31 de março de 2012

Filosofia do acaso


A CUP acaba de anunciar a publicação em Abril do livro A Philosophical Guide to Chance, de Toby Handfield.

29 de março de 2012

Artigos dos leitores para o DEF




A partir de agora a edição em linha do Dicionário Escolar de Filosofia aceita artigos originais dos leitores sobre qualquer tópico filosófico. Basta cumprir os critérios indicados e enviar para mim as vossas propostas. Mais detalhes no sítio do DEF.

Assim, os leitores insatisfeitos com alguns artigos, ou com alguma das suas numerosas omissões, podem contribuir para melhorar o dicionário, ajudando a colmatar as suas lacunas.

27 de março de 2012

Morreu Jonathan E. Adler (1949-2012)


Acabei de saber que Jonathan E. Adler morreu, com 63 anos. Autor de vários livros e artigos que incluem trabalhos sobre a epistemologia do testemunho, o seu "Resisting the Force of Argument" (Journal of Philosophy) é a base de um projecto de investigação aqui na UFOP.

Meta-física e metafísica


Foi publicado no final do ano passado o livro Basic Structures of Reality: Essays in Meta-Physics, de Colin McGinn, e já este ano Writing the Book of the World, de Theodore Sider, ambos da Oxford University Press.

26 de março de 2012

Expressão de emoções na música



A questão da expressão musical (será que a música é capaz de exprimir emoções?) tem dado origem a intensas disputas filosóficas. É bem conhecida a tese de Eduard Hanslick de que a música não dispõe dos recursos necessários para poder exprimir emoções, argumentando que faltam à música os meios para representar os conteúdos cognitivos que constituem cada uma das emoções particulares. 

Há quem aceite as premissas do argumento de Hanslick mas não retire delas uma conclusão tão drástica, defendendo que, apesar de ser incapaz de exprimir emoções completas e particularizadas, a música pode ser expressiva de certos estados de espírito, como a tristeza, a alegria ou a euforia, os quais parecem não estar associados a quaisquer conteúdos cognitivos particulares. 

O filósofo americano Jerrold Levinson discorda. Num ensaio que tem dado origem a interessantes discussões, Levinson argumenta que alguma música consegue ser expressiva de emoções completas (como o medo e a esperança, por exemplo) e não apenas de simples estados de espírito. O exemplo musical dado por Levinson é o poema sinfónico de Felix Mendelssohn que o vídeo acima apresenta: a Abertura As Hébridas. E o célebre ensaio de Levinson intitula-se precisamente Hope in the Hebrides (Esperança em As Hébridas).  

E o leitor o que acha? Consegue detectar a esperança expressa na peça de Mendelssohn? Levinson esclarece que não é qualquer ouvinte que está apto a isso, mas apenas os ouvintes que obedecem a certas condições. Mesmo assim...

23 de março de 2012

Frank Arntzenius - Espaço, Tempo e Coisas



Frank Arntzenius, professor em Oxford, previamente de Rutgers, e um dos mais criativos e engenhosos filósofos da física por consenso geral, publicou este mês o seu já há muito aguardado primeiro livro sobre Filosofia da Física.
Neste livro, Space, Time and Stuff ele defende que o espaço e o tempo não são constituídos por pontos (ou seja, não têm partes indivisíveis), que a Mecânica Quântica é uma teoria completamente local (nada de causação à distância!), que as anti-partículas são apenas partículas a viajar para trás no tempo e que o tempo não tem qualquer estrutura. Mas a tese fundamental do livro é que as propriedades físicas são apenas propriedades geométricas, em que um exemplo seria que a propriedade física de ter carga eléctrica positiva é idêntica à propriedade geométrica de estar localizado num espaço de 'carga' (uma dimensão ou dimensões adicionais a juntar às outras quatro).
Para filósofos de outras áreas, revela-se interessante o ataque à tese que a divisão de particulares em tipos é sobretudo uma questão convencional de classificação científica, mostrando que se tal fosse verdade a teorização científica seria impossível. A tese defendida, que os particulares têm propriedades não-triviais essencialmente a ser descobertas pela ciência, apesar de ser muito popular entre os metafísico contemporâneos, tem-se revelado particularmente controversa nas filosofias das diversas ciências particulares.
Uma excelente obra, mas não para fracos de coração (é possível ver um esboço do oitavo capítulo aqui).

PS: Acabei de saber que o Professor Frank Arntzenius vai mudar de Filosofia da Física para Filosofia Política, alegando que os avanços mais recentes na Física e Matemática actuais se estavam a mostrar demasiados para acompanhar. Uma notícia desencorajadora para futuros filósofos da física.

Bernard Williams

O que distingue a filosofia analítica da outra filosofia contemporânea (ainda que não de grande parte da filosofia de outros tempos) é uma certa maneira de fazer as coisas, que envolve argumentação, distinções e, desde que não se esqueça de o tentar e o consiga alcançar, um discurso moderadamente vulgar. Como alternativa ao discurso vulgar, distingue firmemente entre a obscuridade e o tecnicismo. Rejeita sempre a primeira, mas o segundo torna-se por vezes necessário. Esta característica irrita peculiarmente alguns dos seus inimigos. Querendo que a filosofia seja ao mesmo tempo profunda e acessível, levam a mal o tecnicismo, mas sentem-se reconfortados pela obscuridade.

