18 de outubro de 2012

A estética é um assunto muito complicado...

... diz Paul Boghossian. Mas é precisamente onde estão as dificuldades que mais precisos são os bons filósofos. Por isso, é bom saber que um dos seus próximos livros é precisamente sobre estética, em particular sobre o gosto e a objectividade que se pode esperar dos juízos de gosto, como explica no vídeo abaixo. Na sua abordagem, Boghossian irá cruzar a estética com a filosofia da mente. 

Boghossian, que é professor na Universidade de Nova Iorque, tem-se destacado principalmente nas áreas da epistemologia, da filosofia da mente e da filosofia da linguagem. É verdade que já tem dado uma perninha na estética e filosofia da arte, mais precisamente com a publicação de um par de artigos sobre filosofia da música, mas esta será a sua estreia em livro na área da estética. Se conseguir manter a qualidade do que tem publicado até agora, nomeadamente do seu Fear of Knowledge - Against Relativism and Construtivism (2006), então temos boas razões para ficar impacientes.

2 comentários:

  1. Cruzar estética com filosofia da mente?!
    De tão bizarro cruzamento é difícil nascer outra coisa senão um híbrido, algures entre a impostura estética e o simulacro filosófico.

    O vídeo sensaborão, que deixa confundir a pretensão com a sofisticação intelectual, permite entrever - com impaciência! - o resultado do parto (perdão Sócrates).

    Em tal domínio, mesmo assim, "O Livro do Desassossego" do Pessoa constitui uma experiência de pensamento infinitamente mais inspiradora e estimulante.

    Entretanto, talvez seja melhor ir acedendo a outros horizontes...

    "A diferença entre os PERSONAGENS conceituais
    e as FIGURAS estéticas consiste inicialmente no seguinte: uns são potências de CONCEITOS, os outros, potências de AFECTOS e de PERCEPTOS.

    Uns operam sobre um PLANO DE IMANÊNCIA, que é uma imagem de Pensamento-Ser (númeno), os outros, sobre um PLANO DE COMPOSIÇÃO como imagem do Universo (fenómeno).

    (…)

    O que se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de SENSAÇÕES, isto é, um composto de perceptos e afectos.

    Os perceptos não são mais percepções, são independentes do estado daqueles que experimentam; os afectos não são mais sentimentos ou afecções, transbordam a força daqueles que são atravessados por eles.

    As SENSAÇÕES, perceptos e afectos, são seres que valem por si mesmos e excedem qualquer vivido.

    Existem na ausência do homem, podemos dizer, porque o homem, tal como ele é fixado na pedra, sobre a tela ou ao longo das palavras, é ele próprio um composto de perceptos e de afectos.

    A obra de ARTE é um ser de SENSAÇÃO, e nada mais: ela existe em si

    A SENSAÇÃO composta, feita de perceptos e de afectos, des-territorializa o sistema da OPINIÃO que reunia as percepções e afecções dominantes num meio natural, histórico e social.

    Mas a SENSAÇÃO composta reterritorializa-se sobre o PLANO DE COMPOSIÇÃO, porque ela ergue suas casas sobre ele, porque ela apresenta-se nele em molduras encaixadas ou extensões articuladas que limitam os seus componentes, paisagens tornadas puros perceptos, personagens tornados puros afectos.

    E, ao mesmo tempo, o PLANO DE COMPOSIÇÃO arrasta a SENSAÇÃO numa desterritorialização superior, fazendo-a passar por uma espécie de desenquadramento que a abre e a fende sobre um cosmos infinito.

    Como em Pessoa, uma sensação, sobre o plano, não ocupa um lugar sem estendê-lo, distendê-lo pela Terra inteira, e libertar todas as sensações que ela contém: abrir ou fender, igualar o infinito.

    Talvez seja próprio da arte passar pelo finito para reencontrar, restituir o infinito.

    Os seres da sensação são VARIEDADES, como os seres de conceitos são VARIAÇÕES e os seres de função são VARIÁVEIS." (Deleuze).


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  2. Não consigo deixar de achar bem fraquinhas essas páginas sobre estética de Deleuze. Seria interesante também ouvir um 'deleuziano' dizer isso com suas próprias palavras. Mas em geral preferem simplesmente repetir as palavras proferidas pelo 'mestre', como se fosse muito evidente a clareza de sua significação...

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