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Grayling e Blackburn: duas entrevistas interessantes


O conhecidíssimo filósofo inglês Anthony Grayling (que no próximo sábado fará uma conferência em Lisboa, no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia) tem-se visto envolvido recentemente  numa animada polémica em Inglaterra. A origem da polémica prende-se com a criação, no ano passado em Londres, do já famoso New College of the Humanities (NCH), uma instituição privada de ensino superior, que procura dar formação especializada de excelência na área das humanidades: filosofia, história, economia, direito e literatura. Parece que o NCH tem bastantes estudantes interessados, até porque o elenco de professores é uma verdadeira constelação de estrelas: Simon Blackburn, Daniel Dennett, Peter Singer (filósofos), mas também Richard Dawkins, Steven Pinker e Lawrence Krass (história natural, psicologia e ciência), além do filósofo do direito Ronald Dworkin, do crítico literário e professor Christopher Ricks e dos historiadores Linda Colley e Niall Ferguson. O cerne da polémica é a escola ser privada e de as propinas anuais rondarem as 18 mil libras.

Grayling, que abandonou o seu lugar de professor no prestigiado Birkbeck College, da Universidade de Londres, para fundar e se dedicar inteiramente ao NCH, tem sido acusado de virar costas ao ensino público e de promover um ensino elitista, inaceitável sobretudo vindo de alguém associado à esquerda e que tem sido um dos mais destacados defensores do humanismo contemporâneo. O crítico literário e colunista do Guardian, Terry Eagleton, sugere mesmo que Grayling se rendeu ao mercantilismo.

Vale, pois, a pena ler este artigo do último número da revista New Humanist, baseado numa entrevista com o próprio A. C. Grayling, e na qual este responde com muita ponderação às acusações que lhe são feitas. A ideia de Grayling é que ele está simplesmente a contribuir para salvar o ensino das humanidades, uma vez que o governo decidiu deixar de as financiar e não parece que as coisas tendam a inverter-se no futuro. Quanto às críticas de elitismo, sugere que o futuro das humanidades depende da qualidade da formação dos estudantes e não da sua quantidade, acrescentando que o montante das propinas é até inferior ao que se despende nas outras universidades, incluindo as públicas. Acrescenta que, para surpresa de muitos, um bom ensino das humanidades é mais caro do que o das ciências e que a escola tem previsto um sistema de bolsas e de angariação de estudantes sem capacidade financeira para suportar as propinas, de modo a garantir que os melhores não sejam excluídos.

Mas o melhor mesmo é o leitor ler o artigo.

Outra entrevista que vale muito a pena ler é esta entrevista de Simon Blackburn ao 3:AM Magazine. Blackburn, um filósofo desempoeirado que tanto escreve coisas estritamente destinadas à discussão com outros filósofos como escreve para o grande público, confessa que não gosta de ser descrito como um popularizador da filosofia. O que procura fazer, diz, não é tanto trazer (ou fazer baixar) a filosofia às pessoas, mas antes levar (ou fazer subir) as pessoas à filosofia. Entre muitas outras coisas interessantes para o leitor.


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