Choice elege dicionário de filosofia da religião


A revista Choice elegeu A Dictionary of Philosophy of Religion, editado por Charles Taliaferro e Elsa J. Marty (Continuum, 2010), "título académico de excelência do ano". Esta distinção refere-se ao ano de 2011. Trata-se de um dicionário de filosofia da religião, que abrange todos os termos e figuras relevantes para a filosofia da religião -- o que inclui grande parte da filosofia. Um excerto do dicionário encontra-se aqui.

O naturalismo de Hegel?


Hegel's Naturalism: Mind, Nature and the Final Ends of Life, de Terry Pinkard, defende uma interpretação surpreendente de Hegel: que este sustentava um naturalismo aristotélico. Isto é surpreendente porque muitas interpretações de Hegel fazem dele um filósofo que integrou no seu sistema filosófico princípios cristãos, constituindo o seu pensamento algo como um pensamento religioso mais ou menos disfarçado.

22 de março de 2012

Dicionário Escolar de Filosofia


A edição electrónica do Dicionário Escolar de Filosofia, de que sou organizador, ultrapassou já o meio milhão de visitantes, desde a sua última renovação. O número médio de visitantes é de quase mil por dia e o tempo médio de cada visita é superior 5 minutos. Isto parece indicar que o dicionário tem sido útil para muitos estudantes e outras pessoas interessadas na filosofia, tanto em Portugal como no Brasil. 

É de salientar que a edição em linha se baseia na 1ª edição do livro (Plátano: 2003), entretanto esgotada. A 2ª edição em livro (Plátano: 2009) é uma versão totalmente revista e ampliada. Alguns dos novos artigos desta última edição encontram-se também no sítio do dicionário, que é da responsabilidade de Desidério Murcho. Vários colaboradores da Crítica e deste blog escreveram também artigos para o dicionário. 

21 de março de 2012

Investigações filosóficas

Acaba de ser publicado o vol. 35, número 2, da Philosophical Investigations. Destaque para os artigos de Matthias Kiesselbach, sobre a concepção pragmatista de Brandom do que é seguir uma regra, e de Rupert Read, sobre a impossibilidade de viajar no tempo, e uma discussão do último livro de Parfit, da autoria de Timothy Chappell.

19 de março de 2012

Mill: Autobiografia


Acabo de saber da publicação (nada recente -- de 2007) da Autobiografia de John Stuart Mill, pela Iluminuras. A tradução é Alexandre Braga Massella. Eis aqui uma prévia.

O Deus Malévolo

Stephen Law desafia os teístas a responderem ao seguinte desafio: "Se o bem no mundo é suficiente para excluir um Deus Mau, porque é que o mal no mundo não é suficiente para excluir um Deus Bom?"

Para perceber o desafio de Law é preciso perceber o que é problema do Mal para os teístas. Se acreditarmos num Deus omnipotente, omnisciente e sumamente bom, então o mal no mundo (especialmente o mal natural - aquele que não é causado por nós) torna-se especialmente problemático. Afinal, porque é que um Deus sumamente bom haveria de criar um mundo com cancro, velhice, terramotos, pragas e tantas outras coisas más?

Como resposta a este problema, foram propostas várias teodiceias ou defesas da coexistência de Deus com o mal no mundo. Parte do mal que existe é resultado da nossa liberdade, que tem de existir, como condição de possibilidade de acções boas (ou particularmente boas). Talvez outra parte do mal exista porque Deus criou o mundo em que leis da natureza que regem os eventos físicos, para que nós possamos explicar e controlar os fenómenos naturais (e prever os resultados das nossas acções), ou talvez algum mal esteja justificado nesta vida, face ao bem-estar infinito da vida eterna no Paraíso.

Neste contexto, Stephen Law nota que estas explicações também poderiam ser dadas para explicar a compatibilidade entre o Deus Malévolo e a existência de Bem. Talvez o Deus Malévolo valorize mais o mal livremente causado e, por isso, nos dê liberdade, não obstante isso implicar algum bem. Talvez o Deus Malévolo permita o bem natural (a alegria espontânea, ter filhos, apaixonar-se ou simpatizar com alguém, ter o prazer do Sol a bater-nos na cara ou passar um dia na praia, a existência de comida saborosa) porque também quer que o Universo permita regularidades, para que nós sejamos especialmente responsáveis pelas nossas acções - seja como for, à primeira vista, a mim parece-me que há muito mais mal natural do que bem natural. Ou talvez, algum bem nesta vida esteja justificado pelo sofrimento eterno que vamos passar na próxima no Inferno.

Por isso, porque é que consideramos a existência de um Deus bom mais provável que a existência de um Deus Malévolo, quando parecem ambos tão improváveis face ao que observamos no mundo?

