11 de setembro de 2012

Metafilosofia

São bem conhecidas as posições dos positivistas lógicos e de Wittgenstein sobre a natureza e metodologia da filosofia. Apesar de os primeiros estarem na origem da concepção naturalista da filosofia e do segundo influenciar fortemente a concepção metafilosófica da chamada «viragem linguística», a verdade é que a discussão filosófica sobre a própria natureza da filosofia nunca chegou a despertar o interesse que talvez merecesse. Foi assim que, tal como com as anteriores, também as concepções pragamatista, hermenêutica e ironista (ou pós-modernista) da filosofia só indirectamente foram desafiadas e discutidas. Isso parece, contudo, estar a mudar e há já sinais credíveis de que a metafilosofia está a conquistar o espaço próprio de uma verdadeira disciplina filosófica. Dois dos mais sólidos indícios são os livros The Philosophy of Philosophy (Blackwell, 2007), de Timothy Williamson, e What Philosophers Know (Cambridge, 2009), de Gary Gutting. Dois livros que vale mesmo muito a pena ler.






9 comentários:

  1. Curioso que a filosofia possui uma característica peculiar: o estudo dos fundamentos da física não é física, muito dos fundamentos da matemática se encontra fora da matemática, mas a filosofia é fechada nesse aspecto; digo, a metafilosofia faz parte da filosofia. Isso acontece porque a filosofia é exatamente o ramo de atividade intelectual que se ocupa dos fundamentos do saber, inclusive do saber gerado por ela própria.

    Sou particularmente interessado em metafilosofia e agradeço as sugestões de leitura.

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  2. Em breve: Filosofia da Filosofia da Filosofia.

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  3. Realmente falta um debate interessante no espaço da meta-filosofia. É preciso olhar para todas as vozes que ocupam posições nesta interessante matéria teórica.

    Contudo não concordo, Leonardo, com a ideia de que a filosofia é interessante por causa de um suposto grau de reflexividade que pode estar associado à sua própria dinâmica. Não creio que a filofia esteja preocupada com fundamentos.

    Obrigado pelas sugestões.

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  4. Estimado Aires Almeida:

    Como calcula, a coincidência do seu postal com o meu comentário quase me obriga a uma justificação. Como segue. -
    Se nos puséssemos a reflectir por que é surgiram e que como é que se foram multiplicando, em um dado período da História da filosofia, estudos de uma chamada “metafilosofia”, estaríamos a fazer “metafilosofia” ? Parece mais que seria... “metametafilosofia”. (Onde aliás caberia o este seu post.) E estaríamos a justificar a pertinente prevenção do comentador Adriano.

    Possivelmente desde as circunstâncias que levaram nos tempos de Pitágoras e Heraclito à criação do neologismo grego “filosofia”, e certamente nos tempos do confronto platónico e aristotélico com a sofística, até ao XIX, que a filosofia, como actividade eminentemente reflexiva de um ente racional, tem reflectido sobre si própria, e não podia deixar de o fazer. (Isto não implica necessariamente uma reflexão "sobre fundamentos", que não parece ser do interesse do comentador Luís Inácio.)Por isso, não é preciso mais um nome para o que há muito já tem nome próprio.

    Mas, como disse noutro comentário, não são os nomes o que mais me preocupa: se se quer manter e distiguir como área/disciplina específica e especializada esse tipo de inquérito racional, fique o nome “metafilosofia”, e acho que pode ficar dentro da Epistemologia (do conhecimento filosófico). Há, no entanto o perigo de, com este nome, se prosseguir um inquérito ( ia a dizer uma “agenda”...) que pode ter efeitos culturais importantes a prazo, como aconteceu com o nome “metafísica”. Para um grego antigo, pré-cristão, a existência de alguma coisa “para além da” Physis era de todo inconcebível; e a “metafísica” era apenas uma parte (eminente) de um organon ou programa de estudos (como a Lógica). Mas, se há hoje quem pense e até deseje que, no futuro, deveria haver uma “ciência” como que racialmente pura e limpa das escurralhas e subprodutos “continentais”, que mancharam irremediavelmente a filosofia a ponto de ser preciso substituir-lhe o nome...

    Isto lembra-me o problema que pus acima no segundo parágrafo, como exemplo, e vemos agora que também não teria um objecto não exactamente cabível em sede de mera epistemologia (do conhecimento filosófico). A questão parece ser claramente a de uma “Filosofia da Cultura”... -

    E, meu caro Aires, como é que eu pude esquecer até agora, a propósito do livro que temos comentado, a “Filosofia da História”, que tanto me interessa? É o que acontece quando nos pomos a pensar em abstracto sobre abstractos departamentos, divisões e subdivisões de o que é, ao vivo e em concreto, uma só coisa que não precisa senão de um só nome... - Filosofia.

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  5. Caro Duarte Meira,

    Tenho de confessar que o seu comentário e o meu "postal" não foram mera coincidência. Na verdade, a ideia de postar sobre isso surgiu precisamente com a sua sugestão para incluir a disciplina da metafilosofia num futuro volume do livro que estávamos a comentar.

