu um passo a frente, inovando no conhecimento humano, este pseudo doutor ficou atras, na sombra; nada trouxe de novo ao mundo; imitou. Uma pena que estes mestres e doutores sejam apenas mais alguns decoradores de teses de filósofos renomados e, por certo, geram efeitos em nossos alunos.

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  5. A Pérola do comentário (valioso) merece resposta. Tem toda a razão. Há, em princípio, uma incompatibiliade irredutível entre a Filosofia - um dos mais poderosos convites à liberdade ou libertação possível aos humanos - e qualquer regime de escolaridades ou currículos obrigatórios. Mormente nos dias de hoje, entre nós, com a generalidade dos alunos a chegarem ao 10º ano muito londe da maturidade e dos mínimos conhecimentos culturais e competências linguísticas imprecindíveis a uma iniciação no filosofar. (Isto não implica que tal iniciação não se possa preparar desde muito cedo, até desde a infância, para os jovens que, mais tarde, quiserem por si atirar-se à maravilhosa, apaixonante e perigosa aventura da Filosofia). Por isso, eu não teria dúvida em defender a imediata extinção da disciplina nos actuais 10 e 11º anos, mantendo-a só, parajá, no último do secundário.

    O comentário de Ricardo Nunes também é muito interessante e tem que se lhe diga. Por ele viríamos às questões do Programa e dos professores que temos. Mas vamos só ao que sempre mais importa, apesar de tudo: - a Filosofia é hoje o que sempre foi; convém muito, no entanto, não a confundir nem reduzir com o que se faz dela nas escolas que em geral temos nesta parte do mundo (ocidental) e em toda a indústria cultural que lhes anda ligada.

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  6. Foram colocadas aqui algumas questões que merecem resposta. Antes de tudo, não temos maus alunos exclusivamente a filosofia, mas a avaliar os resultados temos maus alunos a praticamente todas as disciplinas. Uma das razões que explica maus resultados em exames é a falta de cultura de exames no nosso sistema de ensino. E tal não se repara somente num ano. Em resposta à questão lá mais acima sobre a utilidade da disciplina, que é demasiado teórica, essa mesma pergunta pode ser colocada em relação à matemática, física ou até mesmo à história. Todas elas são, obviamente, teóricas. É verdade que podemos fazer física experimental, mas tal não é prática comum no ensino. Aliás, basta olhar para os exames para perceber isso mesmo. Se o exame de filosofia fosse obrigatório certamente teríamos melhores resultados, pois deixaria de funcionar, como referiu o Aires, como Joker. Finalmente, não tenho dúvidas que muitas aulas de filosofia sejam dadas quase como literatura pouco mais se fazendo que interpretação de textos, mas tal não pode nem é generalizável, já que há bons professores de filosofia que praticam um bom ensino da disciplina. E há bons professores que tem dificuldade em praticar um bom ensino com turmas menos boas, como há professores menos bons com turmas melhores e que fazem um ensino débil da disciplina. Mas se isso é razão para acabar com a disciplina, nesse caso sugiro que se acabe de vez com o ensino pois essa é a realidade de qualquer instituição de ensino em qualquer parte do mundo.

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  7. "Uma das razões que explica maus resultados em exames é a falta de cultura de exames no nosso sistema de ensino".
    Se for por isso, Rolando, Nuno Crato resolverá o problema...

    Mas será esse o problema essencial que está aqui em causa?

    Não será ele, antes, a falta de qualidade do processo ensino/aprendizagem, designadamente na filosofia?
    Os exames deverão apenas servir de instrumento de regulação e de aferição do sistema, mas apenas porque, ou enquanto, este está completamente deterioridado por anos de facilitismo e laxismo.
    Acontece que, com a deriva mega e utilitarista que assola o nosso ensino - mega-escolas, mega-turmas, submissão às exigências mercantilistas dominantes -, os exames, entendidos quase como um fim em si mesmos, aparecerão como um mero álibi para mascarar quer a falta de uma aposta efectiva na qualidade das aprendizagens, quer os próprios disfuncionamentos sistémicos.

    Na filosofia, em particular, essa pulsão examocrática, pode apenas servir para tentar iludir o principal: a redução do ensino da filosofia a uma técnica, uma pedagogia rotineira, uma apologia do "pensamento" resignado e bem comportado - seja do lado tradicional ("comentário e rememoração de extração historicista"), seja do lado analítico("técnica argumentativa que descura o fundamento/conteúdo dos problemas").