Aqui, pode ver no blog do filósofo uma exposição divertida do desafio do Deus Malévolo que foi postada no Youtube, embora tendenciosa, que também considera um argumento ontológico invertido (mas note-se que Law quer que o seu desafio seja acerca de evidência empírica que, aparentemente, há tanto contra o Deus Bom como contra o Deus Malévolo).

Alguém tem uma resposta a Stephen Law? Não há alguma coisa de estranho em todo este desafio? Ou será que o raciocínio dele está correcto?

17 de março de 2012

Think 11.31


Acaba de sair o número 31 do volume 11 da revista britânica Think, dirigida por Stephen Law e publicada Cambridge University Press para o Royal Institute of Philosophy, fundado por Bertrand Russell, entre outros, em 1925.
Think é uma revista que publica artigos para estudantes e professores de filosofia do ensino secundário, e para estudantes de filosofia dos primeiros semestres da universidade, o que significa que tem óbvios pontos de contacto com a Crítica.

Eis o índice deste número:

INTRODUCTION
Stephen Law

AN UNTENABLE DUALISM
Terence Moore

MOORE AND DESCARTES MEET IN A BAR
Renée Smith

STUDY ABROAD'S CONTRIBUTION TO CRITICAL THINKING AND WORLD CITIZENSHIP
A. Minh Nguyen

THE SOUL IN OLD AND NEW INTERPRETATION
George A. Wells

CHRISTIANITY, HOMOSEXUAL BEHAVIOR, AND SEXISM
Justin P. McBrayer

LIBRARIES AND FALLIBLE KNOWLEDGE
Stephen Hetherington

COSMETIC SURGERY
Ole Martin Moen

CONVERSING WITH THOSE WITH WHOM WE DISAGREE: A RESPONSE TO AIKIN AND TALISSE'S ‘ARGUMENT IN MIXED COMPANY: MOM'S MAXIM VS. MILL'S PRINCIPLE' (THINK 27)
Brenda Watson

IS THE UNEXAMINED LIFE WORTH LIVING OR NOT?
J.O. Famakinwa

IS AN INFINITE TEMPORAL REGRESS OF EVENTS POSSIBLE?
Andrew Ter Ern Loke

15 de março de 2012

"Ouch" e "Oops"

Para os leitores interessados em Filosofia da Linguagem, podem ouvir David Kaplan a dar uma conferência intitulada "O significado de 'Ouch' e 'Oops'" aqui. Nesta conferência , Kaplan vai falar da semântica dos termos expressivos, apesar de fazer muitos comentários interessantes sobre outros assuntos no caminho (metodologia em filosofia da lógica e semântica ou como entender as distinções expressivo/descritivo e emotivo/cognitivo). É uma conferência clara e rigorosa mas, não obstante, muito divertida!

14 de março de 2012

Se você quer filosofia da ciência, então tome!


A filosofia da ciência vem sendo feita a todo vapor nos grandes centros acadêmicos mundo afora; e para aqueles que querem se inteirar de seus resultados, The Continuun Companion to Philosophy of Science – organizado por Steven French e Juah Saatsi, e lançado no ano passado pela Continuum – é sem dúvida a melhor fonte. Escritos por profissionais ativos nas discussões contemporâneas (e.g., Alexander Bird, Stathis Psillos, Ned Hall, etc.), os 18 artigos que compõem o volume (fora a introdução e as fontes de pesquisa) são muito mais do que apenas uma breve introdução aos principais problemas da filosofia da ciência: além de apresentar as principais respostas (e se funcionam ou não), também indicam o estado atual das discussões e os rumos prováveis que tomarão. O compêndio está divido em quatro partes:
I- “Philosophy of Science in Context”: trata da relação da filosofia da ciência com as outras áreas de filosofia, com a própria ciência e com a história da ciência.
II- “Current Research and Issues”: trata das discussões atuais das principais questões da filosofia geral da ciência (explicação, causalidade, modelos, etc.) e da filosofia das ciências particulares (filosofia da biologia, da química, etc.).
III- “Past and Future”: traça os passos da filosofia da ciência de Aristóteles até o presente, apontando os prováveis caminhos a serem trilhados.
IV- “Resources”: fornece as principais fontes de consulta e pesquisa através de uma bibliografia comentada e da relação das principais revistas, arquivos e enciclopédias on line, etc. Contém também um glossário.
Indispensável tanto aos especialistas quanto aos futuros filósofos da ciência.

13 de março de 2012

Marguerite Yourcenar

Sei que não sei aquilo que não sei; invejo aqueles que venham a saber mais, mas sei que, tal como eu, terão de medir, pesar, deduzir e desconfiar das deduções alcançadas, distinguir o que há de falso no verdadeiro e levar em conta a eterna mistura da verdade e da falsidade. Nunca me agarrei fixamente a uma ideia, por temer a confusão em que, sem ela, poderia vir a cair. Nunca temperei um facto verdadeiro com o molho da mentira, para me facilitar a digestão. Nunca deformei os pontos de vista do adversário para mais facilmente ter razão [...]. Ou talvez sim: surpreendi-me nesse acto, mas sempre me repreendi como se repreende um criado desonesto, confiando apenas na promessa que a mim mesmo fiz de vir a proceder melhor. [...] Abstive-me sempre de fazer da verdade um ídolo, preferindo designá-la pelo nome mais humilde de exactidão.

