11 de agosto de 2012

Leituras de férias: o que é isso?


Mal se aproxima o Verão, não há jornal ou revista de actualidades que não brinde os leitores com sugestões de leituras de férias. A julgar pela prosa que costuma acompanhar tais sugestões, fica-se com a ideia que há leituras de férias e leituras que não são de férias.

A ideia é que nas férias precisamos de livros pequenos, ligeiros e pouco exigentes, talvez porque as pessoas estejam cansadas pelo exigente esforço intelectual despendido ao longo do ano a ler e estudar Kant e Proust, ou tentando demonstrar coisas tão difíceis como o Teorema da Densidade de Hales-Jewitt. Como chegamos todos ao Verão intelectualmente exaustos, pouco mais conseguimos aguentar além de umas historietas engraçadas que não dêem muito que pensar. 

Vem isto a propósito do comentário de um velho amigo meu que, ao ver-me há dias com um livro na mão, sorriu de forma trocista, saindo-se com a seguinte tirada: já vi que, para estares a ler isso, férias não é contigo!

Isso que estava a ler era Death, de Geoffrey Scarre (publicado em 2007 pela Acumen), um tema da filosofia sobre o qual pouco tinha lido e que há algum tempo (sobretudo depois de ter visto na net algumas das lições de Shelly Kagan sobre o assunto) me despertava a atenção. O meu amigo achou a minha leitura completamente deslocada para a época de férias. Perguntei-lhe porquê e respondeu-me que era um tema mórbido, além de nos fazer pensar demasiado. E não me conhecesse ele  muito bem, ainda era capaz de ficar preocupado comigo, pensando que eu estava com tendências suicidas. 

Bem tentei explicar ao meu amigo que me sentia realmente de férias e que aquele livro estava precisamente à espera das férias para ser lido. Mais, que a sua leitura era bastante agradável e que até estava, em certa medida, a contribuir para umas férias mais interessantes.

Acho que não se deixou convencer. 

É pena. Será assim tão disparatado aproveitar a generosa pausa estival para ler o que ficou de lado há muito, precisamente por estarmos a trabalhar e nos faltar tempo para isso? Será assim tão cansativo ler algo que faça pensar? Não será, pelo contrário, mais cansativo e disparatado ler algo que não dê que pensar?

Seja como for, ocorreu-me também sugerir algo para ler nas férias. E lembrei-me de algo que seja capaz de satisfazer diferentes tipos de leitores, desde que não detestem pensar e gostem de aprender com o que lêem. Estou a pensar nos quatro livros de Jorge Buescu, publicados na colecção Ciência Aberta, da Gradiva, o primeiro dos quais de 2001 e o último de 2011, cujo título é Casamentos e Outros Desencontros.

Buescu é, a par de Carlos Fiolhais e Nuno Crato, dos melhores divulgadores de ciência portugueses, ao nível do melhor que se faz em todo o mundo. Cada um destes livros recolhe pequenos e interessantes artigos, principalmente sobre matemática. São artigos escritos a pensar no leitor comum, mas curioso e inteligente. Pode-se começar por onde se quiser e até saltar de um livro para o outro, sem problemas. 

Será esta uma boa leitura de férias? 

1 comentário:

  1. Realmente concordo quando afirma que as férias servem para pôr em dia a leitura que tinha ficado para trás. Eu pessoalmente aproveitei o facto de depois da universidade, sem qualquer trabalho ou emprego, ler os livros que há muito queria ler. E não me arrependo, porque agora já não tenho tempo para isso!

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