    Claro que a reflexão da filosofia sobre si própria nunca deixou de se verificar. Mas nunca teve os graus de sistematização e de autonomia suficientes para se poder dizer que se tratava de uma disciplina por direito próprio. E isso não é novidade, pois foi o que se passou com outras áreas da filosofia. Pense-se, por exemplo, na filosofia da música. Já Santo Agostinho e outros reflectiam filosoficamente sobre a música, mas a filosofia da música enquanto disciplina surgiu muito recentemente.

    Só uma nota em relação ao nome "metafísica". Como sabemos o nome foi adoptado a partir da conhecida obra de Aristóteles. Mas o seu significado não era o de aquilo que "está para além da física". Isso é enganador e historicamente incorrecto. O nome da obra de Aristóteles foi dado mais tarde pelo seu editor, que não encontrou melhor do que "o que vem depois da Física" a obra de Aristóteles anteriormente publicada. Ora, "Metafísica" é significado literal de "o que vem a seguir à Física". Só isso e nada que tenha que ver com o conteúdo da obra. DE resto, a metafísica tanto trata do que é físico como do que eventualmente não o seja, pois é disciplina que estuda a própria estrutura da realidade. É por isso que há metafísicos para quem no mundo só existem entidades físicas.

    Só mesmo para terminar, adivinho que o Duarte Meira esteja a pensar em deitar mãos à obra e tomar a dianteira para escrever esse tal volume: com metafilosofia, filosofia da matemática, filosofia do direito, filosofia da história, filosofia da psicologia, etc...

    Por que não?

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  6. Estimado Aires Almeida:

    Como calcula, alguém que tivesse enciclopédicos conhecimentos para deitar mãos a tal obra, também não ignoraria as origens meramente editoriais do nome "metafísica" e os vários significados da preposição "meta".

    Mas o que importa (parece-me) é sublinhar o seguinte:

    - O nome tornou-se indispensável porque, de facto, os livros que foram postos "depois dos/a seguir aos" que tratavam da Física, contemplavam matéria diferente e específica, que Aristóteles considerava de "primeira", "primaz" ou de fundamental importância.

    - Essa matéria do "ser enquanto ser" e das "primeiras causas", como Aristótles reconhece logo no livro Alfa,não era nova e vinha já dos pré-socráticos.

    - O tratamento desta matéria (e a fixação do nome) teve efeitos culturais importantes, quer na tradição peripatética e neoplatónica, quer, sobretudo, na nova metafísica ou teologia adveniente com o Cristianismo.(De recordar que "Teologia" era o nome que o neoplatónico Proclo dava à metafísica, aliás retomando um nome do mesmo Aristóteles.)

    Agradecido pela atenção.

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  7. Apenas um breve apontamento.
    Tão breve que vou recorrer de um excerto de um comentário anterior para expressar a minha opinião...
    «Mas, se há hoje quem pense e até deseje que, no futuro, deveria haver uma “ciência” como que racialmente pura e limpa das escurralhas e subprodutos “continentais”, que mancharam irremediavelmente a filosofia a ponto de ser preciso substituir-lhe o nome...».

    Acrescento apenas mais isto: o desprezo e ignorância pela história constitutiva da filosofia pagam-se caro - mormente quando se pretende fazer filosofia.
    Apenas esses desprezo e ignorância poderão justificar(?) esta bizarria (para ser suave...) de pretender constituir o desde sempre já constituído: uma metafilosofia.
    Porque a filosofia nunca foi outra coisa...

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    1. Saudações.

      Perdão. Não compreendi. Creio que isso seja uma crítica, mas não identifiquei o alvo. O senhor diz que a metafilosofia não pode ser uma subdisciplina da filosofia porque elas são a mesma coisa e a história da filosofia comprova isso? Eu, particularmente, não sou tão erudito em história da filosofia quanto o senhor, mas não creio que isso seja trivial, se for correto.

      Outra possível interpretação é que o senhor critica esse interesse pela metafilosofia por tudo o que tinha que ser feito em relação a isso já haver sido feito e que o conhecimento da história da filosofia deixaria isso claro. Esta afirmação parece-me ainda mais não-trivial que a primeira.

      Não discordo de você quanto à importância de se conhecer a história da filosofia antes de filosofar a sério. Eu mesmo gostaria de saber mais sobre o assunto.

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  8. Resposta algo telegráfica ao Leonardo Medeiros, com algumas "trivialidades".

    - Já lhe ocorreu que esta emergência da necessidade de uma "metafilosofia" poderá corresponder mais aos objectivos de uma agenda ou programa ideológico - em nome de uma ideia circunstancial, restrita ou restritiva, e por isso potencialmente perigosa, de filosofia, de uma "filosofia depurada" - do que às exigências da filosofia mesma?

    - Porque a filosofia, pela sua própria natureza, é sempre e já uma metafilosofia, instaurando-se nesse círculo constitutivo; com efeito, qualquer filosofia digna desse nome supõe uma reflexão - de que ela constitui uma explicitação - sobre a sua própria natureza, e implica uma tomada de posição, uma resposta - desde logo metodológica - sobre o que seja filosofar.

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