Lógica Informal

Acaba de ser publicado o volume 32, nº 1 (2012) da revista eletrônica Informal Logic.

John Searle: Genes e Memes


Acredito que a analogia entre "gene" e "meme" está errada. A evolução biológica prossegue através de forças naturais brutas e cegas. A expansão de ideias e teorias através da "imitação" é tipicamente um processo consciente direccionado a um objectivo. Quer dizer, a fim de reunir dois tipos diferentes de processo, perde-se as consequências da explicação de Darwin sobre a origem das espécies. O maior feito de Darwin foi mostrar que a aparência de um propósito, planeamento, teleologia e intencionalidade na origem e desenvolvimento das espécies humana e animais era completamente uma ilusão. A aparência podia ser explicada por processos evolutivos que não contivessem qualquer desses propósitos. Mas, a difusão de ideias através da imitação requer todo o aparato da consciência humana e intencionalidade. As ideias têm de ser compreendidas e interpretadas. Só depois de compreendidas e julgadas desejáveis ou indesejáveis é que estas podem ser tratadas como candidatas à imitação ou rejeição. A imitação requer tipicamente um esforço consciente da parte do imitador. Normalmente, todo o processo envolve a linguagem em toda a sua variabilidade e subtileza. Em suma, a transmissão de ideias por meio da imitação é totalmente diferente da transmissão de genes por meio da reprodução. Logo, a analogia entre genes e memes é enganadora desde o início.

The Mystery of Consciousness, página 105.

11 de março de 2012

Thomas Nagel vs Materialismo

Está confirmado! Em Setembro deste ano, Thomas Nagel vai publicar um livro, Mind and Cosmos, sobre o materialismo, a biologia evolutiva e o problema mente-corpo. Já agora, o subtítulo provocativo do livro é, traduzido para português, Porque é que a concepção materialista neodarwinista da natureza é quase certamente falsa.

Deixo ao leitor interessado a descrição do produto, traduzida do inglês:

"Em Mind and Cosmos, Thomas Nagel argumenta que a visão amplamente aceite de naturalismo materialista é insustentável. O problema mente-corpo não pode ficar limitado à relação entre corpos animais e mentes animais. Se o materialismo não consegue acomodar a consciência e outros aspectos relacionados à mente da realidade, então temos de abandonar um entendimento completamente materialista da natureza em geral, estendendo isto à biologia, teoria evolutiva e cosmologia. Dado que mentes são características de sistemas biológicos, que se desenvolveram por evolução, então a versão materialista comum da biologia evolutiva é fundamentalmente incompleta. E, a história cosmológica que levou à origem da vida e que originou as condições de possibilidade da evolução não pode ser uma história completamente materialista. Uma concepção adequada da natureza teria de explicar o aparecimento no universo de mentes conscientes, irredutíveis à matéria, como tais. Nenhuma explicação assim está disponível, e não se pode esperar que as ciências físicas, incluindo a biologia molecular, possam providenciar uma. Este livro explora estes problemas através de uma análise geral de obstáculos ao reducionismo, com uma aplicação mais específica ao fenómeno da consciência, cognição e valor. A conclusão é que a física não é a teoria de tudo."


Uma coisa é certa, polémica e, esperemos, discussão frutífera não vão faltar!

10 de março de 2012

Simon Blackburn

A palavra «filosofia» tem conotações infelizes: coisas abstractas, remotas, esquisitas. Tenho a impressão de que todos os filósofos e estudantes de filosofia passam por aquele momento de embaraço silencioso quando alguém nos pergunta inocentemente o que fazemos. Eu preferiria apresentar-me como engenheiro conceptual. Pois, tal como um engenheiro estuda a estrutura das coisas materiais, o filósofo estuda a estrutura do pensamento. Para compreender a estrutura é necessário ver como as partes funcionam e como se conectam entre si, o que significa saber o que aconteceria de melhor ou pior se fizéssemos algumas mudanças. É este o nosso objectivo quando investigamos a estrutura que dá forma à nossa visão do mundo. Os nossos conceitos e ideias constituem o lar mental em que vivemos. No fim, talvez tenhamos orgulho nas estruturas que construímos. Ou talvez pensemos que esses conceitos precisam de ser desmantelados e que temos de começar a partir do zero. Mas primeiro, temos de saber o que são estes conceitos.

Gary Gutting

A filosofia analítica parte de uma perspectiva de si mesma que parece comprometê-la com afirmações de conhecimento. Ao contrário das outras disciplinas humanísticas — e até ao contrário de alguns que se dão o epíteto de “filósofos” — desprezamos o que Wallace Stevens chamou “o romantismo gasto da imprecisão”. Procuramos formular exactamente o que queremos dizer e provar com lucidez passo-a-passo que é verdadeiro. 

