20 de novembro de 2012

Perguntar directamente a Peter Singer


Peter Singer propõe-se a gravar um vídeo com respostas às questões sobre o livro A Vida Que Podemos Salvar. Se quiser colocar uma questão pode fazê-lo através da Página do projecto no Facebook (aqui) ou publicando no YouTube um vídeo com a sua pergunta (Canal do projecto no Youtube).

63 comentários:


  1. Ao sujeito em questão não pergunto nada, nem directa nem indirectamente. Já a sei toda. E, sem dúvida, há uma (mortífera) coerência na sugestão de que um chimpazé adulto é uma vida mais valiosa do que a de um ser humano ainda não chegado à salvadora condição de "pessoa".

    Ao sr. José Oliveira e aos responsáveis da edição portuguesa pergunto se não têm vergonha de fazer propaganda da obra dum indivíduo que, não contente de ser um dos corifeus do abortismo, ainda defende o infanticídio. Com estas crendenciais sinistras, o presente título só pode ser o cúmulo da perversidade e do escárnio.

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  2. Não só não devem ter vergonha como têm todo direito de divulgá-la. Vergonha deveria ter alguém que ao invés de atacar as ideias de um homem ataca o próprio homem. Qual o problema de alguém defender suas ideias, ainda mais se for com argumentos? Se há um problema com as ideias defendidas, é preciso mostrá-lo.

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  3. Caro Duarte Meira, Enquanto autor do presente blog peço desculpa por ferir a sua susceptibilidade, mas, na verdade, não deve nem pode dedicar-se à filosofia se recusar abandonar algumas ideias feitas. Depois tem de me indicar onde é que Singer defende que o aborto deve ser praticado ou, como refere, que defende o infanticídio. É que não defende nem uma coisa nem outra.

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  4. Anónimo:

    Ou não leu ou não entendeu.

    Eu não ataquei pessoa nenhuma: limitei-me a aplicar gramaticalmente a Singer os nomes correspondentes às ideias que ele tem – abortista e infanticida. Já agora, aproveito para acrescentar que o sujeito é também um permissor moral da bestialidade sexual.

    Veja este artigo dele, notável precisamente pela coerência que eu lhe reconheci: se os “big apes” são “pessoas não humanas”, e se as pessoas humanas são uma espécie de “big apes”, por que não?... Isso não fere em nada a nossa “dignidade”...

    http://www.utilitarian.net/singer/by/2001----.htm

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  5. Rolando Almeida:

    Nada tenho contra “ideias feitas”, se elas são boas; em especial, se são “boas” de acordo com critérios objectivos, universais e absolutos de valor. (Porque só assim é que elas são mesmo boas, não lhe parece?... Isto é: só assim é que podemos superar as objecções cépticas do niilismo, relativismo e subjectivismo.)

    Eu disse que Singer “defende” o abortamento e o infanticídio, querendo significar que ele os acha racionalmente justificáveis, moralmente permissíveis ... – e que defende a legalidade de tais práticas. Veja, por exemplo, esta passagem da Ética Prática, em que ele ao tratar da eutanásia não voluntária de bebés nascidos com hemofilia ou o síndrome de Down (que ele, é claro, acha permissível ), diz isto:

    « O diagnóstico pré-natal, seguido de aborto em casos seleccionados, constitui uma prática comum nos países que possuem uma lei progressista do aborto e tecnologia médica avançada. Penso que é assim que deve ser. »

    Julgo que alguém que diz que assim é que “deve” ser, pode ser chamado (sem ofensa) um defensor disso.

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  6. Caro Duarte, o problema das ideias feitas é que as aceitamos sem pensar muito nelas. E tal, é verdade, pode acontecer com ideias verdadeiras. Há muitas ideias feitas que são verdadeiras e outras falsas, pelo que o estatuto epistémico que está a atribuir às ideias feitas, deve ser atribuído às ideias verdadeiras. Outro aspecto é que Singer não se refere à legalidade de tais práticas, mas à moralidade. naturalmente se consideramos que o aborto não envolve problemas morais aceitamos que possa ser legal. pelo menos não estou a ver neste momento qualquer razão que faça pensar o contrário. O que me fez postar um comentário inicial foi outra coisa: o que é que o faz pensar que se algo é errado, então as pessoas devem ter vergonha de falar disso? Isso é pressupor que as suas ideias não estão erradas, mesmo antes de as discutir.

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  7. «aos responsáveis da edição portuguesa pergunto se não têm vergonha de fazer propaganda da obra dum indivíduo que...»

    Que os responsáveis pela edição deste livro não têm vergonha disso é bem patente pelo próprio facto de o terem editado. Assim, o Duarte Meira está apenas a dizer que os responsáveis (e eu sou um deles) deviam ter vergonha nisso.

    Bom, o Duarte Meira acaba de me deixar à vontade para lhe devolver a pergunta: não tem vergonha de fazer um comentário como este? Mas não leve a mal, esta pergunta é meramente retórica. Apenas quero mostrar que poderia usar com o Duarte Meira o mesmo expediente discursivo que ele próprio utiliza com os outros. Até porque acho que tem todo o direito de manifestar o seu repúdio pelas ideias de Peter Singer. Não vejo nisso qualquer escândalo.

    Já me parece menos aceitável atirar-se aos que lêem e publicam os livros de Singer, só porque Singer escreveu noutros livros coisas de que não gosta. Chamar desenvergonhados aos que editam os livros de Singer é um caso particularmente deseperado de ad hominem.

    O que o Duarte Meira gostava é que só fossem publicados livros com ideias que lhe agradassem ou que, pelo menos, não o chocassem. O resto devia ser proibido, presumo. Mas tem de ter paciência e de fazer algum esforço para conviver com a liberdade de expressão. Imagino que, se o Duarte Meira fosse editor, só iria permitir a publicação de livros com 'as ideias certas'. Que, claro, são as suas.

    Mas o Duarte Meira está com azar, pois acontece que Peter Singer é talvez o filósofo contemporâneo mais lido no mundo e com os seus livros traduzidos para todas as línguas ditas cultas. Mas talvez o Duarte Meira preferisse que a nossa língua e os nossos leitores permanecessem orgulhosamente sós.

    Já agora, o que há de errado em considerar, como a maioria dos portugueses, o aborto moralmente permissível?

    Para terminar, parece-me que o Duarte Meira ou não entendeu o que leu de Singer, ou então está a caricaturar para ser mais fácil desancar, que é uma falácia bem conhecida. Como referiu o Rolando, em lado algum Singer defende o infanticídio nem o aborto. As coisas são um pouco mais subtis do que pensa.


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  8. Ad hominem.

    Como é que Singer procede para “justificar” a permissiblidade moral do homicídio por abortamento e o infanticídio (até “2-3 anos” após o nascimento, sugere ele, como se neste caso a vagueza fosse coisa de somenos...) ?

    Toma de Locke o conceito de pessoa, mas abstraído de quaisquer considerações sobre a teoria lockeana do direito/lei natual e, em particular, dos deveres do poder paternal para com os filhos.

    Subsume, sem crítica, que esse conceito lockeano é o melhor para exprimir a essência do ser humano.

    Abstrai a pessoalidade da animalidade o humano.

    Considera que só a pessoalidade expressa é credora da valor, dignidade, respeito (nos humanos e noutros animais não humanos, que também são “pessoas” ).

    Agora, à parte as questões de ética e meta-ética, para me cingir às de princípio antropológicas e metafisicas, necessariamente prévias, perguntaria eu ao Ricardo Almeida se sabe de algum estudo de Singer dedicado a questões como estas:

    - O conceito lockeano de pessoa convém completamente ao que foi pensado com esse nome na tradição intelectual do Ocidente? (E, se não, por que será ele preferível?)

    - Como e porquê surgiu e foi adoptado nessa tradição o conceito de pessoa?

    - Se há entidades não humanas que também podem ser pessoas, por que é este o conceito que melhor qualifica a essência do humano?

    - Por que é que a diferença específica da pessoalidade (lockeana) é fundamento necessário ou suficiente da valiosidade?

    Não sei de nehum. O que eu sei é que Singer, sem uma séria consideração destas ( e outras) questões básicas, de princípio, aparece como um mero argumentador de argumentos sem razão filosófica suficiente, mas eficientemente ajustados às consequências de uma certa “ética” (muito mal fundamentada); e à propaganda desta “ética” junto de um mercado receptivo a comprá-la e a “justificar-se” com ela. Ora, um argumentador que se dispensa de examinar a fundo as questões de princípio implicadas nos seus argumentos, pode avocar a condição de filósofo? Não me parece. É antes uma velha personagem já conhecida dos velhos e genuínos filósofos – o sofista!

    Eis o que é Singer. E um sofista propagandista de sofismas mortíferos; tão perigoso como aqueles que, já na Antiguidade, levaram Sócrates à morte.

    Portanto, para “não ferir susceptibilidades”, eu converteria a pergunta do meu comentário inicial nestoutra: - por que é que se insiste em publicar numa colecção de “Filosofia” escritos de um sujeito que é tipicamente um não-filósofo, um sofista, e um sofista da pior espécie?

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  9. Pus, com referência a Singer, o termo “ética” entre aspas, porque não é precisa grande análise para se descobrir uma pseudo-ética, mera ideologia que se apropria de uma teoria ética mais favorável e recortada à besoin de cause, em manobra típica de sofista. Não tenho aqui espaço para o demonstrar. Chamo só a atenção do leitor da tradução portuguesa da `”Ética Prática” para o seguinte. –

    Págs. 23-24: Referindo posições axiológicas niilistas como as de John Mackie: «Não há dúvida que têm razão quando negam um domínio de factos éticos que faça parte do mundo real e que exista independentemente de nós.»

    27: « A ética adopta um ponto de vista universal.» (Mas na mesma pág. começa a confundir “universal” com “universalizabilidade”.)

    28-31: Em três páginas tenta justificar como é que o aspecto universal da ética proporciona “uma razão convincente, embora não conclusiva (sic) para adoptarmos, em termos gerais, uma posição utilitarista. » Começa por se encostar à consideração das consequências hipotéticas da acção, à maneira do utilitarismo clássico, mas considera que esta perspectiva só é viável em “circunstâncias muito invulgares” (sic). Está a preparar o leitor para a sua versão preferida do utilitarismo – o das “preferências” (114, no cap. intitulado “Qual é o mal de matar?”) -, muito mais preferível para a pretendida justificação do homicídio.

    E pronto. Em 3 das 14 páginas do cap. 1 - “Sobre a Ética” -, convence-se sumariamente (não “conclusivamente”...), e passa de imediato à aplicação às questões de “ética prática”.
    Eis a grande fórmula ética de Singer (114): - « Um acto contrário à preferência de qualquer ser é um mal, a não ser que esta preferência seja suplantada por preferências contrárias. » Agora, repare o leitor no “suplantada” (outweighed), e confronte com a afirmação logo na p. seguinte: « Embora o utilitarismo das preferências forneça realmente uma razão directa para não se matar uma pessoa ... » (As não-“pessoas” ficam, é claro, excluídas e à mercê dos já privilegiados com a condição de “pessoas”. E vem este sofista indignar-se depois contra o segregacionismo e o racismo do “especismo”!... ) Deixo à apreciação do leitor a retórica do “realmente” e do “directa”. Sobre como é que meras preferências podem superar o subjectivismo e o relativismo, quando nem sequer existem factos éticos “reais”; sobre como é que elas podem ser “universalizáveis” de forma a que tenham um estatuto ético claramente discernível de dinamismos naturais como os da conservação e da reprodução da vida; sobre como é que tais preferências, ainda que as melhores ou as de uma maioria, seguramente não podem ser “suplantadas” pela hábil propaganda de uma minoria... – nem uma palavra.

    É esta a força da “ética” de Singer – a da força das preferências que conseguem suplantar outras. Tipicamente sofista, e digna da “ética” de um Trasímaco ou de Cálicles.

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  10. Aires Almeida:

    É um prazer voltar a falar consigo aqui, apesar do desgosto pelas suas palavras.

