10 de dezembro de 2012

Filosofia no infantário


Dificilmente haverá algum professor ou aluno de filosofia que, há uns vinte anos atrás, tenha passado pelo ensino secundário e que não se lembre das bocejantes aulas sobre a teoria do desenvolvimento da inteligência de Piaget. Por incrível que pareça soube há tempos que ainda há por aí professores que, perdidos no tempo (e no programa da disciplina), ainda passam aulas a ensinar Piaget e as roturas epistemológicas de Bachelard.

É incrível não só por a teoria do desenvolvimento de Piaget não ser uma teoria filosófica, mas sim empírica (é uma teoria da psicologia, não da filosofia), mas por estar longe de colher consenso entre os seus pares. De facto, os estádios do desenvolvimento preconizados por Piaget, que começam com operações concretas para culminar, já perto da adolescência, no raciocínio abstracto nem de longe nem de perto correspondem ao que investigações empíricas das últimas décadas têm revelado.

A ideia tradicional que encarava as crianças como seres vagamente racionais, incapazes de raciocínio abstracto e com um universo mental muito limitado, é vigorosamente rebatida pela professora de psicologia e de filosofia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Alison Gopnik, no seu aclamado livro The Philosophical Baby

The Philosophical Baby apoia-se em variadíssimas experiências levadas a cabo por diversos laboratórios e investigadores, entre os quais se conta a própria Alison Gopnik, que indicam serem os bebés capazes de raciocínio probabilístico, de trabalhar com cenários contrafactuais e mundos possíveis, de uma forma bastante mais eficaz do que tradicionalmente seria de esperar. São mesmo capazes, argumenta Gopnik, de pensar filosoficamente sobre assuntos como a verdade ou o amor. Ou seja, são capazes do que nunca passaria pela cabeça de Piaget, por exemplo. O livro de Gopnik é escrito de forma muito viva e inteligente. Para se ter uma ideia da vivacidade de Gopnik, vale a pena ver a curtíssima conferência TED aqui incluída.


5 comentários:

  1. Existe tradução portuguesa do livro. Tenho-o em casa e é, de facto, um livro interessante.

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  2. Rolando, não sabia que estava traduzido para português. Boa informação essa. Será que a editora fez segredo disso? Que tal a tradução?

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  3. Está traduzido na Temas e Debates, de Março de 2010. Li na altura que o comprei uns caps soltos e gostei da tradução. Mas não houve segredo editorial. Descobri o livro por acaso na Fnac e mais tarde o Tomás recomendou-me o livro. As experiências relatadas no TED que publicaste estão no livro.

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  4. Já agora Aires, uma outra sugestão: falamos muitas vezes da ausência de boas traduções de introduções à filosofia (já temos algumas), mas se vires o panorama na psicologia ainda é pior. Mas este ano foi publicado um excelente livro, de Daniel Freeman e Jason Freeman, Use a cabeça, porque pensamos o que pensamos, Bertrand. É uma introdução à psicologia que envergonha os nossos manuais.

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  5. O link actualizado para o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=cplaWsiu7Yg

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