Filosofia francesa depois de 1960

Christopher Bray escreve no Guardian uma informativa e energética recensão do último livro de Gutting, que é exclusivamente dedicado à filosofia francesa a partir dos anos 1960: Thinking the Impossible: French Philosophy Since 1960 (OUP).

Gutting escreveu também A Very Short Introduction to Foucault (OUP, 2005), French Philosophy in the Twentieth Century (CUP, 2001), Pragmatic Liberalism and the Critique of Modernity (CUP, 1999) e What Philosophers Know: Case Studies in Recent Analytic Philosophy (CUP, 2009), além de ter organizado The Cambridge Companion to Foucault (CUP, 2005) e Continental Philosophy of Science (Blackwell, 2005). Os seus artigos populares no The Stone do New York Times têm-se destacado pela lucidez; um desses artigos está publicado também na Crítica: "A Divisão Analítico-Continental".

Plantinga sobre o naturalismo


Where The Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism (OUP, 2011, 376 pp.) é o novo livro de Alvin Plantinga (saiu no final de 2011). Neste livro, Plantinga desenvolve de modo integrado as ideias que apresentou em diferentes artigos, incluindo o que escreveu para a SEP e que temos na Crítica: "Religião e Ciência". Plantinga defende que a religião teísta é compatível com a ciência, mas não com o naturalismo, entendido de certa maneira. Como é visível no artigo que temos na Crítica, assim como no artigo dele, sobre outro tema, incluído em A Ética da Crença, Plantinga nem sempre escreve de um modo enxuto: tem tendência para um estilo desnecessariamente retorcido. Este último livro visa ser legível pelo grande público, e apresenta-se num estilo bastante mais enxuto do que é comum em Plantinga.

9 de março de 2012

McGinn sobre "Por que devo ser virtuoso?"

Alguns leitores podem estar a perguntar-se, cepticamente, o porquê de se darem ao trabalho de ser virtuosos de todo. Por que não ser uma má pessoa? Que razão há para ser uma boa pessoa? A resposta é que não há razão - ou nenhuma razão que seja mais profunda, ou vá mais além, que a tautologia "porque a bondade é boa". A razão para se dever ser virtuoso e não vicioso é simplesmente que a virtude é virtude e o vício é vício. No fim, o que se recebe da virtude é simplesmente... virtude. A virtude também te pode arranjar saúde, bens ou felicidade, mas não há nenhuma garantia disso - definitivamente não - e, em qualquer caso, não é essa a razão porque deves ser virtuoso.
Logicamente, é como a questão de porque é que te deves preocupar com o teu futuro bem-estar: porque o teu bem-estar é o teu bem-estar. Nada mais realmente pode ser dito; e, se alguém simplesmente não vê isso, não há muito que possas fazer para o convencer. Não adianta acrescentar que é estúpido não te preocupares com o teu futuro bem-estar. Isto é perfeitamente verdade, mas é estúpido porque... tu deves preocupar-te com o teu futuro bem-estar. Analogamente, podemos igualmente dizer que é imoral não te preocupares se és uma boa pessoa; mas, novamente, isto de facto reduz-se a repetir-nos - é imoral porque ser uma boa pessoa é algo que deves ser. "Estúpido" vai com "prudente" da mesma maneira que "imoral" vai com "virtuoso". A justificação moral, como toda a justificação, chega a um fim algures. Nalgum ponto, temos simplesmente de nos repetir, possivelmente com uma certa ênfase, ou então simplesmente permanecer em silêncio. A virtude é, se preferires, a sua própria justificação, a sua própria razão: não é possível ir mais fundo do que ela. À questão "Por que me devo preocupar com os outros tanto como comigo?" a melhor resposta é outra pergunta "Por que te deves preocupar contigo tanto como com os outros?". No caso da última pergunta, a resposta certa é, "Porque tu também és uma pessoa a ser tida em consideração" e, no primeiro caso, a resposta certa é, "Porque eles também são pessoas a ser tidas em consideração". Insistir que eu sou eu e eles são eles é apenas proferir uma tautologia inútil, que não faz coisa alguma para mostrar por que tenho uma razão para me interessar comigo mas não uma razão para ser moral. As pessoas (e os animais) têm valor intrínseco, por isso deves tê-las em consideração -- o que é o mesmo que dizer que deves ser bom. Porquê? Porque... as pessoas (e os animais) têm valor intrínseco, por isso deves tê-las em consideração -- o que é o mesmo que dizer que deves ser bom. Fim da história. Fim da partida. O bom é bom e o mau é mau -- isso é tudo o que precisas de saber.
Moral Literacy: or How to do the right thing, pp. 95-96.

O projecto ético


Acabo de ter conhecimento do novo livro de Philip Kitcher, que saiu no final de 2011: The Ethical Project (Harvard University Press, 2011, 432 pp.)