    Eu sou um liberal velho, nas convicções e na idade. Para além dos outros dois, também defendo e sempre defendi o terceiro dos direitos fundamentais lockeanos – o da liberdade: liberdade TOTAL de expressão, e em TODAS as circunstâncias (até independentemente de contingências políticas “decisionistas” de “estados de excepção”). Os editores de Singer têm todo o direito cívico de publicarem o que quiserem, de quem quiserem – ou não. Eu, pessoalmente, é claro que não o publicaria, pelos de motivos de ordem moral e intelectual que sugeri. Mas, publicado, continuo livre de o ler – ou não. (Teria de lê-lo, se fosse o responsável pela publicação, para saber se o publicaria.) - Note que, desde o meu primeiro comentário – quando falei em “vergonha” -, sempre me situei no plano moral e filosófico, não no civil, legal ou político.


    « Já agora, o que há de errado em considerar, como a maioria dos portugueses, o aborto moralmente permissível?»

    Dispenso o seu apelo à maioria em questões de ética, mas chamo-lhe a atenção para o seguinte: a “maioria” pronunciou-se sobre a “depenalização” legal do abortamento, não sobre a sua permissibilidade moral. Mas é muito compreensível que se tivessem falado e misturado as duas coisas, como faz na sua pergunta. A minha resposta é:

    - O abortamento intencional é moralmente impermissível porque é o homicído arbitrário (“por opção da mulher”) de um ser humano nas primeiras semanas (para já, vamos nas 10) da sua existência. E é a pior espécie de homicídio concebível : porque é um ser humano que não fez mal a ninguém; porque está totalmente indefeso.

    ( A sua pergunta inidicia o pior: - que o Aires Almeida, no dia 11 de Fevereiro de 2007, coonestou com o seu voto o fim do Estado de Direito no nosso país, uma vez que foi violado o mais básico e elementar de qualquer Direito – o da protecção pelo Estado da vida dos mais fracos à mercê do arbítrio dos mais fortes. )


    «Em lado algum Singer defende o infanticídio nem o aborto. As coisas são um pouco mais subtis do que pensa.»
    A ver se nos entendemos com o “defende”: eu nunca disse que Singer proclama algum dever moral de abortar (mas repare no “assim é que deve ser” - I think this is as it shoud be -, que citei acima) ou matar crianças; o que disse – e parece-me que no mais estrito respeito ao pensamento do sofista – é que ele diz que isso pode moralmente fazer-se, que não é nenhum mal (até “uma fronteira situada nas 18 semanas”). Se há mais alguma “subtileza”, confesso que me escapa, e tenha a bondade de me esclarecer.


    Quanto à sugestão insinuante dos 2-3 anos pós-nascimento: “It would, of course, be difficult to say at what age children begin to see themselves as distinct entities existing over time. Even when we talk with two or three year old children it is usually very difficult to elicit any coherent conception of death, or of the possibility that someone – let alone the child herself – might cease to exist.”

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  11. Caro Duarte, Há muitas objecções que podem e devem ser feitas aos argumentos de Singer. Se quiser uma referência em língua portuguesa tem a edição de 2 livros de David Oderberg, um filósofo que rebate bem alguns dos argumentos principais de Peter Singer. Mas não é o que o Duarte faz. Tudo o que o Duarte faz é acusar Singer porque não gosta das defesas que ele faz. Ora, isso é natural pois a história da filosofia está recheada de bons exemplos de filósofos que levantam problemas que chocam com as nossas ideias mais chegadas. Acontece que "não gostar", "não simpatizar" não é um argumento. O que me diz sobre Locke parece-me ser insuficiente. Para ser sincero nem percebo bem onde quer chegar mas penso que o que me está a dizer é qualquer coisa como isto: Se Singer não pega forte na ideia de pessoa de Locke, não é um bom filósofo. Acontece que ainda assim, parece-me estar só a dizer mais uma vez que não gosta de Singer. Vamos que eu seja um apreciador do conceito de dasein de Heidegger. Segundo conheço em momento algum Singer fala do Dasein. Isso faz dele um mau filósofo? Mas há mais: nenhum grego sabia da filosofia de Locke. Logo, nenhum grego foi um bom filósofo. Isto parece-me perfeitamente dispensável para a filosofia. Na minha opinião acho preferível se uma pessoa não aprecia determinadas ideias assumi-lo, mas daí a impedir que outras pessoas defendam ideias que não simpatizamos, parece-me despropositado. Do mesmo modo eu não tenho nenhuma simpatia por Heidegger e até penso que ele prestou um mau serviço à filosofia, mas não me passa pela cabeça queimar os livros de Heidegger. Aliás, a ideia é mesmo a oposta a essa: se a filosofia de Heidegger resistir ao tempo e aos seus críticos talvez eu esteja errado. Tal como se a filosofia de Singer resistir às boas críticas, então o Duarte está errado.

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  12. Para além das habilidades retóricas e do domínio das formas de argumentação na erística, apresentar o produto de maneira a realçar certas particularidades convenientes, omitindo outras, é uma manobra clássica dos antigos sofistas, como dos modernos treinados no marketing, todos servidores de interesses alheios ou menorizadores da verdade – que é o valor supremo para o filósofo. (Isto não implica, é claro, que o sofista seja necessariamente mentiroso, caso em que era mais fácil de apanhar; o que Platão, no livro que lhe dedicou, já considerva que era muito difícil.) No seu livro Ética Prática, o sofista Singer utiliza a mesma técnica. Eis um exemplo. Repare-se como ele apresenta a questão (106 da trad. port.) :

    « Neste ponto devemos fazer uma pausa para perguntar o que entendemos por expressões como “vida humana e “ser humano”, que surgem com muita frequência em debates sobre, por exemplo, o aborto. “Será o feto um ser humano?” – esta é, muitas vezes, a questão crucial, nesses debates; mas, se não reflectirmos cuidadosamente sobres estes termos, essas perguntas não terão resposta. »

    A questão é apresentada omitindo um elemento, que a converteria imediatamente numa não-questão, quase sem sentido ou de resposta imediatamente óbvia e trivial; mas isto desmentiria a suposta importância “crucial” da questão, além de a colocar num sentido inconveniente ao interesse do sofista. Introduzamos o termo omitido: “Será o feto humano um ser humano?”. – Ora, nos “debates sobre o aborto”, a questão não trata do feto, em geral, mas concretamente de um feto humano; e a “questão crucial” ficaria assim reduzida a uma questão inane e redundante, ou com uma resposta óbvia e de todo desfavorável aos interesses do perguntador (ainda mais na forma: “Será um feto humano um ente humano?”). Todavia, como se sabe, a questão “crucial”, nem “muitas vezes” nem nunca foi essa, mas estoutra: - se é moralmente admissível matar um feto humano.

    Depois de apresentar à sua medida e de distorcer a questão que importa, prossegue Singer com a proposta de tomarmos a expressão “ser humano” em dois sentidos: biológico e psicológico (auto-consciência, etc). À primeira vista, a apresentação é plausível, aparentemente pacífica e inofensiva, mas contém uma abstracção potencialmente mortífera que, como se sabe, Singer (et alli) irá actualizando ao longo do livro, por meio de uma manipulação lógica e de um apartamento ontológico. Logicamente, convertendo uma conjunção numa disjunção exlusiva: ou temos o ser humano apenas como “membro duma espécie biológica” (e decreta que isto é “moralmente irrelevante”), ou como entidade psicológica (e apenas esta seria “moralmente relevante”). Ontologicamente, na verdade, o que temos é uma conjunção: o ser humano é um animal E é racional. Aqui omite um aspecto essencial e ontologicamente necessário – a temporalidade: ser humano é ser um indivíduo (ou uma espécie) em evolução no tempo, cujos aspectos característicos (físicos e psicológicos) não se manifestam todos à partida, mas se vão manifestando (ou deixando de se manifestar com o tempo e a velhice). Não conhecemos neste mundo indivíduo humano algum que não viva no tempo; por isso, a mais elementar prudência aconselharia tomar em linha de conta que SEMPRE somos essa conjunção (de contrário obrigamo-nos a precisar, com a exactidão que um tal caso exige, quando é que o “animal” começa a ser “racional”, ou deixa de o ser).

    Esta abstracção irrealista e mortífera apela a um outro recurso habitual e muito do gosto dos sofistas: as aparências. – Parece que um embrião ou um feto humanos são entidades meramente “biológicas”, sem nada de “psicológico” (uma curiosa inversão fisicalista do “erro de Descartes”). É inegavelmente um recurso sempre de grande efeito. Mas era de esperar que ao menos os filósofos estivessem sempre muito cientes e prevenidos de quanto este recurso pode ser enganador!

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  13. Na mesma 106, declarando que « há uma outra definição do termo “humano” » e preparando o leitor para a introdução do termo “pessoa” na página seguinte, Singer não cita Locke ou Aristóteles ou qualquer outro filósofo, nenhum antropólogo ou biólogo: cita um... “teólogo protestante” e “autor prolífico de escritos sobre temas éticos”. Surpreende e é curiosa a rebusca desta fugura e a nomeação de Joseph Fletcher, que ninguém hoje lembra como teólogo (aliás passou de crente a ateu) e que o “bioeticista” Singer podia ter referido como o cunhador do termo “bioética”. Eu teria algo a dizer sobre esta sinistra figura, que o sinistro Singer parece discretamente evocar como patrono, ao menos para as suas próprias “definições” de o que é ser humano. O leitor procure por si, que encontrará na net coisas interessantes – e preocupantes.

    Mas, mais importante, é notar – e avisar - que a questão de já termos ou não uma “pessoa” às 10, 12 ou 18 semanas de gestação (conforme as legislações dos diferentes países e as diferentes opiniões dos “bioeticistas”), ou aos “2-3 anos” após o nascimento, - não é ainda o aspecto “crucial” da questão, mas a preparação psicológica do mercado cultural para uma outra. De facto, já o robusto naturalismo realista de um Aristóteles considerava que ao fim de umas semanas de gestação (ou ele ou os medievais falavam em seis, se lembro bem) tínhamos já uma alma “racional” em processo de actualização no animal humano. Mas isto nunca implicou ou interferiu com a licença de matar, antes ou após o parto, por motivos terapêuticos, eugénicos ou outros (como hoje na Índia ou na China, em que 90% dos abortos são de fetos do sexo feminino...). Portanto, hoje como na Antiguidade, a questão “crucial” é, nua e cruamente, a mesma de sempre : - por que é que não devemos matar, se podemos e é isso que “preferimos” ou nos convém (e motivos nunca faltam). O facto de pertencer à mesma espécie é “moralmente irrelevante”; e, se é “pessoa”, é outro indivíduo, não sou eu; e, se é egoísmo, tal é a minha posição “ética”, tão respeitável como outra qualquer; e, se é um “mal”, os “factos éticos” e os valores não têm realidade...

    Agora, aprecie o leitor à luz destas considerações o título que Singer pôs ao capítulo a que pertence a 106 citada: – “Qual é o mal de matar?”... E confira com a sua consciência o que sente em si.


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  14. Duarte Meira,

    É bem original essa variedade de liberais entre os quais se diz incluir, que gostariam de silenciar as ideias às quais se opõem.

    Quanto ao resto, fico apenas a saber o que já sabia do que disse antes: que acha as ideias de Singer muito más e o considera um propagandista. Retenho simplesmente que acha que Singer está errado porque não concorda com ele. E acho que não vai muito além disso.

    Será que não há também algo de propagandista na forma como fala de Singer e das questões por ele abordadas? O seu aparte sobre o que se passou no dia 11 de Fevereiro de 2007 parece-me, de resto, um bom exemplo de propagandismo.

    Mas eu, ao contrário do Duarte Meira, posso estar enganado. Claro.

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  15. Rolando Almeida:

    «O que me diz sobre Locke parece-me ser insuficiente. Para ser sincero nem percebo bem onde quer chegar mas penso que o que me está a dizer é qualquer coisa como isto: Se Singer não pega forte na ideia de pessoa de Locke, não é um bom filósofo.»

    O que quis dizer é que, depois de ter introduzido Fletcher a propósito de noções de senso comum (106), Singer pega numa ideia de Locke (108) sobre que é ser pessoa e toca a andar com ela ao serviço da causa. A definição de Locke é do Ensaio; mas, por exemplo, tudo o que Locke diz sobre o direito natural das pessoas, e o poder paternal dos pais relativamente aos filhos pequenos, no 2º Tratado Sobre o Governo Civil é omitido como se o ignorasse ou não interessasse. E o mais: não examina tudo que era pertinente examinar sobre de onde e porquê se foi buscar o termo as noções de pessoa. Pura e simplesmente pegou numa noção que lhe convinha utilizar e... mais nada. O “reflectirmos cuidadosamente”, de que ele fala na mesma 106, fica por aí. Isso seria suficiente para o qualificar como um mau filósofo se... ele fosse um filósofo.

