2 de Setembro de 2012

Dummett, metafilosofia e uma disputa sobre o tempo


"Sobre o quê, então, é a filosofia? Para Quine e alguns outros filósofos americanos contemporâneos, a filosofia é simplesmente a parte mais abstracta da ciência. Ela não faz, de facto, qualquer observação ou conduz quaisquer experimentos próprios; mas pode, e deve, incorporar as descobertas das ciências para construir uma teoria naturalizada do conhecimento e da mente. Propriamente falando, então, ela deve ser classificada com as ciências naturais.

Wittgenstein era da opinião exactamente oposta. Para ele, a filosofia encontra-se em completo contraste com a ciência: os seus métodos divergem completamente daqueles da ciência e o seu objectivo diverge em igual grau. Provavelmente a maior parte dos filósofos praticantes hoje iria concordar com isto e acrescentaria que os resultados da filosofia divergem totalmente daqueles da ciência. Wittgenstein era mais radical. Ele não pensava que a filosofia possui quaisquer resultados, na forma de proposições enunciáveis que foram descobertas ser verdadeiras; a filosofia meramente lança luz naquilo que nós já conhecemos de outras fontes, permitindo-nos vê-lo com olhos que não estejam enevoados por confusão intelectual.

A melhor maneira de resolver esta disputa, e dizer sobre o que é a filosofia e porque meios procede, é considerar um problema filosófico de amostra. Pelas razões explicadas no capítulo precedente, não foi até ao século dezanove que fez sentido perguntar por um exemplo de problema filosófico, por oposição a um problema de outro tipo; até hoje, poderia facilmente haver disputas sobre se um problema pode ser genuinamente filosófico ou não. Mas há casos paradigmáticos de problemas que toda a gente pode concordar que são filosóficos por natureza. Um seria este: O tempo realmente passa?

Uns podem dizer que evidentemente o faz: o mundo muda assim que novos eventos ocorrem; estes eventos anteriormente permaneciam no futuro e vão, no tempo devido, acabar e retroceder para o passado. Mas outros negam que o tempo passe neste sentido. Existem relações temporais entre eventos – certos eventos temporalmente precedem outros – mas isto é tudo o que o tempo é: ser uma dimensão em que eventos têm diferentes localizações.

Este é claramente um desacordo filosófico. É de facto, um desacordo metafísico: é sobre a natureza, não da mente ou do comportamento humanos, mas da realidade externa. Face a esse desacordo, como deve um filósofo proceder? Ele pode começar por perguntar aos defensores da passagem do tempo para clarificar a sua tese. O que, ele pode perguntar, é que eles pensam que é? Uns podem replicar que o que vai ser não é, e o que deixou de ser não é: tudo o que é existe agora. Isto significa, ele inquire, que asserções sobre o que vai acontecer ou sobre como as coisas anteriormente eram são nem verdadeiras nem falsas? Porque, ele insiste, uma asserção só pode ser verdadeira se houver algo em virtude de que seja verdadeira: portanto, se tudo o que é, é o que existe agora, nenhuma asserção sobre o futuro ou sobre o passado pode ser verdadeira. Alguns podem entusiasticamente concordar. A realidade, dizem eles, está em constante mudança. As únicas asserções verdadeiras são aquelas que representam a realidade como é, isto é, como é agora; não pode haver verdades sobre o que vai ser ou sobre o que foi.

Outros crentes na passagem do tempo podem dar uma resposta mais moderada. Eles podem insistir que o filósofo se esta a esquecer que o verbo “ser” tem modos temporais. Se for perguntado o que é, no modo presente, a resposta deve ser restrita ao momento presente; mas também há respostas às questões sobre o que vai ser e sobre o que já foi. O princípio de que uma asserção pode ser verdadeira só se existir algo em virtude de que é verdadeira deixa passar o facto que a natureza flectida do verbo “ser”: deve ser verdade “só se há, vai haver, ou houve algo em virtude de que é verdadeira.” O que, então, diferencia esta posição daqueles que negam a passagem do tempo? pergunta o filósofo. Essas pessoas deixam de fora da sua descrição da realidade um facto essencial, é-lhe dito, nomeadamente, que certos eventos ordenados por sequência temporal estão a ocorrer agora.