8 de março de 2012

Bertrand Russell

Considero problemática a ideia de um deus que retira prazer da contemplação de tormentos; e caso houvesse um deus capaz de tal crueldade gratuita, seguramente que não o consideraria digno de qualquer veneração. Mas isso apenas mostra a que ponto fui corrompido pela depravação moral.

Mulheres

Comemora-se hoje o dia da mulher. A experiência parece mostrar que o folclore comemorativo não costuma passar disso mesmo. Com o argumento de que é um pretexto para falar de realidades que deviam ser mudadas, não raras vezes contribui mais para exibir falsas consciências do que para mudar seja o que for. E por todo o lado se aproveita para sensibilizar as pessoas para a situação e a importância das mulheres, como se tudo isto fosse apenas uma questão de bons sentimentos. 

Se virmos com atenção, começa a surgir, à conta de tantas comemorações dos dias internacionais das vítimas do passado e do presente, uma nova área publicitária, com profissionais quase a tempo inteiro: trata-se da profissão de sensibilizador. É uma profissão que tem, aparentemente, a vantagem de dispensar os argumentos, quando não mesmo o apelo ao conhecimento dos factos. 

É assim que, apesar do muito que se ficou a saber com tantas comemorações, há ainda quem se indigne (como ouvi esta tarde) por não haver, mesmo nos nossos dias, mais do que uma ou duas filósofas. Até fui indirectamente confrontado com a acusação de que «a filosofia continua a ser uma actividade completamente machista». O autor da acusação referiu Hannah Arendt e Simone de Beauvoir como as duas únicas filósofas entre dezenas de homens. Mas quando pedi meia-dúzia de nomes de filósofos actuais, apenas surgiram os nomes de George Steiner, Habermas, Sartre e Peter Singer, o que não chega sequer a meia-dúzia.

Aproveito, assim -- também eu -- o dia da mulher para, pelo menos, corrigir esta reveladora, mas também enganadora, impressão. Apesar de na filosofia, como na maioria das áreas centrais de investigação, ainda serem os homens a predominar, é falso que praticamente não haja mulheres de destaque. Felizmente, há já muitas e boas filósofas, cuja obra tem sido discutida e influente. Aí vão os nomes de algumas importantes filósofas (e as suas principais áreas de investigação) do último século, grande parte delas vivas e até algumas bastante jovens:

Susan Haack (lógica, epistemologia e metafísica)
Patricia Churchland (filosofia da mente)
Martha Nussbaum (ética e filosofia da cultura)
Ruth Millikan (filosofia da mente, da biologia e da linguagem)
Margaret Boden (filosofia da mente e ciência cognitiva)
Ruth Barcan Marcus, falecida há dias (lógica, metafísica, filosofia da linguagem e ética)
Philipa Foot (ética)
Judith Jarvis Thomson (ética, metafísica)
Jenefer Robinson (estética e filosofia da emoção)
G. E. M. Anscombe (filosofia da acção, ética)
Mary Warnock (ética, filosofia da educação)
Mary Midgley (ética aplicada)
Ayn Rand (ética)
Susanne Langer (filosofia da arte, filosofia da mente)
Christine Korsgaard (ética, filosofia da acção, metafísica)
Carolyn Korsmeyer (estética e filosofia da emoção)
Kathleen Stock (estética)
Susan Wolf (filosofia da acção, ética, metafísica)
Nancy Cartwright (filosofia da ciência)
Amie Thomasson (metafísica, filosofia da arte)
Dorothy Edgington (filosofia da linguagem, metafísica)
Lydia Goehr (filosofia da música)

Como se vê, não são assim tão raras, até porque esta lista está longe de ser exaustiva. Algumas pessoas incluiriam ainda nomes como Simone Weil e outros. Mas, como assinalou o Desidério no post anterior, o que Simone Weil escreveu -- reflexões de carácter místico e para-religioso -- merece talvez outro nome. Seja como for, encontram-se na amostra anterior filósofas de todas as principais áreas da filosofia. É certo que as mulheres estão em minoria, mas o panorama não é o que algumas pessoas filosoficamente distraídas pintam. Para se ter uma ideia das proporções, nos Estados Unidos da América (não encontrei dados sobre outros países) cerca de 21% dos filósofos activos são mulheres. 

Nas fotos (de cima para baixo): Susan Haack, Patricia Churchland e Kathleen Stock


Mudar-lhe o nome


Colin McGinn defende aqui que era uma boa ideia mudar o nome da filosofia. Eu concordo.

As minhas razões, muito sucintamente, são estas: o legado histórico que recebemos sob a designação "filosofia" inclui dois grupos razoavelmente distintos de escritos, ainda que por vezes surjam misturados. Por um lado, temos escritos cuja probidade epistémica é hoje reconhecida por quem faz da filosofia uma investigação primariamente cognitiva. Esses escritos incluem algumas obras de Descartes e Leibniz, Hume e Locke, Aristóteles e Platão, Ockham e Agostinho, Tomás de Aquino e Anselmo. Mas também temos escritos cuja probidade epistémica não é hoje reconhecida por essas mesmas pessoas: escritos místicos de Plotino, por exemplo, aforismos iniciáticos de Heraclito, e até o poema de Parménides -- que pode certamente ser interpretado de modo epistemicamente probo, ainda que esteja carregado de misticismo.