    No resto do que diz não me reconheço,pelo que não respondo, e parece-me aliás irrelevante para o assunto. Deixe-me apenas lembrar-lhe, a propósito de simpatias (se insiste em falar disso) e queimas de livros, o que “passou pela cabeça” de Hume no último parágrafo da sua Enquiry ( e os nomes que ele nunca perde ocasião de chamar aos “metafísicos”). Presumo que considere Hume um filósofo, e que lhe seja filósofo mais “simpático” do que Heidegger.

    Agradeço as suas sugestões de leituras, para me instruir em como “rebater bem” Singer. Mas teria preferido que me sugerisse antes (como lhe pedi) os estudos em que este sofista “reflectiu cuidadosamente” sobre as necessárias questões de metafísica e de antropologia filosófica (como as que exemplifiquei acima), logicamente prévias, e que necessariamente importam a quem quiser – como filósofo – passar seriamente às questões de ética.

    Por agora, não tenho mais tempo para argumentadores pseudo-filósofos, quando tenho tantos dos genuínos para estudar, e já pouco tempo para isso; e não quero usar mais espaço, de que já terei abusado, e vos agradeço.

    Mas estou sempre à disposição do Rolando, ou de quem quer que seja, para examinar o que seja “crítica” ou uma “boa crítica”.

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  16. Aires Almeida:

    Vou ler com atenção e com simpatia (se o Rolando me permite dizê-lo) o seu texto, e logo mais lhe responderei.

    Tenha nmuito boas noites.

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  17. Caro Duarte, já que percebi que não necessita de qualquer explicação ou discussão pois parece-me demasiado certo daquilo que afirma. Queira ao menos compreender que eu acho que está profundamente errado e faz uma interpretação bastante ideológica do que Singer defende. Mesmo assim atrevo-me a uma explicação: filosofar não é procurar na história da filosofia passagens de livros que digam exactamente aquilo que pensamos e acreditamos ser verdade. Se assim fosse estaríamos todos bem, pois há ideias (muitas delas bem tolas) para todos os gostos na história da filosofia. Filosofar é, antes desafiar as nossas próprias crenças com ideias que possam eventualmente ser iluminantes. Razão essa que nos faz chamar aos livros de filosofia ensaios e não catecismos ou livros de receitas. E por aqui fico.

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  18. Aires Almeida:

    Estou perplexo e contrafeito. Vejamos. -

    Eu disse: « Defendo e sempre defendi a liberdade TOTAL de expressão, e em TODAS as circunstâncias. Os editores de Singer têm todo o direito cívico de publicarem o que quiserem ... »

    Diz o Aires: « É bem original essa variedade de liberais entre os quais se diz incluir, que gostariam de silenciar as ideias às quais se opõem... »

    Sem mais comentários do que este: não evoquei ad hoc o meu (chocado) liberalismo. Por sinal que há meses (em Maio-Junho, se lembro bem), neste mesmo blogue, a propósito da situação da Filosofia no actual currículo escolar, creio que disse o que muitas vezes, de há muito, tenho dito noutros sítios: que o Estado não tem nada que ser o educador dos cidadãos, e que há uma gritante contradição entre a decantada “liberdade”, com que nos têm encantado vai para 39 anos, e o conceito totalitário e aberrante de “ensino obrigatório”. A “variedade” é menos original do que rara: avis rara num povo de há séculos habituado a mordaças censoras e ao aconchego da mamadeira do Estado.

    Outro exemplo:

    Eu disse: « A sua pergunta indicia o pior: - que coonestou com o seu voto o fim do Estado de Direito no nosso país, uma vez que foi violado princípio mais básico e elementar de qualquer Direito – o da protecção pelo Estado da vida dos mais fracos à mercê do arbítrio dos mais fortes. »

    Responde-me : « O seu aparte sobre o que se passou no dia 11 de Fevereiro de 2007 parece-me, de resto, um bom exemplo de propagandismo. »

    Então o Aires Almeida confunde “propaganda” com um argumento ?! Fez-me uma certa pergunta, e respondi-lhe; e pelo conteúdo da sua pergunta ocorreu-me com toda a naturalidade o receio de que o Aires tivesse cometido um erro terrível nesse dia. É ao esquematizado a seguir que chama “propaganda”?... –

    (1) Um qualquer Estado de Direito deve assegurar o princípio mais básico de todo o Direito – a defesa dos mais fracos frente ao poder arbitrário dos mais fortes.
    (2) Após o referendo de 2007, o Estado português deixou desprotegido e perverteu esse princípio.
    (3) Logo, não há no nosso país um Estado de Direito.

    Assim esquemático já lhe reconhece o estatuto de argumento?... Será preciso convertê-lo na forma de um elementar modus tollens?... Estou perplexo.

    Já agora, a propósito, além de um argumento deixo-lhe um aviso sobre o que mais interessa. – Estas coisas graves não se fazem sem consequências graves, de ordem moral, política, social. Posso resumir as consequências terríveis, que já vamos experimentando, em uma única palavra – desumanização. Gradual, insidiosa, crescente desumanização da nossa vida social (ou psicossocial). Fica avisado.

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    1. Duarte Meira,

      Bem pode ficar perplexo, que eu mantenho, e até reforço, exactamente o que disse.

      Parece que o Duarte Meira acredita que basta atirar com um argumento qualquer não haver propagandismo. Nesse caso fico sem perceber por que razão chama propagandista a Singer, pois também ele usa argumentos nos seus livros.

      Mas a verdade é que o seu modus tollens tem uma premissa que não passa de propaganda. Mais exactamente a premissa 2, que é, em meu entender, claramente falsa.

      Quanto ao seu liberalismo, bem pode citar-se abundantemente em defesa da total liberdade de expressão. O problema são mesmo as outras vezes em que faz afirmações inconsistentes com tal liberdade. Por isso digo que o Duarte Meira exemplifica um caso sui generis de liberalismo.

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  19. À reflexão, parece-me que eu não deveria ter começado pelos sentimentos – como o de “vergonha” - ; e deveria ter entrado logo no texto de Singer, a desmascarar o sofista encartado em “filósofo” de bioética. Terei feito mal em excitar sentimentos e emotividades com a palavra forte “propaganda”. Mas, depois, reconsidero e reparo que o sentimento está na raiz do primeiro nome e é a primaz motivação significada na velha e compósita palavra “filosofia”. Ora os estudantes e praticantes da escola “analítica”, tão concentrados e treinados em análises conceptuais, avaliação de argumentos, derivações, cálculos de proposições e predicados, etc., - sentir-se-ão talvez pouco à-vontade com sentimentos e a expressão forte e franca deles, às vezes mesmo rude e mordente, em especial se morde com os caninos da raça de Sinope. – Será também por isso que alguns de vós (como o nosso caro Desidério) não se importariam de abolir a palavra “filosofia”, e substituí-la por uma circunspecta e austera “ciência conceptual”?...

    Mas, assim, reparo que temos respondida a questão posta no meu primeiro comentário.- Afinal, os editores dos livros de Singer não admira que, ao verem neles tanta argumentação, pensem que o sujeito é “filósofo” e o passem publicado em colecções de filosofia.

    Isto implica também com o caso de Gaarder, sobre o qual gostaria de dizer alguma coisa.

    ( E por falar em franqueza. O Aires e o Rolando estejam à vontade para o dizer, se me acharem persona non grata aqui. Eu não gosto de incomodar ninguém. Por meu lado, tenho pago o meu preço, que tenho levado gratamente à boa paciência: nunca pensei que num blogue de filosofia viesse a ter de comentar tão extensamente não-filósofos, como já me aconteceu também com o sociólogo Marx.)

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  20. Caro Duarte,
    Mas quais argumentos de Singer é que rebateu? É que passou-me ao lado. Para sermos mais limpos na discussão peço-lhe que faça o seguinte. Apresente o argumento principal de Singer sobre o aborto. Seguidamente diga-me qual ou quais as premissas do argumento que julga serem falsas. É que tudo o que me tem apresentado é exactamente aquilo com que termina o seu último comentário: como Singer é uma persona não grata, logo não é filósofo, não passa de um Sofista, etc e tal. Para ser sincero nada disto me espanta, nem me choca, nem me acrescenta uma palha à eventual discussão. Alegar que Singer não é filósofo porque faz uma má leitura de X ou Y não me parece suficiente. Caso não acredite, aponte-me um só filósofo que não tenha interpretado erradamente num ou noutro aspecto outros filósofos? Talvez até seja o Duarte que está a interpretar mal Locke. Ou Singer. De outro modo eu não sei como quer que aceite que Singer é um mau filósofo ou um filósofo fraquinho. Será por não concordarmos com o argumento X e Y de um filósofo que o podemos considerar como filósofo ou não filósofo? Carambas, eu que sou ateu jamais poderia considerar filósofo S Tomás de Aquino ou Plantinga. Ou Plantinga não consideraria filósofo Singer e vice versa. Mas isto cabe na cabeça de alguém minimamente informado sobre como se faz filosofia? De outro modo não consigo entender o que aqui tem escrito. Será que acha a escrita de Singer demasiado simples para ser filosofia? é que já vi doutorados em filosofia a alegar essa razão. Isso tem razões sociais e culturais. Certamente muitos filósofos poderiam não ter considerado Sócrates filósofo por não ter escrito uma única linha ou Descartes por ter escrito livros demasiado acessíveis. Será que é a fama de Singer que o incomoda? Pelo que leio do que escreve o que o incomoda é Singer defender ideias que vão contra as suas crenças. Mas, como já lhe expliquei, se a sua procura na filosofia é uma auto ajuda para viver mais confortável com o ego, pode sempre ler o que mais lhe agrada sem ter de importunar as pessoas que pensam de forma diferente da sua. Mas, insisto, se formalizar o argumento de Singer sobre o aborto e indicar as razões que o levam a pensar que a premissa x ou y é falsa, ok, Estamos cá para isso, para aprender discutindo posições.Em relação ao que referiu sobre a filosofia analítica e os sentimentos, essa ideia é completamente falsa. Ou acha que um filósofo porque faz filosofia do modo X ou Y não tem sentimentos? Talvez o Duarte deseje ver nos textos mais enrolados de palavras balsámicas uma espécie de salvação pessoal. mas para isso pode sempre ler romances que fica sempre melhor servido do que com filosofia. Se continuarmos a insistir no mesmo ponto, não há qualquer discussão aqui a fazer.

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  21. "se a sua procura na filosofia é uma auto ajuda para viver mais confortável com o ego"
    "deseje ver nos textos mais enrolados de palavras balsámicas uma espécie de salvação pessoal"

    Já vejo que por aqui tudo continua rolando na mesma: o esquematismo maniqueísta, espelhado naqueles clichés, acaba por obnubilar o resto.

    Com aquelas observações sobranceiras, envia-se também para o limbo da "pré-filosofia" ou da "proto-filosofia" toda uma (para não dizer: quase toda) tradição filosófica.
    A filosofia que se fez digna de tal designação jamais pôde rejeitar o solo, o solo humano e cultural, donde arranca e ao qual, em última instância, reenviará.

    Perigoso exercício aquele: ignora que toda a filosofia é (também, e quanto maior é) ideologia, já que não consegue justificar tudo o que afirma ou contém.

    "Se continuarmos a insistir no mesmo ponto, não há qualquer discussão aqui a fazer": ressoa aqui o silvo de um boomerang na sua viagem de retorno...

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  22. Caro Rui, aqui procura-se discutir (o que ainda não aconteceu) os argumentos (ou parte deles) de um filósofo. Não vejo em que é que o seu comentário possa ter acrescentado algo à tentativa de discussão. Não gostar do meu estilo é uma liberdade sua. Nada aí há a discutir.

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  23. Já que não vejo qualquer adiantamento à discussão, começamos então por algum ponto. Sugiro este sobre o problema moral do aborto: Para que um feto fosse uma pessoa – coisa que Singer não admite que seja – teria de possuir racionalidade e autoconsciência. Está em causa a definição de um conceito, o de pessoa. Concordam? Se discordam, que objecções apresentam?

