Um leitor amável deste
blog protestou por eu pôr
aqui na mesma categoria teorias como a homeopatia, por exemplo, e autores como Heidegger. A razão de ser do protesto é, presumivelmente, que esse leitor considera a homeopatia lixo, mas não considera o mesmo de autores como Heidegger. Ora, eu penso que há aqui duas confusões cruciais.
Em primeiro lugar, muita gente
não considera que a homeopatia seja lixo pseudocientífico; há quem pense isso, e eu penso isso, mas há quem não o pense. Um livro equilibrado sobre a homeopatia, entre outros temas das fronteiras da ciência, é
13 Things that Don’t Make Sense, de Michael Brooks, uma leitura que recomendo. Portanto, o leitor protestou precisamente por pensar que a homeopatia é
lixo intelectual — mas isso é certamente ofensivo para quem pensa que não é lixo intelectual, e para quem, como no Reino Unido, é médico homeopata reconhecido pelo estado e com consultório aberto. O que se esconde então nesta confusão do meu leitor? A incapacidade para compreender que o que ele mesmo considera lixo intelectual ou académico outras pessoas consideram que é trabalho intelectual e académico de grande valor. Esta incapacidade, por sua vez, é uma das consequências mais danosas do actual totalitarismo epistémico que é exercido nas universidades, com a protecção do estado. Não houvesse este totalitarismo e as pessoas teriam uma maior consciência da imensa diversidade epistémica humana, que faz algumas pessoas considerar de extremo valor intelectual o que outras consideram puro lixo, confusão e incompetência elementar.
Em segundo lugar, devia ser evidente que, porque os seres humanos são falíveis, seja quem for que pensa algo, talvez esteja errado. Assim, quando alguém pensa que algo é cognitivamente interessante, ou de extremo valor intelectual e académico, talvez esteja errado. E, claro, quando alguém pensa que isso é destituído de interesse cognitivo e sem valor intelectual nem académico, talvez esteja errado. A confusão do meu leitor é pensar que só porque várias pessoas discordam de mim quanto ao valor intelectual de algo, então eu estou errado quanto a isso — ou, pior, não tenho o direito de exprimir publicamente as minhas opiniões eventualmente erradas sobre tal coisa.
Estas duas confusões são o resultado do totalitarismo epistémico operado nas universidades. O problema do totalitarismo epistémico é dar uma aparência de infalibilidade aos juízos falíveis conjuntos dos académicos. Acontece que é verdade que, se estes juízos forem honestamente produzidos e discutidos num clima de completa abertura, há efectivamente maiores probabilidades de tais juízos acertarem na verdade, do que se forem juízos feitos à toa. Mas esta maior probabilidade não exclui a possibilidade do erro, e a história aí está para nos mostrar que praticamente nenhuma instituição — talvez à excepção da igreja católica — cometeu mais erros epistémicos crassos do que as universidades. As ideias de Descartes foram proibidas nas universidades do seu tempo, Hume nunca conseguiu ser professor universitário, e o trabalho académico, reconhecido pelos pares, feito por quem os expulsou está hoje esquecido -- e se fosse lido ficaríamos talvez espantados com a indigência intelectual (para usar o termo do meu leitor) aí manifestada.
Como expliquei no livro
A Ética da Crença, agentes cognitivos falíveis como nós precisam de estar continuamente a fazer controlos e ajustes: controlos, para ver se o que parece verdade é realmente verdade, e ajustes, para reajustar as nossas crenças face a novos dados relevantes. Acontece que os outros agentes cognitivos são uma parte crucial desses controlos e ajustes: se me parece ver o João ao longe, mas os meus três amigos me dizem que não é o João, eu desconfio de que vi mal, apesar de que talvez sejam eles que estejam errados. Passamos a vida a controlar e ajustar as nossas crenças, mesmo as mais banais, com as crenças de outros agentes cognitivos à nossa volta. Isto faz pleno sentido, porque desse modo baixamos a probabilidade de estarmos errados. Mas agora dá-se outro erro crucial: a tentação do unanimismo epistémico.
