12 de julho de 2012

Uma falácia à procura de nome

Chama-se falsas às notas que parecem verdadeiras. Esta parece verdadeira. Portanto, é falsa.

1. «Consideram-se falácias informais os argumentos que parecem ser dedutivamente válidos.»

A afirmação 1 ou é verdadeira ou é falsa. Um colega insistia ontem comigo que é verdadeira, até porque viu isso bem defendido algures. Mas tal afirmação é tão verdadeira como a seguinte:

2. «Consideram-se gatos os animais com pelos.»

Ora, qualquer pessoa sabe que 2 é falsa, mesmo sendo verdade que todos os gatos têm pelos. Isto porque não basta (não é suficiente) um animal ter pelos para ser considerado (ou chamado) gato.

Se substituirmos a expressão «falácias informais» por «gatos» e «os argumentos que parecem dedutivamente válidos» por «animais com pelos» verificamos facilmente que estamos perante afirmações idênticas, só que acerca de coisas diferentes.

Assim, se dizemos que 2 é falsa, temos também de admitir que 1 é igualmente falsa.

E de nada serve dizermos que estamos a falar de coisas diferentes: se for falso, como é efectivamente, que 3 cebolas são mais cebolas do que 5 cebolas, então também tem de ser falso que três batatas são mais batatas do que 5 batatas. Falar de cebolas ou batatas é tão irrelevante como falar de falácias informais ou de gatos.

Se a afirmação 1 fosse verdadeira, então nada haveria de errado no seguinte raciocínio da Joaquina, que vende gelados na praia:

JOAQUINA: Olhó gelado fresquinho!
CLIENTE ANÓNIMO: Minha senhora, dê-me um gelado de chocolate, por favor.
JOAQUINA: Aqui tem.
CLIENTE ANÓNIMO: Bom, não tenho trocado. Posso pagar com uma nota de 50?
JOAQUINA: (observando com cuidado a nota) Humm...
CLIENTE ANÓNIMO: O que passa? Está com dúvidas?
JOAQUINA: Humm... ok, parece verdadeira.
CLIENTE ANÓNIMO: Ah!
JOAQUINA: Logo, é falsa.
CLIENTE ANÓNIMO: Hã?

Alguém convenceu a Joaquina que se consideram falsas as notas que parecem verdadeiras. Simplesmente considerou que a nota era falsa, dado que parecia verdadeira.

A Joaquina aplicou bem o que aprendeu. Só que um raciocínio que nos leva de premissas verdadeiras a uma conclusão falsa tem de padecer de algum vício, mesmo que pareça válido. É o que acontece precisamente com as falácias.

Temos, portanto, aqui uma falácia. Hesito em lhe dar um nome. Aqui fica, pois, esta falácia à procura de um nome. Há ideias?

12 comentários:

  1. Dado um argumento qualquer, parecer que é dedutivamente válido não é nem uma condição necessária nem uma condição suficiente para ser uma falácia informal.

    Não é uma condição necessária porque há falácias informais que não parecem argumentos dedutivamente válidos. É o caso das falácias indutivas (http://criticanarede.com/induct.htm), mas também de muitas outras.

    E não é uma condição suficiente porque muitos argumentos dedutivamente válidos parecem válidos, e nem por isso são falaciosos.

    O autor da afirmação acima 1) não sabe lógica e 2) não sabe sequer escrever com rigor a língua portuguesa, distinguindo o que no máximo são implicaturas conversacionais, do que é literalmente afirmado. Talvez haja uma implicatura na afirmação, de modo que "parece que é um argumento dedutivo válido" quer literalmente dizer "parece que é um argumento dedutivo válido, mas não é". Mas as implicaturas conversasionais chamam-se "conversasionais" precisamente porque são comuns no discurso oral, mas de evitar no discurso escrito.

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  2. Já agora, o que é uma falácia informal? É um argumento que parece cogente mas não o é, mas que não deve a sua falta de cogência à forma lógica. Por exemplo, a falácia do falso dilema é uma falácia informal pela razão apontada; curiosamente, é muitas vezes um argumento dedutivamente válido. A falácia resulta de ter uma premissa que parece esgotar todas as possibilidades, mas não o faz. Por exemplo: Ou me amas, ou me odeias. Mas não me amas. Logo, odeias-me. Este argumento é dedutivamente válido, mas a primeira premissa é falsa. É falacioso porque parece que, além de válido, é sólido, apesar de não ser sólido. Todavia, a sua falta de solidez não se deve à forma lógica, que está correcta, mas antes à falsidade da primeira premissa.

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    1. Certo, Desidério. Eu já nem sequer precisava de ir por aí.

      Há argumentos que parecem válidos e que são válidos.
      Há argumentos que parecem inválidos e que são inválidos.
      Há argumentos que parecem válidos e que são inválidos.
      Há argumentos que parecem inválidos e que são válidos.
      Há argumentos que nem parecem válidos nem inválidos e que são válidos.
      Há argumentos que nem parecem válidos nem inválidos e que são inválidos.

      Enfim, há de tudo. Isto para já nem falar das noções de «parecer válido» e de «parecer inválido».

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  3. Com a habitual clareza, mostra o sr. Desidério que a forma lógica (válida) não faz só por si um argumento bom. A inversa avisa-nos da possibilidade de argumentos bons e inválidos logicamente.

    Quanto a - "Chama-se falsas às notas que parecem verdadeiras. Esta parece verdadeira. Portanto, é falsa" - parece jogar na ambiguidade de sentidos: "Chama-se falsa às notas que parecem verdadeiras, mas na realidade não o são. Esta, que parece verdadeira, pode ser ou não ser." Eis as "implicaturas conversacionais" implícitas.

    Há também uma equivocação mais estritamente lógica, na quantificação de "às notas" (todas? algumas?.

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  4. "Só que um raciocínio que nos leva de premissas verdadeiras a uma conclusão falsa tem de padecer de algum vício, mesmo que pareça válido."

    Mas o problema aqui não é exactamente a premissa ("os animais com pelo são gatos", "as notas que parecem verdadeiras são falsas"...) ser falsa?

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    1. Exacto, Miguel. Eu apenas estava a conceder estrategicamente que a premissa é verdadeira para mostrar o disparate que daí se segue.

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  5. Dado que o que se passa é que parece que se dá uma definição mas no fundo não se apresentam condições necessárias nem suficientes, poderia chamar-se a isto "falácia da falsa definição".

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  6. De duas afirmações com a mesma forma lógica pode-se dizer somente que ou são ambas verdades lógicas, ou são ambas falsidades lógicas, ou são ambas contingências. Se são contingências, nada obsta que uma seja factualmente verdadeira e a outra factualmente falsa.

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  7. Segue-se, do anteriormente exposto, que se dizemos que "Consideram-se gatos os animais com pelos" é falsa, DISSO NÃO SE SEGUE que temos também de admitir que "Consideram-se falácias informais os argumentos que parecem ser dedutivamente válidos" é igualmente falsa, embora ambas sejam falsas.

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  8. Frank, o que diz está correcto, o que mostra que talvez eu não tenha sido totalmente claro. O que está em causa não é a forma lógica de ambas as afirmações, mas a analogia entre ambas no que diz respeito aos conceitos envolvidos e ao modo como eles são definidos.

    Obrigado pela observação, mesmo assim.

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