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  24. Rolando, depende da definição que se quiser dar de pessoa, ou não será? Se para ser pessoa é condição necessária possuir racionalidade e autoconsciência, o feto não é pessoa. Se para ser pessoa não for necessário ter essas propriedades, então a questão fica em aberto pois depende das outras propriedades atribuidas a pessoa.

    Mas duvido que se chegue a um argumento absolutamente conclusivo com argumentos essencialistas, pois estes dependerão sempre de definições que apenas podem ser justificados seja em função de determinados fins, seja para serem consistentes com certos princípios que se julgam ser os melhores. É mais razoável admitir que existirá sempre um grau de arbitrariedade nas "soluções" dos problemas morais, até porque nunca ninguém conseguiu construir um conjunto de postulados que fossem simultanemente completos e que nunca implicassem conclusões que entrassem em contradição umas com as outras. Por outras palavras, parece-me difícil que um assunto tão complexo como a moral possa ser descrito por uma teoria axiomática se nem a física o consegue.

    O método do "romance" até me parece mais fecundo para o esclarecimento do que é que as pessoas sentem acerca dos problemas morais -- do que é que está em jogo, em que consiste concretamente o problemas na cabeça de diferentes pessoas -- na medida em que permitirá melhor ter acesso às opiniões fundamentadas racionalmentes e às outras que resultam de outros factores mais psicológicas, sociológicos, emocionais, culturais, etc.

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  25. Sim Miguel. Uma das características dos problemas filosóficos é o de serem abertos. Daí não se segue que não existam argumentos mais plausíveis que outros. E é exactamente esse tipo de questões de que se ocupa a filosofia moral. Mas é exactamente porque existe filosofia moral que temos avanços nos problemas de que se ocupa esta parte da filosofia. Daí que hoje em dia seja muito pouco consensual entre os filósofos e não só aceitar moralmente argumentos que defendam o racismo, por exemplo. Do facto de serem problemas abertos para os quais não há soluções empíricas, não se segue, creio, que seja motivo para cruzar os braços. Até porque mesmo que defendamos (e há quem defenda) que não vale a pena pensar o problema X porque não há solução para o mesmo, esta mesma posição configura um problema em aberto. Na verdade só fazemos questões para as quais não temos respostas. Ou qual o sentido de só fazer questões e levantar problemas cuja resposta já a temos de antemão? Mas concordo com o Miguel quando refere que a questão da moralidade (como toda e qualquer questão levantada por seres humanos) tem respostas de vários ângulos, seja da física, da biologia, antropologia, etc... Acontece que somos um pouco limitados para estudar tudo ao mesmo tempo e também de nada avançamos se novamente cruzarmos os braços alegando que a questão é muito complexa, pelo que não vale a pena estudá-la. Se assim fosse nunca avançaríamos em matéria alguma onde existam problemas :-) O interesse filosófico de Peter Singer é exactamente esse pois tem reformulado bem alguns princípios filosóficos para pensar questões como aborto, racismo, preservação da natureza, a própria natureza da ética, etc... A vitalidade da filosofia é exactamente a de podermos ou não concordar com os argumentos propostos. Mas engana-se quem pensa que em ciência as coisas não são exactamente a mesma coisa que na filosofia. O miolo da ciência é o mesmo que o da filosofia e também em ciência há mais erros que acertos, há mais problemas que soluções e os avanços são grandiosos, mas lentos, demoram por vezes séculos. O que distancia a ciência da filosofia não é exactamente o problema de haver mais repostas em ciência que em filosofia, mas o facto dos problemas científicos serem falsificáveis pela experi~encia, ao passo que a natureza dos problemas filosóficos não usa esta técnica. A toolbox da filosofia é a argumentação racional e daí que eu tenha alertado o Duarte que não basta em filosofia gostarmos ou não dos argumentos, mas pensá-los de modo rigoroso e sistemático. Se o Miguel me perguntar o que é uma pessoa, eu posso avançar com uma definição e é certo que qualquer definição de pessoa capta toda a verdade da pessoa. Mas é precisamente por isso que se tem afinado o conceito ao longo de toda a história da filosofia. O que Singer nos mostra, talvez, é que a definição de pessoa tradicional não é uma boa definição para a incluir numa premissa que nos mostre que o aborto é imoral. E o Miguel parece concordar com Singer. Afinal, se nenhuma definição de pessoa é boa, o que nos permite fazer juízos morais sobre o aborto com uma definição incorrecta? Ou com a ausência de uma boa definição? Humildemente lhe digo que neste ponto a reflexão de Singer é interessante, pois pelo menos mostra de modo razoável que se queremos defender a imoralidade do aborto, temos de o fazer com outros critérios que não a definição tradicional de pessoa. Obrigado

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  26. Onde digo "e é certo que qualquer definição de pessoa capta toda a verdade da pessoa. " queria dizer "não capta"

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  27. Outro aspecto ainda que talvez seja aqui útil referir: não saber definir um conceito não é vergonha alguma. Afinal é exactamente essa perplexidade que nos faz querer pensar. De outro modo se já temos tudo muito arrumadinho e definido, ok, podemo-nos então dedicar à tarefa de sacerdotizar o povo. O problema maior é que como somos falíveis, podemos estar errados e, se assim for, andar a enganar o povo :-) não é isso que Singer faz, certamente.

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  28. Outro aspecto ainda. O Migeul referiu (e bem) "É mais razoável admitir que existirá sempre um grau de arbitrariedade nas "soluções" dos problemas morais, até porque nunca ninguém conseguiu construir um conjunto de postulados que fossem simultanemente completos e que nunca implicassem conclusões que entrassem em contradição umas com as outras. Por outras palavras, parece-me difícil que um assunto tão complexo como a moral possa ser descrito por uma teoria axiomática se nem a física o consegue." O problema nesta afirmação é o seguinte: ainda que a afirmação seja verdadeira, haverá certamente maior arbitrariedade ainda se ignorarmos o problema pura e simplesmente. É que não nos livramos de fazer juízos morais. faz parte da nossa natureza. Sem reflexão rigorosa e sistemática, ajuízamos com quê? com os preconceitos?

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  29. « Para sermos mais limpos na discussão peço-lhe que faça o seguinte. Apresente o argumento principal de Singer sobre o aborto. Seguidamente diga-me qual ou quais as premissas do argumento que julga serem falsas.»

    Rolando Almeida:

    Eu disse que não tinha mais tempo para Singer, e disse porquê. Mas em atenção a si, já que insiste; em consideração pela importância do assunto – que é de vida ou morte -, continuemos, e continuarei aqui às suas ordens. Aliás, o argumento da pessoalidade, avançado pelo sofista, não é original dele e parece ser o mais comum e o que de mais forte os cúmplices do abortamento costumam apresentar. Julgo que assim também responderei à proposta que fez aos leitores deste blogue. ( « Sugiro este sobre o problema moral do aborto: Para que um feto fosse uma pessoa – coisa que Singer não admite que seja – teria de possuir racionalidade e autoconsciência. Está em causa a definição de um conceito, o de pessoa. Concordam? - Está em causa a definição de um conceito, o de pessoa.» - Mas quero lembrar-lhe já, antes de quaisquer “definições”, que o que na vida corrente “está em causa” neste assunto são questões de matar ou sobreviver, agir bem ou agir mal e assumir as consequências de motivos, decisões e concepções sobre a existência, mais ou menos conscientes, cognitiva e moralmente. )

    Acontece que eu precisaria de pelo menos três (longos) comentários dedicados. – Um para a exposição que Singer faz do argumento, ou antes, para a subversão do argumento “conservador”, a partir do argumento apresentado, sim, por Michael Tooley (1972), que o australiano apresenta e a que não faz nenhuma objecção; outro para as questões de metafísica implicadas; um terceiro para as de axiologia e ética.

    Presumirei que o Rolando Almeida e os leitores conhecem as páginas mais directamente relevantes à questão do abortamento, na tradução portuguesa (2000) da “Ética Prática” de Singer, capítulos 4 e 6. Assim, talvez que possa conter tudo em dois comentários.

    Se outros trabalhos mo permitirem, aqui terá amanhã a primeira entrega. Se não, só para a semana.

    A ver se deixamos então as considerações genéricas sobre “toolboxes” e apreciações vagas sobre o que Singer fez ou não fez, e vamos às citações concretas dos termos, proposições e páginas. Mas, quem é que, até agora, foi o único que fez isso ?... Verá o Rolando, como se tem visto, se eu sou ou não sou fiel à letra e ao pensamento de Singer, e verei eu se me limpa (por falar em “limpezas”) os olhos para eu admirar as alegadas “subtilezas” do sofista.

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  30. Caro Duarte, no seu último comentário não vi qualquer objecção ao conceito de Pessoa ( e não pessoalidade) de Singer.
    Se a ideia é dizer-me que não gosta de Singer porque ele não lhe diz o que quer ouvir, isso já percebi.
    Um esclarecimento: toolbox é caixa de ferramentas. O Duarte insiste numa falácia muito fácil de percepcionar: ataca, mas não argumenta. E muito sinceramente não quero entrar em disputas pessoais. Não que elas ocasionalmente não me proporcionem a ilusão de libertação de energias. Acontece que no caso não me vão levar a lado algum proveitoso.

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  31. Para se discutir filosofia é preciso querer mesmo discutir filosofia. Ora, aquele que realmente quer discutir os problemas filosóficos, em vez de simplesmente tentar impingir os seus preconceitos aos outros, costuma observar certos princípios subjacentes a qualquer discussão bem intencionada (quer dizer, a discussão que busca a verdade ou, pelo menos, o esclarecimento mútuo). Um desses princípios é não usar linguagem tendenciosa, a qual, em vez de abrir a discussão, a condiciona e a manipula.

    É isso que, reiteradamente, o Duarte Meira tem feito aqui. O que mostra que não está minimamente interessado na discussão, mas apenas em fazer passar, seja de que modo for, uma ideia que considera indiscutível. Como o Duarte Meira deve saber, nenhuma discussão é saudável quando alguma das partes cai sistematicamente nas falácias da linguagem e da definição tendenciosas.

    Eis alguns exemplos de linguagem tendenciosa que inquina qualquer conversa:

    «os cúmplices do abortamento»

    «desmascarar o sofista encartado em filósofo de bioética»

    «um sofista da pior espécie»

    «os corifeus do abortismo»

    «a insidiosa, crescente desumanização da nossa vida. Fica avisado.»

    «Singer ...[é] abortista e infanticida»

    «[o que está em causa é] matar um ser humano, [ou, mais precisamente] matar um feto humano.»

    Muito honestamente, tudo isto não passa de terrorismo verbal. Pessoalmente, recuso-me a entrar numa discussão nestes termos, que é tudo menos filosófica. Aliás, podemos ler muitos filósofos que consideram o aborto moralmente impermissível, mas a quem nunca passaria pela cabeça usar tal linguagem (não só no que diz respeito ao abuso malabarista dos adjectivos, mas também à forma enviesada como se colocam os problemas).

    E também nunca vi um filósofo defensor da permissibilidade moral do aborto defender que se deve abortar. Mais hilariante ainda é chamar «infanticida» a Singer. A sério? Quantas crianças matou? E não está na prisão?

    Já agora, a questão ética do aborto não é a seguinte: é moralmente permissível matar um feto humano? E muito menos é a questão de ser ou não ser permissível matar um ser humano. Por um lado, porque aquilo que, em parte, está em causa é precisamente se se trata de um ser humano. Por outro lado, porque a expressão «matar um feto humano» não é neutra. O que é neutro é falar de «destruir um feto humano» em vez de matar um feto humano. Tal como não dizemos que se mata esperma humano, ou que se mata um rim humano; o que é correcto é dizer que se destrói esperma humano e se destrói um rim humano.

    Mas estas subtilezas não dão jeito nenhum, não é?

    Em suma, temos estado aqui perante uma pseudo-discussão filosófica, em que alguém não se importa de torcer as coisas só para fazer prevalecer o seu ponto de vista. Pode haver algo mais sofístico do que isto?

    Eu fico-me por aqui.