O unanimismo epistémico é para nós confortável porque nos poupa o trabalho de desconfiar que talvez as nossas crenças mais centrais e operativas — as que regulam as nossas escolhas no que respeita ao tempo investido no que investigamos, por exemplo — estejam erradas. Só que o unanimismo epistémico só é indício de maior probabilidade da verdade das nossas crenças se as ideias opostas e incómodas morreram de morte natural: porque as pessoas, livremente, abdicaram dessas crenças por as considerarem, com boas justificações, falsas. Portanto, há muitos casos em que o unanimismo epistémico, tal como a avaliação pelos pares, não nos faz acertar na verdade, mas antes persistir no erro.
Ora, o que o meu leitor quer é unanimismo epistémico quanto ao valor do que ele estuda. Acontece que isso não existe. Muitos filósofos pensam que Heidegger é um filósofo incompetente; e este género de juízos é normal entre filósofos — na verdade, o próprio Heidegger pensa que quase todos os filósofos depois de Parménides se esqueceram do ser, o que denota pelo menos uma certa incompetência da parte deles. E são conhecidas as invectivas pouco simpáticas de Nietzsche contra Platão. O filósofo Leo Strauss é posto em causa por muitos académicos, como se pode ler na
recensão de Kenneth B. McIntyre ao livro
Leo Strauss and the Conservative Movement in America, de Paul Gottfried. O filósofo vienense Paul Edwards, dificilmente um filósofo fechado e sem conhecimentos abrangentes da filosofia — uma vez que organizou a excelente
Encyclopedia of Philosophy, que abrange todas as áreas da filosofia —explica no livro
Heidegger’s Confusions por que razão este pensador era vítima de confusões sistemáticas.
A ânsia de unanimismo epistémico compreende-se, mas não é saudável. Compreende-se que uma pessoa não queira perguntar-se se o que está estudando é realmente um autor interessante, ou se será antes uma vítima de confusões intelectuais constantes, sendo o nosso investimento no seu estudo algo desavisado. Mas a reacção adequada a isso é fazer um trabalho intelectual honesto. Quando estudamos um autor, quer ele se revele intelectualmente desinteressante quer não, se o nosso trabalho for feito de acordo com os mais exigentes padrões de objectividade, clareza, confronto de ideias, discussão de argumentos e alternativas teóricas, nunca estaremos perdendo tempo. O livro
Thinking the Impossible: French Philosophy Since 1960, de Gary Gutting, parece-me interessante do que já li dele, e não é um trabalho em vão – ainda que a conclusão seja que os filósofos estudados estão mergulhados em confusão, como defende Edwards relativamente a Heidegger.
Acontece que a julgar pelas
teses publicadas na Crítica, a maior do trabalho académico sobre estes autores não se orienta por padrões exigentes de objectividade, clareza, confronto de ideias, discussão de alternativas teóricas e um domínio sólido dos conceitos e ideias relevantes. Pelo contrário, pouco mais são do que jogos de palavras intelectualmente pouco promissores, para não dizer indigentes. Todavia, as pessoas têm o direito de encarar a filosofia dessa maneira; não vejo problema algum nisso. Se o interesse que têm num dado autor ou tema é primariamente cognitivo ou se, pelo contrário, é sobretudo existencial e espiritual, isso só a elas diz respeito. O que defendo é que o unanimismo académico transforma trabalhos que poderiam ser explicitamente bíblicos e panfletários em coisas que imitam o género de rigor, objectividade, clareza e confronto de ideias que as pessoas de algum modo interiorizaram que é obrigatório nos trabalhos académicos. Mas entre fingir superficialmente que se faz um trabalho desse género, e ser honesto e rejeitar tais padrões, eu voto pela liberdade e portanto pela segunda alternativa: cada qual que escreva como bem lhe aprouver e faça o que quiser. A situação actual é, em qualquer caso, medonha: pessoas que têm exactamente as mesmas qualificações académicas que outras, ou até mais, são contudo totalmente incompetentes naquilo que as segundas são competentes, mas não há quaisquer competências que as primeiras tenham que as segundas não tenham. De maneira que era melhor acabar com a mentira e admitir, como famosamente afirmou Feyerabend noutro contexto, que
tudo vale.