O céptico responde que a questão “Que evento está a acontecer agora?" meramente pergunta que evento é simultâneo com o perguntar da questão, que é ele próprio outro evento. Não, o oponente dele responde. Quando uma experiência dolorosa cessa e eu exclamo, “Graças a Deus que isto acabou”, eu não estou a regozijar-me por uma mera relação de precedência temporal, ele diz, pois eu já sabia em avanço que eu devia dizer, “Graças a Deus que isto acabou”, e que eu dizê-lo só ocorreria depois da experiência ter chegado ao fim. Tudo o que isto significa, o oponente da passagem temporal replica, é que o teu sentimento de alívio seguiu-se, em vez de preceder, o fim da experiência dolorosa; é ainda apenas uma questão de sequência temporal.

O crente na passagem do tempo pode agora objectar que o seu oponente está a espacializar o tempo, tratando-o como apenas mais uma dimensão a acrescentar às três do espaço. Isso, ele diz, abole o tempo, já que não permite a realidade da mudança, enquanto que a mudança é da essência do tempo. O seu oponente replica que ele reconhece a mudança: existe mudança quando uma proposição verdadeira é convertida numa falsa substituindo uma especificação temporal ocorrente nela por uma diferente. “É precisamente isso que estou a dizer,” o defensor da passagem do tempo pode exclamar: “poderias definir ‘mudança espacial’ substituindo ‘especificação de lugar’ por ’especificação temporal’; mas de facto de haver relva neste lugar e nenhuma a um quilómetro de distância não implica que alguma mudança ocorreu ou está a ocorrer.” “Isso é contrário à maneira como falamos,” pode ser replicado: nós dizemos tais coisas como “O terreno muda a este do local.” “Só porque nos imaginamos a viajar nessa direcção,” o outro responde.

Nós não precisamos de seguir o debate desta disputa bem conhecida mais longe; levada só até aqui, ilustra adequadamente o carácter da discussão filosófica. A disputa certamente concerne a realidade: de acordo com a posição que alguém tome sobre ela, ele irá conceber o mundo de uma maneira ou de outra. Mas o assunto não pode ser resolvido por meios empíricos: teorias científicas podem ser de importância – por exemplo, é relevante que, de acordo com a relatividade especial, a simultaneidade seja relativa a um sistema de referência. Mas a ciência não pode resolver a questão: nenhuma observação pode estabelecer que um lado ou outro está certo. Um filósofo vai procurar ou mostrar que um dos disputantes está certo ou está errado, talvez com alguma clarificação dos dois lados, ou então dissolver a disputa mostrando que ambos os lados podem ser vítimas de alguma confusão conceptual. A filosofia, de facto, está preocupada com a realidade, mas não para descobrir novos factos sobre ela: procura melhorar o nosso entendimento do que já sabemos. Não procura observar mais, mas clarificar a visão do que já vemos. O seu objectivo é, na frase de Wittgenstein, ajudar-nos a ver o mundo correctamente.

Quer o filósofo declare ter resolvido um problema ou tê-lo dissolvido como um pseudo-problema, ele procederá por argumentação racional. A filosofia partilha com a matemática a peculiaridade de não apelar a novas fontes de investigação, mas repousa somente em raciocínios que tenham por base o que já sabemos. Ela difere da matemática na medida em que prefere territórios obscuros. Os matemáticos já se têm às vezes envolvido em análise conceptual, procurando definições de conceitos como equivalência numérica, continuidade e dimensão. Mas os seus objectivos divergem daqueles dos filósofos. Eles pouco se preocupam se as definições a que chegam capturam o conceito como nós implicitamente o entendemos na vida quotidiana: eles estão apenas preocupados em formular um conceito preciso debaixo do qual possa razoavelmente ser dito que um caso determinantemente ou caí ou não caí. Tendo feito isso, a sua argumentação procederá dentro dos limites das definições que eles adoptaram. O raciocínio do filósofo toma lugar na base de um entendimento implícito existente; apela a esse entendimento e logo não é executado, como o do matemático é, dentro de um enquadramento de conceitos já feito preciso.