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  32. Já quase não comento nestes posts e quando os faço optei por fazê-los sem comentários, por uma razão muito simples, que vejo reiterada sempre que venho aqui ler as caixas de discussão: nada se aprende, nada se ganha, nada se transforma, tudo fica cada vez mais na mesma. Até o tempo que demorei a escrever estas curtas linhas tinha sido mais bem gasto a ler um parágrafo só de um artigo qualquer. Não sentem isso, cada vez mais e já tão batido que está fora de prazo?

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  33. Rolando Almeida:

    Teria muito a dizer sobre a maneira como Singer “decompõe” a doutrina da “santidade da vida humana”, que despacha numa penada em parágrafo da sua Ética Prática (trad. port., 2000, pág. 109, 2º parágrafo; o termo “decompusemos” está na 110). Doutrinas como essa, alega ele, “já não são actualmente aceites” (?!) (Ibid.) Parece que não se perde nada, porque a “questão moral do aborto” pode ter “uma resposta clara, pelo menos nos limites da ética não religiosa” (158). Vejamos então essa “clareza”, e concentremo-nos naquele argumento que Singer associa a uma “posição conservadora”, por comparação aos argumentos “progressistas”. (Estes rótulos...)

    Aceitemos para já a maneira como ele no-lo apresenta (158 e 170):

    (a) É um mal matar um ser humano inocente.
    (b) Um feto humano é um ser humano inocente.
    (c) Logo, é um mal matar um feto humano.

    Consdera ele que (a) é “fraca”. Porquê? A fraqueza reside no “facto” (sic) de “assentar na nossa aceitação do estatuto especial da vida humana” (170; “humana” está sublinhado por Singer).

    (1) Ora, não é de maneira nenhuma “claro” que haja em (a) qualquer implicação (lógica, metafísica, epistemológica) directa, necessária ou suficiente para que “assente” em tal “estatuto”, ou seja “especial” ou não. Apenas parece – sublinho: parece -, porque neste ponto o sofista rebusca a “decomposição” de sentidos que já operara antes (cap. 4) na expressão “ser humano”: como ser vivo “membro da espécie Homo sapiens” ou como “pessoa”. A decomposição tem a vantagem retórica de colocar a expressão à mercê da manipulação sofística, pela aplicação dos termos (pré-fabricados) que mais lhe convêm. Portanto, não há aqui nenhum alegado “facto”, mas mero expediente retórico.

    As falaciosas “decomposições” a que procede Singer têm outro efeito: o de eliminar um elemento moralmente decisivo (mas incómodo) para o plano ético no assunto que tratamos, como depois mostrarei. É que temos mais em (a): que é um mal matar esses indivíduos humanos quando inocentes (de qualquer responsabilidade ou culpa, presume-se). Sobre isto o sofista nada diz e nada tem que dizer. Percebe-se porquê: a introdução ad hoc do termo “pessoa”, livra-o também dessa dificuldade relativamente ao feto humano; e a consideração exclusivista e unilateral deste como mera entidade biológica permitir-lhe-á a comparação da vida do feto humano com a de outros animais (cf. 171).


    (2) Tal introdução é feita imediatamente (ibid.), mas também não é nada “clara” e, por isso, muito questionável. – De onde lhe vem o conceito de pessoa? Como é que pega nele e o trata? (Isto é: confrontou a noção lockeana com outras possíveis? Tomou esta noção seleccionada em devida consideração?) Por que é que o conceito de pessoa é necessário ao assunto do abortamento de fetos humanos?

    Talvez o Rolando Almeida, que também se apressou a introduzir o termo aqui e a propô-lo como ponto de partida para o debate, nos saiba clarificar o que Singer deixou quase de todo obscuro. A análise das questões e da formulação delas é o primeiro passo para o trabalho da “crítica” e para uma “boa crítica”, não lhe parece?

    Disse “quase” de todo obscuro, porque em Singer há isto – e só isto: a noção (de Locke e Fletcher, que ele cita) « capta os elementos do sentido popular de “ser humano”», diz ele (108). Acobertando-se no senso comum, o sofista omitiu o que não lhe convinha: - é comum dizer-se, sim que “os seres humanos são pessoas” quando estamos a pensar em seres humanos já normalmente desenvolvidos. (Tipicamente, desenvolvidos ao ponto de podermos ter uma comunicação como esta que estamos a ter aqui.)

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  34. Mas, se é logicamente impertinente, a noção de pessoa não poderia ser ontologicamente relevante ao assunto? Eventualmente, sim, até começando pela lockeana, respeitados os outros aspectos do pensamento de Locke (sobre o “direito natural”), com que essa noção está conectada; e pelo menos outra noção, aplicável, poderia achar-se na nossa tradição cultural; mas não é esse o meu assunto aqui e agora. Baste dizer que a noção vulgar de pessoa não parece uma propriedade essencial de ser humano, se há outras pessoas não humanas (como o próprio Singer admite); nem parece atribuível não só a fetos humanos, como a indivíduos humanos em coma, transitório ou permanente, ou padecentes adiantados da Alzheimer ou de “demência senil” (e outras situações). Por outro lado, partindo do trabalho recente de filósofos como Eric Olson (The Human Animal: Personal Identity Without Psychology, 1999) vários filósofos têm vindo a propor uma concepção – o “animalismo” -, que é, de certo modo, a inversão do “pessoalismo” vulgar de Singer e companhia, a meu ver com o perigo de exclusivismo oposto. É que, à análise, em abstracto, pode aceitar-se que o ser humano é uma entidade biológica e, como tal, pode ser e é estudado por ciências como a “Biologia”, como outro ser vivo qualquer; tal como pode aceitar-se que é uma entidade psicológica (pessoal), a ser estudado por outras disciplinas, como a “psicologia”. Porém, na realidade concreta, existencial, o ser humano é – e é sempre – uma entidade individual (não um “género”) conjuntamente biológica E psicológica. Temos pois em (a) um conceito genérico, logicamente extensível a entidades que, existencialmente, são de facto unidades indissociavelmente biopsicológicas.

    Mas, sobre estas metafísicas “questões últimas”, que Singer expressamente considera “o objecto” próprio da filosofia, o sofista não tem uma reflexão sequer sumária como a que dedica à “ética” no capítulo inicial do livro. Ora, já em 1975 (três anos após o afamado artigo de Tooley em defesa do abortamento e do infanticídio), que a filósofa canadiana Jane English mostrara que “uma resposta conclusiva sobre se o feto é ou não pessoa é inalcançável” (I think a conclusive answer to the question whether a fetus is a person is unattainable). A lição deste artigo, também publicado em antologias, não ficou afamada, foi ignorada.

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  35. (3) Não há nenhuma razão suficiente, nem necessária, para introduzir o conceito de pessoa a propósito do estádio de desenvolvimento do ser humano enquanto embrião e feto humanos, que é do que se trata.

    A introdução de tal conceito é, logicamente a fabricação de uma espantalho; e é uma manobra psicológica de jogar com as aparências (os fetos humanos não parecem entidades racionais e, portanto, “pessoas” humanas) e tirar partido das aparências para uma certa tese (moral) que ao utilitarismo “das preferências” interessa defender. Para além de aproveitar (na medida em que lhe convém) um conceito que, desconhecido na conceptologia filosófica da Antiguidade pré-cristã, é, este sim, “um legado de doutrinas religiosas”. ( Mas, na 170-171, o sofista encobre-o e avança com a trocagem: a “crença de que a mera condição de pertencer à nossa espécie, independentemente de outras características, tem grande importância para o mal de matar um ser constitui um legado de doutrinas religiosas ... ”)


    (4) Não só é dada alguma razão válida para o introduzir, como o conceito de pessoa é desnecessário para a questão de o que é ou não é ser humano, no quadro da presente questão. É desnecessário trazer um conceito que tem uma longa e variada história, e complicar a questão com complicadas noções associadas de “senciência”, “consciência”, “autoconsciência”, “identidade pessoal”, “continuidade pessoal”, etc.; e as não menos complicadas do “ponto” em que o feto (ou a criança no pós-parto) já teriam ou não teriam tais capacidades.


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  36. Não vou, é claro, justificar esta objecção ao argumento de Singer trazendo outros conceitos, sobre os quais os profissionais da “argumentação” poderiam disputar interminavelmente. Vou apelar apenas à observação objectiva e imparcial de um facto empíricamente observável, aliás acessível a tecnologias de imagem já disponíveis nesta nossa sociedade que se vai instalando no Big Brother. –

    Suponha o Rolando Almeida que a toda a nossa vida neste mundo, a sua e a minha, tem vindo a ser filmada em todos os momentos; que requeríamos o visionamento do filme feito até agora, e que no-lo exibiam em retrogressão acelerada, desde o momento actual do nosso pedido até ao inicial da nossa existência. Iríamos revendo sucessivamente tudo o que fomos e nos aconteceu, até ao momento do parto; depois, com câmaras intra-uterinas, tudo o que fomos antes do nosso parto. (O momento inicial pode observar-se e contar-se, com precisão, numa qualquer vulgar caixa de Petri laboratorial, em reprodução artificialmente induzida: é o momento da 1ª mitose celular, terminado o processo da singamia, que decorre 24-48 horas após a penetração do espermatozóide no óvulo.)

    Agora, pergunte-se: - em algum desses momentos da nossa vida humana deixámos de ser humanos ? Se ao espectador do filme custa fazer um esforço de objectividade imparcial, imagine o Rolando que tínhamos ao nosso lado uma entidade racional não humana, extra-terrestre. Em um dado momento, alguém interrompe o filme e diria – “a partir daqui já não é um ser humano porque já não é auto-consciente; em outro momento: - “a partir daqui já não é humano porque já não é senciente”-, etc. Parece-lhe que o extra-terrestre, por mais racional que fosse, teria alguma razão suficiente para responder que tal ou qual indivíduo seria ou não seria “humano” em um em vez de outro qualquer momento da sua evolução temporal?... E, continuando os outros em intermináveis disputas, o que é que faria ele? Pois parece que optaria pelo mínimo racional exigível: confiaria no que ele próprio e todos os outros tinham visto, sem qualquer dúvida possível.

    ( Mas o alienígena alienava um aspecto muito humano: há quem tenha olhos e não queira ver... Se o recurso a extra-terrestres lhe repugna, sugiro que adopte aquela visão “sub specie aeternitatis”, de que falava Nagel a propósito da questão do sentido da existência humana.)

    Portanto, justamente considerada, a 1ª premissa do maltratado argumento “conservador”, deve antes considerar-se assim: - É um mal matar qualquer indivíduo humano inocente em um qualquer momento da sua existência.

    Na próxima entrega, que conto fazer dentro de dias, verá o Rolando Almeida que a mesma descomplicação pode aplicar-se às questões de axiologia e ética envolvidas.


    (Antepus números entre parênteses aos parágrafos marcantes das principais objecções que faço ao argumento de Singer, que me convidou a fazer.

    O artigo citado de Jane English foi publicado no Canadian Journal of Philosophy, Outubro de 1975, com o título Abortion and the Concept of a Person, e também em várias antologias.

    Singer reconhece que “a filosofia é o estudo daquelas questões últimas sobre a natureza do mundo e como devemos agir” –logo na abertura da entrevista que concedeu a Desidério Murcho em 2000, que foi publicada no jornal O Independente e aqui na Crítica, em que o sofista aparece anunciado como... “Um Sócrates para o Século XXI”!)

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  37. Rolando Almeida:

    Na entrega anterior, cuja leitura é imprescindível para a avaliação crítica do que segue, terminei as objecções às objecções de Singer com um argumento empírico muito parcimonioso a favor da evidência da humanidade do feto humano, aliás de há muito já perfeitamente estabelecida pela embriologia e pela “biologia do desenvolvimento”. Poderiamos chamar-lhe o argumento do filme da nossa vida. (Parcimonioso também no sentido de que não acolhe pretensas “ambiguidades” da expressão “ser humano”, e portanto não faz uso nem “procura tirar proveito ilícito [sic] dessa ambiguidade”, como insinua Pedro Galvão relativamente a David Oderberg, que o Rolando me recomendou como um filósofo que “rebate bem” o australiano.) Parece que neste blogue não é de mais lembrar isto a alguém: - desde o início da primeira mitose (reprodução) celular, temos iniciada a existência de um novo indivíduo humano, distinto dos progenitores, com um genótipo singular e um sexo (genético) próprio, mesmo antes da fixação no endométrio uterino, cerca de duas semanas após a fecundação/fertilização. (Não estava apensar no Rolando, que reconheceu acima os “avanços grandiosos” das ciências.)