Este último caso encerra uma lição importante: como os ingleses costumam dizer,
"Garbage is garbage, but scholarship about garbage is not necessarily garbage, and should not be garbage if it is to be proper scholarship". 
O que isto quer dizer é que se pode certamente estudar cientificamente, de um modo academicamente sério, ou seja, cognitivamente probo, seja o que for -- incluindo escritos alquímicos, astrológicos, numerológicos, espíritas. Mas para que o nosso estudo seja epistemicamente probo, não podemos imitar no nosso trabalho o que encontramos nesses textos -- trata-se apenas de descrever correctamente o que pensam os alquimistas e como eles trabalham, por exemplo, e não de sancionar o que pensam nem o modo como trabalham. Analogamente, se fizermos um estudo histórico do nazismo, para que seja um estudo probo, é crucial não ser nazi -- se o formos, distorceremos a verdade histórica e não faremos uma história científica do nazismo, mas antes um panfleto disfarçado de estudo academicamente sério.

Hoje em dia há muitos estudos científicos, academicamente sérios, de textos que estão longe de ser academicamente sérios; e isso é bom. Mas precisamente porque se confunde o que é fazer um estudo sério do lixo com a produção do próprio lixo, encontramos imenso lixo acerca do lixo. Dar outro nome à filosofia poderia contribuir para clarificar as coisas -- e teria a vantagem de deixar o nome "filosofia" a quem quiser continuar a tradição iniciática e mística ou para-religiosa.

Infelizmente, a proposta linguística que McGinn favorece não é promissora: "ontics". Não é promissora, entre outras razões, porque em português ficaria algo como "ôntica", que para nós já é um adjectivo com sabor a Heidegger. Uma proposta melhor é "ciência conceptual".

A filosofia, quando é primariamente cognitiva,  é ciência conceptual não no sentido de se ocupar exclusivamente de conceitos e não da realidade em causa nesses conceitos, mas antes porque se ocupa daqueles aspectos da realidade que só podem ser adequadamente estudados de um ponto de vista puramente conceptual (o que exclui o estudo empírico, como na física e na sociologia, e o estudo formal, como na matemática e na lógica).

Mas o que pensa o leitor?

Pontos de contacto

O Professor Ernesto Perini-Santos (UFMG) dará uma palestra sobre pontos de contacto entre a filosofia analítica e a continental, na UFOP, na próxima terça-feira, 13 de Março, às 10:00 (no IFAC).

A Vida de Hans Kelsen


Haverá no dia 20 de Março ás 20 horas na UERJ a palestra do Professor Thomas Olechowski acerca da vida do filósofo do direito Hans Kelsen. Olechowski é considerado o biógrafo oficial de Kelsen e atualmente escreve a biografia desse filósofo. Kelsen é um dos filósofos do direito mais importantes na tradição européia-continental, tendo grande influência no problema da natureza do direito com sua "Teoria Pura do Direito". Atualmente, Kelsen tem ganhado atenção dos filósofos analíticos do direito, principalmente por fornecer uma explicação plausível do conceito de obrigação, até então negligenciado. Uma boa explicação da teoria de Kelsen se encontra aqui.

7 de março de 2012

Nick Zangwill

A questão não é: qual é o nosso conceito de arte? Mas antes: que conceito ou conceitos de arte devemos ter?

6 de março de 2012

Rosenberg atualizado


Acaba de sair pela Routledge a terceira edição de Philosophy of Science: a contemporary introduction, de Alex Rosenberg. Enquanto que a edição anterior era bastante mais incompleta, tratando superficialmente problemas clássicos como o da indução ou mesmo deixando de fora as tendências mais recentes em filosofia da ciência, essa última parece bem mais adequada: possui uma nova divisão dos capítulos, uma atenção maior ao problema da indução, às leis probabilísticas, ao problema da confirmação (e infirmação), à subdeterminação, etc; além de incluir capítulos novos sobre os acontecimentos mais recentes na filosofia da ciência, como é o caso da discussão sobre o papel das leis e da explicação na biologia e em outras "ciências especiais", e a discussão sobre a construção de modelos na ciência. Há uma tradução brasileira da segunda edição, feita por Rogério Bettoni, e publicada pela Loyola.

John Stuart Mill

Não me parece que qualquer comunidade tenha o direito de forçar outra a ser civilizada. Desde que os que sofrem com a má lei não peçam a ajuda de outras comunidades, não posso admitir que pessoas que nada têm a ver com elas intervenham e exijam que se deva acabar com um estado de coisas com o qual todos os directamente interessados parecem estar satisfeitos, só porque esse estado de coisas constitui um escândalo para pessoas a milhares de quilómetros de distância, que nada têm a ver com isso e a quem tal não diz respeito.

