28 de novembro de 2012

A leste da filosofia

Aconteceu-me por acaso ver ontem na RTP Informação uma entrevista de José Rodrigues dos Santos ao escritor de romances filosóficos (como ele próprio se classificou) Jostein Gaarder. 

Gaarder escreveu vários livros, o mais lido dos quais julgo ser O Mundo de Sofia. É o único livro dele que li e que, tenho de o dizer, achei francamente pobre, tanto em termos filosóficos como literários. No que diz respeito à filosofia, o que encontrei nesse livro foi um desfiar dos mais estafados lugares comuns que se vêem em qualquer das antigas sebentas, onde raramente há argumentos e muito menos qualquer discussão digna de registo. Em termos literários, pareceu-me de uma grande falta de imaginação e com uma narrativa algo simplória. Mas isso é ainda pouco para formar uma opinião definitiva sobre o autor. 

Contudo, a entrevista a José Rodrigues dos Santos, que até me parece um bom entrevistador, confirmou algumas das minhas suspeitas quanto ao conhecimento que Gaarder tem da discussão filosófica actual. Vê-lo lamentar-se por os filósofos actuais terem abandonado a discussão sobre a própria natureza das coisas é quase hilariante, dada a vitalidade da produção filosófica recente na área da metafísica. Vê-lo acrescentar, a título de exemplo, o problema mente-corpo, declarando que os filósofos deixaram de o discutir para passar a ser tratado quase só por cientistas, torna as coisas ainda piores. E, depois de tudo isto, ainda afirma que a filosofia se ocupa essencialmente dos problemas da existência humana. 

Está visto que há quase um século que o simpático Jostein Gaarder deixou de acompanhar o que se passa na filosofia. Ao ouvi-lo fica-se com a ideia de que não houve mais filósofos depois de Sartre ou coisa parecida. É demais!

Nota: a série de entrevistas de que esta faz parte intitula-se "Conversas de Escritores".   

4 comentários:

  1. Não vi a entrevista, quase nada li de Gaarder. Tendo referências várias favoráveis, dei um relance de olhos ao Mundo de Sofia, quando saiu por cá, e ofereci-o aos meus filhos, que pouco antes haviam frequentado o ensino secundário. Leram-no com agrado e passaram-no a amigos, com o mesmo efeito. Disseram-me que tinham aprendido mais com Gaarder do que nos anos do secundário, com os livros e professores que tiveram. (Ainda não tínhamos na altura, infelizmente, os bons manuais de Aires Almeida e colegas.)

    Devia ao norueguês este agradecimento. Por mais justos que sejam os reparos feitos à obra pelo Aires, ela deu alguma notícia da temática filosófica, da sua antiguidade e valiosidade, a muitas pessoas que, de outra forma, possivelmente nunca na vida teriam chegado a ela. Julgo que, no aspecto historiográfico, o êxito do Mundo de Sofia só é comparável entre nós, junto de um público mais restrito, ao êxito da História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell. (Um título, o deste, muito feliz pelo que sugere imediatamente de haver filosofia também a “oriente”.)

    A lição da obra de Russell, um dos considerados fundadores da escola analítica, parece não ter sido tomada em devida consideração por muitos dos continuadores da escola, durante muito tempo. Felizmente, a deficiência enorme está hoje atenuada e tem sido consideravelmente compensada. Desde Francis Cornford ou o padre William Guthrie, o mundo cultural anglo-saxónico dispõe hoje de muita e muito boa historiografia filosófica, geral ou monográfica.
    Como é evidente, História da filosofia não é filosofar. Mas, como também parece evidente, a colocação e argumentação de um problema só pode reconhecer-se como problema caracteristicamente filosófico adentro e em linha com uma Tradição. E todos os novos problemas são problematizações renovadas dos velhos problemas, directa ou indirectamente. Todos os problemas fundamentais – já colocados pelos primeiros filósofos – continuam na ordem do dia e, sob este ponto de vista, não há (e como poderia haver?) “progresso” nenhum.

    Com isto não quero dizer que não seja possível filosofar sem informação filosófica, normalmente adquirida por via da institucionalização escolar da filosofia. É de todo possível. Tive o privilégio de ter vivido a vida rural e a vida urbana. Encontrei pessoas quase analfabetas de cultura escolar, mas cultíssimas ainda da cultura popular – que aquela destruiu; eram pessoas que, a seu modo, estavam muito conscientes dos universais e perenes problemas da filosofia (sem lhe conhecrem o nome); e que os tratavam e lhes respondiam de forma peculiar, admirável e superiormente pedagógica. Fiquei convencido de que, se alguma estranha catástrofe varresse da memória da humanidade a cultura tecno-científica escolarizada, no “mundo ocidental” (como a “oriente”) o que viemos a chamar com o nome grego “filosofia” voltaria a surgir e a recomeçar. Devo-lhes muito, e muito aprendi com elas.

    Uma das coisas que aprendi foi isto: - que há diversos (e divergentes) géneros de argumentos disponíveis à razão filosófica; e que é unilateral (no menos mau dos casos) ou é perigoso (no pior) a ignorância disso. Ignorar, por exemplo, que o argumento de um romance ou de um texto dramático (teatral ou fílmico) pode ser um bom – ou o melhor – argumento disponível à razão, isto é, com mais razão suficiente e eficiente.

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  2. Li o livro do Gardener. Foi uma recomendação do meu professor de filosofia do 10ºano e até não se trata de um mau livro.

    Claro que houve coisas que achei estranhas. Não percebi por que motivo haviam capítulos dedicados ao Darwin e ao Freud. Evidentemente que contribuíram imenso para o conjunto do pensamento humano, mas os seus contributos não foram na área da filosofia. Não me lembro de ter lido a nada a respeito, sei lá, de São Agostinho ou de Bertrand Russell, por exemplo

    Penso que o Gardener, pelo menos, teve o mérito de por muita gente a interessar-se por filosofia. Um pouco à semelhança do trabalho que o professor José Hermano Saraiva fez pela história. Mau em termos qualitativos, mas aproveitável em termos quantitativos.

    No fundo Aires, e para bem das Humanidades, precisávamos de alguém que faça o que Carl Sagan fez pelas ciências da natureza.

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    1. Por livro, entenda-se o "Mundo de Sofia". Não conheço as outras obras desse autor.

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  3. Creio que há um aspecto de contexto editorial que determina o sucesso do livro, pelo menos em Portugal: é que na altura que foi publicado em Portugal não havia praticamente nada recente destinado a um público mais jovem. No mercado inglês, por exemplo - citando o que melhor conheço - há toneladas de livros introdutórios à filosofia. Outra questão é que Gaarder não é um filósofo, pelo que é natural que o seu livro tenha insuficiências filosóficas. Nem me parece que o livro tenha grandes pretensões filosóficas. Na minha opinião para aprender filosofia o livro é pouco estimulante. Mas é um livro muito bem vindo. Menos bem vindas são as declarações de Gaarder que o Aires referiu no post, pois revela bem que o autor não sabe o que se faz em filosofia hoje em dia.

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