    Usarei hoje da mesma parcimónia para as questões de axiologia e ética. Diz o sofista:

    « O valor da vida constitui um problema ético notoriamente difícil e só podemos chegar a uma conclusão racional sobre o valor comprovativo da vida humana e do valor da vida dos animais depois de discutirmos o valor da vida em geral. »(82)

    Parece – sublinho: parece – “difícil” quando o examinamos em termos gerais e abstractos, de mistura com outros assuntos, como o da comparação entre a vida dos animais humanos e a dos não humanos, ou agendas mais ou menos ocultas. (Veja-se esta entreaberta: « Estando o mundo com excesso de população, o argumento não proporciona absolutamente razão alguma contra o aborto»... 175)

    À análise abstracta, parece que a vida, enquanto “meramente” biológica, é a mesma e vale (ou não vale) o mesmo em todos os indivíduos de todas as espécies, ao menos animais; e se, na base da mera abstracção, apartamos (muito convenientemente ) o plano da mera“psicologia”, então até dá para concluir que ... « se fizermos a comparação com o feto [humano] de menos de três meses, um peixe mostra maiores sinais de consciência» (171) [ Cf. 110: « Matar um caracol ou um recém-nascido com um dia não frustra nenhuma aspiração deste tipo, porque os caracóis e os bébés são incapazes de semelhantes desejos.»

    Veremos já como é que a vida de um feto humano – e precisamente porque não consciente – pode ser eticamente valiosa, à luz de um certo valor que o próprio Singer expressamente refere, para logo ocultar.

    Se não perdermos de vista o assunto concreto em debate – sobre a condição ontológica e a valiosidade ética do feto humano -; também as melhores informações que a melhor ciência nos pode dar sobre isso; e (sobretudo) não deixarmos afogar o bom senso nas complicações e “subtilezas” dos sofistas ( os ingénuos ou apaniguados chamam-lhes “argumentos sofisticados”), - a parte ética do caso também se resolve com a mesma facilidade (neste ponto) com que a outra está, de facto, resolvida. Como?


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  38. (1) Se um certo conceito de pessoa, usualmente avançado, é impertinente à reflexão sobre a condição ontológica do feto humano, tal conceito também não é necessário à questão da valiosidade dessa existência. – E desde logo por isto: mesmo que concordássemos plenamente nas notas da noção de pessoa avançada por Fletcher-Tooley-Singer, etc., haveria que determinar em quê e porquê tais notas são em si mesmas moralmente relevantes e, em particular, por que é que são “boas”. (E poderia acontecer que um amoralista considerasse facto tão moralmente irrelevante o facto psicológico de ser “pessoa” como o facto biológico de ser “membro da espécie Homo sapiens”.) Então, o que é que importaria?

    Muito simplesmente e muito precisamente o termo que Singer elidiu na 1ª premissa do argumento da humanidade ( a que ele chama “conservador”) e varreu para a sombra da razão, quando avançou para a clareira do debate o termo “pessoa”. Lembremos a premissa :

    «É um mal matar um ser humano inocente.»

    É o termo “inocente”. E, se com elementar bom senso racional, entendermos no termo e neste caso a referência a um ente não responsável e não culpado, nem da sua existêncoia nem de atentar contra a existência de outrem, a questão resume-se neste princípio: - tal existência é um bem a proteger, ou não é? (Aqui temos o valor ou categoria ética de valores: o “bem”.)

    Ora, tal questão pode resolver-se até nos termos do próprio Singer: ele não contesta que seja um “mal” matar seres humanos inocentes; não é a isso que ele objecta na premissa. Como já sabemos, o que ele faz é condicionar esse mal à verificação de um suposto estatuto privilegiado (o de “pessoa”). Mas, se tal condição não tem – como de facto – nenhuma razão de ser aplicável ao caso, temos então que a inocência do ser humano nesse perído inicial da nossa existência é um bem – e um bem a proteger do mal de matar.

    Mais ainda: é facilmente argumentável que só nesse estádio pré-consciente é que um ser humano em seu desenvolvimento normal, - é decerto “inocente” o mais possível. Com efeito, como é que um ser já consciente (já uma “pessoa”), portanto já consciente do bem-e-do mal, pode não ser ao menos uma potencial ameaça para a existência dos outros (humanos ou animais) ? Como é que poderia “ter desejos” só do bem, de todo inocente de qualquer mal? Eis uma pergunta que se poderia fazer a Singer e companhia, mas que parece ficar igualmente bem entregue a Rolando Almeida.

    Assim a passagem do plano axiológico ao da normatividade ética também não representa dificuldade de maior à razão descomprometida de preconceitos e de pseuso-problemas irrelevantes ao caso, bem como ao senso moral comum (o que chamam “moral intuition”) do que são ou não são “direitos” (e correlativos “deveres”). Conjugando o que disse no comentário anterior com o que disse atrás sobre o conceito de inocência, teríamos então o argumento “conservador” reposto nos seus devidos termos:

    (a) Em qualquer momento da sua existência temporal, qualquer ser humano inocente tem direito à continuação e protecção da sua existência.

    (b) Qualquer embrião ou feto humano em desenvolvimento normal é um ser humano inocente.

    (c) Logo, em qualquer momento da sua existência temporal, tem direito à continuação e protecção da sua existência.

    E o respectivo corolário:

    (d) Se o feto humano é o ser huamano mais inocente ( e o mais indefeso), então é o que tem mais direito à continuação e protecção da sua existência.

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  39. (2) Mas Singer objectaria (116) - « Não penso que a noção de “direito moral” seja útil nem importante»; contudo, abre uma excepção: « excepto quando é usada como uma forma abreviada de nos referirmos a considerações morais mais fundamentais.» Quais sejam estas, não diz nem se percebe; passa logo a seguir à apresentação do argumento de Tooley a favor do aborto e do infanticídio (116-119) – a que não faz nenhuma objecção – e não fica nada claro quais seriam as “considerações morais mais fundamentais”. Coisas como senciência, consciência, auto-consciência, no contexto darwiniano em que alinha Singer (cf. 92), podem ser factos da vida animal, como quaisquer outras características das espécies; e, portanto, “desprovidas de significado moral” (cf. 170). Pelo contrário, como defendi acima, a “consciência” parece não ser, por si só, a melhor garantia dalguma genuína “inocência”. Não se vê, pois, quais seriam essas considerações “mais fundamentais”. E a objecção fica sem fundamento.

    (3) Teria eu não pouco a dizer sobre as implicações de tudo isto para o “princípio da igualdade”, avançado por Singer em favor da sua “ética” (cap. 2), em especial à luz das comparações que ele faz entre a vida humana e a vida animal. Mas isso afastar-nos-ia das objecções à “regra permissiva” do abortamento até “uma fronteira situada nas 18 semanas”(185), depois de ter reconhecido antes que... - “não existe uma linha divisória nítida que separe o ovo fertilizado do adulto” (157, 2º parágrafo, in fine) !

    Quanto disse nos comentários anteriores parece-me suficiente para se avaliar a que fica reduzida a “igualdade da consideração dos interesses”... dos que já são “pessoas” para terem “interesses” e “preferências”. Diz Singer, na entrevista de 2000 já aqui citada, que “não é fácil colocarmo-nos na posição dos animais”, mas considera que “devemos tentar fazê-lo”. Muito bem. Mas, pelo que vemos, parece que é mais custoso ao sofista “colocar-se na posição” dos animais humanos nas primeiras semanas da nossa existência.

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  40. Rolando Almeida:

    Eis o essencial da minha crítica à crítica que Singer faz ao “princípio conservador”, que assumo como princípio conservador da vida de um nosso semelhante que vive, e deve prosseguir a sua vida, como qualquer um de nós, em segura paz, se mal não faz.

    Também neste comentário antepus um número aos parágrafos que demarcam as diferentes objecções, esperando que agora lhe fiquem mais visíveis.

    Julgo que já basta sobre este sofista que é um representante típico daqueles “bioeticistas” moralmente nada recomendáveis, - porque é um homicida moral. (Note bem como ele próprio se julga: « Se permitir que alguém morra não é intrinsecamente diferente de matar alguém, nesse caso parece que somos todos homicidas», diz na 244, a propósito do assunto da fome no mundo...). E homicida da pior espécie - porque argumenta com plena consciência, e dá licença a frio, sem as emoções e pressões a que muitas mulheres grávidas sucumbem, pouco cientes do que fazem ou são levadas a fazer. Agora, não se escandalize com nomes, não passe o tempo a repetir-me que eu não gosto dele, e – calmamente, directamente, precisamente – ponha aqui em prática o que neste blogue se está sempre a pregar: “crítica”... “argumentação”... “análise conceptual”... Ou tão somente responda às questões que aqui lhe deixei. (Se reconsiderar quanto eu disse, e lembrando a proposta que fez aos leitores, pode começar por nos explicar por que é que são precisas definições de o que é ou não é “pessoa”, a propósito da maneira como devem ser considerados seres humanos semelhantes a si e a mim na nossa idade pré-parto.) Ou então, já que falou em “humildade”, reconheça ao menos que estava completamente errado quando disse ao comentador Miguel - « o que Singer nos mostra é que a definição de pessoa tradicional não é uma boa definição para incluir numa premissa que nos mostre que o aborto é imoral.» - A noção comum não está na premissa (que fala em “seres humanos”). Quem a traz é Singer, para a conveniência de nos mostrar que o abortamento é moralmente permissível.

    Continuo à sua disposição para quaisquer esclarecimentos sobre as minhas críticas e argumentos, ou questões conexas. Mas não à disposição de Aires Almeida, que por ele próprio se colocou fora do debate e numa posição delicada. Conto na próxima 2ª feira explicar-lhe a ele porquê.

    A opinião citada de Pedro Galvão está num artigo recente, onde o leitor interessado encontrará uma exposição muito mais clara, didáctica e relativamente equilibrada de argumentos pró e anti-abortamento. (Embora não isenta de ambiguidades e não tão equilibrada quanto poderia e deveria ser.) –

    http://pedrogalvao.weebly.com/uploads/6/6/5/5/6655805/pgaborto.pdf

    Nesta recensão a um livro de Pat Benatar, podemos surpreender até que ponto “o valor da vida constitui um problema notoriamente difícil”... para Singer. Aos argumentos do autor - « Even if we take a less pessimistic view of human existence than Benatar » , o sofista nada mais tem a oferecer senão a sua “crença otimista” (« I am enough of an optimist to believe that ...»). –

    http://opinionator.blogs.nytimes.com/2010/06/06/should-this-be-the-last-generation/

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  41. Caro Duarte Meira, se quiser explicar-me algo pessoalmente, deixo-lhe o meu email: aires.almeida@netcabo.pt. Assim, não teremos de aborrecer os leitores com questões que não lhes dizem respeito e em que certamente não estarão interessadas.

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  43. Aires Almeida:

    Já era tempo de passar de indignado com nomes e apodos, - para concentrado no assunto em debate. O seu último comentário mostra porque não o conseguiu fazer.
    Primeiro, umas breves considerações sobre os tais nomes. Na lista que fez das ofensas a Singer falta ainda uma – a de eutanata –, defensor da eutanásia. [ « Deve reduzir-se a quantidade de sofrimento no mundo por meio da eutanásia » (124), falando das crianças “miseráveis”, com uma “vida desgraçada”; no cap. 7, 205-207, expande estas “desgraças” aos casos dos hemofílicos e das crianças com trissomia 21, já não sob alegação de “utilitarismo das preferências” mas rebuscando uma versão “total” (sic) do utilitarismo. Agora, acalme-se, e releia o que ele escreveu: - “Deve”... E agora adivinhe quem escreveu isto: « E também nunca vi um filósofo defensor da permissibilidade moral do aborto defender que se deve abortar. » Quanto ao abortamento, cf. 207 in fine e a primeira frase da 208. E Singer não é um filósofo, que só por inadvertência ou cumplicidade passa por tal e é publicado em colecções de filsofia. (Era essa a questão de onde partimos nestes comentários.) De resto, nunca imputei a Singer nenhum “dever”, nem precisava; basta-me a legitimação moral do “pode-se fazer”. ]

    Permita-me eu insista no nome menos grave de “sofista”, por mais comum e porque tem a ver com um assunto que toquei no comentário que fiz a Gaarder. Uma das muito apreciáveis vantagens – filosóficas – do estudo a profundado e tão minucioso quanto possível da História da filosofia, é pôr-nos questões tão interessantes como estas : - Por que é que a sofística é um fenómeno tão antigo como a filosofia ? – Por que é que filósofos do calibre de Sócrates, Platão, Aristóteles consideravam seu dever denunciar os sofistas e opor-lhe um combate que até levou Sócrates à morte ? – E será que os sofistas são um fenómeno exclusivo da Antiguidade e desapareceram como por magia da História intelectual do Ocidente? – Será que ainda hoje haverá alguns, mas só no mundo do marketing, da advocacia ou da política ?... Outra das vantagens é a de nos informar sobre o contexto do momento, necessidade da introdução e da posterior evolução histórico-cultural do conceito de... pessoa.