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  8. «Será que temos mesmo maus alunos de Filosofia? Como explicar este inesperado e intrigante insucesso?»

    Os alunos são os mesmos que eram quando há alguns anos foram obrigados a fazer os reintroduzidos exames. De maneira que os resultados terão um significado meramente circunstancial, dependente dos alunos, qualidade e conteúdo das provas e dos critérios de avaliação, bem como dos avaliadores. Veremos a 2ª fase e os próximos anos.

    Certo e seguro é que os exames foram reintroduzidos para um Programa concebido sem eles, e que devia ter sido revisto ANTES.Pois mantém-se até agora!... Parece que, da parte de alguns crentes nas virtudes panaceicas dos exames (até para a "dignificação" da disciplina, era mais importante e urgente repor os exames do que rever um Programa que lhes é de todo desadequado. É a chamada falácia do carro à frente dos bois, mais uma para a colecção do sr. Rolando.

    O sr. Ricardo Nunes vem-nos aqui com declarações surpreendentes: pois o que é que poderia haver de alternativo ao "lado tradicional" e ao "lado analítico" ? Muito estimaríamos sabê-lo!

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  9. As suas declarações, Duarte Meira, pelo contrário, não me surpreendem.
    Elas são subsidiárias do pensamento dominante, que não descortina nem deseja que se procurem alternativas para o estado actual das coisas - seja no domínio político-social, seja no domínio cultural, seja ainda no filosófico ou no pedagógico.

    O maniqueísmo que oscila, esquematicamente, entre o "lado tradicional" e o "lado analítico" (para nos atermos ao campo da filosofia escolar) é a melhor maneira de confirmar o pensamento único, que se sustenta de falsas alternativas.

    Se eu lhe adiantasse ou tentasse explicar que a sobrevivência e dignidade do pensamento (tarefa primeira da filosofia) se deve dirigir, sem concessões, para o "lado" crítico e intempestivo, que a actual situação torna particularmente premente e urgente, já percebi que isso lhe servia de pouco...

    Você, notoriamente, não compreendeu o fundo da questão que os exames revelam (que refiro no meu 2º comentário), o iceberg de que eles são apenas a ponta visível.
    A filosofia é (mais) uma passageira desse Titanic...

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  10. Caro sr. Aires, seja-me permitida breve resposta ao caríssimo sr. Ricardo, que só pude ler hoje e continua surpreendente (mas pouco explícito).

    Eu defendi a extinção da disciplina de Filosofia no 10º e 11º; e, já agora, acrescentaria que o 12ºano, introduzido por razões meramente administrativas nos anos 80 (entupimento das vagas para o lotado superior), é de todo desnecessário. Ora, assim sendo...

    Não lhe parece que isto é consistente com "falta de qualidade do processo ensino/aprendizagem, designadamente na filosofia", como diz o meu caro ?

    Quanto a aicebergues, deixemos essas metáforas freudianas para a psicanálise e traga-nos as coisas claras à tona da consciência e duma linguagem inteligível, para não nos "afundarmos" no "fundo" das questões.

    Pressinto (não tenho pruridos com a palavra)que nem será difícil entendermo-nos.

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  11. Simplesmente não se disse que a maioria dos examinandos foram alunos que tiveram negativa na frequência e tiveram no exame a possibilidade de realizar a disciplina mediante um exame a nível nacional (refiro-me aos alunos dos cursos científico-humanísticos).

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  12. Simplesmente não se disse que a maioria dos examinandos foram alunos que tiveram negativa na frequência e tiveram no exame a possibilidade de realizar a disciplina mediante um exame a nível nacional (refiro-me aos alunos dos cursos científico-humanísticos).

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  13. Há um equívoco tremendo neste exame. Deriva do facto de não ser obrigatório. Daqui resultam 2 consequências: 1ª - o docente adota uma lecionação que não visa o exame e, quando o faz, sendo exigente, os alunos afirmam em coro não irem a exame, pois uma preparação rigorosa colocava-lhes as médias próximas da Física ou Matemática; 2º - a maior parte dos alunos que decide submeter-se a exame quando percebe a catástrofe inevitável a física ou biologia e apenas começa a estudar tarde de mais. Na escola onde trabalho chegaram a permitir inscrições para o exame depois dos alunos terem feito o último teste do último período a física ou biologia! Só isto explica estes resultados num exame onde se inquiria o básico do básico.

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