2 de março de 2012

Compreender Kuhn


Thomas Kuhn, embora não tenha sido filósofo de formação (teve formação em física e mais tarde em história da ciência), contribuiu com insights preciosos para a filosofia da ciência. Suas idéias sobre mudança teórica, progresso e racionalidade científica, subordinação teórica, incomensurabilidade, etc., foram e ainda são motivo de grande controvérsia. Muitos de seus críticos o acusaram de irracionalismo, inconsistência, vagueza, etc. Ao passo que outros viram em suas idéias aquilo que faltava para uma compreensão mais completa e exata do desenvolvimento científico. Desde a publicação de A Estrutura das Revoluções Científicas (1962) até a sua morte em 1996, suas idéias sofreram diversas reformulações e clarificações, embora tenham ainda permanecido um tanto vagas e ambíguas. Para aqueles que têm interesse em entender mais a fundo tais idéias, eis duas excelentes leituras: Reconstructing Scientific Revolutions (1993), de Paul Hoyningen-Huene, e Thomas Kuhn (2000), de Alexander Bird. O livro de Hoyningen-Huene é uma tentativa abrangente de tornar as idéias de Kuhn consistentes e mais precisas, tendo como pano de fundo a distinção kantiana entre fenômeno e coisa em si. O autor sugere que a prática científica normal determina o modo como vemos o mundo (que corresponde ao mundo fenomênico kantiano), e que não há conhecimento para além do mundo fenomênico, i.e., conhecimento do mundo em si (ou de como é independente de qualquer representação dele). Quando ocorre uma revolução científica, muda também o modo de se categorizar o mundo, e, por conseguinte, o modo de vê-lo. Tendo em vista tal pano de fundo, a principal tese de Kuhn é interpretada como um tipo de construtivismo em que o conhecimento científico é relativo aos enquadramentos teóricos nos quais as tradições de pesquisa trabalham. O restante das teses de Kuhn, como a incomensurabilidade, a subordinação teórica, etc. são explicadas da mesma maneira. O próprio Kuhn aceitou de bom grado tal interpretação, alegando ainda que Hoyningen-Huene compreendera de maneira mais clara vários aspectos de sua obra. Reconstructing Scientific Revolutions está recheado de referências e notas de rodapé – o que dá a impressão de pedantismo acadêmico; tais notas, no entanto, são de grande valia, uma vez que nos permitem recorrer às próprias passagens dos escritos de Kuhn em que o autor usa como indícios a favor suas interpretações. Já o livro de Bird é bem mais direto do que o de Hoyningen-Huene (em parte porque amplamente o pressupõe); parte do pressuposto que o interesse histórico primário de Kuhn em compreender o desenvolvimento e a mudança científica o levou a sustentar posições filosóficas bastante radicais. Idéias como a da incomensurabilidade teórica e metodológica, por exemplo, são condições sine qua non para a perspectiva kuhniana do desenvolvimento histórico da ciência. Bird discute cada uma dessas teses detalhadamente, apresentando-as de maneira clara e direta. O resultado é uma discussão bastante empolgante e recheada de pormenores que passam despercebidos, ou que estão na entrelinhas, nos textos originais de Kuhn. Bird, além do mais, enfatiza que embora o próprio Kuhn pretendesse romper com o empirismo lógico, várias de suas perspectivas estavam bastante próximas desse último, como é o caso da distinção teoria/observação, que o fez adotar um holismo no que diz respeito ao significado dos termos teóricos (posição que Carnap, o grande expoente do empirismo lógico, acabou por adotar no decurso de suas investigações – obviamente que num tom bem menos radical).

Indispensável!

Haack sobre a justificação da dedução

Susan Haack publicou em 1976 um artigo intitulado "The justification of deduction", em que apresentou um argumento breve, mas poderoso, que constitui uma objecção a todas as tentativas de justificar a dedução, quer sejam convencionalistas ou não convencionalistas, quer apelem à metalógica ou não apelem.

Haack pensa que existe um problema da dedução de modo semelhante que existe um problema da indução (justificações dedutivas da indução são demasiado fortes, justificações indutivas da indução são circulares).

O argumento dela pode ser formulado da seguinte maneira:

(1) Toda a justificação ou é dedutiva ou não dedutiva (por exemplo, indutiva ou abdutiva).

(2) Por um lado, uma justificação dedutiva da dedução seria circular, dado que a validade da dedução é pressuposta na tentativa de mostrar que as deduções preservam a verdade (isto é, que as deduções são válidas!).

(3) Por outro lado, uma justificação não dedutiva da dedução é demasiado fraca, porque, na melhor das hipóteses, só mostraria que na maior parte dos casos, quando as premissas de um argumento dedutivamente válido são verdadeiras, então a conclusão também o é.

(4)Logo, a dedução não pode ser justificada.

Para uma perspectiva oposta à de Haack, ver Dummett aqui e, para ver a crítica de Haack a Dummett, ir aqui.

Será que é possível (ou necessário) justificar a dedução? Haverá algum problema análogo ao problema da indução? Será que há um problema da indução para começar?

E, o que pensam os leitores?