    Eu não me importaria nada que o Aires riscasse com o seu lápis azul esses nomes feios e, passando sobre eles, viesse ao assunto que interessa. Mas julgo que não está preparado para isso. Vejamos o que é que, fora da retórica da indignação, se aproveita de crítica racional sua à que venho fazendo ? –

    Um exemplo. Lateralmente, por sua causa, eu argumentei que o Estado português deixou desprotegido e perverteu o princípio da defesa dos mais fracos à mercê dos mais fortes. Eis a sua resposta, de 28.11: « Mas a verdade é que o seu modus tollens [não apresentei o argumento nesta forma] tem uma premissa que não passa de propaganda. Mais exactamente a premissa 2 que é, em meu entender, claramente falsa. » Falsa, porquê ? Procura o leitor uma qualquer mínima justificação e... nada, nenhuma! Mas talvez que no seu último comentário ( de 1.12) achemos, ao menos implícita, algum assomo de ao menos um vago esboço dela. –

    Vejam-se estes inacreditáveis trechos:

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  44. « Já agora, a questão ética do aborto não é a seguinte: é moralmente permissível matar um feto humano? E muito menos é a questão de ser ou não ser permissível matar um ser humano. Por um lado, porque aquilo que, em parte, está em causa é precisamente se se trata de um ser humano. »

    Isto custa a crer! Teremos lido o mesmo livro – “Ética Prática” -, do mesmo autor – Singer ? E a questão que de há décadas tem gerado tanto debate não é a da maneira como deve ser considerado o embrião/feto humano e se é moralmente permissível abortá-lo, em especial por motivos não terapêuticos ? É certo que Singer titula o seu cap. 6 – “Tirar a vida: o embrião e o feto” -; e ao cap. 7 dá este título – “Tirar a a vida : os seres humanos”. Mas são precisamente estas “subtilezas” do sofista que estão em questão e têm sido e devem ser debatidas. Aliás, veja que Singer termina o cap. 6 (onde apresenta e repõe à sua maneira o “argumento conservador”) com a rubrica “Aborto e Infanticídio”, cujas primeiras palavras são estas: «Resta uma objecção ao argumento que apresentei em favor do aborto ... »

    Precisamente o argumento que tenho vindo aqui a questionar e rebater (de que os fetos humanos podem ser mortos por não serem “pessoas”).
    Logo a seguir isto, ainda mais incrível : « Por outro lado, porque a expressão “matar um feto humano” não é neutra. O que é neutro é falar de “destruir um feto humano” em vez de matar um feto humano. (...) Mas estas subtilezas não dão jeito nenhum, não é? Tal como não dizemos que se mata esperma humano, ou que se mata um rim humano; o que é correcto é dizer que se destrói esperma humano e se destrói um rim humano. »

    Quanto às diferenças que vê, no caso, entre “destruir” e “matar”, o nada subtil pontapé na lógica só pode explicar-se pelos motivos psicológicos que sugiro mais adiante. O que eu vejo é que a sua refalsada analogia, que mistura o feto humano com”esperma” e “rins”, a tenho de tomar por um princípio da caridade para consigo só à conta de ignorância dos mais elementares rudimentos da biologia humana. Mas, nem lhe era precisa uma informação mínima da ciência relevante, - bastava-lhe ter lido... Singer! Pois leia-o agora: « Neste sentido [de ser “membro da espécie Homo sapiens”], não há dúvida de que desde os primeiros momentos da sua existência, um embrião concebido a partir de esperma e óvulo humanos é um ser humano» (106); « não existe uma linha divisória nítida que separe o ovo fertilizado do adulto» (157); «neste ponto, é difícil abalar a posição conservadora, que aponta para a continuidade entre o óvulo fertilizado e a criança» (158).
    Eis o que se aproveita dos seus comentários. São “sutilezas” que, ao contrário do que diz, não deixam de “dar jeito”, como explico já a seguir.

    Não julgarei se tamanha insciência da sua parte é moralmente aceitável em alguém que se propõe intervir com alguma seriedade racional num assunto sério – que é uma questão de vida ou morte. Faço-lhe o benefício de conjecturar que seja psicologicamente difícil ao Aires abrir os olhos e encarar de frente certas realidades desagradáveis da comum existência dos homens e mulheres comuns. Para o que está aqui em questão, não está obviamente preparado quem escreveu enormidades como as citadas. Por isso, resguarde-se na consideração dos assuntos estéticos da sua especialidade, e fique por aí. Isso é compreensível e respeitável.
    Eu é que não me fico sem sem lhe dizer que não devia ter misturado na sua indignada lista censória um aviso muito sincero e amigável que lhe fiz. Mas, também aqui, compreende-se que não veja nenhuma relação entre a desumanização crescente que vem impregnando a vida pessoal e social dos portugueses e o que aconteceu no dia 11 de Fevereiro de 2007. (Entre outros acontecimentos: eu não disse que foi a única causa.) Mantenho apesar de tudo o aviso, porque não desejo ao Aires (e a ninguém) que um dia, por infeliz acidente ou mera velhice, possa vir a ficar à mercê dalguns singerianos, que sem “sinais de consciência” já não vêem “pessoas”.

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  45. Quanto a “discutir filosofia” ou não. O nosso assunto era a moralidade de editar e publicitar um autor como Singer numa colecção de livros de filosofia. Defendi que era errado porque Singer não é um filósofo – mas sim um sofista, e um da espécie moralmente a mais perigosa. Argumentei com um ad hominem (quanto ao sofista) e argumentei com o exemplo da pseudo-crítica que ele faz ao “argumento conservador” para a conveniência de permitir o abortamento e o infanticídio (quanto ao aspecto de ser um sujeito perigoso). Fica à vista imparcial dos eventuais leitores quem é que tratou da questão e quem é que se ficou pela indignação; quem é que argumentou e quem é que só se queixou. E continuo aberto às questões, argumentos e contra-argumentos que os leitores me quiserem apresentar.

    O seu comentário de 1.12 foi público e publicado; é de esperar que a minha resposta seja pública e publicada, se o pretexto da “maçada” aos leitores não supõe propósito velado; tanto mais que, como se vê, continuo a não perder de vista o assunto aqui publicamente em questão. Quanto ao Aires Almeida, já se ficou (“fico-me por aqui”). Ofereci-lhe hoje as boas razões que fazem a sua decisão respeitável e inteiramente justificada.

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  46. Caro Duarte, respondendo a um (um de cada vez) comentário seu: "Isto custa a crer! Teremos lido o mesmo livro – “Ética Prática” -, do mesmo autor – Singer ?" Não não lemos por uma razão que transpira em tudo o que escreve: o que o Duarte procura num livro de filosofia é aconchego ideológico para aquilo que assume à partida como verdadeiro ou falso. Ora, o que o Duarte faz não se chama, sequer, filosofia e só com muito esforço se chamaria má filosofia. Escreveu kilómetros de linhas para fazer exactamente o mesmo que acusa erradamente os outros de fazer: sofistica rasteira. E confunde tudo! Baralha, baralha e volta sempre a dar o mesmo: o Singeré um tolo, não é filósofo, é um vendedor de sabedoria, quem concorda com ele é igual, etc... e isto por mais que se lhe tenha dito mais que uma vez que até há muitos aspectos críticos em Singer. Mas o Duarte volta sempre ao mesmo, pois o que está para aqui a fazer é propaganda. E creio que já mostramos que é perfeitamente dispensável que o faça. Até porque a propaganda anti Singer não é nova. Foi a tal ponto que o próprio Singer lhe dedica o último capítulo da Ética Prática. Nesse cap. Singer descreve como de repente um tolo fanático que nem sequer o leu, ou o leu muito mal se atira a ele com violência. Por que não faz um blog com propaganda anti Singer? E já agora incluindo todos aqueles que argumentam como Singer? Pode até chamar-lhe: "O Sofista" e aí pode dissertar as suas posições.

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  47. Caro Rolando,

    O que me parece ser verificável, na qualidade de assistente, é a falta da sua argumentação para com o que foi apresentado pelo caro Duarte.

    Cumprimentos.

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  48. António, E verificou muito bem. Eu não posso pura e simplesmente argumentar quando nada há para argumentar.O exercício feito em longos posts pelo nosso interlocutor não é mais do que uma tentativa de denegrir sem argumentar. E quando assim é, nada há a dizer, pois qualquer pessoa tem o direito de gostar e apreciar o quer que seja. A tese central da argumentação do nosso interlocutor parece-me resumir-se a esta conclusão: Peter Singer não passa de um sofista. As razões apresentadas são basicamente as mesmas (mesmo com muitas variações, que respeito): Peter Singer não sabe fazer definições, Peter Singer usa as subtilezas que lhe interessa, etc...Acontece que são más razões para apoiar a tese pretendida: 1º porque não está a discutir argumentos, mas a psicologia de um autor 2º porque não tem quaisquer dados que lhe permitam seguir por esse caminho. Daí a minha conclusão: o Duarte não gosta de Peter Singer pois o autor colide com as suas crenças (como se isto fosse um escândalo em filosofia), logo, é um sofista barato e não um filósofo. pelas razões que apontei lá mais acima, isto é manifestamente pobre e falso. Finalmente, se me permite, há um outro aspecto que posso estar a interpretar erradamente, mas que pura e simplesmente me aborrece: é que o Duarte parte do pressuposto que por aqui existe algum tipo de idolatria ao filósofo australiano, talvez por isso tivesse ido buscar outras passagens que colaboradores deste blog escreveram no passado. Infelizmente também não tem dados para chegar a essa conclusão, pois neste blog há colaboradores que concordam com argumentos de Singer e outros não. E há colaboradores - como eu - que concordam com alguns aspectos das teorias de Singer e outros não. E há ainda uma boa dose de curiosidade em ler os argumentos de Singer - que também é o meu caso. Agora o que não passa pela cabeça de nenhum colaborador deste blog é fazer uma tese de doutoramento para defender que Singer não é um filósofo. Mas pelo menos da minha parte confesso que tenho alguns atritos semelhantes com alguns supostos filósofos e que eu não os tenho como tal, tal como Heidegger. O que Heidegger - considerado em muitos circulos como o filósofo mais relevante do sec. xx - escreveu de filosofia parece-me mais charlatanice pseudo filosófica. E assumo-o com todos os riscos. Agora não me passa pela cabeça impedir seja lá quem for de 1º o considerar um bom filósofo 2º de o publicar 3º de ver os seus livros (e por vezes ainda pego neles)nas prateleiras de filosofia. Pura e simplesmente não responde aos meus interesses na filosofia nem me parece que seja um filósofo com um papel determinante para os desenvolvimentos que a filosofia veio a ter. Depois disto, se eu continuar aqui, só posso estar a falar em circulos. Mas de outro modo, não me passa também pela cabeça que o que aqui eu defenda tenha o dom da infalibilidade.

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  49. "nem me parece que seja um filósofo (Heidegger) com um papel determinante para os desenvolvimentos que a filosofia veio a ter".

    - Poderia ser caso para observar: os elogios involuntários são os melhores...

    Até porque se poderia acrescentar: "os desenvolvimentos que a filosofia veio a ter" acabam por dar uma espécie de razão póstuma a Heidegger.