Logo o único recurso do filósofo é a análise dos conceitos que já possui, mas sobre o qual está confuso; ele procura remover essa confusão. Quer ele procure fazer isso por uma análise das expressões da nossa linguagem ou por qualquer outro meio é uma questão da sua metodologia filosófica; as diferenças metodológicas podem ser marcadas, mas o objectivo é o mesmo. Na disputa filosófica de amostra que nós examinamos, o filósofo não pode argumentar a partir da apreensão de sucessão temporal que pode ser atribuída a uma criança. A questão que estava em disputa só pode surgir para um adulto para quem as nossas maneiras de falar sobre o tempo sejam conhecidas. É pois estéril perguntar se a filosofia é sobre a realidade, sobre os conceitos em termos dos quais pensamos a realidade, ou sobre os meios linguísticos que usamos para expressar esses conceitos. É sobre a realidade por procurar clarificar os conceitos em termos dos quais a concebemos e, logo, as expressões linguísticas por meio da qual formulamos a nossa concepção."

Sir Michael Dummett, The Nature and Future of Philosophy, pp. 7-11.

7 comentários:

  1. A filosofia procura melhorar o nosso entendimento do que já sabemos? Mas o que quer isto dizer realmente: "melhorar o nosso entendimento"?

    Seja como for, não consigo ver bem como é que Dummett tira a conclusão que tira com base no que disse antes. Eu não chego lá.

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  2. A culpa não é tua Aires, nem do Dummett, provavelmente é minha porque parei aqui a linha de pensamento de Dummett principalmente porque o texto estava a ficar demasiado grande e porque a posição que Dummett quer atacar é a de Quine principalmente (embora certamente também se oponha a pessoas como Van Inwagen, Ted Sider, Fine e a maioria dos metafísicos contemporâneos, que acham que as respostas a questões metafísicas são sobre a estrutura profunda da realidade, por oposição a revelarem mais algo sobre a nossa estrutura conceptual do que propriamente sobre a 'mobília' do mundo). Mas já vou traduzir o resto do texto necessário.

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  3. Já está Aires. Agora se melhorou ou não a compreensão do texto, é outra questão (ou ainda se tornou a tese de Dummett mais clara ou até plausível).

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  4. Dummett já é no idioma original difícil de ler, e naufraguei no entendimento dos seus Seas of Language (que não fui capaz de concluir)

    Lamento dizer que a tradução de Gusmão Rodrigues não me ajudou a vir à tona. Temos aqui um texto que pede meças e até parece escrito por um... Heidegger!

    Sendo assim, parece que o texto serve bem a tese - "O único recurso do filósofo é a análise dos conceitos que já possui, mas sobre o qual está confuso"...

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  5. "Ela [a filosofia] difere da matemática na medida em que prefere territórios obscuros."

    Creio que o objetivo da filosofia deve ser clarear esses territórios, para que se possa caminhar com desenvoltura por eles. Para isso, talvez seja interessante aproximar a prática filosófica do método rigoroso da matemática. Não digo utilizar a matemática como instrumento da análise filosófica, o que seria uma inversão: a filosofia é a base de todo o conhecimento, inclusive o matemático. Penso que a filosofia deve ser assentada sobre uma firme base semântica para, a partir daí, construir, via a sintaxe da lógica clássica, todo um sólido edifício.

    Sobre o exemplo, talvez possamos definir nossos objetos de análise de forma a concluirmos que o tempo não passa, mas não creio que uma tal teoria que falhe em asseverar um fato tão fundamental quanto a passagem do tempo e a existência de mudanças seja muito útil na clarificação da realidade.

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  6. Olá a todos!
    Li com alguma atenção este post, e pareceu-me que Dummett tenta responder à perene pergunta 'Para que é que serve a Filosofia?'. E mantém-se, segundo percebi, na tradição de que a Filosofia serve para a clarificação conceptual.
    Creio, no meu ponto de vista cauteloso, que esta posição metafilosófica é preconceituosa. Por que o que a Filosofia tenta clarificar, surge sempre com um emaranhado de sombras de modo a iluminar aquilo que se quer clarificar.
    O clarificar é uma ilusão cartesiana, e é um mito. Aquilo que eu chamo 'mito da claridade'. O que um filósofo acha clarificado, um outro acha completamente obscuro.
    Um outro assunto metafilosófico é a questão de a Filosofia ser "a base de todo o conhecimento, inclusive o matemático" como diz o Leonardo Medeiros. Até porque a Matemática é bastante anterior, em termos históricos, à Filosofia.
    Para um debate metafilosófico é necessário ver que existem outras posições, por vezes bem mais radicais, mesmo que estas à partida não estejam alinhadas com um determinado pre-conceito de partida.
    Grande abraço!
    Luís Inácio
    (http://designdamente.wordpress.com/)

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