    Com efeito, quem estudou Heidegger, aquém ou para além do preconceito - eu fi-lo e, como já se deve ter percebido pelo que aqui de vez em quando comento, não fiquei lá por isso "um heideggariano" -, percebe que o próprio "falhanço" que ele reconheceu ao seu projecto desenhado em O Ser e o Tempo permite compreender melhor o sentido desses "desenvolvimentos que a filosofia veio a ter" (e não, não se trata de nenhum nenhum "prognóstico consolador" ou de marcar uma espécie de "ponto zero do fim/recomeço da filosofia", algo como AH ou DH).

    Quanto à discussão com Duarte Meira, se é verdade que eu já tive oportunidade de constatar que os seus pontos de vista e comentários são, em grande medida, guiados por preconceitos ideológicos - como aconteceu relativamente a uma controvérsia que com ele aqui travei a propósito de Marx, arrumado expeditivamente por ele como mero "sociólogo" -, também me parece que ele se tem esforçado por apresentar um argumentário mais sólido e fundamentado (indo aos textos do próprio Singer), e que no blog lhe têm respondido mais ou menos nos mesmos termos que condenam ou lhe imputam (dir-se-ia por mimetismo "argumentativo"), aduzindo resumidamente que "o Duarte volta sempre ao mesmo, pois o que está para aqui a fazer é propaganda", adiantando de substantivo pouco mais do que essa "contra-argumentação".
    Parece um diálogo de surdos, do qual me dispenso...


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  50. Rui, concordo inteiramente. Pessoalmente não comento os comentários de texto que o Duarte fez, por muito esforço e dedicação que o autor tenha feito. Fico com a ideia que, de um modo geral, já lhe respondi.

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  51. Mais um comentário Rui, eu também estudei Heidegger e ainda assim não compreendo a referência que lhe fez acima.

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  52. Caro Rolando,

    Sublinho o que foi dito pelo Rui. Por mais que o caro Duarte recorra ao ad hominem, os argumentos dele são também expostos sem esse recurso e, mesmo quando o utiliza, podera sempre o caro Rolando ignorar isso, e focar-se apenas no argumento que, sejamos honestos, está à espera de resposta.
    Sempre julguei que as coisas, com ou sem preconceitos ideológicos ou o que se lhe queira chamar, se resolvem na discussão e na argumentação. O que se passou aqui foi um sujeito a chamar diversos nomes ao intelectual Singer, sendo por isso censurado; seguidamente, o mesmo sujeito argumentou em favor da sua visão do autor, e o Rolando simplesmente não respondeu.
    Não quero com isto, claro, levantar alguma questão conflituosa, mas apenas espero que o Rolando, pelo bem da discussão, responda, sem vergonha ou medo, que penso eu serem conceitos que não devem constar da argumentação que julgo ser séria e, como disse o caro Duarte, grave.

    Cumprimentos,
    António Teixeira

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  53. António, de acordo. Insisto que parece-me que já respondi aos apelos do Duarte, com efeito, posso estar a fazer uma leitura errada do que fiz. Nesse sentido vou pedir-lhe ajuda: é capaz de sintetizar em meia dúzia de linhas os argumentos do Duarte? É que posso estar a responder pressupondo algo que não compreendi bem nos argumentos do Duarte e, nesse caso, se tentasse responder uma vez mais poderia eventualmente desviar-me do que outros leitores estipulam como sendo a argumentação apresentada pelo Duarte. peço-lhe, então, por favor, quais, em sua opinião, os argumentos centrais do Duarte aos quais eu ainda não respondi. Obrigado

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  54. Rolando Almeida:

    Coloquei-lhe aqui uma primeira questão directamente no dia 26.11(peço desculpa de ter falado em “Ricardo” em vez de Rolando); relembrei-a no dia seguinte, 27; e outras questões lhe deixei nos dias 4 e 7 relativas ao debate a que publicamente aqui nos convidou no dia 29.11. A tudo isto e à disponibilidade “para quaisquer esclarecimentos sobre as minhas críticas e argumentos, ou questões conexas” ( 7.12), o Rolando estampou aqui no passado dia 11 uma “resposta”. Deixei passar mais uma semana, para o Rolando reflectir e revir sobre ela, e ao menos rever o nome endereçado. Não me revejo nele e não vejo nela ponta por onde pegue aproveitável às questões em debate. Julgo que lhe dei tempo bastante para passar da indignação à pertinente argumentação.

    Termino pois a minha contribuição para o debate, cuja principal foi a de colocar-vos diante a mais visível evidência (4.12 in fine) e argumentar uma inescapável consequência dela (7.12): - Que o abortamento “por opção” de um embrião ou feto humanos é o homicídio (ou “destruição”, no eufemismo sofístico de Aires Almeida) de um nosso semelhante, totalmente indefeso e inocente. Um corolário disto é a irrelevância do ser ou não ser “pessoa” para a natureza e valiosidade da nossa vida humana nos primeiros dias e semanas de idade; e é o que, ao que parece, se vai pacificamente aceitando nos mais recentes desenvolvimentos do debate sobre o assunto. Se o Rolando tivesse lido com menos indignação e mais atenção a minha crítica a Singer, não teria limitado a sua contribuição a repor questões impertinentes e desactualizadas, sem responder a uma única das que lhe dirigi.

    Resta-me agradecer-lhe, e retribuir, as lições que passou o tempo a dar-me sobre o que é ou não é filosofia e como é que ela se faz. Aproveitarei para, no mesmo ensejo, retocar num assunto que toquei aqui no passado 10 e num comentário a Gaarder – a importância do estudo do corpus factual ou legendário da História da filosofia. (Já implícto nalgumas das premissas que alinhei no meu primeiro argumento contra Singer, de 26.11. De facto, a benefício do sofista, o carácter tosco e deficientemente fundamentado de alguns dos argumentos dele pode ser explicável pela mera ignorância de informação histórica relevante.) Uma outra das vantagens do estudo dessa História é que pode dar-nos uma “toolbox” pedagógica de lições úteis a quem souber aproveitá-las, até nas situações as mais inesperadas. Contava o historiador Diógenes Laércio que, certo dia, apareceram em Éfeso uns estrangeiros da Lídia à procura do grande filósofo Heráclito. Indicaram-lhes o caminho para uma casa isolada nas montanhas ao redor da cidade. Quando lá chegaram, deparou-se-lhes o parente das melhores famílias de Éfeso coberto de bosta num estábulo cheio de estrume. Os delicados estrangeiros imobilizaram-se de náusea e espanto. Saudou-os assim o filósofo: - “Amigos, vejo que tapais o nariz, não os ouvidos. Entrai e ouvi pois o que vos digo: também aqui moram deuses”!... Parafraseando: - também aqui, Rolando Almeida, numa blog combox é possível encontrarmos... filosofia. (E, é claro, como a mesma História nos ensina, também podemos encontrar sofismas e sofistas.)

    Esperemos continue aqui, publicamente, à vista crítica e imparcial dos leitores interessados, onde é que está uma e quem é quem.

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  55. 1) Por mais que me esforce não encontro nos seus textos argumentos. Encontro sim, citações avulsas para depois dizer que não concorda e que quem assim pensa é um sofista, um pseudo- filósofo, etc... (seria neste momento para mim exaustivo estar a reler para lhe recordar do que escreve)
    2) 2) já por mais de uma vez insiste na tecla que “os leitores agora é que vão ver quem critica e quem filosofa, etc…”, o que me parece revelar um interesse seu em ganhar adeptos para a sua causa. Este de facto não é o lugar ideal para pregar religiões
    3) Agradeço-lhe o paternalismo de me dar tempo para eu pensar, mas confesso que não o gastei a pensar no que escreveu por aqui acima
    4) Finalmente vou dar-lhe mais uma lição de filosofia: em filosofia é mais interessante levantar problemas e questões do que fazer afirmações.

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  56. "Finalmente vou dar-lhe mais uma lição de filosofia: em filosofia é mais interessante levantar problemas e questões do que fazer afirmações".

    Quer-me parecer, Rolando, que quem aqui levantou mais questões/problemas a Singer, ou a propósito deste e do horizonte onde se move o seu pensamento, foi o Duarte Meira, independentemente de se concordar ou discordar (mais ou menos) dele ou do seu estilo.

    Da sua parte (e da do Aires também), embora vagamente sugeridas, não se viu aqui uma nota mais crítica ou reflexiva sobre o pensamento do Singer.

    Peço desde já desculpa se interpretei mal ou estiver a ser injusto

    Cumprimentos.
    E continuem com o vosso trabalho meritório.

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  57. Caro Nuno, António e Duarte,
    Tomo a mesma decisão que o Aires, que já devia ter tido o bom senso de a ter tomado antes. Qualquer esclarecimento sobre estas questões pode ser enviado para o meu e-mail pessoal: rolandoa@netmadeira.com, até porque está aqui a ser violada uma regra do blog, que é possuir uma identificação minimamente credível. Obrigado

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  58. O Senhor Rolando, através de uma troca de email comigo, António Teixeira, insinuou, ainda que de modo implícito, que o meu usuário seria o de outrém.
    Agradecia que o Senhor Rolando tivesse a coragem de afirmar aqui a quem se refere;perante uma acusação que é bem grave, necessita que eu lhe apresente uma fotocópia do meu cartão de cidadão?E no caso de tal necessidade, terá a dignidade de se desculpar?

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  59. Qualquer leitor que pretenda clicar no meu nome que assina este post facilmente verá quem sou e o que faço. É justo que os nossos leitores joguem com os mesmos dados, até porque isso é pedido de forma clara na postagem de comentários.

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  60. Senhor Rolando, enquanto não esclarecer aqui a insinuação que fez (e não me julgue como um tolo), não irei criar conta no gmail ou onde quer que seja.
    Não fui uma vez ofensivo neste blog, participei e tentei fazê-lo de modo construtivo. Você é que está a recorrer a questões superficiais para se esquivar a questão.
    Não consigo perceber essa referência a "justiça" e por ai fora. Tenho o meu nome no comentário, e ainda que não o tivesse, não o tratei mal, não tratei ninguém mal, e você ainda assim esquiva-se assim.

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  61. Caro António, Antes de tudo gostaria de lhe dizer que não me dá ordens. Tudo o que o António referiu foi que eu não respondi ao Duarte objectando os seus argumentos, mas nem referiu quais argumentos é que está a pensar e que eu não soube responder. Portanto, o António até aqui faz o mesmo que me acusa e pouco acrescentou de útil à discussão. A questão da justiça parece ser clara. E a partir de agora só lhe responderei se o seu nome acima indicar um endereço de mail válido e uma conta perfeitamente identificável da pessoa com quem estou a falar. Caso contrário, por aqui me fico.

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  62. Ordens? Mas você sabe ler homem?!

    Desisto. Expliquei-lhe os motivos pelos quais não havia ainda respondido: disse ao Senhor Rolando que, na iminência de me encontrar em epoca de exames, não poderia por enquanto satisfazer o seu pedido, prometendo-lhe que lhe enviaria uma "resenha" dos comentários do Senhor Duarte que julguei bastante interessantes e ainda, por um sentimento que não conheço, o notável Rolando decidiu implicar com a palavra por esta ser comum no português do Brasil, dizendo ainda que era usual aparecerem palavras desse género nos posts do Duarte. Abrilhantou ainda essa insinuação num último parágrafo utilizando termos como "disfarces", "voltam ao mesmo sitio", "pseudonimos", etc etc etc.
    Tentei conversar consigo, aconselhei-o numa situação que pensei encontrar neste site (o tal dualismo analítico-continental, prostrei-me humildemente perante a sua erutidíssima sapiência e, ainda assim, você foi capaz de encontrar coisas que eu não escrevi no meu e-mail e, o mais grave, partir para insinuações.
    Digo-lhe com toda a convicção que hoje em dia, e você parece-me ser prova disso, o maior dos conhecimentos não lhe dá sequer a menor das educações.

    Posto isso, retiro-me das caixas de comentários deste site, apesar de o considerar como um excelente site onde aprendi bastantes coisas importantes, e parabéns pelo bom trabalho ao Desidério Murcho, Aires Almeida, Duarte Meira (pelos comentários que tenho visto dele) e ainda a você Rolando Almeida, porque não sou tolo nenhum, e não se esqueça disso.

    Votos de um Feliz Natal e um Prospéro Ano Novo para vocês e para os vossos amigos e familiares.

    Cumprimentos,
    António Teixeira

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